{"id":178,"date":"2015-01-22T10:25:31","date_gmt":"2015-01-22T10:25:31","guid":{"rendered":"https:\/\/princesajoanadeportugal.wordpress.com\/?p=178"},"modified":"2015-01-22T10:25:31","modified_gmt":"2015-01-22T10:25:31","slug":"loa-da-princesa-santa-sextilhas-de-santo-antao-em-goncalves-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/2015\/01\/22\/loa-da-princesa-santa-sextilhas-de-santo-antao-em-goncalves-dias\/","title":{"rendered":"LOA DA PRINCESA SANTA | Sextilhas de Santo Ant\u00e3o, em Gon\u00e7alves Dias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:left;\">DIAS, Gon\u00e7alves &#8211;\u00a0<em>Sextilhas de Frei Ant\u00e3o<\/em>. <em>Poesia e prosa completas<\/em>,\u00a0Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1998, 297-366.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>LOA DA PRINCESA SANTA<\/strong><\/p>\n<p>Bom tempo foi o d\u2019outrora<br \/>\nQuando o reino era crist\u00e3o<br \/>\nQuando nas guerras de mouros [ 1 ]<br \/>\nEra o rei nosso pend\u00e3o,<br \/>\nQuando as donas consumiam<br \/>\nSeus teres em deva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dava o rei uma batalha<br \/>\nDeus lhe acudia do c\u00e9u;<br \/>\nQuantas terras que ganhava, [ 2 ]<br \/>\nDava o Senhor que lhas deu,<br \/>\nE s\u00f3 em fazer mosteiros<br \/>\nGastava muito do seu.<\/p>\n<p>Se havia muitos Ifantes<br \/>\nTorneio n\u00e3o se fazia;<br \/>\n\u00c9 esse o estilo de Frandres, [ 3 ]<br \/>\nOnde anda muita heregia:<br \/>\nPara os armar cavaleiros<br \/>\nA armada se apercebia.<\/p>\n<p>Chamava el-rei seus vassalos<br \/>\nE em cortes logo os reunia:<br \/>\nVinha o povo atencioso, [ 4 ]<br \/>\nVinha muita cleregia,<br \/>\nVinha a nobreza do reino,<br \/>\nGente de muita valia.<\/p>\n<p>Quando o rei tinha-los juntos<br \/>\nCome\u00e7ava a discursar:<br \/>\n\u201cOs Ifantes j\u00e1 s\u00e3o homens,<br \/>\nVou-me \u00e0s terras de al\u00e9m-mar [ 5 ]<br \/>\nArm\u00e1-los l\u00e1 cavaleiros;<br \/>\nDeus Senhor m&#8217; h\u00e1 de ajudar.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o conclu\u00eda o pujante rei<br \/>\nRei \u2013 de assi lhes propor,<br \/>\nClamavam todos em grita [ 6 ]<br \/>\nCom vozes de muito ardor:<br \/>\n\u201cSeremos nessa folgan\u00e7a,<br \/>\nHonra de nosso Senhor!\u201d<\/p>\n<p>E logo todos em sembra,<br \/>\nTodos gente mui de bem,<br \/>\nNa armada se agazalhavam, [ 7 ]<br \/>\nSem se pesar de ningu\u00e9m;<br \/>\nE os Padres de Sam Domingos<br \/>\nIam com eles tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Iam, si, os bentos Padres:<br \/>\nE que assim fosse, \u00e9 rez\u00e3o,<br \/>\nQue o santo em guerras d\u2019Igreja [ 8 ]<br \/>\nFoi um bom santo crist\u00e3o:<br \/>\nQueimou a muitos hereges<br \/>\nNo fogo da expia\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Quando depois se tornava<br \/>\nToda a frota p\u00eara c\u00e1,<br \/>\nPrimeiro se perguntava, [ 9 ]<br \/>\n\u201cQue terra temos por l\u00e1?\u201d<br \/>\nQuem em Deus tanto confia,<br \/>\nSempre Deus por si ter\u00e1.<\/p>\n<p>El-rei tornava benino,<br \/>\nComo coisa natural:<br \/>\n\u201cTemos Ceuta, Arzila ou T\u00e2ngere, [10]<br \/>\nConquistas de Portugal!\u201d<br \/>\nE todos, a voz em grita,<br \/>\nClamavam : real! real!<\/p>\n<p>Bom tempo foi o d\u2019outrora<br \/>\nQuando o reino era crist\u00e3o;<br \/>\nOs mo\u00e7os dav\u00e3o-se \u00e0 guerra, [11]<br \/>\nAs mo\u00e7as \u00e0 deva\u00e7\u00e3o:<br \/>\nAquela terra de mouros<br \/>\nVivia em muita afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deu-nos Deus tantas vit\u00f3rias,<br \/>\nE tanto p\u00eara louvar,<br \/>\nQue os padres de Sam Domingos [12]<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o sabiam rezar;<br \/>\nTodo-lo tempo era pouco<br \/>\nP\u00eara louvores cantar!<\/p>\n<p>Sendo tantas as batalhas,<br \/>\nNem recontro se perdeu!<br \/>\nAqueles Padres coitados [13]<br \/>\nN\u00e3o tinham tempo de seu:<br \/>\nLevavam todo cantando<br \/>\nLouvores ao pai do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Louvores ao pai do c\u00e9u,<br \/>\nQue eu inda possa trovar,<br \/>\nQuando n\u00e3o vejo nos mares [14]<br \/>\nNossas quinas tremolar;<br \/>\nMas somente o templo mudo,<br \/>\nSem guarnimentos o altar!<\/p>\n<p>Vejo os sinos apeados<br \/>\nDos campan\u00e1rios subtis,<br \/>\nE a prata das sacristias, [15]<br \/>\nServidas em misteres vis,<br \/>\nE ante os le\u00f5es de Castela<br \/>\nDobrada a Lusa cerviz!<\/p>\n<p>Cant\u2019eu, em bem que sou Padre,<br \/>\nDigo que sou Portugu\u00eas:<br \/>\nAr\u00e7o de ver nossas coisas [16]<br \/>\nIrem todas ao rev\u00e9s,<br \/>\nAr\u00e7o de ver nossa gente<br \/>\nAndar conosco ao env\u00e9s<\/p>\n<p>Merc\u00ea de Deus! Minha vida<br \/>\n\u00c9 vida de muito dura!<br \/>\nVivo esquecido dos vivos [17]<br \/>\nNa terra da desventura;<br \/>\nVivo escrevendo e penando<br \/>\nNum canto de cela escura.<\/p>\n<p>Do meu velho brevi\u00e1rio<br \/>\nS\u00f3 deixarei a leitura<br \/>\nPara escrever estes carmes, [18]<br \/>\nRem\u00e9dio \u00e0 nossa amargura;<br \/>\nO corpo tenho alquebrado,<br \/>\nVive minha alma em tristura.<\/p>\n<p>Que armada de tantas velas,<br \/>\nQue armada \u00e9 essa qu\u2019 i vem?<br \/>\nVem subindo Tejo acima, [19]<br \/>\nQue fermosura que tem!<br \/>\nNas praias se apinha o povo,<br \/>\nE as cobre todas por\u00e9m.<\/p>\n<p>D\u00e3o sinais as fortalezas,<br \/>\nRespondem sinais de l\u00e1:<br \/>\nVem el-rei vitorioso [20]<br \/>\nQuem de g\u00e1udio se ter\u00e1?<br \/>\nO mar \u00e9 todo bonan\u00e7a,<br \/>\nO c\u00e9u muito sereno est\u00e1!<\/p>\n<p>Oco bronze fumo e fogo<br \/>\nJ\u00e1 come\u00e7a a despejar;<br \/>\nAcordam alegres ecos [21]<br \/>\nOs sinos a repicar;<br \/>\nGrita e folgan\u00e7a na terra,<br \/>\nCeleuma e grita no mar!<\/p>\n<p>Vinde embora muito depressa,<br \/>\nSenhores da capital!<br \/>\nVinde ver Afonso quinto, [22]<br \/>\nRei, senhor de Portugal;<br \/>\nVem das terras africanas<br \/>\nDar-vos festan\u00e7a real.<\/p>\n<p>Nossos reis foram outrora<br \/>\nFragueiros de condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nDormiam quase vestidos, [23]<br \/>\nEspada nua na m\u00e3o;<br \/>\nNem repoisavam de noite<br \/>\nSem fazer sua ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Empresa n\u00e3o cometiam<br \/>\nSem primeiro comungar<br \/>\nSem fazer voto a algum santo [24]<br \/>\nDe ten\u00e7\u00e3o particular;<br \/>\nPor\u00e9m vit\u00f3rias houveram,<br \/>\nQue s\u00e3o muito de espantar!<\/p>\n<p>Os vindouros esquecidos<br \/>\nDa ben\u00e7\u00e3o divinal,<br \/>\nConheceram os poderes [25]<br \/>\nDa b\u00ean\u00e7\u00e3o celestial,<br \/>\nSe contarem os mosteiros<br \/>\nDas Terras de Portugal!<\/p>\n<p>Nossas capelas que temos,<br \/>\nNossos mosteiros custosos,<br \/>\nS\u00e3o obras santas de Santos, [26]<br \/>\nObras de rei mui piedosos;<br \/>\nS\u00e3o brados de pedra viva,<br \/>\nQue pregam feitos briosos.<\/p>\n<p>Alguns j\u00e1 agora escarnecem<br \/>\nDos templos edificados;<br \/>\nDizem que foram mal gastos [27]<br \/>\nOs bens com eles gastados:<br \/>\nEu creio (Deus me perdoe)<br \/>\nQue s\u00e3o incr\u00e9us disfar\u00e7ados!<\/p>\n<p>E mais prasmam dos feitios<br \/>\nDe pedra, que M\u00eanfis tem,<br \/>\nSem ter olhos para Mafra, [28]<br \/>\nPera Batalha ou Bel\u00e9m!<br \/>\nOh! Se a estes conheceras,<br \/>\nMeu frei Gil de Santar\u00e9m!<\/p>\n<p>Naquela vila deserta<br \/>\nAinda se me afigura<br \/>\nVer elevar-se nas sombras [29]<br \/>\nTua v\u00e1lida estatura,<br \/>\nE ouvir a voz que intimava<br \/>\nAo rei a senten\u00e7a dura!<\/p>\n<p>E mais a tacha que tinha<br \/>\nEra ser fraco, e n\u00e3o mais!<br \/>\nTu, meu Santo, que fizeras, [30]<br \/>\nSe ouviras a estes tais,<br \/>\nQue nos assacam motejos<br \/>\n\u00c0s nossas obras reais!<\/p>\n<p>Mas v\u00f3s, quem quer qu\u2019isto lerdes,<br \/>\nRelevai-me esta tardan\u00e7a;<br \/>\nS\u00e3o achaques da velhice: [31]<br \/>\nVivemos de remembran\u00e7a<br \/>\nE em longas falas fazemos<br \/>\nDe tudo comemoran\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 el-rei Affonso quinto<br \/>\nNas sua terras pojou:<br \/>\nAlegre o povo o recebe, [32]<br \/>\nAlegre el-rei se mostrou;<br \/>\nAbrio-se em alas vistosas,<br \/>\nEl-rei entre elas passou.<\/p>\n<p>V\u00eam os m\u00fasicos troando<br \/>\nNos atabales guerreiros,<br \/>\nTangem outros intromentos [33]<br \/>\nDesses climas forasteiros,<br \/>\nE tr\u00e1s ele v\u00eam marchando,<br \/>\nPasso a passo, os prisioneiros.<\/p>\n<p>S\u00e3o eles mouros gigantes<br \/>\nDe bigodes retorcidos,<br \/>\nCaminham a passos lentos, [34]<br \/>\nCom sembrantes atrevidos.<br \/>\nCausa medo v\u00ea-los tantos,<br \/>\nTam membrudos, tam crescidos!<\/p>\n<p>S\u00e3o homens de fero aspeito,<br \/>\nHomens de m\u00e1 condi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nQue vivem na lei nojenta [35]<br \/>\nDo seu nojento alcor\u00e3o,<br \/>\nQue \u2013 vinho? Nem querem v\u00ea-lo,<br \/>\nS\u00f3 por que o bebe um crist\u00e3o!<\/p>\n<p>V\u00eam as moiras depois deles,<br \/>\nRostos cobertos com v\u00e9us;<br \/>\nBem que filhas d\u201dAgarenos, [36]<br \/>\nS\u00e3o tamb\u00e9m filhas de Deus;<br \/>\nSe foram crist\u00e3s ou freiras,<br \/>\nSeriam anjos dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>Luziam os olhos delas,<br \/>\nComo pedras muito finas;<br \/>\nDeviam ser finas bruxas, [37]<br \/>\nInda qu\u2019eram bem meninas,<br \/>\nQue essas moiras da mourama<br \/>\nNascem j\u00e1 bruxas cadinas!<\/p>\n<p>Uma delas que l\u00e1 vinha<br \/>\nOlhou-me \u00e0 trav\u00e9s do v\u00e9u!&#8230;<br \/>\nFoi aquilo obra do demo, [38]<br \/>\nQuase, quase me rendeu!<br \/>\nPensei nela muitas vezes,<br \/>\nValeram-me anjos do c\u00e9u!<\/p>\n<p>Vi as largas pantalonas,<br \/>\nE o pezinho delicado&#8230;<br \/>\nComo pode pensar nisto [39]<br \/>\nUm pobre frade cansado,<br \/>\nUm padre da Observ\u00e2ncia,<br \/>\nQue sempre come pescado?!<\/p>\n<p>Enfim, dizer quanto vimos<br \/>\nN\u00e3o cabe neste papel;<br \/>\nVinham muitas alim\u00e1rias, [40]<br \/>\nComo achadas a granel;<br \/>\nVinha o ifante brioso,<br \/>\nMontado no seu corcel.<\/p>\n<p>Vinham pajens e varletes,<br \/>\nVinham muitos escudeiros,<br \/>\nVinham do sol abrasados [41]<br \/>\nNossos robustos guerreiros;<br \/>\nVinha muita e boa gente,<br \/>\nMuitos e bons cavaleiros!<\/p>\n<p>A Princesa Dona Joana<br \/>\nSaiu dos Pa\u00e7os reais;<br \/>\nEra mo\u00e7a, e muito airosa, [42]<br \/>\nE dona de partes tais,<br \/>\nQue todos lhe qu\u2019riam muito.<br \/>\nEstranhos e naturais!<\/p>\n<p>Foi requerida de muitos<br \/>\nE muito grandes senhores,<br \/>\nPor fama que dela tinham, [43]<br \/>\nE por c\u00f3pia de pintores,<br \/>\nQue muitos vinham de fora<br \/>\nAo cheiro de seus louvores.<\/p>\n<p>E diz-se dum rei de Fran\u00e7a,<br \/>\nLudovico, creio eu:<br \/>\nUm pobre frade mesquinho [44]<br \/>\nS\u00f3 trata em coisas do c\u00e9u;<br \/>\nSabe ele que muito sabe,<br \/>\nSe a bem morrer aprendeu.<\/p>\n<p>Pois diz-se do rei de Fran\u00e7a,<br \/>\nO onzeno do nome seu,<br \/>\nQue vendo um retrato destes [45]<br \/>\nP\u00eara si logo entendeu,<br \/>\nQu\u2019era prod\u00edgio na terra<br \/>\nQuem tanto tinha de c\u00e9u.<\/p>\n<p>E logo sem mais tardan\u00e7a<br \/>\nCaiu, giolhos no ch\u00e3o,<br \/>\nNo feltro traz arrel\u00edquias, [46]<br \/>\nAssi usa um rei crist\u00e3o;<br \/>\nO seu feltro p\u00f4s diante,<br \/>\nE fez sua ora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Saiu a real Princesa,<br \/>\nSaiu dos Pa\u00e7os reais<br \/>\nNos pulsos ricas pulseiras, [47]<br \/>\nNa fronte finos ramais;<br \/>\nDe longe seguem-lhe a trilha<br \/>\nMuitos bons homens segrais.<\/p>\n<p>Tra\u00e7ava um mant\u00e9u vistoso<br \/>\nS\u00f4bolas suas espaldas,<br \/>\nE as largas roupas na cinta [48]<br \/>\nPrendia em muitas la\u00e7adas;<br \/>\nSeus olhos valiam tanto<br \/>\nComo duas esmeraldas.<\/p>\n<p>Tinha elevada estatura<br \/>\nE meneio concertado,<br \/>\nSolto o cabelo em madeixas, [49]<br \/>\nPelas costas debru\u00e7ado:<br \/>\nCadeixo de fios d\u2019oiro,<br \/>\nFranjas de templo sagrado.<\/p>\n<p>Vinha assi a r\u00e9gia Dona,<br \/>\nVinha muito para ver:<br \/>\nO povo em si n\u00e3o cabia, [50]<br \/>\nQuando a via, de prazer;<br \/>\nEra ela santa \u00e0s ocultas<br \/>\nE anjo no parecer!<\/p>\n<p>Debaixo das telas finas<br \/>\nE dos brocados luzidos,<br \/>\nTrazia \u00e0 raiz das carnes [51]<br \/>\nDuros cil\u00edcio cosidos<br \/>\nE umas crinas mui agras,<br \/>\nTudo extremos mui subidos.<\/p>\n<p>Passava noites inteiras<br \/>\nNo orat\u00f3rio a rezar,<br \/>\nDormia despois na pedra [52]<br \/>\nSem ningu\u00e9m o suspeitar:<br \/>\nExtremos tais em princesa<br \/>\nQuem nos h\u00e1 de acreditar?<\/p>\n<p>No dia de lava-p\u00e9s<br \/>\nOrdenava seu Vedor<br \/>\nTrazer-lhe doze mulheres; [53]<br \/>\nE depois, com muita dor,<br \/>\nChorando os p\u00e9s lhes lavava,<br \/>\nHonra de nosso Senhor!<\/p>\n<p>E depois de os ter lavado,<br \/>\nN\u00e3o perdia a ocasi\u00e3o,<br \/>\nDespedia a todas juntas [54]<br \/>\nCom sua esmola na m\u00e3o:<br \/>\nDizia que era humildade<br \/>\nE obra de deva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E as mendigas prasmadas<br \/>\nSabiam de tal saber,<br \/>\nE perguntavam, quem era [55]<br \/>\nAquela santa mulher?!<br \/>\nMaus pecados que ela tinha<br \/>\nS\u00f3 p\u00eara assi proceder!<\/p>\n<p>O mesmo Vedor foi quem<br \/>\nIsto despois revelou,<br \/>\nQuando aquela humanidade [56]<br \/>\nE o Senhor descansou;<br \/>\nDona Joana era j\u00e1 morta,<br \/>\nEle por\u00e9m mo contou.<\/p>\n<p>Mas sendo tanto o resguardo<br \/>\nQue guardava em coisas tais,<br \/>\nSabiam algo os estranhos [57]<br \/>\nPor muitos certos sinais,<br \/>\nQue o ar \u00e9 todo perfume,<br \/>\nSe a terra \u00e9 toda rosais.<\/p>\n<p>\u00c9 coisa de maravilha<br \/>\nQue me faz cismar a mi,<br \/>\nQue as donas d\u2019hoje pare\u00e7am [58]<br \/>\nUns camafeus d\u2019 alfini,<br \/>\nNas donas de carne e osso;<br \/>\nAs donas de outrora \u2013 si.<\/p>\n<p>Hoje leigos de nonada<br \/>\n(\u00c9-lhes o demo caudel)<br \/>\nPraguejam a mesa escassa [59]<br \/>\nE as arestas do burel;<br \/>\nQuerem mimos e regalos,<br \/>\nE jejuns a leite e mel.<\/p>\n<p>L\u00e1 caminha Dona Joana,<br \/>\nRegente de Portugal;<br \/>\nTr\u00e1s sobre si muitas j\u00f3ias [60]<br \/>\nDo tesouro paternal;<br \/>\nDeus lhe p\u00f4s gra\u00e7a divina<br \/>\nSobre a gra\u00e7a natural.<\/p>\n<p>Acostou-se a comitiva,<br \/>\nMuito senhora de si:<br \/>\nPerante el-rei se agiolha, [61]<br \/>\nDisse-lhe el-rei: n\u00e3o assi!<br \/>\nE ao peito a cinge dizendo:<br \/>\nN\u00e3o a meus p\u00e9s, mas aqui!<\/p>\n<p>\u201cSois um bom pai, Senhor rei.<br \/>\nTornou-lhe a santa Princesa:<br \/>\nEu que sou vassala vossa [62]<br \/>\nE filha por natureza,<br \/>\nPe\u00e7o merc\u00ea como aquela,<br \/>\nComo esta pe\u00e7o fineza.\u201d<\/p>\n<p>Ficaram logo suspensos,<br \/>\nTodolos os que eram ali,<br \/>\nFicaram como enleiados, [63]<br \/>\nEnleio tal nunca vi!<br \/>\nEis que a Princesa medrosa<br \/>\nCome\u00e7a a propor assi.<\/p>\n<p>El-rei n\u00e3o lhe respondera;<br \/>\nQue lhe havia responder?<br \/>\nBoa filha Deus lhe dera. [64]<br \/>\nQue lhe havia defender?<br \/>\nSorriu-se, o bom rei quisera<br \/>\nMuito por ela fazer.<\/p>\n<p>A Princesa disse entonces:<br \/>\n\u201cDe alguns capit\u00e3es antigos<br \/>\nTenho lido, Senhor rei, [65]<br \/>\nQue, vencidos os imigos,<br \/>\nTornavam, a Deus fazendo<br \/>\nSacrif\u00edcios mui subidos.<\/p>\n<p>\u201cViam as coisas melhores<br \/>\nQue dos seus reinos haviam,<br \/>\nE logo lhas ofertavam; [66]<br \/>\nE merc\u00eas tamb\u00e9m faziam,<br \/>\nNo dia de seu triunfo<br \/>\nA los que justas pediam.<\/p>\n<p>\u201cDeslembrar a usan\u00e7a antiga<br \/>\nFora de grande estranheza;<br \/>\nAgora sobre maneira, [67]<br \/>\nPerfeita tamanha empresa,<br \/>\nDe tanto lustre aos do reino,<br \/>\nDe tal honra a vossa Alteza.<\/p>\n<p>\u201cDigo pois a vossa Alteza,<br \/>\nE digo com muita f\u00e9,<br \/>\nDeve a oferta ser tamanha [68]<br \/>\nQuamanha foi a merc\u00ea,<br \/>\nN\u00e3o do nobre rei pujante,<br \/>\nMas do santo rei qual \u00e9.<\/p>\n<p>\u201cA oferta que v\u00f3s fizerdes,<br \/>\nSer\u00e1 merc\u00ea paternal:<br \/>\nSe quereis que corresponda [69]<br \/>\nAo favor celestial,<br \/>\nDeve ser coisa mui alta,<br \/>\nDeve ser coisa real.<\/p>\n<p>\u201cAo Deus que vence as batalhas<br \/>\nDai-lhe a filha muito amada;<br \/>\nDai-lhe a filha s\u00f3 que tendes [70]<br \/>\nEm tantos mimos criada:<br \/>\nSer\u00e1 oferta bem quista<br \/>\nE do Senhor aceitada.<\/p>\n<p>\u201cE eu a quem mais custou<br \/>\nDe medos, esta jornada,<br \/>\nQue muitas noites orando [71]<br \/>\nPassei em pranto banhada,<br \/>\nSou eu, Senhor, quem vos pe\u00e7o<br \/>\nSer a h\u00f3stia a Deus votada.\u201d<\/p>\n<p>Que santa que era a Princesa,<br \/>\nQue extremos de deva\u00e7\u00e3o!<br \/>\nNos sembrantes dos presentes [72]<br \/>\nViu-se, e n\u00e3o era raz\u00e3o,<br \/>\nQue a nenhum deles prazia<br \/>\nDeferir tal peti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobr\u2019esteve um pouco mudo,<br \/>\nEl-rei por que muito a amava:<br \/>\nAquele dizer da filha [73]<br \/>\nTodo prazer lhe aguava,<br \/>\nAquele pedir sem d\u00f3<br \/>\nTodo o ser lhe transtornava.<\/p>\n<p>Encostou-se ao ombro dela<br \/>\nO pobre velho cansado,<br \/>\nChorou o triunfo breve, [74]<br \/>\nE o prazer mal rematado,<br \/>\nN\u00e3o como rei valeroso,<br \/>\nMas como pai anojado.<\/p>\n<p>El-rei despois mais tranq\u00fcilo<br \/>\nRompeu o sil\u00eancio alfi\u2019;<br \/>\nE entre aflito e satisfeito [75]<br \/>\nDisse \u00e0 filha: Seja assi!&#8230;<br \/>\nVelhos guerreiros vi eu<br \/>\nChoraram tamb\u00e9m ali.<\/p>\n<p>Cant\u2019eu perdido entre o vulgo<br \/>\nN\u00e3o sei que tempo gastei,<br \/>\nNem sei de mim que fizeram, [76]<br \/>\nNem tam pouco se chorei;<br \/>\nFoi tra\u00e7a da provid\u00eancia:<br \/>\nNisto comigo assentei.<\/p>\n<p>Foi Jeft\u00e9 corajoso,<br \/>\nO forte rei de Jud\u00e1;<br \/>\nVolta coberto de loiros, [77]<br \/>\nQuem primeiro encontrar\u00e1?<br \/>\nSente a filha, torce o rosto&#8230;<br \/>\nNada ao triste valer\u00e1.<\/p>\n<p>Qual destes dois sacrif\u00edcios<br \/>\nSoube a Deus mais agradar?<br \/>\nVai a Hebrea constrangida [78]<br \/>\nDepor o colo no altar,<br \/>\nVai a crist\u00e3 jubilosa!<br \/>\nS\u00e3o ambas pera prasmar.<\/p>\n<p>Depois num dia formoso,<br \/>\nEra no m\u00eas de janeiro,<br \/>\nHouve uma cena vistosa [79]<br \/>\nDentro de um pobre mosteiro;<br \/>\nFundou-o Brites Leitoa,<br \/>\nDona mui nobre d\u2019Aveiro.<\/p>\n<p>Uma princesa jurada,<br \/>\nSobrinha d\u2019altos Ifantes,<br \/>\nFilha de reis soberanos, [80]<br \/>\nSenhora das mais pujantes,<br \/>\nEra a primeira figura,<br \/>\nEspantava os circunstantes.<\/p>\n<p>Ali humilde e curvada,<br \/>\nPesar de todos os seus,<br \/>\nGiolhos sobre o ladrilho [81]<br \/>\nE as m\u00e3os erguidas aos c\u00e9us,<br \/>\nOuvi &#8211; ex\u00edgua mortalha<br \/>\nPedir polo amor de Deus.<\/p>\n<p>Cantemos todos louvores,<br \/>\nLouvores ao Senhor Deus:<br \/>\nOs anjos digam o seu nome, [82]<br \/>\nRostos cobertos com v\u00e9us;<br \/>\nLeiam-no os homens escrito<br \/>\nNo liso campo dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>Bom tempo foi o d\u2019outrora<br \/>\nQuando o reino era crist\u00e3o,<br \/>\nQuando as guerras mouriscas [83]<br \/>\nEra o rei nosso pend\u00e3o,<br \/>\nQuando as donas consumiam<br \/>\nSeus teres em deva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquela vila deserta<br \/>\nAinda se me afigura<br \/>\nVer elevar-se nas sombras [29]<br \/>\nTua v\u00e1lida estatura,<br \/>\nE ouvir a voz que intimava<br \/>\nAo rei a senten\u00e7a dura!<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":172,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[20,16],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}