{"id":9717,"date":"2020-06-29T13:11:48","date_gmt":"2020-06-29T12:11:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9717"},"modified":"2020-06-29T13:11:48","modified_gmt":"2020-06-29T12:11:48","slug":"a-eterna-juventude-de-saint-exupery","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/a-eterna-juventude-de-saint-exupery\/","title":{"rendered":"A eterna juventude de Saint-Exup\u00e9ry"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/a_eterna_juventude_de_saint_exupery.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Os grandes autores da literatura s\u00e3o sempre jovens, porque as suas obras atravessam o tempo e t\u00eam algo de atual a dizer \u00e0 gera\u00e7\u00e3o presente. Assim \u00e9 para Antoine de Saint-Exup\u00e9ry: aos 120 anos do seu nascimento, continuamo-lo a percecionar como um companheiro de viagem repleto de paix\u00e3o e fogo interior, capaz de nos guiar por trilhos fascinantes \u00e0 descoberta do cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saint-Exup\u00e9ry vem ao mundo em Lyon a 29 de junho de 1900, numa fam\u00edlia de antiga linhagem. O seu ambiente de proveni\u00eancia era o da pequena nobreza de prov\u00edncia, mon\u00e1rquica e cat\u00f3lica, agora em decad\u00eancia \u00e0 entrada do novo s\u00e9culo. Aos quatro anos perde o pai, morto inesperadamente por causa de uma hemorragia cerebral, mas a sua juventude foi serena, gra\u00e7as, sobretudo, \u00e0 presen\u00e7a da m\u00e3e Marie, mulher profundamente religiosa e plena de caridade, al\u00e9m de artisticamente sens\u00edvel. Foi precisamente a magia da inf\u00e2ncia um dos elementos de maior inspira\u00e7\u00e3o para a literatura e pensamento de Saint-Exup\u00e9ry. Em \u201cPiloto de guerra\u201d (1942) escreve que a inf\u00e2ncia \u00e9 o \u00abgrande territ\u00f3rio de onde cada um saiu\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudou junto de religiosos de escolas crist\u00e3s, Jesu\u00edtas e Padres Marianos, mas para ele, amante do voo, os \u201cdogmas\u201d religiosos eram estorvos que impediam o esp\u00edrito de libertar-se livremente no ar. Serve como piloto na rota Paris-Dakar, e faz a experi\u00eancia de supervisor de aer\u00f3dromo numa perdida localidade da costa atl\u00e2ntica, \u00e0s margens do Sahara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Argentina, realizou as primeiras liga\u00e7\u00f5es a\u00e9reas com a Patag\u00f3nia, e conhece a mulher, Consuelo Suncin, que o encorajou a medir-se com a narrativa. Ser\u00e1 ela a rosa \u00ab\u00fanica no mundo\u00bb a cuidar, ainda que entre mil trai\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es. Em 1929, o sucesso de \u201cCorreio do Sul\u201d consagra Saint-Exup\u00e9ry como escritor, atividade que nunca mais volta a separar da de aviador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00faltiplas, e muitas vezes dram\u00e1ticas aventuras de voo, alimentam a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, oferecendo s\u00edmbolos e subst\u00e2ncia. Al\u00e9m das narrativas j\u00e1 citadas, completam a sua produ\u00e7\u00e3o \u201cVoo noturno\u201d (1930), \u201cTerra dos homens\u201d (1939), e \u201cO principezinho\u201d (1943). \u201cCidadela\u201d, narra\u00e7\u00e3o eleg\u00edaca em que se podem encontrar muitas met\u00e1foras sobre o ser humano e sobre Deus, sair\u00e1, p\u00f3stumo, em 1948.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seus raides a\u00e9reos exprimem o desejo de erguer-se sobre as coisas, olhar tudo do alto, e ter uma vis\u00e3o purificada da vida. A Terra reencontrava um aspeto de harmoniosa beleza, reconciliada finalmente com o c\u00e9u: \u00abAs montanhas, os temporais, as areias, eis os meus deuses familiares\u00bb (carta a Nelly de Vog\u00fce, 1937). As longas viagens, especialmente de noite, eram uma lavagem da alma; desapareciam os detalhes da superf\u00edcie terrestre, e permanecia vis\u00edvel s\u00f3 a luz das estrelas; todas as preocupa\u00e7\u00f5es que se acreditavam capitais eram gradualmente eliminadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solid\u00e3o fecunda do c\u00e9u cruzou-se, em Saint-Exup\u00e9ry, com aquela igualmente prol\u00edfica do deserto. Quando em 1927 \u00e9 destinado \u00e0 pequena escala do Sahara, pode fazer a sua \u00abcura de sil\u00eancio\u00bb (carta a Henry de S\u00e9gogne), num lugar onde cada coisa tinha um significado diferente. Uma experi\u00eancia transferida para o \u201cPrincipezinho\u201d. O di\u00e1logo entre o homenzinho e o piloto ocorre entre as dunas, enquanto procuram uma fonte para se dessedentar: \u00abQuer se trate de uma casa, das estrelas ou do deserto, o que faz a sua beleza \u00e9 invis\u00edvel\u00bb. Frase que reenvia para outra, celeb\u00e9rrima: \u00abO essencial \u00e9 invis\u00edvel aos olhos\u00bb. O convite \u00e9 o de procurar a fonte de \u00e1gua nascente oculta em alguma parte do nosso deserto pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O deserto \u00e9 tamb\u00e9m o lugar em que Saint-Exup\u00e9ry escrevia durante longas horas, sentado numa cela, semelhante a um monge na sua clausura. Com efeito, gostava do canto gregoriano e dizia que queria retirar-se um dia no mosteiro beneditino de Solesmes, no Loire. Sentia inconscientemente que a\u00ed, e s\u00f3 a\u00ed, havia algo de importante e de inexprim\u00edvel, capaz de dar plenitude \u00e0 sua vida.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>No in\u00edcio da segunda guerra mundial, Saint-Exup\u00e9ry prestou servi\u00e7o como piloto de reconhecimento: n\u00e3o queria matar, mas sentia o dever de dar o seu contributo para a p\u00e1tria amea\u00e7ada pelo nazismo. A capitula\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a levou-o ao ex\u00edlio volunt\u00e1rio em Nova Iorque, onde escreve \u201cO principezinho\u201d, voltando logo depois \u00e0 frente da batalha, no Norte de \u00c1frica. Apesar do limite de idade, consegue entrar na sua velha esquadra de reconhecimento a\u00e9reo. Est\u00e1 consciente de arriscar a sua vida, tamb\u00e9m por causa das condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que se tinham deteriorado devido aos muitos incidentes sofridos. O seu amigo comandante tenta, em v\u00e3o, convenc\u00ea-lo a n\u00e3o voar; Saint-Exup\u00e9ry explica que n\u00e3o podia ficar de pantufas enquanto em Fran\u00e7a quem lia os seus escritos arriscava a deporta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 tinha visto a morte nos olhos e n\u00e3o tem medo de a enfrentar. \u00abMorrer n\u00e3o \u00e9 nada quando se sabe por quem se morre\u00bb, diz. \u00abMorre-se por um povo, por amor, pelo homem.\u00bb O seu avi\u00e3o foi abatido ao largo de Marselha a 31 de julho de 1944, e o seu corpo nunca foi encontrado.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos de vida, o conflito b\u00e9lico, a vis\u00e3o de uma humanidade cegada pelo \u00f3dio fratricida conduziram-no a repensar nos valores \u2013 humanos e religiosos \u2013 que tinham sido o alimento da sua inf\u00e2ncia e juventude. Deixados \u00e0 margem, ainda que nunca esquecidos, emergiam naquelas circunst\u00e2ncias como instrumentos \u00fateis para salvar a civiliza\u00e7\u00e3o amea\u00e7ada pela barb\u00e1rie. No fundo, refletia, por que coisa tinham oferecido a vida os seus companheiros de patrulha ca\u00eddos em miss\u00e3o, se n\u00e3o por um certo gosto pelas festas de Natal? \u00abA salva\u00e7\u00e3o daquele sabor, no mundo, parecia-lhe justificar o sacrif\u00edcio das suas vidas. Se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos sido o Natal do mundo, o mundo ter-se-ia salvado atrav\u00e9s de n\u00f3s\u00bb (\u201cPiloto de guerra\u201d, cap\u00edtulo 24). E quando quer exprimir o conceito de responsabilidade evoca o holocausto de Jesus, que se sacrificou, ainda que inocente, por todos: \u00abCompreendo pela primeira vez um dos mist\u00e9rios da religi\u00e3o da qual saiu a civiliza\u00e7\u00e3o que eu reivindico como minha: \u201cLevar os pecados dos homens\u2026\u201d. E cada um leva os pecados de todos os homens\u00bb (ibidem).<\/p>\n<p>Saint-Exup\u00e9ry foi um explorador do absoluto, em busca de alguma coisa que preenchesse de sentido a exist\u00eancia. Se o \u201calguma coisa\u201d procurado pelo autor do \u201cPrincipezinho\u201d era Deus, e em particular o Deus dos crist\u00e3os, permanecer\u00e1 para sempre um mist\u00e9rio. Seguramente, o piloto-escritor foi int\u00e9rprete das inquieta\u00e7\u00f5es do ser humano moderno, do seu nomadismo espiritual, e daquela beleza inapreens\u00edvel da qual sente uma profunda nostalgia.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Enzo Romeo<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"https:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/2020-06\/l-eterna-giovinezza-di-antoine.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9718,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-9717","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9717"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9717\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9720,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9717\/revisions\/9720"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}