{"id":9701,"date":"2020-06-29T08:00:52","date_gmt":"2020-06-29T07:00:52","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9701"},"modified":"2020-06-28T12:31:52","modified_gmt":"2020-06-28T11:31:52","slug":"tiago-azevedo-ramalho-serei-mesmo-charlie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-azevedo-ramalho-serei-mesmo-charlie\/","title":{"rendered":"Tiago Azevedo Ramalho | Serei mesmo Charlie?"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><em><strong>Direto ao contradit\u00f3rio<\/strong><\/em> | Uma rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as certezas de sociedade tidas como insofism\u00e1veis<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho*<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-7993\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"163\" height=\"244\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-683x1024.jpg 683w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-200x300.jpg 200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-768x1151.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-600x899.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1025x1536.jpg 1025w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1367x2048.jpg 1367w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1200x1798.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-850x1274.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-480x719.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1320x1978.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-scaled.jpg 1708w\" sizes=\"auto, (max-width: 163px) 100vw, 163px\" \/><\/strong>Li algures, a respeito das manifesta\u00e7\u00f5es que, inicialmente motivadas pela leg\u00edtima repulsa do excesso policial, v\u00eam desafiando a ordem p\u00fablica, que por seu interm\u00e9dio se ataca um dos baluartes do Estado de Direito. Seguramente que as for\u00e7as policiais, como quaisquer outras institui\u00e7\u00f5es sociais integradas por seres humanos, agem por vezes de modo indevido e digno de censura. E tamb\u00e9m s\u00e3o movidas, na sua\u00a0actua\u00e7\u00e3o, pelos mesmos preconceitos que se encontram presentes no conjunto da sociedade \u2013 nalguns casos at\u00e9 porventura mais, noutros decerto um pouco menos. Mas da\u00ed a colocar-se em causa a pr\u00f3pria necessidade de uma ordem p\u00fablica e dos agentes necess\u00e1rios para a respectiva conserva\u00e7\u00e3o vai uma longa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto lia uma reflex\u00e3o como a que parafraseei nas \u00faltimas linhas, o meu pensamento voou para um outro acontecimento que, \u00e0 \u00e9poca, colonizou durante algum tempo o circuito medi\u00e1tico: o assassinato, em Janeiro de 2015, de um conjunto de membros do jornal <em>Charlie Hebdo<\/em> e de agentes da pol\u00edcia francesa por parte de dois homicidas apresentados como franco-argelinos de religi\u00e3o mu\u00e7ulmana. De modo totalmente justificado, o acto motivou uma generalizada indigna\u00e7\u00e3o. Mas da justificada repulsa passou-se rapidamente ao bombardeamento medi\u00e1tico, a ponto de se criar um novo mote para uma solidariedade de crach\u00e1, que se reproduziu incont\u00e1veis vezes:\u00a0<em>Je suis Charlie.\u00a0<\/em>E depois? Depois mudou-se de assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo vai muito mal numa sociedade quando aquilo que num segundo coloniza a totalidade da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 inteiramente ignorado no instante seguinte. \u00c9 uma sociedade em anestesia permanente, ou transe constante, incapaz, portanto, de um qualquer tipo de pensamento reflectido que sup\u00f5e sempre um distanciamento cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 actualidade. Distanciar-se significa abdicar, por momentos, de viver na voragem do momento, na viv\u00eancia do <em>soundbite<\/em>, para interrogar o pr\u00f3prio presente (\u201cser\u00e1 que o\u00a0significado<em>\u00a0<\/em>deste acontecimento \u00e9 realmente aquele que me \u00e9 apresentado?\u201d), de modo a, mediante essa releitura cr\u00edtica, recalibrar o pensamento e ajustar a ac\u00e7\u00e3o. Mas depois mudou-se de assunto. Com efeito, seguiram-se os\u00a0<em>refugiados,\u00a0<\/em>depois chamados\u00a0<em>imigrantes,\u00a0<\/em>e depois ainda\u00a0<em>migrantes econ\u00f3micos<\/em>. A guerra na S\u00edria. O\u00a0<em>Bataclan.\u00a0<\/em>A decis\u00e3o apocal\u00edptica do\u00a0<em>Brexit.\u00a0<\/em>A tentativa de golpe de Estado na Turquia. Outra vez a guerra na S\u00edria. O\u00a0<em>impeachment\u00a0<\/em>de Dilma. A elei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m apocal\u00edptica do Presidente Trump. Os inc\u00eandios de Pedr\u00f3g\u00e3o Grande. A Venezuela. A crise dos rohingyas. A \u201cindepend\u00eancia\u201d da Catalunha.\u00a0 A elei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m apocal\u00edptica de Jair Bolsonaro. Os \u201ccoletes amarelos\u201d. Os inc\u00eandios da Austr\u00e1lia. E os da Amaz\u00f3nia. Greta Thunberg nos Parlamentos a falar aos Doutores. A COVID-19. Sucedem-se como simples factos avulsos, repetidos, e n\u00e3o como momentos de uma\u00a0<em>hist\u00f3ria<\/em>. Para serem hist\u00f3ria, seria necess\u00e1rio que houvesse contexto, interpreta\u00e7\u00e3o, abordagem cr\u00edtica \u2013 que cada um dos acontecimentos sobrevivesse ao seu pr\u00f3prio momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrei-me do <em>Charlie Hebdo, <\/em>dizia<em>.\u00a0<\/em>Ao tempo, o caso foi interpretado como um conflito entre a liberdade de express\u00e3o e o fanatismo de um certo tipo de viv\u00eancia religiosa. Tal interpreta\u00e7\u00e3o veicula seguramente qualquer coisa de correcto, ou nem sequer se lograria impor. Mas parece estar longe de captar o n\u00facleo do problema, o que efectivamente justifica que seja de condenar no acto. Ao n\u00e3o captar o fundamental, impede que a sociedade se reorganize de modo a proteger o que nela \u00e9 realmente fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se bem vejo, no\u00a0<em>Charlie Hebdo\u00a0<\/em>n\u00e3o foi directamente a liberdade de express\u00e3o que se atacou, mas, antes, um <em>ainda mais relevante<\/em> princ\u00edpio do Estado do Direito: a proibi\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o directa, isto \u00e9, da iniciativa do recurso individual \u00e0 for\u00e7a. A contraprova \u00e9 a seguinte: mesmo que se entendesse que as publica\u00e7\u00f5es do <em>Charlie Hebdo<\/em>, pelas suas caracter\u00edsticas (uma certa grosseria, provoca\u00e7\u00e3o gratuita,\u2026), n\u00e3o se encontravam justificadas pela liberdade de express\u00e3o, ainda assim o homic\u00eddio continuaria a merecer completa e irrestrita censura\u00a0\u2013 precisamente porque o que estava em jogo era, n\u00e3o a liberdade de express\u00e3o, mas o princ\u00edpio de que n\u00e3o \u00e9 pelas pr\u00f3prias m\u00e3os que se coloca termo a um conflito, nem, muito menos, colocando em causa a vida daqueles que, em entender dos agressores, ferem ilegitimamente o seu quadro de valores. N\u00e3o \u00e9 preciso ser <em>Charlie<\/em>, ou ter sido <em>Charlie<\/em>, para censurar radicalmente o acto homicida. Ali\u00e1s, pode mesmo censurar-se inteiramente <em>Charlie Hebdo <\/em>e os seus conte\u00fados continuando a repudiar incondicionalmente o acto homicida. Porque n\u00e3o \u00e9 usando da viol\u00eancia autolegitimada, \u00e0s vezes contra est\u00e1tuas, \u00e0s vezes contra corpos, \u00e0s vezes contra vidas, que se pode colocar termo a um conflito de um modo humanamente razo\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 n\u00e3o vamos a tempo de mudar o modo como dever\u00edamos ter interpretado<em>\u00a0<\/em>aquele acto. Mas a hist\u00f3ria, como exerc\u00edcio de reflex\u00e3o sobre a mem\u00f3ria realizado no presente, tem a virtualidade de poder ser sempre dita de novo, e de finalmente trazer ao de cima o que, para os contempor\u00e2neos, n\u00e3o se discernia com clareza. Talvez assim se possa, em lugar da desorienta\u00e7\u00e3o resultante de se ver entregue \u00e0 mera sucess\u00e3o avulsa de acontecimentos, tomar em m\u00e3os o pr\u00f3prio destino, para o colocar num rumo razo\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Direito da Universidade do Porto<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/8385-8385\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=172351\">Reimund Bertrams<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=172351\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto ao contradit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9702,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[157,144],"tags":[],"class_list":["post-9701","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direto-ao-contraditorio","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9701"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9703,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9701\/revisions\/9703"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}