{"id":9864,"date":"2020-07-14T20:00:21","date_gmt":"2020-07-14T19:00:21","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9864"},"modified":"2020-07-14T22:21:25","modified_gmt":"2020-07-14T21:21:25","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-os-bonecos-de-koreeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-os-bonecos-de-koreeda\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| Os bonecos de Koreeda"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Os bonecos de Koreeda<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na epopeia \u201cIl\u00edada\u201d, atribu\u00edda a Homero, Zeus faz chegar a Agam\u00e9mnon uma mensagem, revelando-lhe o plano que garantiria a conquista de Troia. Na realidade, Agam\u00e9mnon \u201cpensava que ia conquistar naquele dia a cidade de Pr\u00edamo\/iludido, n\u00e3o sabia que planos Zeus urdisse\u201d (II, 37-38). Os especialistas veem aqui uma alus\u00e3o subtil \u00e0 natureza do pr\u00f3prio discurso \u00e9pico, verdadeiro mas n\u00e3o isento de enganos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta apresenta\u00e7\u00e3o indireta, um aviso ao leitor, \u00e9 prova da composi\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica do poema, entendendo-se por alegoria a busca e a express\u00e3o das verdades escondidas. Basta partir daqui para reconhecer as garantias de Walter Benjamin sobre esta express\u00e3o liter\u00e1ria: s\u00f3 a alegoria pode exprimir a hist\u00f3ria redimida e s\u00f3 ela inclui o presente do leitor na constru\u00e7\u00e3o do significado de um texto. A alegoria \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da comunica\u00e7\u00e3o, como afirma o estudioso Andrew Laird.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 De Kafka a Auster, o leitor moderno conhece bem este \u201cdizer algo atrav\u00e9s de outro\u201d. E, no entanto, devido aos abusos da Patr\u00edstica, a teologia devota-lhe uma certa repulsa, contrariando o privil\u00e9gio que lhe \u00e9 atribu\u00eddo nas par\u00e1bolas evang\u00e9licas. No cinema, a linguagem \u00e9 mais livre e \u00e9 poss\u00edvel ler alegoricamente at\u00e9 fen\u00f3menos como \u201cGuerra das Estrelas\u201d. Esta saga de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, centrada na luta entre o bem e o mal, consegue at\u00e9 contornar o principal obst\u00e1culo deste meio: a presen\u00e7a do rid\u00edculo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Num primeiro n\u00edvel, a alegoria resvala muitas vezes no absurdo, o surreal: se Gregor Samsa inicia a \u201cMetamorfose\u201d transformado em inseto, \u00e9 claro que n\u00e3o se trata de um livro normal. No caso de \u201cGuerra das Estrelas\u201d, a anormalidade dos sabres de luz e jedis com poderes m\u00edticos funciona de modo inverso, como atrativo para os adeptos do g\u00e9nero. A regra n\u00e3o escrita em funcionamento \u00e9 simples, contudo: quanto mais distanciada da realidade a alegoria for no seu primeiro n\u00edvel, mais se potencia para exprimir o segundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cBoneca Insufl\u00e1vel\u201d, do japon\u00eas Hirokazu Koreeda, \u00e9 um exemplo admir\u00e1vel do que \u00e9 o bom uso deste recurso no cinema. A premissa \u00e9 t\u00e3o simples quanto justamente absurda, a boneca do t\u00edtulo ganha improvisadamente consci\u00eancia de si mesma e sai de casa, tentando compreender o que \u00e9 estar viva. Estamos no reino dos contos de fadas, mas o que querer\u00e1 a est\u00f3ria comunicar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nozomi abre pela primeira vez os olhos para o mundo e a sua inoc\u00eancia \u00e9 a das crian\u00e7as: n\u00e3o sabe o que \u00e9 envelhecer, n\u00e3o sabe o que s\u00e3o as pessoas e tem uma predile\u00e7\u00e3o pelas flores que encontra no caminho. Tudo \u00e9 novo para ela, mas chegar\u00e1 mesmo assim ao tempo das grandes perguntas. Ser-lhe-\u00e1 dito que as bonecas s\u00e3o criadas todas iguais, mas que, no fim, \u00e9 poss\u00edvel distinguir quais as que foram amadas; descobrir\u00e1 que as pessoas n\u00e3o amam todas da mesma maneira (e que isso seria at\u00e9 muito perigoso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como se percebe, o segundo n\u00edvel desta alegoria \u00e9 um tratado sobre a humanidade, uma descri\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser-se humano e de todos os enganos que da\u00ed v\u00eam. Sublimes muitos momentos, como quando o seu amigo idoso lhe responde que h\u00e1 muitas mais pessoas assim, depois de ela lhe revelar que \u00e9 vazia por dentro; ou quando o prazer maior que ela lhe pode oferecer \u00e9 colocar-lhe a m\u00e3o sobre a testa, como a uma crian\u00e7a. \u00c9 a\u00ed que est\u00e3o as sementes imortais de humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dos que s\u00e3o como as crian\u00e7as, diz o Evangelho, \u00e9 o Reino dos C\u00e9us. O filme est\u00e1 dispon\u00edvel em dvd no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9866,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,86],"tags":[],"class_list":["post-9864","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9864","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9864"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9864\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9868,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9864\/revisions\/9868"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}