{"id":9678,"date":"2020-06-25T14:22:19","date_gmt":"2020-06-25T13:22:19","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9678"},"modified":"2020-06-25T14:23:01","modified_gmt":"2020-06-25T13:23:01","slug":"livros-e-leituras-que-coisa-e-o-homem-um-itinerario-de-antropologia-biblica-pontificia-comissao-biblica-it","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/livros-e-leituras-que-coisa-e-o-homem-um-itinerario-de-antropologia-biblica-pontificia-comissao-biblica-it\/","title":{"rendered":"Livros e Leituras | Que coisa \u00e9 o homem? Um itiner\u00e1rio de antropologia b\u00edblica\u201d (Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica, it.)"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo recolhido do<a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/que_coisa_e_o_homem_um_itinerario_de_antropologia_biblica.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> SNPC<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">No original hebraico h\u00e1 um \u00fanico voc\u00e1bulo comp\u00f3sito \u201c\u2018ajjekkah\u201d, \u00abonde est\u00e1s?\u00bb. Esta interroga\u00e7\u00e3o rasga o sil\u00eancio do jardim do \u00c9den primordial: \u00abO Senhor Deus chamou o homem e disse-lhe: onde est\u00e1s?\u00bb (G\u00e9nesis 3,9). E Ad\u00e3o \u2013 que em hebraico n\u00e3o \u00e9 um nome pr\u00f3prio, porque est\u00e1 marcado pelo artigo \u201cha-\u2018adam\u201d, portanto \u00abo Homem\u00bb em absoluto, essa dimens\u00e3o radical que est\u00e1 em n\u00f3s, no nosso pai e nos nossos filhos \u2013 \u00e9 obrigado a fugir do meio das \u00e1rvores para tentar uma resposta desajeitada. Aquela pergunta, impertinente ou previs\u00edvel que fosse, ressoa incessantemente na hist\u00f3ria, e gerou um rio de propostas, mais do que respostas, codificadas sob o termo \u201cantropologia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esta biblioteca de explica\u00e7\u00f5es que procuram delinear o rosto e a coloca\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero humano na hist\u00f3ria \u2013 com o seu ros\u00e1rio de esplendores (\u00abo homem \u00e9 um \u201cmikr\u00f2s cosmos\u201d\u00bb, um miniuniverso, declarava Dem\u00f3crito no seu fragmento 34) e de mis\u00e9rias (\u00abo homem \u00e9 um micro-\u201cNarrenwelt\u201d\u00bb, um mundo de loucuras, replicava o Mefist\u00f3feles do \u201cFausto\u201d de Goethe) \u2013 acrescenta-se agora, surpreendentemente, n\u00e3o um dos muitos documentos vaticanos, como estamos habituados a esperar. Eis, antes, que uma institui\u00e7\u00e3o oficial, como a Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica (da qual tive a honra de ter sido membro no passado, quando presidia o cardeal Josef Ratzinger), prop\u00f5e um verdadeiro ensaio comparado, uma esp\u00e9cie de manual de refer\u00eancia de mais de 300 p\u00e1ginas. Ele procura, obviamente, como primeira interlocutora a academia teol\u00f3gica, ou seja, os docentes e os estudantes dos semin\u00e1rios e das faculdades de teologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, considerando o tema e o corte muito l\u00edmpido e original do texto, poderia sem hesita\u00e7\u00e3o chegar \u00e0s estantes das bibliotecas \u201claicas\u201d, porque, como muitas vezes se repete, a B\u00edblia \u00e9 sempre o \u00abgrande c\u00f3dice\u00bb (Northrop Frye), ou o \u00abl\u00e9xico fundamental\u00bb (Paul Claudel), ou o \u00abalfabeto art\u00edstico a cores\u00bb (Marc Chagall), ou a \u00abestrela polar \u00e9tica\u00bb (Krzysztof Kie\u2019lowski) da nossa cultura ocidental. H\u00e1, todavia, uma aspereza metodol\u00f3gica deveras amea\u00e7adora de transpor: como extrair um fio condutor homog\u00e9neo de uma recolha de 73 livros diferentes, ainda que coagulados e canonizados sob o \u00fanico t\u00edtulo de \u201cB\u00edblia\u201d, que, em todo o caso, em grego \u00e9 sempre um plural, \u00abLivros\u00bb? Esta \u00e9 a \u00e1rdua tarefa preliminar a enfrentar: conjugar diacronia e sincronia, sem cair na paralisia do fundamentalismo ou na babel das asser\u00e7\u00f5es, e sem se abandonar \u00e0 disseca\u00e7\u00e3o amputando os b\u00edceps textuais do corpo vivo contextual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, neste volume (\u201cChe cosa \u00e8 l\u2019uomo \u2013 Un itinerario di antropologia b\u00edblica\u201d, ed. Libreria Editrice Vaticana, 336 p\u00e1ginas, 15 \u20ac) optou-se por isolar uma narrativa fundadora expl\u00edcita, a dos tr\u00eas cap\u00edtulos iniciais do G\u00e9nesis, em particular o admir\u00e1vel d\u00edptico protol\u00f3gico-etiol\u00f3gico (o \u00abno princ\u00edpio\u00bb n\u00e3o \u00e9 cronol\u00f3gico nem ahist\u00f3rico, mas sapiencial, dir\u00edamos \u201cmetaf\u00edsico\u201d e meta-hist\u00f3rico) que governa os cap\u00edtulos 2-3. Ele \u00e9 semelhante \u00e0 fonte cujas \u00e1guas podem ser encontradas no rio dos textos b\u00edblicos sucessivos, \u00e1guas naturalmente enriquecidas por afluentes, meandros, percursos multiformes. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o t\u00edtulo do contributo, redigido por v\u00e1rios estudiosos da Comiss\u00e3o, \u00e9 colocado na sequ\u00eancia de uma outra espl\u00eandida s\u00edntese b\u00edblica, do Salmo 8, que se aglutina a torno a uma interroga\u00e7\u00e3o paralela \u00e0 do G\u00e9nesis: \u00abQue coisa \u00e9 o homem?\u00bb (v. 5, em hebraico \u201cmah-\u2018en\u00f4sh\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9, ent\u00e3o, a resposta a ambas as perguntas fundamentais? Atrav\u00e9s de uma opera\u00e7\u00e3o interpretativa precisa, que identifica \u00abaquilo que na p\u00e1gina b\u00edblica \u00e9 integrante da Revela\u00e7\u00e3o e aquilo que, por seu lado, \u00e9 contingente, ligado a mentalidades e costumes de uma determinada \u00e9poca hist\u00f3rica\u00bb, especifica-se aquele fluxo constante e m\u00f3vel acima mencionado, e que percorre todas as p\u00e1ginas b\u00edblicas. Numa sequ\u00eancia de quatro cap\u00edtulos, semelhantes a pontos cardeais de um mapa que tem em filigrana os citados cap\u00edtulos 2-3 do G\u00e9nesis, apresenta-se o ser humano no seu olhar para o Alto, ou seja, na sua rela\u00e7\u00e3o de criatura com o Criador; introduz-se o seu olhar para baixo, isto \u00e9, o la\u00e7o com o \u00abjardim\u00bb, a cria\u00e7\u00e3o conquistada pelo trabalho; delineia-se o seu olhar para o outro que est\u00e1 diante na rela\u00e7\u00e3o interpessoal com a mulher e com a fam\u00edlia, com corol\u00e1rios degenerativos da viol\u00eancia e da guerra; por fim, \u00e9 lan\u00e7ado um olhar para a hist\u00f3ria humana consequente, marcada pela rebeli\u00e3o, pela culpa, pelo mal, pela morte, mas n\u00e3o abandonada a esta deriva pelo Deus criador, e agora salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este projeto \u00e9 entran\u00e7ado em toda a trama das Escrituras, da Tor\u00e1 aos profetas, dos escritos sapienciais (\u00e9 reservado um espa\u00e7o significativo aos Salmos) at\u00e9 aos Evangelhos e \u00e0s Cartas apost\u00f3licas. Trata-se daquele rio pluriforme acima evocado, com as suas ondas diferentemente agitadas, e com aquela foz que no acontecimento singular de Cristo tem o seu ponto de chegada. Nesta imponente, mas n\u00edtida, arquitetura, gostar\u00edamos de reservar um sublinhado para a componente antropol\u00f3gica capital tamb\u00e9m para a cultura contempor\u00e2nea, a relacional. Faremo-lo atrav\u00e9s de um elemento simb\u00f3lico, de certa maneira menor, para n\u00e3o dizer m\u00ednimo, com frequ\u00eancia encrustado nas mentes de muitos de maneira distorcida, fruto de cristaliza\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas tradicionais.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Referimo-nos \u00e0 c\u00e9lebre \u00abcostela\u00bb de Ad\u00e3o, da qual teria sido aprestado o prot\u00f3tipo da mulher (cf. G\u00e9nesis 2,21-22). Na realidade, o correspondente voc\u00e1bulo hebraico, \u201csela\u2019\u201d, na B\u00edblica, \u00abnunca designa uma parte espec\u00edfica do corpo, mas simplesmente um \u201clado\u201d ou um flanco de qualquer objeto. Se ent\u00e3o se evita a refer\u00eancia a um \u00f3rg\u00e3o anat\u00f3mico, poder-se-ia fazer emergir a ideia de que \u201chomem e mulher\u201d est\u00e3o como \u201clado a lado\u201d, semelhantes na sua natureza constitutiva; e, ao mesmo tempo, eles s\u00e3o chamados a estar \u201clado a lado\u201d, um ao lado do outro, como ajuda e aliado\u00bb (n. 156). Desmoronam-se, assim, todos os sarcasmos que foram tecidos sobre este excerto, com as relativas aplica\u00e7\u00f5es, infelizmente eficazmente concretas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 depend\u00eancia da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao homem, contrabandeando-as como sacramente avalizadas.<\/p>\n<p>O mesmo sono no qual \u00e9 colocado o acontecimento da cria\u00e7\u00e3o da mulher n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de anestesia induzida pelo Deus cirurgi\u00e3o que extrai a costela, mas \u2013 como ocorre muitas vezes na B\u00edblia \u2013 \u00e9 a sede de uma revela\u00e7\u00e3o transcendente (pense-se nos \u201csonhos\u201d dos dois Jos\u00e9, o eg\u00edpcio e o pai legal de Jesus). A mensagem \u00e9 clara: da comum humanidade (\u201c\u2018adam\u201d) formam-se as duas identidades, que, curiosamente, em hebraico s\u00e3o definidas com voc\u00e1bulos entre eles ligados e hom\u00f3fonos, declinados no masculino e no feminino: \u201c\u2018ish\u201d, homem, e \u201c\u2018isshah\u201d, mulher. Comenta o texto da Comiss\u00e3o: \u00abIsto indica n\u00e3o s\u00f3 a radical semelhan\u00e7a, mas patenteia que a sua diferen\u00e7a solicita a descobrir o bem espiritual do rec\u00edproco reconhecimento, princ\u00edpio de comunh\u00e3o e apelo a tornar-se \u201cuma s\u00f3 carne\u201d (G\u00e9nesis 2,24). N\u00e3o \u00e9 a solid\u00e3o do masculino que \u00e9 socorrida, mas a do ser humano a ser socorrida, mediante a cria\u00e7\u00e3o do homem e mulher\u00bb (n. 153).<\/p>\n<p>Naturalmente, muitas mais s\u00e3o as surpresas \u2013 sempre, no entanto, criticamente fundadas nos textos \u2013 com as quais o leitor se deparar\u00e1, inclusive quanto a quest\u00f5es consideradas espinhosas: deixo a quem quiser aprofundar estas p\u00e1ginas descobrir, por exemplo, a correta interpreta\u00e7\u00e3o do \u00abpecado de Sodoma\u00bb, uma cidade condenada n\u00e3o tanto pela \u201csodomia\u201d dos seus habitantes, mas pela viola\u00e7\u00e3o de uma das normas \u00e9tico-sociais-religiosas mais altas, a hospitalidade do estrangeiro (leiam-se os n\u00fameros 186-188). E isto n\u00e3o \u00e9 fruto de um \u201cpoliticamente correto\u201d, como algu\u00e9m poder\u00e1 desde j\u00e1 dizer \u00e0 toa, mas de uma rigorosa an\u00e1lise hist\u00f3rico-cr\u00edtica, hermen\u00eautica e teol\u00f3gica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Card. Gianfranco Ravasi<br \/>\nPresidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura, biblista<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cortiledeigentili.com\/cosi-il-genere-umano-trovo-posto-nella-storia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cortile dei Gentili<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\n<\/span>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"ficha_tecnica_multimedia\" style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/www.libreriaeditricevaticana.va\/content\/libreriaeditricevaticana\/it\/novita-editoriali\/che-cosa-e--l-uomo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&#8220;Che cosa \u00e8 l\u2019uomo \u2013 Un itinerario di antropologia b\u00edblica&#8221;<\/a><\/div>\n<\/div>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Letraaa-2889137\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2877322\">Jona Bartholdy<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2877322\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo recolhido do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9679,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,9],"tags":[],"class_list":["post-9678","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9678"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9678\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9681,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9678\/revisions\/9681"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}