{"id":472,"date":"2017-10-12T14:53:09","date_gmt":"2017-10-12T14:53:09","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/?page_id=472"},"modified":"2018-07-25T15:39:41","modified_gmt":"2018-07-25T15:39:41","slug":"carta-pastoral-e-programa-20172018","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/notas-pastorais\/carta-pastoral-e-programa-20172018\/","title":{"rendered":"Carta Pastoral e Programa 2017\/2018"},"content":{"rendered":"<h1><a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/carta-pastoral-e-programa-20172018\/untitled-2-724x1024\/\" rel=\"attachment wp-att-478\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-478 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Untitled-2-724x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"556\" height=\"786\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Untitled-2-724x1024.jpg 362w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Untitled-2-724x1024-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 556px) 100vw, 556px\" \/><\/a><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\">CARTA PASTORAL para o Programa Pastoral 2017-18<\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\">\u00a0<span style=\"color: #0000ff;\">Dai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00a0(Mc\u00a06, 37)<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p><strong>[1]<\/strong>\u00a0O nosso Plano Pastoral incidiu, no \u00faltimo tri\u00e9nio, nas virtudes teologais. A f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade caminham juntas. A f\u00e9 mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por n\u00f3s e assim gera em n\u00f3s a certeza vitoriosa desta grande verdade: Deus \u00e9 amor! Deste modo, ela transforma a nossa impaci\u00eancia e as nossas d\u00favidas em esperan\u00e7a segura de que Deus tem o mundo nas suas m\u00e3os e que, n\u00e3o obstante todas as trevas, Ele vence. A esperan\u00e7a manifesta-se praticamente nas virtudes da paci\u00eancia, que n\u00e3o esmorece no bem nem sequer diante de um aparente insucesso, e da humildade, que aceita o mist\u00e9rio de Deus e confia n\u2019Ele mesmo no meio da escurid\u00e3o. A f\u00e9, que toma consci\u00eancia do amor de Deus revelado no cora\u00e7\u00e3o trespassado de Jesus na cruz, suscita, por sua vez, o amor. Aquele amor divino \u00e9 a luz que ilumina incessantemente um mundo \u00e0s escuras e nos d\u00e1 a coragem de viver e agir. O amor\/caridade \u00e9 poss\u00edvel, e n\u00f3s somos capazes de o praticar, porque somos criados \u00e0 imagem de Deus. Somos capazes de viver a caridade e, deste modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo.<\/p>\n<p>Promover uma Igreja Diocesana que vive a caridade na alegria da miseric\u00f3rdia, consciente de que o exerc\u00edcio da caridade \u00e9 pr\u00f3prio do ser da Igreja e est\u00e1 alicer\u00e7ado no seguimento de Jesus \u00e9 o objetivo geral do programa pastoral 2017-2018, com o lema \u201cDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u201d (Mc\u00a06, 37).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>As ra\u00edzes b\u00edblicas da caridade crist\u00e3<\/h4>\n<p><strong>[2]<\/strong>\u00a0As leis contidas no Antigo Testamento apontam para as principais raz\u00f5es atrav\u00e9s das quais se indica que o amor a Deus se traduz em amor ao pr\u00f3ximo: s\u00e3o as raz\u00f5es da caridade.<\/p>\n<p>No livro do \u00caxodo afirma-se:\u00a0\u00abN\u00e3o usar\u00e1s de viol\u00eancia contra o estrangeiro residente nem o oprimir\u00e1s, porque foste estrangeiro residente na terra do Egito\u00bb (Ex 22,20). \u00abSe penhorares o manto do teu pr\u00f3ximo, devolver-lho-\u00e1s at\u00e9 ao p\u00f4r-do-sol, porque a capa \u00e9 tudo o que ele tem para cobrir a pele. Com que \u00e9 que ele se deitaria? E se vier a clamar a mim, ouvi-lo-ei, porque Eu sou misericordioso\u00bb\u00a0(Ex\u00a022,25-26).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong>\u00a0No Novo Testamento as leis ganham nova dimens\u00e3o. Estas leis resumem-se a um \u00fanico preceito: \u201cAmar\u00e1s ao teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d (Gl\u00a05,14). O cap\u00edtulo 25 do evangelho segundo S\u00e3o Mateus tem uma das p\u00e1ginas mais belas do amor ao pr\u00f3ximo, quando Jesus se identifica com aqueles que passam qualquer necessidade: \u00abSempre que fizestes isto a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes\u00bb (Mt\u00a025,40). Esta novidade de Jesus constituiu uma profunda mudan\u00e7a no que diz respeito \u00e0 visibilidade, efic\u00e1cia e atualiza\u00e7\u00e3o da caridade.<\/p>\n<p>O evangelho segundo S. Jo\u00e3o (Jo\u00a013,1-20), conforme o documento do nosso Plano Diocesano de Pastoral (anexo 4), apresenta a cena do lava-p\u00e9s como sendo a imagem mais perfeita da caridade crist\u00e3. Jesus cinge-se com uma toalha para realizar o grande e humilde gesto da lavagem dos p\u00e9s aos seus disc\u00edpulos. O ato de \u201clavar os p\u00e9s\u201d era comum no Antigo Oriente para honrar um h\u00f3spede que viera por caminhos poeirentos. Este gesto fazia parte da hospitalidade. Como sinal de carinho, podia ser feito pelos filhos ou pela esposa ou, como manifesta\u00e7\u00e3o de dedica\u00e7\u00e3o, pelo pr\u00f3prio anfitri\u00e3o, mas normalmente era feito por algum escravo. Por\u00e9m, era um gesto t\u00e3o humilhante que um judeu, reduzido \u00e0 escravid\u00e3o, devia recusar-se a fazer para n\u00e3o desonrar o seu povo. Mas Jesus lava os p\u00e9s aos disc\u00edpulos. A toalha ou o avental \u00e9 o s\u00edmbolo do servi\u00e7o ao irm\u00e3o. O servi\u00e7o ao irm\u00e3o \u00e9 o distintivo que o crist\u00e3o jamais pode depor, pois a todo o momento pode haver algu\u00e9m que precise do seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[4]<\/strong>\u00a0O ensino de Jesus revela-se particularmente eficaz porque parte dum exemplo concreto de servi\u00e7o humilde prestado por aquele que \u00e9 o Senhor. Se o Filho de Deus se baixou tanto por amor aos seus disc\u00edpulos, naturalmente estes devem servir uns aos outros.<\/p>\n<p>Jesus deu um exemplo que os seus irm\u00e3os devem imitar: amar como Jesus os amou e prestar servi\u00e7os humildes \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do seu Mestre e Senhor. \u00c9 a coer\u00eancia pastoral, fruto da alian\u00e7a do dizer com o fazer. Continuar as a\u00e7\u00f5es de Cristo n\u00e3o \u00e9 repetir ritos mas atitudes: amor e servi\u00e7o. O amor sincero e o servi\u00e7o alegre, ao estilo de Jesus, h\u00e3o de ser o modo de presen\u00e7a de cada um neste mundo: despir, tornar-se escravo, p\u00f4r o avental, servir. Contra toda a l\u00f3gica humana, Jesus garante \u00e0queles que confiam na sua proposta: \u201cSereis felizes\u201d. Esta \u00e9 a surpresa: o dom de si mesmo \u00e9 o \u00fanico caminho que leva \u00e0 alegria. Felizes os que perfumam os caminhos com a virtude da caridade!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Mais caridade nas m\u00e3os<\/h4>\n<p><strong>[5]<\/strong>\u00a0O exerc\u00edcio da caridade \u00e9 constitutivo do ser e da miss\u00e3o da Igreja. A Igreja nasce da caridade e vive na caridade. Refletir sobre a caridade \u00e9 entrar no cora\u00e7\u00e3o da vida crist\u00e3. \u00abPara a Igreja, a caridade n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de atividade de assist\u00eancia social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence \u00e0 sua natureza, \u00e9 express\u00e3o irrenunci\u00e1vel da sua pr\u00f3pria ess\u00eancia\u00bb (Deus caritas est\u00a025). \u201cAgora, permanecem estas tr\u00eas coisas: a f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade. Mas a maior de todas \u00e9 a caridade\u201d (1Cor13,13).<\/p>\n<p>A caridade representa o maior mandamento social; \u00e9 o servi\u00e7o que tem de prestar toda a pessoa humana, tal como refere S\u00e3o Camilo de Lellis, traduzido no lema \u201cMais caridade nas m\u00e3os\u201d. N\u00e3o h\u00e1 duvida que das m\u00e3os irradiam prodigiosos milagres. Assim como Deus \u00e9 louvado pelos monges com o canto e com a voz, assim tamb\u00e9m \u00e9 louvado por todos aqueles que com as m\u00e3os realizam obras de miseric\u00f3rdia para com o pr\u00f3ximo. Todos os homens, incluindo os n\u00e3o crist\u00e3os, se encontram perante um \u2018tu\u2019 humano ao qual t\u00eam de dizer: acolho-te, compreendo-te, ajudo-te\u2026 Todos seremos julgados pelo amor. Contudo, o que os crentes est\u00e3o chamados a manter vivo \u00e9 a consci\u00eancia de que o Senhor \u00e9 a fonte de todo o amor: Ele torna vis\u00edvel, em forma humana, o amor de Deus.<\/p>\n<p>Os pobres foram parte integrante do minist\u00e9rio de Jesus: viveu toda a sua vida p\u00fablica a fazer-se pr\u00f3ximo dos leprosos, dos possessos, dos que viviam mergulhados na mis\u00e9ria, dos sem-abrigo, dos que eram desprezados pela sociedade. Ele veio ao mundo para responder ao grito dos pobres e dos exclu\u00eddos da sociedade, chegando mesmo a identificar-se com eles, \u201csendo rico, fez-se pobre\u201d (2Cor 8,9). Jesus\u00a0sofria com a rejei\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m (cf.\u00a0Mt\u00a023,37) e, por esta situa\u00e7\u00e3o, chorou (cf.\u00a0Lc\u00a019,41). Compadecia-Se tamb\u00e9m \u00e0 vista da multid\u00e3o atribulada (cf.\u00a0Mc\u00a06, 34). Vendo os outros a chorar, comovia-se e turbava-se (cf.\u00a0Jo\u00a011, 33), e Ele mesmo chorou pela morte de um amigo (cf.\u00a0Jo\u00a011,35). Estas manifesta\u00e7\u00f5es da sua sensibilidade mostram at\u00e9 que ponto estava aberto aos outros o seu cora\u00e7\u00e3o humano\u00bb (AL\u00a0144). A sua dor \u00e9 uma dor de amor. Por sua vez, aquele que recebe a compaix\u00e3o de Deus, deve manifest\u00e1-la para com o seu semelhante em atos concretos, pois s\u00f3 assim p\u00f5e em pr\u00e1tica a vontade de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[6]<\/strong>\u00a0Para Jesus, a pobreza n\u00e3o \u00e9 um ideal. A pobreza \u00e9 um mal enquanto car\u00eancia, enquanto significa desigualdade, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma virtude enquanto testemunho de vida. Os pobres e os marginalizados s\u00e3o privilegiados n\u00e3o porque sejam mais virtuosos ou piedosos, mas porque s\u00e3o \u201cherdeiros do Reino\u201d (Mt\u00a05,3). Viver a virtude da pobreza significa um posicionar-se perante a vida, empenhar-se em confiar infinitamente em Deus, apoiando-se nele, viver decididamente para os outros, partilhando tudo o que se \u00e9 e tudo o que se tem.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres est\u00e1, pois, impl\u00edcita no Cristo que se fez pobre por n\u00f3s, para nos enriquecer com a sua pobreza. Chega at\u00e9 ao desprendimento total, pondo essa disponibilidade ao servi\u00e7o dos valores do Reino. \u00abSe queres ser perfeito, vai, vende todos os teus bens e d\u00e1 aos pobres, e ter\u00e1s um tesouro nos c\u00e9us. Depois, vem e segue-me\u00bb (Mt\u00a019,21). O papa Francisco, reafirmando a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, exorta-nos ao compromisso dum amor ativo e concreto a cada ser humano. Se verdadeiramente partimos da contempla\u00e7\u00e3o de Cristo, devemos saber v\u00ea-lo no rosto daqueles com quem Ele mesmo quis identificar-se: \u00abN\u00e3o percamos tempo a imaginar os pobres do futuro, \u00e9 suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos t\u00eam para viver nesta terra e n\u00e3o podem continuar a esperar. Por isso, para al\u00e9m de uma leal solidariedade entre as gera\u00e7\u00f5es, h\u00e1 que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indiv\u00edduos da mesma gera\u00e7\u00e3o\u00bb (LS 162).<\/p>\n<p>A caridade de Jesus, enraizada no amor do Pai, \u00e9, portanto, a norma, a fonte e a medida da caridade da Igreja. Viv\u00ea-la sup\u00f5e uma reorienta\u00e7\u00e3o da vida e da a\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s, das nossas comunidades crist\u00e3s e movimentos apost\u00f3licos, numa palavra, de toda a nossa igreja diocesana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Reino de Deus, justi\u00e7a social e caridade crist\u00e3<\/h4>\n<p><strong>[7]<\/strong>\u00a0Os valores deste reino s\u00e3o os que suplantam as duas t\u00fanicas, os alforges e as provis\u00f5es. Para construir este Reino, Cristo n\u00e3o tinha onde repousar a cabe\u00e7a (cf.\u00a0Lc\u00a09,58). Os pobres, como referem as bem-aventuran\u00e7as, n\u00e3o fazem deste mundo o seu reino. O Reino de Deus \u00e9-lhes espec\u00edfico; acolhe preferencialmente os pobres.<\/p>\n<p>Jesus aponta-nos um caminho. Para ingressar no Reino \u00e9 necess\u00e1rio ter uma vida de coer\u00eancia com a Palavra de Deus e com as propostas de Jesus. \u00c9 preciso fazer a vontade do Pai. Toda a vida de Jesus \u00e9 um cont\u00ednuo viver para que todos tenham vida e vida em abund\u00e2ncia, para que sejamos livres e respons\u00e1veis, para que sejamos felizes e fa\u00e7amos os outros felizes. Sempre que se encontra com situa\u00e7\u00f5es humanas de necessidade corta-se-lhe a alma e comove-se profundamente, a ponto de que a sua imensa bondade interv\u00e9m como sinal da presen\u00e7a e vontade vivificadora de Deus. Quando essas situa\u00e7\u00f5es de necessidade s\u00e3o fruto da injusti\u00e7a dos homens, \u00e0 compaix\u00e3o acrescenta-se a indigna\u00e7\u00e3o, e a sua voz p\u00f5e em evid\u00eancia a perversidade e clama verdade e justi\u00e7a, para que muitos se deem conta da realidade e se levantem.<\/p>\n<p>Refere o\u00a0Comp\u00eandio do Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica\u00a0que \u00aba caridade \u00e9 a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao pr\u00f3ximo como a n\u00f3s mesmos por amor de Deus. Jesus faz dela o mandamento novo, a plenitude da lei. A caridade \u00e9 \u201co v\u00ednculo da perfei\u00e7\u00e3o\u201d (Col 3,14) e o fundamento das outras virtudes, que ela anima, inspira e ordena: sem ela \u201cn\u00e3o sou nada\u201d e \u201cnada me aproveita\u201d (1Cor\u00a013,1-3) \u2013 (CCE\u00a0388).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[8]<\/strong>\u00a0As raz\u00f5es da caridade e da justi\u00e7a encontram-se, portanto, na vontade de Deus e no cora\u00e7\u00e3o do homem, e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sintetizam-se na pessoa de Jesus Cristo. N\u00e3o existe outro atributo divino que a Sagrada Escritura mais enalte\u00e7a do que a sua miseric\u00f3rdia. A miseric\u00f3rdia \u00e9, sem d\u00favida alguma, a nota mais caracter\u00edstica do Deus de Israel, que se relaciona com o seu povo, como um pai o faz com os seus filhos: \u00abComo um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Na verdade, Ele sabe de que somos formados; n\u00e3o se esquece de que somos p\u00f3 da terra\u00bb (Sl103,13-14).<\/p>\n<p>Falar da caridade significa falar tamb\u00e9m da justi\u00e7a; A caridade tem na justi\u00e7a a sua express\u00e3o social. O amor pelo homem e, em particular, pelo pobre, no qual a Igreja v\u00ea Cristo, concretiza-se na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. A justi\u00e7a consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao pr\u00f3ximo o que lhes \u00e9 devido; mostra-se particularmente importante quando a pessoa, na sua dignidade e direitos, \u00e9 amea\u00e7ada pelo recurso exclusivo aos crit\u00e9rios da utilidade e do ter; o que \u00e9 \u2018justo\u2019 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano; a justi\u00e7a, sozinha, n\u00e3o basta, e pode mesmo chegar a negar-se a si pr\u00f3pria se n\u00e3o se abrir \u00e0quela for\u00e7a mais profunda, que \u00e9 o amor. \u00abSe a vossa justi\u00e7a n\u00e3o superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, n\u00e3o entrareis no Reino do C\u00e9u\u00bb (Mt\u00a05,20). S\u00f3 o amor faz sentir como pr\u00f3prias as car\u00eancias e as exig\u00eancias alheias e torna mais intensas a comunh\u00e3o dos valores espirituais e a solicitude pelas necessidades materiais. Assim, justi\u00e7a social e caridade crist\u00e3 n\u00e3o se excluem, mas antes asseguram a exist\u00eancia qualificada da sociedade humana. A caridade exige a justi\u00e7a como base, pressup\u00f5e e transcende a justi\u00e7a. S\u00f3 assim podemos construir o bem comum porque ele \u00abpressup\u00f5e o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalien\u00e1veis orientados para o seu desenvolvimento integral\u00bb (LS\u00a0157) \u00c9 uma obriga\u00e7\u00e3o que prov\u00e9m do mandamento de Deus, mas \u00e9 tamb\u00e9m um desejo que habita no cora\u00e7\u00e3o do homem. \u00abO dever imediato de trabalhar por uma ordem justa na sociedade \u00e9 pr\u00f3prio dos fi\u00e9is leigos\u00bb (Deus caritas est\u00a029).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[9]<\/strong>\u00a0A \u2018santidade\u2019 que o Senhor exige n\u00e3o se manifesta em formas de religiosidade externa, mas no amor, gratuito e desinteressado, ao irm\u00e3o:\u00a0\u201cQuem n\u00e3o ama o pr\u00f3prio irm\u00e3o que v\u00ea, n\u00e3o pode amar Deus que n\u00e3o v\u00ea\u201d (1Jo\u00a04,20).\u00a0Os disc\u00edpulos de Jesus n\u00e3o s\u00e3o os deposit\u00e1rios de uma doutrina, ou de uma ideologia, ou os observadores de leis, ou os fi\u00e9is cumpridores de ritos, mas aqueles que, pelo amor m\u00fatuo, s\u00e3o um sinal vivo do Deus que ama. O amor de que Jesus nos fala \u00e9 o amor que \u00e9 paciente, que acolhe, que se torna servi\u00e7o, que respeita a dignidade e a liberdade do outro, que n\u00e3o discrimina nem marginaliza, mas que se faz dom total, at\u00e9 \u00e0 morte, para que o outro viva e seja feliz. Sendo Deus\u00a0\u201cassumiu a condi\u00e7\u00e3o de servo\u201d (Flp\u00a02,5-8).<\/p>\n<p>O servi\u00e7o como pr\u00e1tica do amor p\u00f5e em movimento o que existe de melhor na pessoa, tanto a que ama como a que \u00e9 amada: \u201cNingu\u00e9m tem maior amor do que aquele que d\u00e1 a vida pelos seus amigos\u201d (Jo\u00a015,13). Este \u00e9 o servi\u00e7o supremo. A verdadeira dignidade do homem reside na entrega aos outros. S\u00f3 o amor redime a pessoa e transforma a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>A caridade pastoral une o amor a Deus e o amor ao pr\u00f3ximo<\/h4>\n<p><strong>[10]<\/strong>\u00a0Numa sociedade individualista e insatisfeita, mas cheia de anseios e de procuras, cada vez mais \u00e9 oportuno e necess\u00e1rio implementar a cultura da proximidade: estar com e estar para. \u00c0 pergunta caprichosa do doutor da Lei\u00a0\u2018Quem \u00e9 o pr\u00f3ximo?\u2018 Jesus responde contando a par\u00e1bola do samaritano (cf. Lc\u00a010,29-37). Relatou a hist\u00f3ria de um homem ferido, espancado e deixado meio morto, e de algumas pessoas que passaram ao seu lado: algumas que foram passando para o outro lado do caminho e uma que se aproximou.<\/p>\n<p>A dor do homem ferido atinge profundamente o samaritano. Fazendo-se pr\u00f3ximo do ferido, o samaritano faz-se pr\u00f3ximo tamb\u00e9m da sua pr\u00f3pria dor, faz-se pr\u00f3ximo de si mesmo.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo \u00e9 aquele que aceita ver e escutar. Fa\u00e7o-me pr\u00f3ximo quando aceito ver o outro na sua necessidade. Nesta par\u00e1bola prop\u00f5em-se tr\u00eas passos para realizar o amor misericordioso: ver, ter compaix\u00e3o e agir. Ver o outro \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial para fazer-se seu pr\u00f3ximo: Viu-o e teve compaix\u00e3o. A proximidade n\u00e3o \u00e9 um estado, mas uma a\u00e7\u00e3o. O samaritano aceita ver e ouvir a dor do outro, at\u00e9 fazer ressoar em si a voz do sofrimento do outro \u2013 este \u00e9 o modo de ouvir de Deus. Dizem os evangelistas que quando Jesus encontra um leproso (Mc\u00a01,41) ou a vi\u00fava de Naim (Lc\u00a07,13), ou quando v\u00ea as multid\u00f5es que andam \u00e0 sua procura (Mc\u00a06,34), sente compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[11]<\/strong>\u00a0A atitude para com o pr\u00f3ximo n\u00e3o pode ter outros contornos que n\u00e3o sejam os do amor, que se mostra sempre insatisfeito. A nossa tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 amar aqueles que o merecem, fazer o bem a quem nos corresponde\u2026 Contudo, amar a todos \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para sermos disc\u00edpulos de Jesus. Se o nosso olhar para o mundo for n\u00e3o apenas compassivo e cr\u00edtico, mas de nos questionarmos e nos compadecermos com as reais situa\u00e7\u00f5es, estaremos dispostos a denunciar as causas da injusti\u00e7a. O pr\u00f3prio Jesus confronta-se com esta realidade: \u00abAi de v\u00f3s, tamb\u00e9m, doutores da lei, porque carregais os homens com fardos insuport\u00e1veis e nem sequer com um dedo tocais nesses fardos!\u00bb (Lc\u00a011,46).<\/p>\n<p>O preceito \u201cAmar\u00e1s ao teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d (Gl\u00a05,14) \u00e9 uma s\u00edntese da vida de Jesus e um estatuto da comunidade crist\u00e3 para concretizar o projeto de Deus: um amor sem limites (Jo\u00a013,1), at\u00e9 lavar os p\u00e9s e dar a vida pelos outros. O amor rec\u00edproco \u00e9 sinal da presen\u00e7a de Jesus na comunidade crist\u00e3. Este amor concretiza-se atrav\u00e9s da defesa dos necessitados e desprotegidos: estrangeiros, vi\u00favas, \u00f3rf\u00e3os, endividados, pobres (cf.\u00a0Ex\u00a022,20-26). O amor crist\u00e3o tem duas faces insepar\u00e1veis: faz brotar e crescer a comunh\u00e3o fraterna entre os que acolheram a Palavra do Evangelho e leva ao servi\u00e7o dos pobres, ao cuidado para com os sofredores, ao socorro, sem discrimina\u00e7\u00e3o, de todos os que precisam (cf.\u00a0At\u00a03,1-9; 6,1-6; 9,36-42; 20,33-35). Se verdadeiramente partimos da contempla\u00e7\u00e3o de Cristo, devemos saber v\u00ea-lo no rosto daqueles com quem Ele mesmo quis identificar-se: \u00abTive fome e destes-me de comer\u2026\u00bb (Mt\u00a025,35-46).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[12]<\/strong>\u00a0As ofensas \u00e0 humanidade do homem s\u00e3o ofensas dirigidas a Deus. E o sofrimento do outro \u00e9 tamb\u00e9m o meu. Nenhuma comunidade ter\u00e1 uma palavra a dizer ao mundo se n\u00e3o \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s necessidades e dramas da humanidade: a fome, a mis\u00e9ria, as v\u00edtimas da viol\u00eancia, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, as necessidades dos migrantes e refugiados, entre outros. A cultura do bem-estar, por vezes, anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade em prol dos outros. \u00abO modo de nos relacionarmos com os outros, que em vez de nos adoecer nos cura, \u00e9 uma fraternidade m\u00edstica, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do pr\u00f3ximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as mol\u00e9stias da conviv\u00eancia agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o cora\u00e7\u00e3o ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom\u00bb (EG\u00a092).<\/p>\n<p>A caridade \u00e9 a forma, o princ\u00edpio unificador de toda a a\u00e7\u00e3o pastoral. Urge redescobrir que s\u00f3 a presen\u00e7a real do outro nos torna humanos e que s\u00f3 o contacto com os outros nos coloca tamb\u00e9m em contacto com n\u00f3s mesmos e com Deus. Perante os v\u00e1rios tipos de pobreza e de fragilidade, e nos quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor, o crist\u00e3o n\u00e3o pode ficar indiferente. \u00abFechar os olhos ao pr\u00f3ximo torna-nos cegos diante de Deus!\u00bb (Deus caritas est\u00a016).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Onde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[13]<\/strong>\u00a0Os pobres desafiam o trabalho da Igreja, da pastoral e das nossas atitudes crist\u00e3s. O servi\u00e7o no amor \u00e9 o cerne da proposta de Jesus e a primeira exig\u00eancia da comunidade crist\u00e3. \u00abTal como Cristo consumou a reden\u00e7\u00e3o na pobreza e na persegui\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m a Igreja, para poder comunicar aos homens os frutos da salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 chamada a seguir o mesmo caminho. Cristo Jesus, \u201capesar da sua condi\u00e7\u00e3o divina\u2026, despojou-se da sua categoria e tomou a condi\u00e7\u00e3o de escravo\u201d (Fil\u00a02,6) e \u201cpor n\u00f3s sendo rico, fez-se pobre\u201d (2Cor\u00a08,9); assim a Igreja, que precisa de recursos humanos para cumprir a sua miss\u00e3o, n\u00e3o foi constitu\u00edda para buscar a gl\u00f3ria deste mundo, mas para pregar, com o seu exemplo, a humildade e a abnega\u00e7\u00e3o. Cristo foi enviado pelo Pai para anunciar a boa nova aos pobres e levantar os oprimidos\u00a0(Lc 4,18),\u00a0\u201cpara buscar e salvar o que estava perdido\u201d (Lc\u00a019,10); de modo semelhante, a Igreja ama todos os angustiados pelo sofrimento humano, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu fundador, pobre e sofredor, esfor\u00e7a-se por lhes aliviar a indig\u00eancia e neles deseja servir a Cristo\u00bb (LG\u00a08).<\/p>\n<p>A Igreja, que est\u00e1 no mundo para dar continuidade \u00e0 miss\u00e3o de Jesus, est\u00e1 no mundo atrav\u00e9s dos crist\u00e3os, das suas estruturas, e \u201cpartilha com todos alegrias e esperan\u00e7as, tristezas e ang\u00fastias\u201d (GS\u00a01). Nesta comunh\u00e3o encontra-se o futuro da humanidade. A Igreja tem, pois, a responsabilidade hist\u00f3rica da narra\u00e7\u00e3o da caridade: \u00e9 no aqui e agora que ganha concretiza\u00e7\u00e3o, assume corpo de resposta aos desafios pr\u00f3prios do tempo e do lugar. A caridade crist\u00e3, que manifesta e mostra que \u201cDeus \u00e9 Amor\u201d (1Jo\u00a04,16) \u00e9, em primeiro lugar, a resposta \u00e0quilo que, numa determinada situa\u00e7\u00e3o, constitui a necessidade imediata: as obras de miseric\u00f3rdia. Se Deus \u00e9 amor, o amor deve estar sempre presente na vida dos filhos de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[14]<\/strong>\u00a0Uma Igreja que n\u00e3o esteja preocupada com ser o centro, mas uma Igreja pobre para os pobres \u00e9 o grande apelo que o papa Francisco faz a toda a Igreja \u00abN\u00e3o quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsess\u00f5es e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consci\u00eancia \u00e9 que haja tantos irm\u00e3os nossos que vivem sem a for\u00e7a, a luz e a consola\u00e7\u00e3o da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de f\u00e9 que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida\u00bb (EG\u00a049). Todos s\u00e3o chamados a esta tarefa que est\u00e1 incrustada na pr\u00f3pria ess\u00eancia de ser Igreja. \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (Mc\u00a06,37) \u2013 repete-nos Jesus sem cessar. A caridade, na comunidade eclesial, n\u00e3o est\u00e1 pendente da exist\u00eancia de empobrecidos e de marginalizados no seu seio. Ela faz parte constitutiva da ess\u00eancia crist\u00e3 e isto implica que deva estar presente em todas as nossas estruturas e prioridades pastorais (cf. Programa Pastoral 2017-2018, Introdu\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>\u00c9 dever fundamental do povo de Deus assumir a miss\u00e3o de ir ao encontro dos outros para lhes restituir a vida, a alegria. \u00abA Igreja \u2018em sa\u00edda\u2019 \u00e9 uma Igreja com as portas abertas. Sair em dire\u00e7\u00e3o aos outros para chegar \u00e0s periferias humanas\u2026\u00bb (EG\u00a046). \u00c9 not\u00f3ria a contribui\u00e7\u00e3o da Igreja no mundo atual, mas ainda \u00e9 vis\u00edvel a falta de cuidado pastoral pelos mais pobres, a inexist\u00eancia dum acolhimento cordial nas nossas institui\u00e7\u00f5es, e a dificuldade que sentimos em desenvolver uma experi\u00eancia pessoal e comunit\u00e1ria da f\u00e9 num cen\u00e1rio religioso pluralista e de indiferen\u00e7a religiosa. O homem de hoje, \u00e1vido de possuir e centrado na sua autossufici\u00eancia, p\u00f4s o seu cora\u00e7\u00e3o no ef\u00e9mero, no transit\u00f3rio e relativo, mostrando-se individualista e radicalmente insatisfeito, agarrado a seguran\u00e7as econ\u00f3micas ou a espa\u00e7os de poder e de gl\u00f3ria humana que busca por qualquer meio \u2013 valores que n\u00e3o enchem o cora\u00e7\u00e3o e nem s\u00e3o a resposta que Deus espera de n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[15]<\/strong>\u00a0Tanto os pastores como os religiosos e todos os fi\u00e9is leigos s\u00e3o chamados \u00e0 caridade, a fazer a vontade de Deus e a seguir Cristo, fazendo com que a todos chegue a consola\u00e7\u00e3o, a palavra amiga e o est\u00edmulo do amor salv\u00edfico de Deus. \u00abToda a atividade, toda a situa\u00e7\u00e3o, todo o compromisso \u2013 como, por exemplo, a compet\u00eancia e a solidariedade no trabalho, o amor e a dedica\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia e na educa\u00e7\u00e3o dos filhos, o servi\u00e7o social e pol\u00edtico, a proposta da verdade na esfera da cultura \u2013 s\u00e3o ocasi\u00f5es providenciais de um cont\u00ednuo exerc\u00edcio da f\u00e9, da esperan\u00e7a e da caridade\u00bb (CfL\u00a059). A virtude que orienta e anima a vida espiritual do presb\u00edtero, enquanto configurado a Cristo Cabe\u00e7a e Pastor, \u00e9 a\u00a0caridade pastoral. O\u00a0fazei isto em mem\u00f3ria de mim\u00a0significa \u201clevar at\u00e9 ao extremo o amor pelos irm\u00e3os\u201d (Jo\u00a013,1), isto \u00e9, lavar-lhes os p\u00e9s e \u201cficar feliz por faz\u00ea-lo\u201d (Jo\u00a013,17). \u00abPela miseric\u00f3rdia de Deus suplico-vos\u2026 que n\u00e3o vos conformeis com este mundo, mas deixai-vos transformar pela nova mentalidade, para serdes capazes de discernir o que \u00e9 vontade de Deus, o bom, agrad\u00e1vel e perfeito\u00bb (Rm\u00a012,1-2).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[16]<\/strong>\u00a0A caridade n\u00e3o \u00e9 um mero sentimento; haurindo da Sagrada Escritura, em cada lugar e momento da hist\u00f3ria, \u00e9 preciso abrir caminhos e dar respostas din\u00e2micas \u00e0s realidades temporais: sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, aten\u00e7\u00e3o \u00e0s novas formas de pobreza\u2026. Ser misericordiosos com os pobres \u00e9 o convite a um \u00eaxodo que consiste em sair de n\u00f3s mesmos para ir ao encontro do outro; em deixar para segundo plano a procura da seguran\u00e7a e do conforto para nos abrirmos ao acolhimento. \u00abVai e faz tu tamb\u00e9m o mesmo\u00bb (Lc\u00a010,37) \u2014 diz Jesus Cristo ao doutor da Lei. Assim, os disc\u00edpulos ficam a conhecer a vontade de Deus, seguindo as pegadas de Jesus Cristo e aprendendo com Ele, que \u00e9 \u00abmanso e humilde de cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Mt\u00a011,29).<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode sentir-se demitido da preocupa\u00e7\u00e3o pelos pobres e pela justi\u00e7a social. Responsabilidade pessoal e respostas institucionais organizadas s\u00e3o duas exig\u00eancias decorrentes da caridade que devem caminhar a par. Todos temos o dever, iluminados pela f\u00e9, de contribuir para que a comunidade eclesial e a sociedade em geral se compade\u00e7am com a situa\u00e7\u00e3o de todos os que sofrem, conhe\u00e7am as causas e as consequ\u00eancias que da\u00ed decorrem, para buscar caminhos de realiza\u00e7\u00e3o e a igualdade de todos os cidad\u00e3os, seja qual for a condi\u00e7\u00e3o, a f\u00e9 ou a \u00e9tica a que perten\u00e7am; pelo que h\u00e1 necessidade de revigorar a solidariedade, perspetivar alternativas, criar horizontes, imaginar possibilidades e criar estruturas que consolidem a ordem social, pol\u00edtica e econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[17]<\/strong>\u00a0\u201cN\u00e3o amemos com palavras e com a l\u00edngua, mas com obras e em verdade\u201d (1Jo\u00a03,18). H\u00e1 efetivamente muitas pessoas e necessidades a precisar de uma resposta, sem esquecer que \u00e0 pobreza material se acrescentam tamb\u00e9m numerosas formas de pobreza moral, cultural, espiritual e religiosa. \u00c9 nosso dever crist\u00e3o apoiar e confortar os que necessitam; estar ao lado deles, tornando esses momentos mais amenos, revigorando-os na f\u00e9. O papa Francisco sugere a cria\u00e7\u00e3o de uma nova mentalidade, de uma nova cultura, que supere o individualismo\u2026 (EG\u00a0188) e diz: \u00abSomos chamados a descobrir Cristo neles: n\u00e3o s\u00f3 a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas tamb\u00e9m a ser seus amigos, a escut\u00e1-los, a compreend\u00ea-los e a acolher a sua sabedoria\u00bb (EG\u00a0198). Jesus, que lavou os p\u00e9s aos seus disc\u00edpulos, convida-nos a segui-lo e a viver em atitude de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Eucaristia e Caridade<\/h3>\n<h4>A Eucaristia, mist\u00e9rio oferecido a todos e por todos<\/h4>\n<p><strong>[18]<\/strong>\u00a0No\u00a0Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, l\u00ea-se: \u00abTendo amado os seus, o Senhor amou-os at\u00e9 ao fim. Sabendo que era chegada a hora de partir deste mundo para regressar ao Pai, no decorrer duma refei\u00e7\u00e3o, lavou-lhes os p\u00e9s e deu-lhes o mandamento do amor (cf. Jo 13,1-17). Para lhes deixar uma garantia deste amor, para ficar sempre junto dos seus e os tornar participantes da sua P\u00e1scoa, instituiu a Eucaristia como memorial da sua morte e da sua ressurrei\u00e7\u00e3o, e ordenou aos Ap\u00f3stolos que a celebrassem at\u00e9 ao seu regresso, \u00abconstituindo-os, ent\u00e3o, sacerdotes do Novo Testamento\u00bb (CCE\u00a01337).<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que \u00e9 a Eucaristia que faz a Igreja, tamb\u00e9m tem import\u00e2ncia o princ\u00edpio \u201ca Igreja faz a Eucaristia\u201d. A Eucaristia \u00e9 Cristo que Se d\u00e1 a n\u00f3s, edificando-nos continuamente como seu corpo. Esta aparece na raiz da Igreja como mist\u00e9rio de comunh\u00e3o. \u00abNa sant\u00edssima Eucaristia est\u00e1 contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto \u00e9, o pr\u00f3prio Cristo, a nossa P\u00e1scoa e o p\u00e3o vivo que d\u00e1 aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Esp\u00edrito Santo: assim s\u00e3o eles convidados e levados a oferecer, juntamente com Ele, a si mesmos, os seus trabalhos e todas as coisas criadas\u00bb (Sacramentum Caritatis 16).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[19]<\/strong>\u00a0A Igreja vive continuamente da Eucaristia. Uma vez que Jesus se retirou, come\u00e7am a atuar os disc\u00edpulos \u2013 a nova comunidade. Por meio deles, Jesus distribui o p\u00e3o \u00e0 multid\u00e3o. \u00abA Igreja recebe a Eucaristia de Cristo, seu Senhor, n\u00e3o s\u00f3 como um dom entre muitos, ainda que valioso, mas como o dom por excel\u00eancia, porque \u00e9 o dom de si mesmo, da sua pessoa na sua santa humanidade, assim como da sua obra de salva\u00e7\u00e3o\u00bb (Jo\u00e3o Paulo II,\u00a0A Igreja vive da Eucaristia, 11). A Eucaristia \u00e9 o testemunho da caridade infinita.<\/p>\n<p>A caridade pastoral nasce da Eucaristia e nela encontra a sua mais alta realiza\u00e7\u00e3o.\u00a0Na Eucaristia vive-se a experi\u00eancia de comunh\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os, numa atitude de fraternidade, de reconcilia\u00e7\u00e3o, de acolhimento e hospitalidade, de partilha. Na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0O Sacramento da caridade, Bento XVI evidencia esta liga\u00e7\u00e3o: \u00abCada celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica atualiza sacramentalmente a doa\u00e7\u00e3o que Jesus fez da sua pr\u00f3pria vida na cruz por n\u00f3s e pelo mundo inteiro. Ao mesmo tempo, na Eucaristia, Jesus faz de n\u00f3s testemunhas da compaix\u00e3o de Deus por cada irm\u00e3o e irm\u00e3; nasce assim, \u00e0 volta do mist\u00e9rio eucar\u00edstico, o servi\u00e7o da caridade para com o pr\u00f3ximo, que consiste precisamente no facto de eu amar, em Deus e com Deus, a pessoa que n\u00e3o me agrada ou que nem conhe\u00e7o sequer. Isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel realizar-se a partir do encontro \u00edntimo com Deus, um encontro que se tornou comunh\u00e3o\u00a0de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento\u00bb (Sacramentum Caritatis\u00a088).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>O P\u00e3o Eucar\u00edstico, fonte de partilha<\/h4>\n<p><strong>[20]<\/strong>\u00a0A Eucaristia, que n\u00e3o se esgota na Missa, \u00e9 muito mais que o deixarmo-nos deslumbrar pela presen\u00e7a real de Cristo nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas do p\u00e3o e do vinho. Deve ajudar-nos a descobrir o verdadeiro significado do gesto eucar\u00edstico da entrega. Quem comunga e se torna um com Cristo une-se intimamente com cada irm\u00e3o e deve express\u00e1-lo no amor e no servi\u00e7o aos outros. A centralidade da Eucaristia na vida da Igreja \u00e9 atestada na fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o. \u00abAs nossas comunidades, quando celebram a Eucaristia, devem consciencializar-se cada vez mais de que o sacrif\u00edcio de Jesus \u00e9 por todos; e, assim, a Eucaristia impele todo o que acredita n\u2019Ele a fazer-se \u201cp\u00e3o repartido\u201d para os outros e, consequentemente, a empenhar-se por um mundo mais justo e fraterno. Como sucedeu na multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es e dos peixes, temos de reconhecer que Cristo continua, ainda hoje, a exortar os seus disc\u00edpulos a empenharem-se pessoalmente: \u201cDai-lhes v\u00f3s de comer\u201d (Mt\u00a014,16)\u00bb (Sacramentum Caritatis\u00a088).<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os que alimentados pela Eucaristia e ora\u00e7\u00e3o t\u00eam dado testemunho de verdadeira ajuda aos irm\u00e3os, mas ainda \u00e9 necess\u00e1rio converter muitos cora\u00e7\u00f5es humanos. Por medo ou por vergonha acomodamo-nos, fazendo apenas o que nos diz a nossa consci\u00eancia, descuidando aquilo que o pr\u00f3prio Jesus disse: \u201cSe permanecerdes f\u00e9is \u00e0 Minha palavra, diz o Senhor, sereis verdadeiramente meus disc\u00edpulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1\u201d (Jo\u00a08,31-32).<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o na assembleia lit\u00fargica dominical, ao lado de todos os irm\u00e3os e de todas as irm\u00e3s com os quais se forma um s\u00f3 corpo em Cristo Jesus exige uma participa\u00e7\u00e3o consciente do mist\u00e9rio que se celebra e comunica na palavra, nos gestos e sinais, e ao mesmo tempo a compreens\u00e3o do que se diz e faz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>A Ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica e o sil\u00eancio que acolhe e vivifica<\/h4>\n<p><strong>[21]<\/strong>\u00a0A ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as ao Pai pelas maravilhas que realizou, e continua a realizar, na hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o e salva\u00e7\u00e3o, dirige-se unicamente a Deus e s\u00f3 a Ele. \u00c9 o ponto central e culminante de toda a celebra\u00e7\u00e3o. Movida pelo elevado sentido do mist\u00e9rio e cultivando o enlevo pela presen\u00e7a de Jesus na Eucaristia, compreende-se que, ao longo dos tempos, a f\u00e9 da Igreja se exprima atrav\u00e9s da exig\u00eancia duma atitude interior de devo\u00e7\u00e3o e mediante uma s\u00e9rie de express\u00f5es exteriores, tendentes a evocar e sublinhar a grandeza do acontecimento celebrado. A nossa resposta a esta presen\u00e7a envolta em sinais sacramentais deve ser de sil\u00eancio, adora\u00e7\u00e3o, aclama\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Para escutar e acolher Deus, que se torna presente na vida de cada pessoa, \u00e9 necess\u00e1ria uma prepara\u00e7\u00e3o interior e exterior; prepara\u00e7\u00e3o essa que come\u00e7a logo pela maneira de entrar e estar nos espa\u00e7os sagrados. Ciente do princ\u00edpio novo de vida que a Eucaristia deposita no crist\u00e3o e que a miss\u00e3o primeira e fundamental, que deriva dos santos mist\u00e9rios celebrados, \u00e9 dar testemunho com a nossa vida e com os nossos gestos, neste sentido, e porque \u00e9 vis\u00edvel a falta de ambiente de concentra\u00e7\u00e3o nas celebra\u00e7\u00f5es, e uma certa turbul\u00eancia na entrada nos lugares de culto, apraz-me aludir \u00e0 import\u00e2ncia do sil\u00eancio tamb\u00e9m como elemento constitutivo da caridade. O sil\u00eancio \u00e9 precioso para escutar e discernir e predisp\u00f5e para a verdadeira participa\u00e7\u00e3o. No sil\u00eancio fala a eloqu\u00eancia do amor, e ao Senhor s\u00f3 podemos escutar e louvar com as palavras do sil\u00eancio, e deixar que os outros o escutem e louvem tamb\u00e9m num ambiente de recolhimento e de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o a todos \u2013 sacerdotes, di\u00e1conos, consagrados e leigos \u2013 que fa\u00e7amos um esfor\u00e7o por recuperarmos, em toda a Diocese, o sil\u00eancio orante antes e depois das celebra\u00e7\u00f5es, sobretudo na eucaristia dominical, e fazermos das nossas Igrejas espa\u00e7os de encontro com Deus e de adora\u00e7\u00e3o a Jesus eucaristia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Desafios Pastorais<\/h3>\n<p><strong>[22]<\/strong>\u00a0A Igreja est\u00e1 chamada a ser a epifania da caridade de Deus hoje. Todo o crist\u00e3o, qualquer que seja a sua voca\u00e7\u00e3o e o lugar que ocupe na Igreja, est\u00e1 chamado a dar testemunho ativo da esperan\u00e7a atrav\u00e9s da sua vida e do exerc\u00edcio da caridade: a ser, unido a Jesus, p\u00e3o repartido para a vida do mundo. Temos de dar vida \u00e0quilo com que nos comprometemos.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o situa-se no \u00e2mago da a\u00e7\u00e3o. O sacrif\u00edcio de Cristo \u00e9 mist\u00e9rio de liberta\u00e7\u00e3o que nos interpela e desafia continuamente. O amor, que procede do pr\u00f3prio Ser de Deus e que se transmite aos seus filhos pelo Filho atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, converte-se em luz para a sua pr\u00f3pria vida e para aqueles que os contemplam: agora sois luz no Senhor. Temos de ser esta luz. Neste sentido, como desafios pastorais, sublinho alguns aspetos que devem merecer a nossa aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>1\u00ba<\/strong> A Eucaristia, como sacramento que nos alimenta ao longo do caminho da vida, precisa de ser colocada n\u00e3o como ap\u00eandice mas no centro de todo o dinamismo das nossas comunidades.\u00a0O domingo, que perdeu muito do seu significado, tem de ser revitalizado.\u00a0\u00abO domingo,\u00a0dies Ecclesi\u00e6,\u00a0n\u00e3o se distingue com base na simples suspens\u00e3o das atividades habituais, mas por ser o dia em que a comunidade crist\u00e3 se re\u00fane para a celebra\u00e7\u00e3o do encontro com o Senhor e os irm\u00e3os;\u00a0dies hominis,\u00a0porque dia de alegria, repouso e caridade fraterna. Viver segundo o domingo significa viver consciente da liberta\u00e7\u00e3o trazida por Cristo e realizar a pr\u00f3pria exist\u00eancia como oferta de si mesmo a Deus, para que a sua vit\u00f3ria se manifeste plenamente a todos os homens atrav\u00e9s duma conduta intimamente renovada\u00bb (cf.\u00a0Sacramentum Caritatis\u00a072 e 73).<\/p>\n<p><strong>2\u00ba<\/strong> N\u00e3o nos agarremos a uma\u00a0\u201cpastoral de manuten\u00e7\u00e3o\u201d. Apoiados no\u00a0caminho de forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3, urge promover uma educa\u00e7\u00e3o da f\u00e9 eucar\u00edstica que predisponha os fi\u00e9is a viverem pessoalmente o que se celebra. Fa\u00e7amos da Eucaristia fonte de caridade; que ningu\u00e9m se sinta privado do acesso tanto \u00e0 mesa da Palavra como \u00e0 mesa da Eucaristia. Envidemos um esfor\u00e7o conjunto por incrementar o culto eucar\u00edstico; estimulemos a\u00a0pr\u00e1tica da adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica\u00a0tanto pessoal como comunit\u00e1ria;\u00a0cultivemos a beleza e a pr\u00e1tica do sil\u00eancio\u00a0nos lugares de culto.<\/p>\n<p><strong>3\u00ba<\/strong> A Eucaristia, fonte inspiradora de um aut\u00eantico agir crist\u00e3o, prolonga-se na vida e reenvia-nos para o mundo;\u00a0caridade divina e caridade fraterna constituem, pois,\u00a0as duas faces do mesmo mist\u00e9rio. Se n\u00e3o sabemos olhar o mundo, a vida e as pessoas, com a compaix\u00e3o com que Jesus as olhava, seremos comunidades cegas. Embora na nossa diocese n\u00e3o tenham faltado iniciativas no \u00e2mbito da a\u00e7\u00e3o social, imp\u00f5e-se que se tenham em conta os problemas sociais e as pessoas que os vivem, atuando com ousadia e criatividade, de forma organizada, em colabora\u00e7\u00e3o com outras institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil e parceria com institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, unindo e congregando esfor\u00e7os entre todos os agentes e institui\u00e7\u00f5es da Igreja \u2013 o que exige uma \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d e uma \u201cigreja de portas abertas\u201d. Embora sejam importantes as coletas e os gestos de ajuda por ocasi\u00e3o de grandes calamidades, o mais importante \u00e9\u00a0desenvolvermos gestos\u00a0que nos ponham em\u00a0contacto direto com os problemas\u00a0e nos fa\u00e7am\u00a0participar ativamente nas solu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se atenda apenas \u00e0s antigas formas de pobreza, mas tamb\u00e9m \u00e0s novas que surgem em consequ\u00eancia das numerosas mudan\u00e7as econ\u00f3micas e sociais e que atingem novos segmentos da popula\u00e7\u00e3o. O testemunho crist\u00e3o tem de se estender \u00e0\u00a0defesa\u00a0dos direitos humanos: ao respeito pela vida de cada ser humano, desde a conce\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte. A caridade tomar\u00e1 ent\u00e3o, necessariamente, a forma de servi\u00e7o \u00e0 cultura, \u00e0 pol\u00edtica, \u00e0 economia, \u00e0 fam\u00edlia, para que em toda a parte sejam respeitados os princ\u00edpios fundamentais de que depende o destino do ser humano e o futuro da civiliza\u00e7\u00e3o. Procure-se garantir a assist\u00eancia espiritual aos doentes e idosos e dar uma aten\u00e7\u00e3o espec\u00edfica aos migrantes.<\/p>\n<p>O II S\u00ednodo Diocesano de Aveiro diz-nos que devemos dispensar o maior cuidado \u00e0 pastoral da caridade em cada par\u00f3quia, e que se\u00a0promova a forma\u00e7\u00e3o de grupos ou equipas\u00a0que concretizem esta a\u00e7\u00e3o eclesial da comunidade; que se fomente a\u00a0partilha crist\u00e3 de bens; e que a Igreja Diocesana se empenhe em estimular todos os membros do povo de Deus a assumir o\u00a0compromisso social e a despertar para o voluntariado\u00a0social (cf. II S\u00ednodo Diocesano de Aveiro, pg. 106-107).<\/p>\n<p><strong>4\u00ba<\/strong> Olhando para o\u00a0pastor na comunidade, que segundo a bela express\u00e3o de Santo In\u00e1cio de Antioquia \u00e9 aquele que \u201cexerce a presid\u00eancia da caridade\u201d, o papa Francisco alerta para a necessidade de uma verdadeira\u00a0comunh\u00e3o com os leigos, valorizando a participa\u00e7\u00e3o de cada um como uma marca distintiva da vida do sacerdote e for\u00e7a vital do seu minist\u00e9rio. \u00c9 necess\u00e1rio\u00a0promover os movimentos apost\u00f3licos\u00a0para que penetrem nos ambientes e cuidar bem dos agentes pastorais, procurando que eles vivam sempre o seu minist\u00e9rio espec\u00edfico na identifica\u00e7\u00e3o com Cristo. \u00c0 comunh\u00e3o e complementaridade de todos, traduzida e sentida no acolhimento dos sacerdotes, di\u00e1conos, consagrados e leigos da Diocese, se ficar\u00e1 a dever o dinamismo e a efic\u00e1cia da nossa a\u00e7\u00e3o pastoral, procurando levar a todos os membros da Igreja diocesana e a tantos outros que vivem afastados da Igreja, o testemunho contagiante deixado por Cristo aos homens de todos os tempos e lugares.<\/p>\n<p>O\u00a0Plano Diocesano de Pastoral Socio-Caritativa \u2013 Ser a Igreja da Caridade\u00a0\u2013 publicado em 2009, deve continuar a ser fonte de inspira\u00e7\u00e3o para a pr\u00e1tica da caridade na nossa diocese de Aveiro. Urge implementar as estruturas e a organiza\u00e7\u00e3o (Parte IV) pedidas por esse documento, a fim de sermos uma\u00a0comunidade verdadeiramente evangelizada e evangelizadora.<\/p>\n<p><strong>5\u00ba<\/strong> O\u00a0Congresso Eucar\u00edstico Diocesano\u00a0vai realizar-se entre 31 de maio e 3 de junho, do pr\u00f3ximo ano. Importa que, a partir da Palavra e da a\u00e7\u00e3o, nos preparemos e consciencializemos da sua import\u00e2ncia. Convido os sacerdotes, os di\u00e1conos e todos aqueles que exercem um minist\u00e9rio eucar\u00edstico a prestarem a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de uma\u00a0espiritualidade crist\u00e3 autenticamente eucar\u00edstica. Urge que o povo crist\u00e3o aprofunde a rela\u00e7\u00e3o entre o mist\u00e9rio eucar\u00edstico, a a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e o novo culto espiritual que deriva da Eucaristia enquanto sacramento da caridade. Da\u00ed a necessidade de empreender iniciativas que levem a despertar e aumentar a f\u00e9 eucar\u00edstica, para melhorar o cuidado das celebra\u00e7\u00f5es e promover a adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, para encorajar uma real caridade que, partindo da Eucaristia, atinja os necessitados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estimados amigos, o servi\u00e7o no amor \u00e9 a primeira exig\u00eancia de toda e qualquer comunidade. Se Deus nos amou assim, tamb\u00e9m n\u00f3s devemos amar-nos uns aos outros. Congratulo-me com o trabalho e dedica\u00e7\u00e3o de tantos que abnegadamente t\u00eam dado raz\u00f5es da f\u00e9 e caridade crist\u00e3. Deixemo-nos interpelar pela palavra de Deus, pelo dep\u00f3sito da f\u00e9 da Igreja e pelo tesouro da nossa heran\u00e7a espiritual, mas tamb\u00e9m pela realidade na qual queremos viver misericordiosos uns com os outros, tornando-nos respons\u00e1veis pela caridade e pela justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Jesus Cristo continua a olhar-nos com amor e conta com o nosso testemunho e compromisso transformador. A todos pe\u00e7o a d\u00e1diva de uma m\u00e3o de mais amor. Que a exemplo da voca\u00e7\u00e3o e prontid\u00e3o de Maria, e de Santa Joana Princesa, modelo de caridade crist\u00e3, levemos Jesus Cristo, fonte da caridade e rosto do amor, a todos os \u201cferidos da vida\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhor Jesus, fonte de todo o bem,<\/p>\n<p>abri os olhos do nosso cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u00e0s necessidades e aos sofrimentos dos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Inspirai as nossas palavras e obras<\/p>\n<p>para confortarmos os que andam cansados e oprimidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fazei que a nossa Igreja de Aveiro,<\/p>\n<p>animada pelo Congresso Eucar\u00edstico Diocesano<\/p>\n<p>e transformada pela caridade,<\/p>\n<p>saiba viver e anunciar o amor de Cristo,<\/p>\n<p>presente na Eucaristia,<\/p>\n<p>e testemunhe a esperan\u00e7a de um mundo novo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00f3s Vos pedimos, Senhor Jesus,<\/p>\n<p>concedei-nos muitas e santas voca\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>laicais, sacerdotais e de consagra\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>a fim de que as nossas obras deixem um rasto de luz<\/p>\n<p>e todos juntos saibamos testemunhar<\/p>\n<p>a alegria do Evangelho.<\/p>\n<p>Amen.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___________<\/p>\n<p>Aveiro, 14 de setembro de 2017<\/p>\n<p>\u2020 Ant\u00f3nio Manuel Moiteiro Ramos,\u00a0Bispo de Aveiro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/carta-pastoral-e-programa-20172018\/dai-lhes-vos-mesmos-de-comer-_carta-pastoral-e-plano-2017_18\/\" rel=\"attachment wp-att-474\">Dai-lhes vos mesmos de comer _Carta Pastoral e Plano 2017_18<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARTA PASTORAL para o Programa Pastoral 2017-18 \u00a0Dai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00a0(Mc\u00a06, 37) &nbsp; Introdu\u00e7\u00e3o [1]\u00a0O nosso Plano Pastoral incidiu, no \u00faltimo tri\u00e9nio, nas virtudes teologais. A f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade caminham juntas. A f\u00e9 mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por n\u00f3s e assim gera em n\u00f3s a certeza vitoriosa desta grande verdade: Deus \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":668,"menu_order":6,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/472"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=472"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/472\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":480,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/472\/revisions\/480"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/668"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/emrc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}