{"id":11,"date":"2015-01-20T13:58:06","date_gmt":"2015-01-20T13:58:06","guid":{"rendered":"https:\/\/princesajoanadeportugal.wordpress.com\/?p=11"},"modified":"2015-01-20T13:58:06","modified_gmt":"2015-01-20T13:58:06","slug":"os-bispos-de-aveiro-e-o-culto-de-santa-joana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/2015\/01\/20\/os-bispos-de-aveiro-e-o-culto-de-santa-joana\/","title":{"rendered":"Os Bispos de Aveiro e o culto de Santa Joana"},"content":{"rendered":"<p>Autor: Mons. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar<br \/>\nPublica\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>Aveiro e o seu Distrito, <\/em>7 (Junho 1969)<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Os Bispos de Aveiro e o culto de Santa Joana<\/strong><\/p>\n<p>Quem se desloca a Aveiro para nos visitar n\u00e3o pode deixar de incluir no seu programa de viagem ou de excurs\u00e3o uma ida ao Museu de Aveiro, rico no recheio de arte barroca e em diversos pormenores de arquitectura; mas, se o turista ao desejo de conhecer alia um amor a quem tentou aproximar-se mais de Deus, ent\u00e3o recolher-se-\u00e1 por momentos junto dum precioso t\u00famulo que, h\u00e1 s\u00e9culos colocado no velho coro de baixo da igreja de Jesus, guarda os restos mortais duma Princesa de Portugal.<\/p>\n<p>Dentro daquelas vetustas paredes, testemunhas de muita vida de sacrif\u00edcio, de ora\u00e7\u00e3o e de amor, o visitante rememora um pouco de hist\u00f3ria de Aveiro. Mas n\u00e3o s\u00f3: o grande edif\u00edcio cenob\u00edtico lembra e faz viver com emo\u00e7\u00e3o o exemplo de santidade de D. Joana, a filha do Rei Africano.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, pois, rotineiramente que passamos junto do convento dominicano, sempre que subimos ao burgo que outrora foi muralhado. Afinal, reis da P\u00e1tria e bispos da Igreja, fidalgos da corte e nobres da cidade, membros do clero e pessoas do povo a\u00ed foram tamb\u00e9m muitas vezes para implorar a ajuda da Princesa, agradecerem o seu valimento, venerarem a sua virtude, admirarem e adaptarem para as suas a vida dela.<\/p>\n<p>Assim, procuraremos hoje trazer ao leitor amigo a mensagem da nossa medita\u00e7\u00e3o de horas furtivas sob o tema que encima estas linhas \u2013 <strong>Os Bispos de Aveiro e o culto de Santa Joana<\/strong>. Tamb\u00e9m aqui, desta forma simples, ficar\u00e1 registado um cap\u00edtulo da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>1 \u2013 Santa Joana no Mosteiro de Jesus<\/strong><\/p>\n<p>O mosteiro de Jesus de Aveiro teve por fundadora D. Brites Leit\u00e3o ou D. Brites Leitoa que, sendo de nobre linhagem, se criou em casa do Infante D. Pedro e casou com Diogo de Ata\u00edde, cavaleiro fidalgo da mesma casa e guarda-mor de D. Isabel, esposa do filho de D. Jo\u00e3o I. Falecida esta, os c\u00f4njuges vieram para Ouca (Vagos), onde possu\u00edam uma rica e vasta quinta.<\/p>\n<div style=\"width: 648px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page28.jpg\" alt=\"\" width=\"638\" height=\"900\" \/><p class=\"wp-caption-text\">T\u00famulo de Santa Joana<\/p><\/div>\n<p>Entretanto, sobreveio uma peste. Apesar de terem retirado para Leiria, Diogo de Ata\u00edde faleceu em 1453; um dos dois filhos tamb\u00e9m sucumbiu ao flagelo \u2013 o primeiro morrera aos oito meses de idade; D. Brites, vi\u00fava de 27 anos, regressou a Ouca, na companhia das duas filhas. Resolveu depois dar-se \u00e0 vida religiosa e, de acordo com o prior do convento dominicano da Miseric\u00f3rdia, mandou construir uma pequena edifica\u00e7\u00e3o no s\u00edtio onde mais tarde se ergueu o mosteiro de Jesus; entrava para l\u00e1 a 24 de Novembro de 1458, com as filhas.<\/p>\n<p>Em 1460, bateu \u00e0 porta D. M\u00edcia ou M\u00e9cia Pereira, senhora fidalga, que enviuvara havia dois anos. A sua presen\u00e7a no incipiente recolhimento foi \u00fatil e decisiva; trouxe bens que se empregaram na compra de terrenos, com que se alargaram os iniciais, e na constru\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio.<\/p>\n<p>Pela bula <strong>Pia Deo et Ecclesiae desideria<\/strong>, de 16 de Maio de 1461, o Papa Pio II autorizava a funda\u00e7\u00e3o conventual. \u00a0D. Brites e D. M\u00edcia propuseram-se fazer a igreja e aumentar a habita\u00e7\u00e3o, em forma de mosteiro; a primeira pedra foi lan\u00e7ada por D. Afonso V e benzida, a 15 de Janeiro de 1462, pelo bispo de Coimbra, D. Jo\u00e3o Galv\u00e3o. D. Brites deslocava-se para Ouca com o fim de dirigir o fabrico dos tijolos e das telhas e D. M\u00edcia ficava em Aveiro a vigiar as obras. Esta \u00faltima senhora, esgotada pelo trabalho, morreria a 3 de Outubro de 1464.<\/p>\n<p>A primeira tomada de h\u00e1bito foi a 25 de Dezembro de 1464 e, a 1 de Janeiro seguinte, realizava-se a cerim\u00f3nia da clausura. Um ano depois professava D. Brites e mais duas religiosas; as restantes aguardaram o domingo ap\u00f3s a Epifania, 12 de Janeiro, data em que, mais uma vez, esteve presente D. Afonso V.<\/p>\n<p>A fundadora finou-se a 3 de Agosto de 1480. O mosteiro, cujo edif\u00edcio sofreu atrav\u00e9s dos tempos \/ 29 \/ diversas amplia\u00e7\u00f5es e modifica\u00e7\u00f5es, desde o in\u00edcio beneficiou material e moralmente com a estadia de Santa Joana, filha daquele monarca e de sua mulher, a rainha D. Isabel. Foi esse um facto extraordin\u00e1rio e de grande alcance na exist\u00eancia do cen\u00f3bio e do burgo, que ficou a marcar na hist\u00f3ria de ambos. O Pr\u00edncipe Perfeito, que contrariaria a voca\u00e7\u00e3o da irm\u00e3, dar-lhe-ia finalmente as pr\u00f3prias rendas da vila de Aveiro.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Santa Joana nasceu em Lisboa, no Pa\u00e7o de Alc\u00e1\u00e7ova, a 6 de Fevereiro de 1452. Seu irm\u00e3o mais velho morrera com meses de idade e, por isso, no meio do maior entusiasmo, foi jurada em cortes por Princesa herdeira do Reino, t\u00edtulo que pela primeira vez se dava em Portugal; embora o tivesse perdido, passados dois anos, pelo nascimento do novo irm\u00e3o, o futuro D. Jo\u00e3o II, nem por isso o povo e os cronistas deixaram de a tratar por Princesa. \u00d3rf\u00e3 de m\u00e3e aos quatro anos, procurou sempre praticar a mais edificante virtude, apesar do fausto e do ambiente da corte; e assim foi crescendo.<\/p>\n<p>Aos 19 anos, com a autoriza\u00e7\u00e3o de seu pai que voltava vitorioso de \u00c1frica, recolheu-se ao mosteiro de Odivelas. Desejando, por\u00e9m, uma vida de mais austera penit\u00eancia, mal decorridos sete meses, mudou para o pobre convento dominicano de Jesus, em Aveiro; a 25 de Janeiro de 1475, com o h\u00e1bito da Ordem dos Pregadores, iniciaria o noviciado.<\/p>\n<p>Conhecido este prop\u00f3sito, moveram-lhe grande oposi\u00e7\u00e3o o pai, o irm\u00e3o, os fidalgos, os procuradores de cidades e vilas, que viam na sua atitude um perigo para a sucess\u00e3o do trono, visto o rei ter apenas aqueles dois filhos. Mas nada demoveu a Princesa que, apesar de n\u00e3o ter sido autorizada a fazer os votos perp\u00e9tuos, ficou no convento, onde seria \u00abfreira sem profiss\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Senhora de grande beleza, de firme car\u00e1cter e de excelsa virtude, \u00a0v\u00e1rios pr\u00edncipes a quiseram para esposa, ao que ela sempre resistiu. Finalmente, depois duma vida de perfei\u00e7\u00e3o, de humildade e de fervor espiritual, falecia no mosteiro de Jesus, a 12 de Maio de 1940, apenas com 38 anos de idade.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a sua morte, o povo de Aveiro, antecipando-se ao julgamento da Igreja, come\u00e7ou a denomin\u00e1-la por santa e a vener\u00e1-la. D. Pedro II alcan\u00e7aria mais tarde do Papa Inoc\u00eancio XI o breve de 4 de Abril de 1693, no qual se confirmava o culto, sendo concedida \u00e0 Princesa a designa\u00e7\u00e3o de beata e o of\u00edcio e a missa pr\u00f3prios, para todo o Pa\u00eds e para a Ordem Dominicana.<\/p>\n<p>O mesmo rei ordenou a renova\u00e7\u00e3o e o aformoseamento do coro de baixo, onde Santa Joana havia sido sepultada, e mandou substituir a urna, que continha os seus restos mortais desde 1577, pelo valioso t\u00famulo actual. Precioso trabalho de mosaico de m\u00e1rmores pol\u00edcromos, formando desenhos geom\u00e9tricos e emblemas sagrados nas faces, a sua tra\u00e7a \u00e9 do arquitecto real Jo\u00e3o Antunes.<\/p>\n<p>O processo da canoniza\u00e7\u00e3o de Santa Joana, iniciado em Maio de 1746, nunca foi conclu\u00eddo, por desinteresse dos requerentes.<\/p>\n<p>Durou quatro s\u00e9culos a vida conventual de Jesus, fortemente alentada pelo nome e pela santidade da Princesa e a 2 de Mar\u00e7o de 1874 faleceria a \u00faltima religiosa e, com o desenlace, fechar-se-ia o velho ciclo cenob\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>2 \u2013 Santa Joana, Protectora de Aveiro<\/strong><\/p>\n<p>Encontramo-nos em 1773. D. Jos\u00e9 I, em carta r\u00e9gia de 28 de Setembro, solicitava a Clemente XIV a cria\u00e7\u00e3o da Diocese de Aveiro. O papa, ap\u00f3s minucioso inqu\u00e9rito, deferiu o pedido do rei em breve de 12 de Abril do ano seguinte. Estava erigida uma catedral entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>A instaura\u00e7\u00e3o da nova Diocese, na mente de D. Jos\u00e9 I e do Marqu\u00eas de Pombal, obedecia a um plano de valoriza\u00e7\u00e3o local \u2013 tanto mais que Aveiro era tamb\u00e9m j\u00e1 um centro de piedade \u00e0 volta das cinzas da Princesa Santa Joana. Com efeito, a vila fora elevada a cidade em 1759 e, no ano posterior, a sede da \/ 30 \/ provedoria ou corregedoria era transferida de Esgueira para Aveiro; o Governo mostrava ainda efectivo interesse pela melhoria da barra e pela instala\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias de vidro e de seda.<\/p>\n<div style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/StaJoana.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"942\" \/><p class=\"wp-caption-text\">PRINCESA SANTA JOANA (Retrato do quadro em trajo da corte da segunda metade do s\u00e9culo XV, existente no Museu de Aveiro)<\/p><\/div>\n<p>Desde 1801 at\u00e9 1813, esteve \u00e0 frente da Diocese o bispo D. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Cordeiro, figura que aliava \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o, \u00e0 energia, \u00e0 firmeza de car\u00e1cter e ao zelo apost\u00f3lico, uma virtude invulgar e uma extraordin\u00e1ria piedade; mostrou-se ainda um insigne aveirense e um valoroso patriota na reac\u00e7\u00e3o e na luta contra as incurs\u00f5es napole\u00f3nicas.<\/p>\n<p>J\u00e1 antes das invas\u00f5es francesas, o Prelado se havia interessado pelo culto de Santa Joana. Efectivamente, a 29 de Abril de 1807, publicara o seguinte documento:<\/p>\n<p>\u00abDesejando N\u00f3s concorrer quanto de N\u00f3s depende para o culto e venera\u00e7\u00e3o da augusta Princesa de Portugal, a Bem-aventurada Santa Joana, cujas sagradas rel\u00edquias se conservam no real mosteiro de Jesus, desta cidade, e promover a solenidade da sua festividade, reconhecendo os muitos benef\u00edcios de que os Nossos diocesanos s\u00e3o devedores \u00e0 mesma Santa Princesa;<\/p>\n<p>Havemos por bem ordenar que os revs. p\u00e1rocos e eclesi\u00e1sticos assistentes nesta cidade v\u00e3o com cota ou sobrepeliz e barrete \u00e0 solene prociss\u00e3o que se faz em cada um ano no dia da festa da mesma Santa Princesa, para o que se ajuntar\u00e3o na catedral pelas tr\u00eas horas e meia da tarde, e da\u00ed sair\u00e3o processionalmente debaixo da cruz da mesma catedral em direitura \u00e0 igreja do dito real mosteiro para se encorporarem na referida solene prociss\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<div style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page30.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"699\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Bras\u00e3o de D. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Cordeiro, Bispo de Aveiro.<\/p><\/div>\n<p>Por seu turno, as dominicanas, \u00abem fins de 1806 ou princ\u00edpios de 1807, dirigiram ao Pr\u00edncipe Regente, depois D. Jo\u00e3o VI, uma s\u00faplica, manifestando-lhe os desejos de que a festividade da Princesa Santa Joana, que elas anualmente mandavam celebrar, fosse feita com toda a pompa e luzimento\u00bb. O Pr\u00edncipe, depois de ter a concord\u00e2ncia do provedor da Comarca, da C\u00e2mara de Aveiro e do procurador da Coroa, e depois de o desembargador do Pa\u00e7o ter dado, a 27 de Janeiro de 1807, o seu despacho favor\u00e1vel, determinou, por provis\u00e3o passada a 12 de Fevereiro seguinte, logo registada na Chancelaria a 17 do mesmo m\u00eas:<\/p>\n<p>\u00ab&#8230; Hei por bem que a prociss\u00e3o que no dia da festividade da Princesa Santa Joana se costuma fazer na dita cidade [de Aveiro] seja considerada como real e que a ela assista e a acompanhe o senado da C\u00e2mara da mesma cidade, que nomear\u00e1 as pessoas que dever\u00e3o levar o p\u00e1lio e ins\u00edgnias principais, e determinar\u00e1 o giro regular e decente da mesma prociss\u00e3o assim como costuma praticar nas prociss\u00f5es reais, assistindo tamb\u00e9m com as suas ins\u00edgnias \u00e0 Missa da festa do referido dia na dita igreja [do mosteiro de Jesus] no lugar que lhe competir com dec\u00eancia e decoro segundo as minhas reais ordens\u00bb.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara Municipal de Aveiro come\u00e7ou, deste modo, a tomar \u00e0 sua conta, entre as festividades que mandava celebrar com luzimento, tamb\u00e9m a de Santa Joana; e de tal forma a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Princesa se avolumou, que o culto de Santa Ana, h\u00e1 s\u00e9culos Padroeira de Aveiro, passou a segundo plano \u2013 para finalmente entrar no olvido. Os pr\u00f3prios missais romanos, no ap\u00eandice para Portugal, que nos anos de setecentos inclu\u00edam no calend\u00e1rio de Aveiro os textos lit\u00fargicos para a M\u00e3e da Virgem Maria, omitiram-nos nas edi\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Iniciara-se, contudo, o per\u00edodo dif\u00edcil das lutas contra os franceses invasores. Formara-se mesmo em Aveiro uma <strong>Junta Provisional<\/strong>, \u00e0 semelhan\u00e7a da que fora institu\u00edda no Porto e dela dependente, que era reconhecida pelas autoridades civis, militares e eclesi\u00e1sticas; urgia defender a Na\u00e7\u00e3o. Levado pela sua forma\u00e7\u00e3o religiosa, D. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Cordeiro rogava instantemente aos diocesanos que pedissem a ajuda divina, com a invoca\u00e7\u00e3o de Santa Joana. A 5 de Agosto de 1808, durante a primeira invas\u00e3o e j\u00e1 escolhido como presidente da <strong>Junta Provisional de Aveiro<\/strong>, escrevia em circular:<\/p>\n<p>\u00abDevendo N\u00f3s reconhecer que as calamidades que temos sofrido s\u00e3o um efeito da vingan\u00e7a de Deus Nosso Senhor pelos pecados com que temos ofendido e provocado a sua ira, \u00e9 preciso, amados irm\u00e3os e filhos car\u00edssimos, por meio de penit\u00eancias \/ 31 \/ e de um perfeito arrependimento das nossas culpas aplacar a ira do Senhor e desarmarmos o bra\u00e7o da sua divina justi\u00e7a, para que pela sua miseric\u00f3rdia ponha termo ao castigo, de que Napole\u00e3o e as suas tropas t\u00eam sido o instrumento, e proteja e auxilie as portuguesas e as dos nossos fi\u00e9is aliados para serem inteiramente desbaratadas as do inimigo e se concluir em todo o Reino a restaura\u00e7\u00e3o da Monarquia Portuguesa; e \u00e9 tamb\u00e9m preciso ao mesmo tempo desagravar os horr\u00edveis e sacr\u00edlegos desacatos que aquelas tropas francesas sem F\u00e9 nem Religi\u00e3o t\u00eam feito t\u00e3o repetidas vezes ao Sant\u00edssimo e Ador\u00e1vel Sacramento do Altar, n\u00e3o s\u00f3 profanando os vasos sagrados mas tamb\u00e9m lan\u00e7ando por terra \u00edmpia e sacrilegamente as sagradas part\u00edculas. Pelo que temos resolvido fazer, na tarde do dia 7 deste m\u00eas, uma prociss\u00e3o de penit\u00eancia que sair\u00e1 da Nossa catedral, sendo levada nela a devot\u00edssima imagem do Senhor\u00a0<strong>Ecce Homo<\/strong>, que se encaminhar\u00e1 \u00e0 igreja do real mosteiro de Jesus, aonde se venera o corpo da Bem-aventurada Princesa Santa Joana, a quem j\u00e1 em princ\u00edpio da nossa consterna\u00e7\u00e3o hav\u00edamos tomado por medianeiro para com o Pai de Miseric\u00f3rdias, e outrossim, no dia 15 deste m\u00eas, expor o Sant\u00edssimo Sacramento por todo o dia \u00e0 adora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is e na tarde do mesmo dia fazer prociss\u00e3o de desagravo, da mesma forma que se faz a do Corpo de Cristo\u00bb.<\/p>\n<p>Os p\u00e1rocos e cl\u00e9rigos seculares e regulares da cidade deveriam concorrer \u00e0 S\u00e9 com os fi\u00e9is e fazer penit\u00eancia, jejuns, esmolas, mortifica\u00e7\u00f5es e ora\u00e7\u00f5es; os pastores de almas nas suas freguesias fariam uma ou outra prociss\u00e3o num dos dias de preceito, logo que recebessem esta ordem, \u00abque n\u00e3o demorar\u00e3o na sua m\u00e3o mais de duas horas\u00bb.<\/p>\n<p>Todo o Reino estava levantado. O inimigo era vencido na Roli\u00e7a (17 de Agosto) e no Vimeiro (21 de Agosto) pelas tropas anglo-Iusas; depois da Conven\u00e7\u00e3o de Sintra, realizada a 30, os franceses retiraram-se em navios ingleses, com armas, bagagens e riquezas roubadas. Acabara a primeira invas\u00e3o.<\/p>\n<p>A 24 de Agosto, j\u00e1 D. Ant\u00f3nio, em extensa circular, celebrava alegremente o facto. Tendo cessado o flagelo, convidava todos os fi\u00e9is a darem gra\u00e7as a Deus. Informava que, tamb\u00e9m por esse motivo, resolvera celebrar Pontifical na S\u00e9 no dia 8 de Setembro, com serm\u00e3o, exposi\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo Sacramento, prociss\u00e3o eucar\u00edstica at\u00e9 \u00e0 igreja de Jesus, \u00abaonde se venera o corpo da Bem-aventurada Princesa de Portugal Santa Joana, cuja intercess\u00e3o para com o Pai das Miseric\u00f3rdias e o Deus de toda a consola\u00e7\u00e3o hav\u00edamos implorado\u00bb, cantando-se a\u00ed um solene <strong>te-deum<\/strong>, e regresso em nova prociss\u00e3o para a s\u00e9; todo o clero, residente at\u00e9 \u00e0 dist\u00e2ncia de uma l\u00e9gua, viria tomar parte nestes actos religiosos. Com as \u00abdevidas demonstra\u00e7\u00f5es de alegria\u00bb os p\u00e1rocos, \u00abno primeiro domingo ou dia festivo com o seu respectivo clero e povo, ou ao menos uma pessoa de cada casa\u00bb, cantariam o <strong>te-deum<\/strong>com as preces do Ritual, nas igrejas das freguesias.<\/p>\n<p>Entretanto, restabelecera-se a reg\u00eancia do Reino e o Pa\u00eds organizava-se para resistir a qualquer novo ataque do inimigo. \u00a0A 24 de Janeiro de 1809, o bispo escrevia nova pastoral. Rogava a todos que impetrassem de Deus o seu valimento; pedia tamb\u00e9m, afora outras ora\u00e7\u00f5es e penit\u00eancias, que se implorasse, \u00abcom uma particular confian\u00e7a e devo\u00e7\u00e3o, o patroc\u00ednio e intercess\u00e3o da Sant\u00edssima Virgem M\u00e3e de Deus, Protectora do Reino, e da Augusta Princesa de Portugal, Santa Joana\u00bb.<\/p>\n<p>Inesperadamente, por\u00e9m, d\u00e1-se a segunda invas\u00e3o napole\u00f3nica nos princ\u00edpios de 1809. Entrando por Chaves, os franceses chegaram ao Porto, que logo capitulou; estava-se nos fins de Mar\u00e7o. Em Aveiro, aos primeiros rumores de guerra, o povo armou-se, assumindo a orienta\u00e7\u00e3o o prelado, que mandou executar o plano de defesa do ano transacto. A tal ponto os aveirenses n\u00e3o foram dos menos aguerridos, que o inimigo n\u00e3o transp\u00f4s o rio Vouga para o sul; somando-se \u00e0 divis\u00e3o do coronel ingl\u00eas Trant no in\u00edcio de Abril, aguentaram a defesa e depois, a 10 de Maio, atravessavam para o norte. O Invasor, surpreendido em Albergaria-a-Nova, nada mais teve a fazer do que retirar, pressentindo-se j\u00e1 na derrota. A 19 do referido m\u00eas de Maio, o segundo bispo de Aveiro mandava que se cantasse um <strong>te-deum<\/strong> de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as em todas as igrejas paroquiais.<\/p>\n<p>Mas, em Junho de 1810, surgia de novo o espectro da luta armada. Felizmente, marchando Massena para o sul vindo de Cidade Rodrigo e depois da derrota do Bu\u00e7aco, Aveiro p\u00f4de respirar. Os seus habitantes, que se tinham refugiado nas areias de S\u00e3o Jacinto e da Gafanha e nas ilhas da ria, come\u00e7aram a regressar e a retomar a vida normal.\u00a0A 18 de Abril de 1811, o prelado anunciaria a derrota definitiva dos franceses, possu\u00eddo de intensa satisfa\u00e7\u00e3o; por isso, mais uma vez prescrevia o canto do <strong>te-deum<\/strong> em todas as igrejas; anunciava que, na catedral, haveria a mesma cerim\u00f3nia a 21 e, noutro dia a designar, celebraria Pontifical pela manh\u00e3 e presidiria \u00e0 tarde, ap\u00f3s um serm\u00e3o, a uma prociss\u00e3o eucar\u00edstica at\u00e9 \u00e0 \u00abigreja do real mosteiro de Jesus aonde se venera o corpo da Santa Princesa, cuja intercess\u00e3o hav\u00edamos implorado, e ali cantaremos outra vez o <strong>te-deum<\/strong>\u00bb. Desde j\u00e1 D. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Cordeiro convidava para essas solenidades todo o clero com domic\u00edlio dentro da \u00e1rea de uma l\u00e9gua e mandava que se fizessem actos de desagravo pelos \u00abhorrorosos \/ 32 \/ e sacr\u00edlegos desacatos\u00bb contra o Sant\u00edssimo Sacramento, as imagens e os templos, \u00abal\u00e9m de outros muitos criminosos excessos\u00bb que cometeram os \u00abb\u00e1rbaros inimigos sem religi\u00e3o, sem f\u00e9 e sem moralidade\u00bb.<\/p>\n<p>Entretanto, ficava em Portugal, no rescaldo das invas\u00f5es francesas, um certo descontentamento social e pol\u00edtico. Em Aveiro, foi preponderante e decisiva a ac\u00e7\u00e3o da loja ma\u00e7\u00f3nica dos Santos M\u00e1rtires.<\/p>\n<div style=\"width: 910px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page32.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"620\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Mosteiro de Jesus<\/p><\/div>\n<p>O movimento revolucion\u00e1rio foi alastrando por todo o Pa\u00eds; o regime liberal eclodiria em 1820. Promulgadas pelas novas Cortes as Bases da Constitui\u00e7\u00e3o em Mar\u00e7o de 1821, logo se procedeu ao seu juramento em toda a Na\u00e7\u00e3o. A cerim\u00f3nia realizou-se em Aveiro no dia 29, presentes a C\u00e2mara Municipal, o prelado e as demais autoridades civis, militares e eclesi\u00e1sticas. A 10 de Abril, foi o juramento das for\u00e7as de linha, com parada em Santo Ant\u00f3nio; a seguir, todos se dirigiram para o convento de Jesus, onde o vig\u00e1rio geral, Dr. Manuel Rodrigues de Ara\u00fajo Taborda, presidiu \u00e0 Missa Solene e ao <strong>te-deum<\/strong>. Tamb\u00e9m nesta ocasi\u00e3o n\u00e3o foi esquecida Santa Joana, junto de cujo t\u00famulo se realizou a cerim\u00f3nia religiosa.<\/p>\n<p>Apesar de t\u00e3o grandes festas pelo nascimento do liberalismo em Portugal, mesmo com a participa\u00e7\u00e3o da autoridade diocesana, n\u00e3o deviam ser pequenas as apreens\u00f5es do mosteiro de Jesus em face dos factos pol\u00edticos que desde logo se viram ser de tend\u00eancia anticlerical. O futuro dar-lhe-ia raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>3 \u2013 No decl\u00ednio e na extin\u00e7\u00e3o do mosteiro de Jesus<\/strong><\/p>\n<p>Um decreto de 5 de Agosto de 1833, assinado por D. Pedro IV, que obedecia aos princ\u00edpios do liberalismo, licenciava todos os novi\u00e7os dos conventos e proibia a admiss\u00e3o de novos; nos anos seguintes, ficariam sob a sua al\u00e7ada os mosteiros femininos. O Pa\u00eds assistiria, ent\u00e3o, durante dezenas de anos, \u00e0 morte lenta da vida claustral: o mosteiro fechava-se, ao desaparecer a \u00faltima professa, e os bens com o im\u00f3vel eram incorporados na Fazenda Nacional. Quanto aos conventos masculinos, a lei tornar-se-ia mais radical: seriam puramente extintos, em 1834, pelo c\u00e9lebre decreto de 28-30 de Maio, e os frades espoliados do que era seu, deixariam violentamente as casas.<\/p>\n<p>Embora os recursos das dominicanas se tivessem ressentido depois da extin\u00e7\u00e3o das Ordens Religiosas e consequente desamortiza\u00e7\u00e3o dos seus bens, a festa de Santa Joana continuava a ser a principal do mosteiro, entre as diversas que a\u00ed se realizavam; as irm\u00e3s n\u00e3o podiam, todavia, dar \u00e0 solenidade a impon\u00eancia do passado. Por tal raz\u00e3o, a C\u00e2mara Municipal n\u00e3o s\u00f3 continuaria a estar presente mas tamb\u00e9m tomava a seu cargo, a partir de 1844, as despesas da prociss\u00e3o, al\u00e9m do que lhe era devido pela provis\u00e3o real de 1807. Uns anos com mais brilho e outros com menos, a festividade foi-se fazendo durante a progressiva decad\u00eancia, tanto do mosteiro de Jesus como da diocese de Aveiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode, contudo, deixar de registar o facto de as festas de Santa Joana, celebradas em Maio de 1863, terem a presid\u00eancia de D. Joaquim Moreira dos Reis, bispo resignat\u00e1rio de Angola, convidado para o efeito; houve Pontifical, pregando o C\u00f3nego Dr. Jos\u00e9 Joaquim de Carvalho e G\u00f3is, que seria vig\u00e1rio geral de Aveiro em 1868-1869. Estava \u00e0 frente do bispado o Dr. Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Pereira Bilhano, por incumb\u00eancia do arcebispo de Braga.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de um prelado, como era um facto ins\u00f3lito desde h\u00e1 dezenas de anos, atraiu muita gente a Aveiro e na prociss\u00e3o incorporaram-se os p\u00e1rocos da cidade e dos arredores, as autoridades civis e militares, as irmandades locais e a tropa aqui aquartelada.<\/p>\n<p>A agonia do convento de Jesus de Aveiro prolongou-se por quarenta anos, tudo se consumando a 2 de Mar\u00e7o de 1874. Estavam \u00e0 frente do governo do Bispado, como vig\u00e1rio geral efectivo o Dr. Manuel Augusto de Sousa Pires de Lima, quase sempre ausente por causa dos afazeres no parlamento, e, como vig\u00e1rio geral substituto, o Dr. Manuel Baptista da Cunha, mais tarde arcebispo de Mitilene e depois arcebispo de Braga. Era administrador apost\u00f3lico da Diocese de Aveiro, nessa altura, D. Jos\u00e9 Joaquim de Azevedo e Moura, arcebispo de Braga, que nomeara aqueles vig\u00e1rios gerais.<\/p>\n<p>J\u00e1 a 9 de Fevereiro daquele ano, o delegado do Tesouro P\u00fablico no Distrito de Aveiro, Ant\u00f3nio Leite de Sousa Reis, avisava a Direc\u00e7\u00e3o-Geral dos Pr\u00f3prios Nacionais de que a \u00faltima professa do convento, D. Maria Henriqueta dos Anjos Barbosa Os\u00f3rio, se encontrava em perigo de vida; em face disso, perguntava qual o destino a dar \u00e0s recolhidas que com ela viviam, se o desenlace surgisse. A 13 de Fevereiro, tamb\u00e9m o vig\u00e1rio geral substituto pedia instru\u00e7\u00f5es \u00e0 Secretaria de Estado de Neg\u00f3cios Eclesi\u00e1sticos e o delegado do Tesouro urgia c\u00f3pia do invent\u00e1rio. A 18, oficiava o director-geral dos Neg\u00f3cios Eclesi\u00e1sticos ao Dr. Baptista da Cunha, solicitando informa\u00e7\u00f5es sobre o destino das senhoras recolhidas no mosteiro, que, \u00abn\u00e3o podem ali conservar-se depois de tomar posse [do edif\u00edcio] a Fazenda Nacional\u00bb.<\/p>\n<div style=\"width: 671px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page33.jpg\" alt=\"\" width=\"661\" height=\"900\" \/><p class=\"wp-caption-text\">D. Manuel Correia de Bastos Pina Bispo de Coimbra<\/p><\/div>\n<p>O vig\u00e1rio geral respondeu, a 23, pedindo caridade para essas pobres senhoras, pois \u00abseria grande dureza e viol\u00eancia expuls\u00e1-las do convento imediatamente ap\u00f3s o falecimento da \u00faltima freira\u00bb. <strong>(32)<\/strong><\/p>\n<p>Morta a \u00faltima religiosa, o Dr. Baptista da Cunha, logo no mesmo dia 2 de Mar\u00e7o de 1874, expunha ao director-geral dos Neg\u00f3cios Eclesi\u00e1sticos o que pensava sobre o futuro do edif\u00edcio. Embora a Fazenda Nacional tomasse conta da casa, \u00abmaior utilidade p\u00fablica resultaria de ele ser concedido para ali se estabelecerem as aulas e reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas eclesi\u00e1sticas deste bispado e a resid\u00eancia do prelado\u00bb; al\u00e9m disso, ainda a\u00ed haveria lugar \u00abpara a arrecada\u00e7\u00e3o dos objectos de maior valor pertencentes \u00e0 mitra, que at\u00e9 agora tinham sido guardados no convento de Jesus, e para arruma\u00e7\u00e3o dos livros que escaparam \u00e0 rapacidade e \u00e0 voracidade do inc\u00eandio que, em 1864, reduziu a cinzas a maior parte do pa\u00e7o episcopal, parte dos quais est\u00e3o a granel e mal acondicionados\u00bb. O vig\u00e1rio geral lembrava, portanto, a conveni\u00eancia de \u00abser entregue ao governo deste bispado o convento de Jesus, com alguns dos seus rendimentos e a sua mob\u00edlia, para ali se formar um semin\u00e1rio, ou ao menos s\u00f3 o edif\u00edcio com as suas depend\u00eancias para ter o destino acima indicado\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page34.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"897\" \/>Madre Maria In\u00eas Champalimaud Duff &#8211; Directora do Col\u00e9gio de Santa Joana.<\/p>\n<p>Contudo, surgiu imediatamente um movimento diferente na cidade, encabe\u00e7ado pela C\u00e2mara Municipal e acarinhado pelas recolhidas, com o qual se pedia ao rei a conserva\u00e7\u00e3o do mosteiro como recolhimento ou casa de educa\u00e7\u00e3o e ensino.\u00a0O pr\u00f3prio vig\u00e1rio geral substituto, a 10 de Mar\u00e7o, dava a sua opini\u00e3o e fazia nova proposta, escrevendo ao mencionado director-geral:<\/p>\n<p>\u00abCom refer\u00eancia ao conte\u00fado no meu of\u00edcio de 2 do corrente, cumpre-me acrescentar que, tendo-me constado, depois de expedido o mesmo of\u00edcio, haver-se assinado nesta cidade uma representa\u00e7\u00e3o pedindo a conserva\u00e7\u00e3o do convento de Jesus como col\u00e9gio de educa\u00e7\u00e3o para o sexo feminino e parecendo-me ser de reconhecida utilidade p\u00fablica a funda\u00e7\u00e3o de um semelhante estabelecimento, cuja falta \u00e9 de h\u00e1 muito sentida no Distrito de Aveiro, entendo que a conveni\u00eancia de ter aquele convento o destino indicado \u00e9 superior \u00e0 de ele ser dado para semin\u00e1rio diocesano. Assim, pois, \u00e9 somente no caso de n\u00e3o se fundar no convento col\u00e9gio para o sexo feminino que eu pe\u00e7o a concess\u00e3o dele para semin\u00e1rio, ou ao menos para a instala\u00e7\u00e3o das reparti\u00e7\u00f5es e aulas eclesi\u00e1sticas e resid\u00eancia do prelado\u00bb.<\/p>\n<p>De facto, o Governo atendeu \u00e0s instantes s\u00faplicas dos aveirenses e, por uma portaria de 22 ou 30 de Maio de 1874, autorizava a convers\u00e3o do mosteiro de Jesus em col\u00e9gio feminino, sob a orienta\u00e7\u00e3o da pupila D. Leonor Ang\u00e9lica Cardoso de Lemos; a nova institui\u00e7\u00e3o passou a denominar-se <strong>Col\u00e9gio de Santa Joana Princesa<\/strong>. O col\u00e9gio, todavia, a bra\u00e7os com graves diliculdades, mal iniciou ent\u00e3o a sua ac\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica;\u00a0anos mais tarde, j\u00e1 extinto o bispado em 1882 e incorporada a cidade de Aveiro no territ\u00f3rio do de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina teve mesmo de se<\/p>\n<p>opor \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio a hospital ou \u00e0s reparti\u00e7\u00f5es do governo civil e conseguia que o Estado ordenasse a imediata repara\u00e7\u00e3o do que fosse mais urgente.<\/p>\n<p>O bispo de Coimbra recorreu depois \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o de Santa Catarina de Sena das Irm\u00e3s Terceiras Dominicanas, no sentido de melhorar o col\u00e9gio; para o efeito entendeu-se com D. Teresa Saldanha de Oliveira e Sousa, irm\u00e3 do Marqu\u00eas de Rio Maior, que, embora ainda n\u00e3o tivesse professado, dirigia a Congrega\u00e7\u00e3o que fundara. De facto, ap\u00f3s algumas dilig\u00eancias, o col\u00e9gio de Santa Joana reabriria com novo vigor a 10 de Novembro de 1884; as irm\u00e3s tomaram simultaneamente \u00e0 sua guarda a casa e as rel\u00edquias da Padroeira de Aveiro.\u00a0Gra\u00e7as a Bastos Pina, assim se consolidara a exist\u00eancia do que, \u00absendo um dos primeiros do Pa\u00eds, \u00e9 o assombro de todos os que de longe e de perto o visitam\u00bb.<\/p>\n<p>Durante vinte e cinco anos, centenas de meninas passaram pelo Col\u00e9gio de Santa Joana, sob a \u00e9gide da sempre recordada Madre Maria In\u00eas Champalimaud Duff. D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal escreveria mais tarde:<\/p>\n<p>\u00abA alma ardente de um bispo que por aqui passou \u2013 D. Manuel Correia de Bastos Pina \u2013 a um doce ninho de ora\u00e7\u00e3o, de recolhimento e de penit\u00eancia, que ali se abrigara em Jesus \u00e0 sombra das velhas telhas dominicanas, fez suceder, sem lhe alterar em nada o seu ar celeste, mas abrindo-lhe horizontes mais largos, mais em conformidade com as condi\u00e7\u00f5es e as exig\u00eancias dos tempos, um col\u00e9gio famoso de educa\u00e7\u00e3o de meninas, que teve o nome, ainda hoje t\u00e3o recordado, de <strong>Col\u00e9gio de Santa Joana Princesa de Aveiro<\/strong> [&#8230;]. S\u00f3 Deus sabe ao certo a soma exacta dos benef\u00edcios que espalhou pela cidade e pelo Pa\u00eds inteiro o col\u00e9gio de Santa Joana\u00bb.<\/p>\n<p>A 5 de Outubro de 1910, foi a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica em Portugal. O novo regime, embora pugnando pela liberdade total, a 8 de mesmo m\u00eas restabelecia plenamente as leis do Marqu\u00eas de Pombal, de Joaquim Ant\u00f3nio de Aguiar e de Anselmo Jos\u00e9 Braamcamp sobre a Companhia de Jesus e todas as demais Ordens e Congrega\u00e7\u00f5es Religiosas. \u00a0A 18 de Outubro, sa\u00edram do mosteiro de Jesus as \u00faltimas religiosas e, a 21, foi transferido o Sant\u00edssimo Sacramento para a vizinha igreja da Gl\u00f3ria. O hist\u00f3rico edif\u00edcio conventual, depois de entregue, a 11 de Julho de 1911, \u00e0 C\u00e2mara Municipal, viu-se transformado em museu, na parte cont\u00edgua ao claustro e \u00e0 igreja. A nova instala\u00e7\u00e3o teve efeito pela portaria de 23 de Agosto.<\/p>\n<p>Assim a renascida diocese de Aveiro, restaurada em 1938, encontrou o convento de Jesus: museu belo mas morto, que guarda dentro das suas paredes preciosidades de hist\u00f3ria e de arte, onde se encontram tamb\u00e9m as cinzas vivas de santidade da Princesa, protectora de Aveiro.<\/p>\n<p><strong>4 \u2013 Na Diocese de Aveiro, ap\u00f3s a sua restaura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar que, desde o in\u00edcio da campanha pelo ressurgimento do bispado, os aveirenses se voltaram piedosamente para aquela que, deixando Lisboa, viveu, morreu e foi sepultada entre eles; os cat\u00f3licos aveirenses confiaram em que Santa Joana n\u00e3o deixaria de ser a sua celeste Protectora.<\/p>\n<p>Logo no dia 24 de Mar\u00e7o de 1931, uma comiss\u00e3o foi \u00e0 Nunciatura Apost\u00f3lica, em Lisboa, e falou com \/ 35 \/ Mons. Giovanni Beda Cardinale, solicitando-lhe o valimento a favor da sua pretens\u00e3o.\u00a0Na mesma altura confiaram ao N\u00fancio Apost\u00f3lico, para ser entregue ao Santo Padre Pio XI, uma exposi\u00e7\u00e3o por escrito. Nela se historiavam os efeitos perniciosos da extin\u00e7\u00e3o da diocese, ao mesmo tempo que se apontavam as raz\u00f5es para o seu restabelecimento. Quase a terminar, dizia a referida exposi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u00abCom a protec\u00e7\u00e3o da Princesa Santa Joana, cujas cinzas se guardam em precioso t\u00famulo no convento de Jesus de Aveiro, da qual \u00e9 patrona, [&#8230;] a coragem e a boa vontade jamais nos faltar\u00e3o a favor deste nosso empreendimento.\u00bb<\/p>\n<p>O primeiro bispo de Aveiro, na segunda fase da diocese, foi D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal, aveirense de nascimento e amigo entranhado da sua terra; tendo celebrado a Missa Nova na igreja de Jesus a 25 de Dezembro de 1896, levado pela devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Princesa e pelo agradecimento do que devia \u00e0 sua intercess\u00e3o e do que recebera do col\u00e9gio quando crian\u00e7a, a\u00ed pregou diversas vezes na festividade de Santa Joana.<\/p>\n<p>Restaurada a diocese de Aveiro em 1938, logo D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal procurou incentivar o culto da Padroeira. \u00c9 que, encerrados embora em precioso sepulcro, os seus restos mortais encontravam-se quase abandonados e sem a devo\u00e7\u00e3o daqueles que t\u00eam a honra de os possuir na sua cidade. Olhava-se para a beleza do cofre raro como pe\u00e7a de museu e n\u00e3o se reparava no fulgor que ainda vem do seu \u00edntimo, rompendo a dureza do m\u00e1rmore, a lembrar virtude e santidade. A 15 de Janeiro de 1939, j\u00e1 em Aveiro se realizava a primeira grande peregrina\u00e7\u00e3o ao glorioso sepulcro de Santa Joana. Nessa altura, escreveu e disse o arcebispo:<\/p>\n<div style=\"width: 657px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page35.jpg\" alt=\"\" width=\"647\" height=\"900\" \/><p class=\"wp-caption-text\">D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal. Arcebispo-Bispo de Aveiro<\/p><\/div>\n<p>\u00abSeja como for, o que me incumbe desde j\u00e1, e ardentemente, \u00e9 procurar, quanto em mim caiba, n\u00e3o deixar cair este nome nas sombras do sil\u00eancio e do sono, \u00e9 limpar de uma primeira camada de poeira o manto da Santa Princesa; \u00e9 acender uma l\u00e2mpada \u00e0 beira do seu sepulcro; \u00e9 fazer ouvir, aos quatro lados do seu mausol\u00e9u, o murm\u00fario suave das preces e dos cora\u00e7\u00f5es dos fi\u00e9is; \u00e9 dizer \u00e0s aranhas e aos vermes, e a todos esses micr\u00f3bios que se valem do esquecimento e da noite para viverem: para fora daqui, parasitas; o corpo de uma Santa n\u00e3o \u00e9 pasto miser\u00e1vel para a vossa fome; para fora daqui, importunos, v\u00f3s n\u00e3o sois coroa para a fronte imaculada da Santa; dai-lhe lugar \u00e0 luz, \u00e0 luz refulgente do meio-dia; dai-lhe lugar \u00e0s flores, flores de fragr\u00e2ncia, flores ele brancura; dai-lhe lugar \u00e0 luz, \u00e0 luz das velas, brilhantes como estrelas do c\u00e9u; dai-lhe lugar ao incenso, que rola em espirais ao trono de Deus; dai-lhe lugar \u00e0s preces, ao doce sussurro das almas; dai-lhe lugar ao amor, que \u00e9 afinal a luz dos nossos olhos, a vida da nossa vida, a alma da nossa alma\u00bb.<\/p>\n<p>No mesmo ano, verificar-se-iam mais duas peregrina\u00e7\u00f5es ao t\u00famulo de Santa Joana: uma do arciprestado de Vagos, a 16 de julho de 1939;\u00a0outra, a 15 de Outubro, de \u00c1gueda e \u00edlhavo com suas freguesias. O povo, em grande n\u00famero, concentrou-se na Avenida nas T\u00edlias, no Parque. Celebrada a Missa, todos se dirigiram para a catedral e depois para a igreja de Jesus, em cortejos a que Aveiro n\u00e3o estava habituado.<\/p>\n<p>Ainda em 1939, a 9 de Novembro, iniciou-se a celebra\u00e7\u00e3o da Missa \u00e0s quintas-feiras, na mencionada igreja de Jesus, que se prolongou durante algum tempo. \u00a0Mais tarde, a partir de 5 de Novembro de 1950, dar-se-ia continua\u00e7\u00e3o ao culto nesse hist\u00f3rico templo, com a liturgia dominical; \u00a0continua a haver concorr\u00eancia de devotos que aproveitam essa ocasi\u00e3o para tamb\u00e9m prestarem venera\u00e7\u00e3o \u00e0 Princesa que, deixando a corte, escolheu a pobre vila de Aveiro e fez nela a sua \u00abLisboa a pequena\u00bb.<\/p>\n<div style=\"width: 910px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page36.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"510\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Semin\u00e1rio de Santa Joana Princesa<\/p><\/div>\n<p>Em Junho de 1940, sob a presid\u00eancia do cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Gon\u00e7alves Cerejeira, foram efectuadas invulgares festas em honra de Santa Joana, ainda como ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela restaura\u00e7\u00e3o da diocese de Aveiro. Depois da novena preparat\u00f3ria, \/ 36 \/realizou-se, na manh\u00e3 do dia 15, uma Missa campal no Parque, seguida de peregina\u00e7\u00e3o ao t\u00famulo; no dia 16, o cardeal patriarca celebrou Pontifical, segundo o rito joanino, e presidiu \u00e0 prociss\u00e3o; e, no dia imediato, houve um sarau de gala no Teatro Aveirense.<\/p>\n<p>A 24 de Agosto de 1941, terceiro anivers\u00e1rio da assinatura da bula pontif\u00edcia da reconstitui\u00e7\u00e3o do bispado, o prelado de Aveiro promoveu uma nova peregrina\u00e7\u00e3o diocesana, que se concentrou na igreja da Vera-Cruz e no largo fronteiri\u00e7o, dirigindo-se depois para o t\u00famulo.<\/p>\n<p>As festas de 1942, a 23 e 24 de Maio, tiveram uma circunst\u00e2ncia que as assinalou: \u00e9 que, no primeiro desses dias, na presen\u00e7a de autoridades e de muito povo, colocou-se oficialmente e solenemente se benzeu a primeira pedra do semin\u00e1rio diocesano de Aveiro, que tem o nome de Santa Joana.<\/p>\n<p>Em 1948, efectuaram-se as chamadas festas da cidade; tamb\u00e9m no programa foi inserida, a 23 de Maio, a festividade lit\u00fargica da Padroeira, com as cerim\u00f3nias do costume.\u00a0De igual forma em 1952 \u2013 ano do quinto centen\u00e1rio do seu nascimento \u2013 e em 1959 \u2013 ano do milen\u00e1rio de Aveiro \u00a0\u2013 incluiu-se a mesma festa nas da cidade, respectivamente a 11 de Maio e a 28 de Junho.<\/p>\n<p>O feriado municipal em Aveiro, desde 1951, \u00e9 o dia 12 de Maio, anivers\u00e1rio da morte de Santa Joana e seu dia lit\u00fargico; nele se tem celebrado anualmente a festa religiosa da Princesa, pelo menos com Missa solene e prociss\u00e3o, sob a presid\u00eancia do prelado diocesano.<\/p>\n<p>Em 1964, completados os vinte e cinco anos da sua nova exist\u00eancia, a diocese agradeceu, a 12 de Maio, os primeiro cinco lustros cravejados de favores de Deus e perfumados pela protec\u00e7\u00e3o da Padroeira. Na verdade, Santa Joana tem estado presente na piedade dos crentes, quer nas horas de grande regozijo como em 1938, quer nos momentos perturbantes de aflitiva inquieta\u00e7\u00e3o como nos princ\u00edpios do s\u00e9culo passado. A luz que lhe encheu os olhos \u00e9 a mesma que, com o ar salgado do oceano e da ria, a todos nos irmana.<\/p>\n<p>Decorreram com dignidade as cerim\u00f3nias habituais; nessas horas, todos estiveram presentes, mortos e vivos, os de perto e os de longe, a agradecer dons recebidos e a rogar novos favores. Ap\u00f3s o Pontifical da manh\u00e3, cantou-se \u00e0 tarde o <strong>te-deum<\/strong>, na presen\u00e7a das autoridades; Santa Joana foi piedosamente evocada. Sempre sob a presid\u00eancia de D. Manuel de Almeida Trindade, actual bispo de Aveiro, seguiu-se a prociss\u00e3o, entre o repique dos sinos, no meio de alas de povo, com aprumo, devo\u00e7\u00e3o e amor. Assim terminaria um dia grande para a cidade e para a diocese, que souberam ajoelhar diante de Deus em ora\u00e7\u00e3o reconhecida.<br \/>\n<strong>5 \u2013 Finalmente&#8230; Padroeira de Aveiro<\/strong><\/p>\n<p>A 21 de Junho de 1959, em documento p\u00fablico dirigido aos seus diocesanos, o bispo de Aveiro, D. Domingos da Apresenta\u00e7\u00e3o Fernandes, manifestava o desejo de impulsionar mais o culto da Princesa e de envidar os esfor\u00e7os para que fosse retomado o processo da \/ 37 \/sua canoniza\u00e7\u00e3o, suspenso desde os meados do s\u00e9culo XVIII; nesse sentido, nomeou uma comiss\u00e3o para tratar das quest\u00f5es referentes, de colabora\u00e7\u00e3o com o postulador da Ordem Dominicana. Criava ainda, na mesma data, a associa\u00e7\u00e3o dos <strong>Pagens de Santa Joana Princesa<\/strong>, destinada a jovens de ambos os sexos, com sede na igreja de Jesus,\u00a0onde tamb\u00e9m \u2013 canonicamente erecta j\u00e1 desde 1877 \u2013 existe a <strong>Real Irmandade de Santa Joana Princesa<\/strong>.<\/p>\n<div style=\"width: 622px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page37b.jpg\" alt=\"\" width=\"612\" height=\"900\" \/><p class=\"wp-caption-text\">D. Manuel de Almeida Trindade<\/p><\/div>\n<p>Em Aveiro, como se disse, \u00aba excelente Infanta e singular Princesa\u00bb \u00a0come\u00e7ou a ser considerada pelo povo como sua celestial Padroeira, a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, aquando das invas\u00f5es francesas. Todavia, a confirma\u00e7\u00e3o ou o reconhecimento da Santa S\u00e9 apenas se daria passado mais de s\u00e9culo e meio.<\/p>\n<p>Com efeito, a 17 de Julho de 1964, D. Manuel de Almeida Trindade dirigiu ao papa uma peti\u00e7\u00e3o, requerendo que Santa Joana, embora apenas beatificada, fosse daclarada Padroeira da cidade e da diocese de Aveiro, um vez que nunca havia sido reconhecida como tal.<\/p>\n<p>Ouvida a Sagrada Congrega\u00e7\u00e3o dos Ritos, Paulo VI assinava, a 5 de Janeiro de 1965, um breve em que determinava:<\/p>\n<p>\u00abN\u00f3s, portanto, de muito bom grado resolvemos atender ao pedido, no desejo de premiar condignamente t\u00e3o piedosa devo\u00e7\u00e3o popular. [&#8230;] Com conhecimento certo e prudente delibera\u00e7\u00e3o e pelo Nosso poder apost\u00f3lico, por este breve perpetuamente confirmamos ou constitu\u00edmos e declaramos a Bem-aventurada Joana, Princesa de Portugal, como principal Padroeira junto de Deus para a cidade e para toda a diocese de Aveiro, \/ 38 \/ com todos as honras anexas e privil\u00e9gios lit\u00fargicos que legalmente competem aos padroeiros principais dos lugares\u00bb.<\/p>\n<p>A 13 de Mar\u00e7o seguinte, o referido dicast\u00e9rio romano autorizava que, na diocese de Aveiro, a festa lit\u00fargica de Santa Joana, decorrente a 12 de Maio, fosse de segunda classe, com missa e of\u00edcio pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Em nota pastoral de 7 de Abril, D. Manuel de Almeida Trindade deu ent\u00e3o aos seus diocesanos a \u00abfeliz not\u00edcia\u00bb do bom termo das dilig\u00eancias efectuadas, depois de ter seriado resumidamente as manifesta\u00e7\u00f5es de culto \u00e0 volta da figura de Santa Joana e de haver aludido a trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o sobre a sua vida. O actual prelado de Aveiro tamb\u00e9m augurava: \u2013 &#8220;Oxal\u00e1 este facto venha despertar ainda mais, n\u00e3o s\u00f3 na cidade mas ainda em toda a diocese, a devo\u00e7\u00e3o a Santa Joana e em breve possamos ver conclu\u00eddo o processo da sua canoniza\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Na Assembleia Nacional, um dos deputados do distrito, o Dr. Belchior Cardoso da Costa, referiu-se ao jubiloso acontecimento na sua interven\u00e7\u00e3o de 23 de Abril. Num discurso cheio de pondera\u00e7\u00e3o falou da devo\u00e7\u00e3o dos povos de Aveiro a Santa Joana e dos predicados humanos e virtudes crist\u00e3s da Princesa e fez votos por que um dia se alcance a suprema glorifica\u00e7\u00e3o da Igreja para a Filha de D. Afonso V; \u00abpenso mesmo \u2013 disse \u2013 que caber\u00e1 bem aos nossos representantes oficiais junto da Santa S\u00e9 tomar partido por esta nobre causa e auxiliar o insigne prelado nos altos prop\u00f3sitos que o orientam e o dominam em mat\u00e9ria de tanta sublima\u00e7\u00e3o e da mais importante transcend\u00eancia para o progresso espiritual do nosso povo\u00bb.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a C\u00e2mara Municipal de Aveiro, representante autorizada das gentes da sua jurisdi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia faltar com o seu aplauso. Na reuni\u00e3o ordin\u00e1ria de 26 de Abril, aprovou por unanimidade a proposta do presidente, Dr. Artur Alves Moreira, para que se exarasse na respectiva acta \u00abum voto de congratula\u00e7\u00e3o e regozijo pelo facto de Sua Santidade o Papa Paulo VI [..,] ter constitu\u00eddo Santa Joana Princesa Padroeira principal da cidade e da diocese de Aveiro\u00bb e se formulasse \u00abo veemente desejo de que o processo da sua canoniza\u00e7\u00e3o se conclua o mais brevemente poss\u00edvel\u00bb.<\/p>\n<div style=\"width: 910px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.prof2000.pt\/users\/avcultur\/aveidistrito\/boletim07\/Imagens\/page38.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"611\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Aspecto de uma prociss\u00e3o de Santa Joana<\/p><\/div>\n<p>Falando da augusta Filha de D. Afonso V, escreveu o historiador Frei Lu\u00eds de Sousa: \u2013 \u00abE n\u00e3o ficaram s\u00f3 encerradas nos claustros do mosteiro as virtudes desta Senhora; passavam fora e chegava o zelo em que ardia da honra de Deus a procurar com efic\u00e1cia que \/ 39 \/ n\u00e3o houvesse na vila quem vivesse com esc\u00e2ndalo ou em mau estado; e, tendo not\u00edcia de algum, dava-lhe rem\u00e9dio com seu poder e cuidado\u00bb.<\/p>\n<p>Pois agora, volvidos cinco s\u00e9culos sobre a sua vida, pela mesma cidade que ela amou e por esta diocese marinha e lagunar continua a velar e a rezar junto de Deus a Princesa Real que piedosamente invocamos. Convencidos da verdade da sua f\u00e9, que sempre desejaram viver e transmitir, os nossos bispos t\u00eam procurado estimular a devo\u00e7\u00e3o a Santa Joana, como ajuda para todos no caminho do bem e no culto da virtude, de que ela \u00e9 modelo.<\/p>\n<p>Aveiro possui diversos luminares de primeiro plano em v\u00e1rios campos de actividade; tamb\u00e9m pode legitimamente orgulhar-se desta sua filha adoptiva que, trocando corajosamente o fausto da corte pela pobre vila de ent\u00e3o, escolheu a nossa terra para aqui viver com humildade e serenamente morrer.<\/p>\n<p>As gentes da beira-ria, no meio de quem a Princesa ficou sepultada, n\u00e3o querem ter as rel\u00edquias venerandas da sua Padroeira como simples objecto de frio museu, guardadas embora em carinho e cuidado; mais do que isso, desejam constantemente rode\u00e1-Ias com o incenso de religioso amor e com o murm\u00fario de \u00edntima prece. \u00c9 que as personagens her\u00f3icas do passado ser\u00e3o tanto mais \u00fateis no presente, quanto mais as inserirmos na vida de todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Joana nasceu em Lisboa, no Pa\u00e7o de Alc\u00e1\u00e7ova, a 6 de Fevereiro de 1452. 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Jo\u00e3o II, nem por isso o povo e os cronistas deixaram de a tratar por Princesa. \u00d3rf\u00e3 de m\u00e3e aos quatro anos, procurou sempre praticar a mais edificante virtude, apesar do fausto e do ambiente da corte; e assim foi crescendo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[20,18],"tags":[26,27,32,34,38],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}