{"id":9803,"date":"2020-07-08T09:50:50","date_gmt":"2020-07-08T08:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9803"},"modified":"2020-07-25T22:14:14","modified_gmt":"2020-07-25T21:14:14","slug":"efemeride-rua-da-saudade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/efemeride-rua-da-saudade\/","title":{"rendered":"Rua da Saudade | Jos\u00e9 Rui Teixeira &#8211; O mais belo livro"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/o_mais_belo_livro_clepsidra.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p><strong><span class=\"it\">O mais belo livro<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2020, celebra-se o centen\u00e1rio da primeira edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Clepsidra<\/em>, de Camilo Pessanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resultado da a\u00e7\u00e3o de Ana de Castro Os\u00f3rio e do seu filho, Jo\u00e3o, ent\u00e3o com 17 anos, mas j\u00e1 fascinado com a figura do poeta e \u00abo seu impressionante, misterioso, estranho modo de dizer\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a sua \u00faltima estada em Lisboa, entre setembro de 1915 e mar\u00e7o de 1916, Camilo Pessanha frequentou assiduamente a casa dos Os\u00f3rios. Nos jantares e ser\u00f5es que a\u00ed aconteciam todas as semanas, amadureceu a ideia da publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Clepsidra<\/em>, que Ana de Castro Os\u00f3rio publicou na sua pr\u00f3pria editora: Lusit\u00e2nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem a insist\u00eancia e o est\u00edmulo destes amigos fi\u00e9is, dificilmente existiria esta primeira edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Clepsidra<\/em>: sem ornatos nem quaisquer coment\u00e1rios ou refer\u00eancias, sem c\u00f3lofon; um exerc\u00edcio de sobriedade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure style=\"width: 191px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/imagens\/clepsydra_20200708_pc.jpg\" alt=\"D.R.\" width=\"191\" height=\"314\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">D.R.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Em julho de 1914, m\u00eas em que eclode a Primeira Guerra Mundial, M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro tem 24 anos; tinham j\u00e1 sido publicados os livros <em>Dispers\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>A Confiss\u00e3o de L\u00facio<\/em>. No dia 13 desse m\u00eas, o jornal\u00a0<em>Rep\u00fablica<\/em>\u00a0imprime a resposta do jovem poeta a um inqu\u00e9rito sobre o mais belo livro \u00abdos \u00faltimos trinta anos\u00bb. M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro escolheria aquele que, no seu entendimento, era o mais belo livro portugu\u00eas publicado entre 1884 e 1914.Mesmo que se circunscrevesse \u00e0 poesia, n\u00e3o lhe faltavam op\u00e7\u00f5es: Gomes Leal tinha publicado\u00a0<em>Claridades do Sul<\/em>, em 1885; no ano seguinte, foram impressos os\u00a0<em>Sonetos Completos<\/em>\u00a0de Antero de Quental e, em 1887, Silva Pinto publicou\u00a0<em>O Livro de Ces\u00e1rio Verde<\/em>;\u00a0<em>Oaristos<\/em>, de Eug\u00e9nio de Castro, foi impresso em 1890, dois anos antes da edi\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>S\u00f3<\/em>, de Ant\u00f3nio Nobre;\u00a0<em>Fel<\/em>, de Jos\u00e9 Duro, data de 1898, o mesmo ano da publica\u00e7\u00e3o d\u2019<em>O Jardim da Morte<\/em>, de J\u00falio Brand\u00e3o. Em 1914, poetas como Teixeira de Pascoaes e Jo\u00e3o L\u00facio tinham j\u00e1 publicado parte significativa das suas obras.<\/p>\n<p>Eis a resposta de S\u00e1-Carneiro:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00ab\u00c0 minha vibra\u00e7\u00e3o emocional, a melhor obra de Arte-escrita dos \u00faltimos trinta anos (que a Arte timbra-se para os nervos a vibrarem e n\u00e3o para a intelig\u00eancia medi-la em lucidez) \u00e9 um livro que n\u00e3o est\u00e1 publicado \u2013 seria com efeito aquele, imperial, que reunisse os poemas in\u00e9ditos de Camilo Pessanha, o grande ritmista. Ouvindo pela primeira vez dos seus versos, fustigou-me sem d\u00favida uma das impress\u00f5es maiores, mais intensas a Ouro e gloriosas de Alma, da minha \u00e2nsia de Artista. Rodopiantes de Novo, astrais de Subtileza os seus poemas engastam m\u00e1gicas pedrarias que transmudam cores e m\u00fasicas, estilizando-as em ritmos de sortil\u00e9gio \u2013 cad\u00eancias misteriosas, leoninas miragens, oscilantes de vago, incertas de \u00cdris. Pompa her\u00e1ldica, sombra de cristal zebradamente ro\u00e7agando cetim&#8230;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">No entanto, para falar de obras impressas, citarei como preferidas o\u00a0<em>S\u00f3<\/em>\u00a0de Ant\u00f3nio Nobre, nas suas ternuras de pajem, saudades de luar, febres esguias \u2013 e ainda, frisantemente, o livro futurista de Ces\u00e1rio Verde, ondulante de certo, intenso de Europa, zig-zagueante de Esfor\u00e7o\u00bb.<\/p>\n<p>Apesar de ser not\u00e1vel que M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro tenha escolhido o\u00a0<em>S\u00f3<\/em>\u00a0de Ant\u00f3nio Nobre e\u00a0<em>O Livro de Ces\u00e1rio Verde<\/em>, estas escolhas n\u00e3o deixam de ser previs\u00edveis se tivermos em considera\u00e7\u00e3o o que tanto Ces\u00e1rio Verde como Ant\u00f3nio Nobre representaram para os poetas do princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, independentemente da pluralidade de tend\u00eancias liter\u00e1rias que emergiram nesse contexto hist\u00f3rico-cultural.<\/p>\n<p>Curiosamente, se as primeiras edi\u00e7\u00f5es tiveram tiragens limitadas, as segundas edi\u00e7\u00f5es destes livros tiveram um grande impacto: em 1898 foram impressos tr\u00eas mil exemplares do\u00a0<em>S\u00f3<\/em>\u00a0e, em 1901, 700 exemplares d\u2019<em>O Livro de Ces\u00e1rio Verde<\/em>. Em 1914, quando M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro escolhe estes como os dois mais belos livros publicados em Portugal desde 1884, j\u00e1 tinham sido impressas as suas terceiras edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Significativamente improv\u00e1vel \u00e9 a escolha desse outro livro \u2013 \u00abimperial\u00bb \u2013 que n\u00e3o estava ainda publicado: um livro que reunisse os poemas in\u00e9ditos de Camilo Pessanha.<\/p>\n<p>M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro p\u00f5e fim \u00e0 sua vida em abril de 1916, alguns meses antes da publica\u00e7\u00e3o [em dezembro desse mesmo ano] de 16 poemas de Camilo Pessanha no primeiro e \u00fanico n\u00famero de\u00a0<em>Centauro<\/em>. Ou seja: M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro, em 1914, apesar de ter uma vis\u00e3o fragment\u00e1ria da poesia de Camilo Pessanha, n\u00e3o hesita em considerar o seu livro [seis anos antes da sua impress\u00e3o] o mais belo dos \u00faltimos trinta anos.<\/p>\n<p>Em 2020, celebra-se o centen\u00e1rio da primeira edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Clepsidra<\/em>, de Camilo Pessanha. Record\u00e1-lo, \u00e0 luz da intui\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro,<a name=\"_GoBack\"><\/a>\u00a0dissipa as sombras, comove os sil\u00eancios e embrandece os dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"autor\"><strong>Post-scriptum<\/strong><br \/>\nO fasc\u00ednio que M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro e Fernando Pessoa partilhavam por Camilo Pessanha \u00e9 testemunhado numa carta de 13 de dezembro de 1912. De Paris, S\u00e1-Carneiro escreve a Pessoa: \u00abRogava-lhe encarecidamente que me enviasse, para mostrar ao Santa-Rita, os \u201cVioloncelos\u201d do Pessanha e o soneto sobre a m\u00e3e \u2013 e mesmo mais alguns se para isso estivesse. Era um favor que muito lhe agradecia. Tem apanhado mais versos dele?\u00bb.<br \/>\nA primeira edi\u00e7\u00e3o d\u2019<em>O Livro de Ces\u00e1rio Verde<\/em>, impressa em Lisboa, em 1887, teve uma tiragem de 200 exemplares. A segunda edi\u00e7\u00e3o: Lisboa, Manuel Gomes, Editor, 1901. A terceira edi\u00e7\u00e3o seria impressa em 1911 e, a 4.\u00aa, em 1919.<br \/>\nA primeira edi\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>S\u00f3<\/em>\u00a0de Ant\u00f3nio Nobre, impressa em Paris, em 1892, teve uma tiragem de 230 exemplares. A segunda edi\u00e7\u00e3o: Lisboa, Guillard Aillaud &amp; C.\u00aa, 1898. Como a fam\u00edlia se opunha \u00e0 sua reedi\u00e7\u00e3o, a procura de exemplares desta segunda edi\u00e7\u00e3o inflacionou drasticamente o pre\u00e7o do livro. Em 1913, a Livraria Aillaud e a Renascen\u00e7a Portuguesa reeditaram-no. Em 1921 \u00e9 impressa a quarta edi\u00e7\u00e3o. Venderam-se cerca de vinte mil exemplares do\u00a0<em>S\u00f3<\/em>\u00a0at\u00e9 1930.<br \/>\nJo\u00e3o de Castro Os\u00f3rio organizaria a segunda edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Clepsidra<\/em> em 1945 [Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es \u00c1tica].<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<br \/>\nInvestigador, poeta<br \/>\nImagem de topo: Gabriel Pacheco | D.R.<\/span><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"ficha_tecnica_multimedia\" style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.joseruiteixeira.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<\/a><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9804,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,156],"tags":[],"class_list":["post-9803","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-efemerides"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9803","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9803"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9989,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9803\/revisions\/9989"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9804"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9803"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}