{"id":9988,"date":"2020-07-25T22:17:31","date_gmt":"2020-07-25T21:17:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9988"},"modified":"2020-07-25T22:17:31","modified_gmt":"2020-07-25T21:17:31","slug":"rua-da-saudade-jose-rui-teixeira-o-paraiso-de-dante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/rua-da-saudade-jose-rui-teixeira-o-paraiso-de-dante\/","title":{"rendered":"Rua da Saudade | Jos\u00e9 Rui Teixeira &#8211; O Para\u00edso de Dante"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e fotos recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/o_paraiso_de_dante.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Jos\u00e9 Rui Teixeira*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No princ\u00edpio de 2019, a Associazione Socio-Culturale Italiana del Portogallo \u2013 Dante Alighieri convidou-me para falar sobre a vis\u00e3o do Para\u00edso de Dante na noite de 3 de maio, na Igreja dos Cl\u00e9rigos, no Porto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confesso que s\u00f3 alguma imprud\u00eancia me fez aceitar esse convite\u2026 Nem sequer percebi, ent\u00e3o, se teria de falar sobre a vis\u00e3o de Dante do Para\u00edso ou sobre a minha vis\u00e3o do Para\u00edso de Dante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha lido a\u00a0<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>\u00a0em meados da d\u00e9cada de 90. Recordava \u2013 com a acuidade das imagens mais n\u00edtidas \u2013 o Inferno, menos o Purgat\u00f3rio\u2026 e do Para\u00edso tinha guardadas apenas algumas \u2013 poucas \u2013 mem\u00f3rias emba\u00e7adas. Creio at\u00e9 \u2013 passados mais de vinte anos \u2013 que me aborreceu o Para\u00edso de Dante, ao contr\u00e1rio do Inferno, que li com entusiasmo. Podia isto resultar, ao seu modo, numa curiosa indu\u00e7\u00e3o: \u00e9 vibrante o fasc\u00ednio que nos provoca o inferno; e o para\u00edso [por mais que o desejemos, em abstrato, no fim da vida] tende a ser entediante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fosse para falar sobre a vis\u00e3o de Dante do Para\u00edso, fosse para falar sobre a minha vis\u00e3o do Para\u00edso de Dante, teria de reler a\u00a0<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>. Como o quotidiano quase n\u00e3o o permite, levei o livro para Paris e Roma [em janeiro], para Salamanca [em fevereiro] e novamente para Paris e Roma [em mar\u00e7o], aproveitando as viagens e os intervalos dos compromissos acad\u00e9micos. Sabendo que teria de ir a Crac\u00f3via, no princ\u00edpio de abril, resolvi conhecer Floren\u00e7a, onde passei tr\u00eas dias disfar\u00e7ado de turista, com o meu\u00a0<em>moleskine<\/em>\u00a0a urdir secretas intimidades com o volume da\u00a0<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabia ainda o que diria na noite de 3 de maio, na Igreja dos Cl\u00e9rigos. Seria interessante explicar a subida de Dante aos c\u00e9us do Para\u00edso, essa esp\u00e9cie de teodiceia\u2026 deriva de viagem, escada de Jacob, escrito moralizante, alegoria que convoca um modelo cosmol\u00f3gico de est\u00e1veis esferas cujo recorte nos pacifica os olhos, pela arruma\u00e7\u00e3o criteriosa da realidade. Poderia explicar o C\u00e9u da Lua ou o C\u00e9u de Saturno, os graus de beatitude e as d\u00favidas de Dante. Falaria sobre a avareza de uns e sobre a sabedoria dos outros, sobre o C\u00e9u de V\u00e9nus ou sobre o C\u00e9u de Marte, sobre a vis\u00e3o da Cruz e sobre o elogio dessa Floren\u00e7a de que Dante sentia saudades. Poderia escolher, para melhor explicar as suas motiva\u00e7\u00f5es, algumas das personagens que o poeta convoca. Ou ent\u00e3o refletiria sobre a miss\u00e3o do poeta e sobre a doutrina da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que diria sobre o primeiro m\u00f3bile e sobre o emp\u00edreo? Sobre o ponto luminoso e sobre os nove c\u00edrculos de fogo? Sobre o rio de luz e sobre a rosa celeste? Poderia falar sobre a ora\u00e7\u00e3o de S. Bernardo, sobre a vis\u00e3o de Deus e a unidade do Universo, ou sobre os mist\u00e9rios da Trindade e da Encarna\u00e7\u00e3o. Ou ent\u00e3o perder-me-ia diante da beleza de Beatriz\u2026 e assim passariam os dez minutos que me destinaram. Pensei: direi que Beatriz \u2013 a\u00ed pelo cap\u00edtulo XXX \u2013 ficou ainda mais bela. Mais direi, sem ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de um discurso de fei\u00e7\u00e3o edificante, que a proximidade de Deus redobra a beleza humana. E serei mais barroco do que a Igreja dos Cl\u00e9rigos quando disser \u2013 por certo com algum exagero, mas embrandecendo o cora\u00e7\u00e3o de quem me escutar \u2013 que o meu desejo de ter uma filha que se chamasse Beatriz vem da beleza que entrevi, pelas palavras de Dante, no rosto iluminado da sua Beatriz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tenho um temperamento m\u00edstico, mas sou um contemplativo. Fiquei quase meia hora por baixo da c\u00fapula de Brunelleschi, olhando atentamente para as pinturas [n\u00e3o me recordo se de Vasari ou de Zuccari]. Ocorreu-me a\u00ed a diferen\u00e7a, t\u00e3o significativa, entre \u00abver\u00bb e \u00abter vis\u00f5es\u00bb. Creio que o Para\u00edso de Dante n\u00e3o \u00e9 da ordem do \u00abver\u00bb, mas da ordem do \u00abter vis\u00f5es\u00bb. Como explic\u00e1-lo? Uma coisa \u00e9 dizermos o que vemos, outra \u00e9 dizermos as vis\u00f5es que temos. Creio que Dante n\u00e3o escreve sobre o que v\u00ea, mas sobre as vis\u00f5es que tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da Duomo, visitei a Basilica di Santa Croce. Antes de entrar, detive-me diante da est\u00e1tua de Dante. \u00c9 quase hier\u00e1tica a sua figura, como que resgatada de um tempo em que a indig\u00eancia n\u00e3o erodia nem os poetas, nem a poesia. \u00abPara qu\u00ea poetas em tempos de indig\u00eancia?\u00bb, perguntava H\u00f6lderlin. Foi, depois, Antero de Quental quem vaticinou, no final do s\u00e9culo XIX, que ao \u00absom augusto da lira de Orfeu j\u00e1 se n\u00e3o erguer\u00e3o cidades nem civilizar\u00e3o povos. Essas cordas solenes e soberanas ter\u00e3o emudecido para sempre\u00bb. Antes deste aug\u00fario, suspirara pelo tempo em que \u00aba Senhoria de Floren\u00e7a fazia explicar publicamente, na Igreja de Santa Maria, a\u00a0<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>, como um quinto Evangelho, e encarregava esse of\u00edcio a Boccaccio, o maior erudito da \u00e9poca\u00bb. No tempo de indig\u00eancia ainda \u00e9 poss\u00edvel \u00abver\u00bb; a indig\u00eancia, a verdadeira indig\u00eancia, \u00e9 j\u00e1 n\u00e3o \u00abter vis\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Em Floren\u00e7a, fechei os olhos e consegui entrever, ver vagamente; mas n\u00e3o consegui ter a vis\u00e3o do Para\u00edso de Dante. O Para\u00edso \u00e9 mais dif\u00edcil de ver do que o Inferno. Do Inferno, ocasionalmente, eu ainda tenho vis\u00f5es [temo, assim, pela sa\u00fade \u00f3tica do meu imagin\u00e1rio].<\/p>\n<p>Dante concebeu \u2013 por dentro do seu poema \u2013 um sistema que tem, subjacente, uma eclesiologia e que bem poderia ser organizado num tratado de soteriologia. Nele [na tecedura desse sistema] autolegitimou, em parte, a sua biografia, o seu ex\u00edlio, as vicissitudes com que se viu confrontado nos \u00faltimos anos de vida. Exorcizou \u2013 enquanto subia \u2013 a indig\u00eancia do seu tempo, eventualmente sem perceber que n\u00e3o era ainda a indig\u00eancia dos poetas. Dante n\u00e3o viu o Para\u00edso; teve dele uma vis\u00e3o: uma vis\u00e3o magn\u00edfica. Os c\u00e9us do seu C\u00e9u n\u00e3o s\u00e3o apenas a vis\u00e3o que teve, mas \u2013 mais profundamente \u2013 a vis\u00e3o que podia ter, apesar da acuidade dos olhos do seu imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas, em Floren\u00e7a, s\u00f3 me ocorreu a beleza de Beatriz: uma beleza diante da qual ainda se erguiam cidades e se civilizavam povos.<\/p>\n<p>Tendo entrado na Basilica di Santa Croce, detive-me um pouco diante do cenot\u00e1fio de Dante. Um turista espanhol pediu-me que lhe tirasse uma fotografia diante da sepultura do poeta. Expliquei-lhe [talvez movido por uma qualquer s\u00edndrome de professor] que se trata de um cenot\u00e1fio e que Dante se encontra sepultado em Ravena. Pela sua express\u00e3o, senti que ficou desiludido e que teria preferido n\u00e3o saber. Perguntou-me se os t\u00famulos de Galileu e de Michelangelo eram verdadeiros; disse-lhe que sim e ele devolveu-me uma express\u00e3o de al\u00edvio\u2026 afinal, quem pagaria oito euros para ver cenot\u00e1fios? Eu! Eu pagaria! Os cenot\u00e1fios comovem-me: s\u00e3o uma esp\u00e9cie de simulacro de um sepulcro vazio.<\/p>\n<p>Teria apenas dez minutos na Igreja dos Cl\u00e9rigos e sabia que dez minutos \u00e9 o tempo ideal para dizer duas ou tr\u00eas inanidades sobre o Para\u00edso de Dante. Tinha passado horas e horas a reler a\u00a0<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>\u00a0e corria o risco de dizer duas ou tr\u00eas inanidades em dez minutos.<\/p>\n<p>Tendo sa\u00eddo da Basilica di Santa Croce, percebi que tinha de subir, de subir como Dante. Na impossibilidade de subir \u00e0s esferas celestes do seu Para\u00edso, contentei-me com a subida, do outro lado do rio, pela Via del Monti alle Croci, at\u00e9 \u00e0 Basilica di San Miniato al Monte, um lugar onde talvez tivesse sido monge numa outra vida, numa dessas outras vidas que todos temos se, desapaixonadamente, reconhecemos as limita\u00e7\u00f5es da \u00fanica vida que temos.<\/p>\n<p>A\u00ed, o sil\u00eancio e a luz rasante atenuaram uma certa frustra\u00e7\u00e3o por apenas ver a vis\u00e3o que ele teve e n\u00e3o a ter [como um enigma que se resolvesse diante dos meus olhos].<\/p>\n<p>Por cima do altar, na plataforma que ali medeia o espa\u00e7o entre a assembleia e a abside, ao fundo, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de instala\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea com uma escada de m\u00e3o erguida. Os banzos da escada n\u00e3o parecem paralelos; ou seja: aparentemente, os banzos est\u00e3o mais juntos em baixo e mais separados em cima, alargando os degraus do topo; uma perspetiva invertida para quem olha de baixo\u2026 n\u00e3o sei bem, a distor\u00e7\u00e3o de baixo para cima pode ser um convite a subir; por\u00e9m a corre\u00e7\u00e3o da perspetiva, de cima para baixo, pode significar que a instala\u00e7\u00e3o foi feita para Deus descer ou para explicar aos homens que \u2013 tal como n\u00f3s somos de cair e n\u00e3o sabemos subir \u2013 ele tem de descer\u2026 para nos levantar e ajudar a subir.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/imagens\/escada_20200722_pc.jpg\" alt=\"Imagem\" width=\"100%\" \/><span class=\"legenda_imagem_xs_sm_md\">D.R.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\nNo dia seguinte, parti para Bolonha, de onde voei para Crac\u00f3via.<\/p>\n<p>Foi na manh\u00e3 fria do domingo 7 de abril que transpus os port\u00f5es de Auschwitz-Birkenau. Sobre isso, neste momento, n\u00e3o h\u00e1 nada que possa escrever sem ferir o que em mim guarda ainda uma centelha de esperan\u00e7a num Para\u00edso qualquer. Vi o que pude e tive [creio] uma ou outra vis\u00e3o. Apercebi-me que fiz o caminho de Dante ao contr\u00e1rio: fui das vis\u00f5es do Para\u00edso para uma das muitas ru\u00ednas do Inferno\u2026 porque \u2013 como todos sabemos \u2013 o Inferno nunca habita muito tempo a mesma casa.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<br \/>\nInvestigador, poeta<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"ficha_tecnica_multimedia\" style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.joseruiteixeira.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<\/a><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e fotos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9990,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[139,14],"tags":[],"class_list":["post-9988","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jose-rui-teixeira","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9988","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9988"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9988\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9991,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9988\/revisions\/9991"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}