{"id":182,"date":"2015-01-29T14:03:19","date_gmt":"2015-01-29T14:03:19","guid":{"rendered":"https:\/\/princesajoanadeportugal.wordpress.com\/?p=182"},"modified":"2015-01-29T14:03:19","modified_gmt":"2015-01-29T14:03:19","slug":"carta-de-santa-joana-aos-jovens-por-d-manuel-de-almeida-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/2015\/01\/29\/carta-de-santa-joana-aos-jovens-por-d-manuel-de-almeida-trindade\/","title":{"rendered":"CARTA DE SANTA JOANA AOS JOVENS | por D. Manuel de Almeida Trindade"},"content":{"rendered":"<p>Queridos mo\u00e7os e mo\u00e7as:<\/p>\n<p>Sou filha de Reis. Nem por isso fui mais feliz do que a maior parte de v\u00f3s. Minha M\u00e3e morreu quando eu n\u00e3o tinha ainda quatro anos. Sei o que \u00e9 a dor e a saudade de n\u00e3o ter m\u00e3e.<\/p>\n<p>Antes de morrer, minha M\u00e3e deu-me um irm\u00e3ozinho. Chamava-se Jo\u00e3o. \u00c9ramos amigos, &#8211; \u00e9 certo &#8211; mas de temperamento muito semelhante. Minha preceptora, D. Beatriz de Meneses, dizia que \u00e9ramos os dois muito teimosos. Quando \u00e9 que a teimosia deixa de ser teimosia para ser apenas const\u00e2ncia e firmeza de car\u00e1cter?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_133b.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" size-medium wp-image-145 alignright\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_133b.jpg?w=222\" alt=\"Patrim10_133B\" width=\"222\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_133b.jpg 509w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_133b-222x300.jpg 222w\" sizes=\"(max-width: 222px) 100vw, 222px\" \/><\/a><\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o conheci D. Pedro, meu av\u00f4 materno. Morreu em Alfarrobeira. Aquele recontro &#8211; que devia ter sido um encontro &#8211; entre meu pai e meu av\u00f4, amargou para sempre a vida de meu pai, que era seu sobrinho. Dizem que a partir de ent\u00e3o se tornou diferente. Eu vivi no rescaldo essa contenda. Vi aquilo de que os homens s\u00e3o capazes quando, em vez de se amarem, se odeiam. Passei a conhecer melhor os homens e as mulheres, as coisas grandes e belas, mas tamb\u00e9m as coisas mesquinhas de que s\u00e3o capazes. Isso me ajudou a amadurecer mais depressa. N\u00e3o h\u00e1 nada como o sofrimento e a responsabilidade para fazer amadurecer as pessoas.<\/p>\n<p>Nem todos aqueles que me rodeavam no pa\u00e7o da Rainha, onde vivia confiada \u00e0 vigil\u00e2ncia e ao carinho da fidalga e virtuosa D. Beatriz, eram modelos de vida santa e honesta. As damas da corte de uma princesa n\u00e3o s\u00e3o todas como os anjos da corte celestial. H\u00e1 as pessoas que passam a vida a ver-se ao espelho, a espreitar por detr\u00e1s das cortinas o namorao que n\u00e3o chega ou tarda em chegar, as que tecem intrigas umas com as outras, exactamente como as meninas que v\u00f3s pr\u00f3prios conheceis.<\/p>\n<p>Fez-me Deus a merc\u00ea de, muito cedo, me dar conta de que a vida tem um sentido. Quando li no Sagrado Evangelho a palavra de Jesus: \u00ab O Reino dos c\u00e9us \u00e9 semelhante a uma p\u00e9rola de elevao pre\u00e7o que um homem encontrou. Depois de a ter encontrao, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou aquela p\u00e9rola\u00bb, &#8211; quando li estas palavras, pensei que elas eram ditas para mim. Pouco a pouco uma certeza se foi firmando em meu cora\u00e7\u00e3o: eu quero alcan\u00e7ar esta p\u00e9rola.<\/p>\n<p>S\u00f3 o tempo me foi revelando o que estava escrito por detr\u00e1s desta par\u00e1bola.<\/p>\n<p>Havia no pa\u00e7o um orat\u00f3rio. Um orat\u00f3rio que era meu, onde eu podia recolher-me sem a presen\u00e7a de aias ou de outras testemunhas. A\u00ed, nesse recolhimento, eu passava horas a pensar. Pensava no amor que Deus nos tem. Amor t\u00e3o grande que mandou o Seu Filho \u00fanico ao mundo para nos salvar. Comecei ent\u00e3o, a ler os Sagrados Evangelhos, do princ\u00edpio ao fim. Dizem eles que, al\u00e9m dos Ap\u00f3stolos, havia tamb\u00e9m mulheres que seguiam Jesus de perto. Entrou em mim o desejo de ser do grupo dessas mulheres.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_132b.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" size-medium wp-image-141 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_132b.jpg?w=220\" alt=\"Patrim10_132B\" width=\"220\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_132b.jpg 606w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_132b-220x300.jpg 220w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><\/a>A ter de decidir-me por esta imita\u00e7\u00e3o de Cristo, eu desejava que fosse de uma maneira radical. Teimosa como era, n\u00e3o estava no meu feitio deter-me a meio caminho.<\/p>\n<p>Ficai sabendo que as filhas dos reis t\u00eam menos liberdade do que as filhas dos alde\u00e3os. Para ir ao Pa\u00e7o do Rossio, era preciso movimentar meio mundo. Impens\u00e1vel sair sozinha. Como eu, \u00e0s vezes, tenho inveja de v\u00f3s! Apetecia-me descer \u00e0 Ribeira, passar a tarde com uma velhinha, arrumar-lhe a casa, pente\u00e1-la, ler-lhe uma passagem da B\u00edblia. Mas coisas dessas n\u00e3o me eram permitidas. \u00c9 terr\u00edvel ser-se filha de rei. Acreditai-me: \u00e9 uma esp\u00e9cie de escravatura doirada.<\/p>\n<p>Quem me dera ser livre, para n\u00e3o passar as noites numa boite ou tomar parte nesses concursos snob &#8211; snob, sim, pois n\u00e3o t\u00eam nobreza alguma &#8211; de \u00abmisses\u00bb que voc\u00eas (ou algu\u00e9m por voc\u00eas, pobres raparigas!) agora inventaram, mas para realizar um belo ieal de dedica\u00e7\u00e3o pelos outros, como fizeram parentes minhas (D. Isabel de Portugal, por exemplo) ou tantas que passaram a vida a fazer o bem e s\u00f3 no Cora\u00e7\u00e3o de Deus deixaram escrito o seu nome!<\/p>\n<p>Um dia decidi-me. N\u00e3o esque\u00e7ais que sou mulher: tenho a ast\u00facia das filhas de Eva. Meu pai regressava de Arzila, da guerra contra os mouros. Regressava vitorioso. Vesti o meu vestido de veludo verde. O verde \u00e9 a cor da esperan\u00e7a. Adornei-me com as minhas j\u00f3ias. Diziam que ia bonita. Quando meu pai desceu em terra, dirigi-me a ele para o saudar. Era a mim que competia faz\u00ea-lo, dada a minha condi\u00e7\u00e3o. Pus em jogo todos os recursos human\u00edsticos que os meus mestres me haviam ensinado.<\/p>\n<p>Recordo-me e que o meu discurso terminada assim: Quando os antigos imperadores regressavam vitoriosos de alguma campanha b\u00e9lica, para mostrar a sua gratid\u00e3o aos deuses, ofereciam-lhes o melhor que tinham, dando para o seu servi\u00e7o a filha mais prendada. Vossa Majestade &#8211; que \u00e9 crist\u00e3o &#8211; n\u00e3o ser\u00e1 menos generoso para com o Deus verdadeiro do que os pag\u00e3os o eram para com os seus \u00eddolos. Pe\u00e7o-lhe que me permita fazer a profiss\u00e3o e vida religiosa onde Deus for servido chamar-me.<\/p>\n<p>Senti que uma nuvem de tristeza perpassou pelo semblante de meu pai. Meu irm\u00e3o e os outros nobres que o acompanhavam n\u00e3o esconderam a sua reprova\u00e7\u00e3o, olhando uns para os outros e vozeando. Fiz de conta que n\u00e3o percebi. O que interessava era que meu pai dissesse que sim. E meu pai disse que sim.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabeis, queridos mo\u00e7os e mo\u00e7as, quantas barreiras foi preciso vencer para seguir a minha estrela. At\u00e9 os representantes do povo fizeram sua a quest\u00e3o: que eu n\u00e3o tinha direito de dispor de mim mesma, que havia raz\u00f5es de Estado que se sobrepunham \u00e0 minha pr\u00f3pria vontade. &#8230;<\/p>\n<p>Consegui sair (sempre debaixo de escolta!), para o convento cisterciense de Odivelas, nos arrabaldes de Lisboa. Pois mesmo ali vieram, acompanhados de testemunhas e not\u00e1rios, os procuradores do povo, tentando impedir, primeiro com promessas e depois com amea\u00e7as, que eu seguisse o meu caminho.<\/p>\n<p>Mas estava decidido. Havia uma for\u00e7a interior que me impelia. N\u00e3o era o mundo que eu estestava. Longe disso. Era o amor de Jesus Cristo que me chamava a segui-lO, onde mais e eprto O pudesse imitar e servir.<\/p>\n<p>De Odivelas consegui chegar a Coimbra. N\u00e3o imaginais o que foi essa viagem no pino do Ver\u00e3o de 1472. A minha comitiva, da qual fazia parte o meu pr\u00f3prio pai, insistia em que eu ficasse em Coimbra, no mosteiro onde tinha vivido a Rainha Santa, D. Isabel de Portugal. Era um convento grande &#8211; diziam &#8211; \u00e0 beira de uma bela cidade. N\u00e3o me faltariam ali visitas, conforto e amizade. Mas eu n\u00e3o tinha sa\u00eddo de casa para isso.<\/p>\n<div id=\"attachment_132\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_129a.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-132\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-132\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_129a.jpg?w=300\" alt=\"Igreja de Santo Ant\u00f3nio dos Portugueses, Roma. Capela-mor, pormenor do lado da Ep\u00edstola. \u00d3leo s\/ tela. Michelangelo Cerruti - c. 1722\" width=\"300\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_129a.jpg 978w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_129a-300x207.jpg 300w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_129a-768x529.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/patrim10_129a-780x538.jpg 780w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-132\" class=\"wp-caption-text\">Igreja de Santo Ant\u00f3nio dos Portugueses, Roma. Capela-mor, pormenor do lado da Ep\u00edstola. \u00d3leo s\/ tela. Michelangelo Cerruti &#8211; c. 1722<\/p><\/div>\n<p>O meu desejo e a minha meta era o mosteiro de Jesus de Aveiro &#8211; n\u00e3o o mosteiro engrandecido que v\u00f3s agora conheceis, mas a casa pobre e humilde fundade por D. Brites Leitoa, longe do bul\u00edcio do mundo. Eu estava informada de que em Aveiro, a minha pequena Lisboa, podia encontrar a humildade e a pobreza.<\/p>\n<p>Houve relut\u00e2ncia \u00e0 minha volta. Senti-me combater sozinha. Foi preciso impor-me. Mas vale a pena ser teimosa, quero dizer, ser constante e ter firmeza. S\u00f3 quando a firmeza se alia com a verdade \u00e9 que a teimosia \u00e9 virtude. Foi em Aveiro que realizei o meu sonho&#8230;<\/p>\n<p><em>Infanta Joana<\/em><\/p>\n<p><strong>[Homilia proferida por D. Manuel de Almeida Trindade, Bispo de AVeiro, em 12 de Maio de 1979]<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia no pa\u00e7o um orat\u00f3rio. Um orat\u00f3rio que era meu, onde eu podia recolher-me sem a presen\u00e7a de aias ou de outras testemunhas. A\u00ed, nesse recolhimento, eu passava horas a pensar. Pensava no amor que Deus nos tem. Amor t\u00e3o grande que mandou o Seu Filho \u00fanico ao mundo para nos salvar. Comecei ent\u00e3o, a ler os Sagrados Evangelhos, do princ\u00edpio ao fim. Dizem eles que, al\u00e9m dos Ap\u00f3stolos, havia tamb\u00e9m mulheres que seguiam Jesus de perto. 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