{"id":9674,"date":"2020-06-25T18:02:05","date_gmt":"2020-06-25T17:02:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9674"},"modified":"2020-06-25T18:02:05","modified_gmt":"2020-06-25T17:02:05","slug":"pensamento-de-edith-stein-edith-stein-e-a-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-edith-stein-e-a-mulher\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | Edith Stein e a mulher"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Edith Stein e a mulher<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos aspectos que mais e melhor caracteriza a vida de Edith Stein \u00e9 a sua grande preocupa\u00e7\u00e3o pelo tema da mulher. J\u00e1 na sua adolesc\u00eancia teve diversas experi\u00eancias que lhe fizeram abrir os olhos diante de uma evidente desigualdade e discrimina\u00e7\u00e3o da mulher<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">1<\/a>. Insinu\u00e1vamos, no primeiro cap\u00edtulo e afirm\u00e1vamos no anterior, que uma s\u00f3 preocupa\u00e7\u00e3o era o motor da sua busca: o sentido do ser e da exist\u00eancia do ser humano. E, a partir da\u00ed, p\u00f5e-se como objectivo, n\u00e3o s\u00f3 descobrir respostas existenciais, mas buscar solu\u00e7\u00f5es para a desigualdade que a mulher sofre. Na sua autobiografia reflecte esse mesmo interesse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abA partir deste sentimento de responsabilidade social pus-me decididamente em favor do direito do voto feminino. Isto era ent\u00e3o, inclusive dentro do movimento cidad\u00e3o feminino, n\u00e3o de todo evidente. A associa\u00e7\u00e3o prussiana em favor do voto da mulher, na qual ingressei com minhas amigas, estava integrada na sua maioria por socialistas, devido a que defendia a total igualdade pol\u00edtica de direitos para a mulher\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">2<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela pr\u00f3pria n\u00e3o cair\u00e1 na conta da necessidade de fundamentar antropologicamente o movimento feminista e as suas reivindica\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que n\u00e3o encontre a verdade que est\u00e1 a buscar em Cristo. Propriamente, s\u00f3 depois da sua convers\u00e3o, e especialmente a partir de 1928, \u00e9 que encontramos nela um desenvolvimento espec\u00edfico de uma antropologia feminina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 por isso que as suas an\u00e1lises n\u00e3o s\u00e3o simplesmente o resultado da constata\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o real e a luta por alcan\u00e7ar uma ligar de igualdade para a mulher. Conduz a quest\u00e3o feminina por outros trilos mais s\u00e9rios e profundos, com a finalidade de se encontrar com uma solu\u00e7\u00e3o definitiva. Por isso, n\u00e3o para normalmente em particularismos, aos quais recorre apenas como exemplos para esclarecer as suas teses. Busca o essencial. E \u00e9 aqui onde manifesta o caracter\u00edstico da sua metodologia fenomenol\u00f3gica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abA natureza de um ser humano e o desenvolvimento da sua vida n\u00e3o se realizam casualmente, mas s\u00e3o, \u00e0 luz da f\u00e9, obra de Deus. No fundo, quem chama \u00e9 Deus. Ele \u00e9 quem chama cada homem \u00e0 actividade que lhe corresponde, cada indiv\u00edduo para o que ele \u00e9 pessoalmente chamado; e, al\u00e9m disso,\u00a0 chama\u00a0 o homem e a mulher ao que \u00e9 pr\u00f3prio e particular de cada um. N\u00e3o parece f\u00e1cil distinguir o peculiar da chamada do homem e da mulher, uma vez que se discutiu sobre o tema durante muito tempo. E, no entanto, existem muitos modos atrav\u00e9s dos quais chega at\u00e9 n\u00f3s o chamamento: o pr\u00f3prio Deus nos fala no Antigo e no Novo Testamento\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">3<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edith \u00e9 consciente de que uma mudan\u00e7a na mentalidade e funcionamento dos estamentos sociais em favor da mulher e em benef\u00edcio de todos, s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel se realmente estiver fundamentada no ser aut\u00eantico do que \u00e9 a mulher. Da\u00ed, a sua antropologia ter um car\u00e1cter \u00abdiferencial\u00bb: \u00e9 necess\u00e1rio conhecer e especificar o t\u00edpico do ser do homem e da mulher. A resposta definitiva n\u00e3o a podem dar apenas as ci\u00eancias humanas (pedagogia, psicologia, filosofia, biologia,&#8230;). Por isso, h\u00e1 que buscar u fundamento \u00faltimo em Deus, na sua vontade criadora, no sue plano de salva\u00e7\u00e3o universal. A sua vis\u00e3o da mulher \u00e9 b\u00edblica e teol\u00f3gica, e s\u00f3 desde a\u00ed pode ser bem compreendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A este ponto temos que acrescentar que a reflex\u00e3o teol\u00f3gica e antropol\u00f3gica que Edith Stein faz \u00e9 motivada, em grande parte, pela urg\u00eancia que sente de recuperar a \u00abindividualidade do g\u00e9nero feminino\u00bb pela qual tanto se empenhou na sua vida\u00bb. Sente a necessidade e a exig\u00eancia vital de estabelecer os princ\u00edpios caracter\u00edsticos da feminidade para que, a partir dos mesmos, a mulher tome consci\u00eancia do seu ser \u00abdiverso\u00bb e possa desenvolver em si esses valores que n\u00e3o s\u00f3 a distinguem, mas, al\u00e9m disso, s\u00e3o o caminho aut\u00eantico para uma compreens\u00e3o de si e um desenvolvimento pleno da sua vida em totalidade. \u00c9 esta voca\u00e7\u00e3o \u00abespecial\u00bb que determina e orienta uma aproxima\u00e7\u00e3o diferencial \u00e0 mulher. E Edith vai encontr\u00e1-la na Sagrada Escritura. Determinar o sentido de quanto configura a voca\u00e7\u00e3o da mulher, \u00e9 o motivo pelo qual a nossa autora se det\u00e9m em repetidas ocasi\u00f5es a analisar cuidadosamente os textos b\u00edblicos mais importantes onde se fala da mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Homem e mulher os criou<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A insist\u00eancia de Edith Stein no essencial da quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de uma an\u00e1lise abstracta da realidade. O seu ponto de partida n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o da situa\u00e7\u00e3o actual, a raz\u00e3o pela qual a mulher se encontrou ao longo da hist\u00f3ria e ainda se encontra hoje submetida ao dom\u00ednio do homem. A leitura que faz deste fen\u00f3meno \u00e9 decididamente b\u00edblica e teol\u00f3gica: a situa\u00e7\u00e3o actual \u00e9 o fruto do pecado original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed iniciar o seu estudo antropol\u00f3gico da mulher a partir do momento origin\u00e1rio da cria\u00e7\u00e3o do homem e de mulher onde se reflecte o aut\u00eantico estado da humanidade. N\u00e3o se fecha a uma simples an\u00e1lise do ser da mulher, mas preocupa-se por examinar as duas naturezas originais: homem e mulher. S\u00f3 partindo daqui se pode compreender o lugar de cada um na humanidade, a distin\u00e7\u00e3o e a complementaridade dos dois sexos. Vai ser este o seu grande m\u00e9rito e inova\u00e7\u00e3o perante os movimentos feministas da sua \u00e9poca, demasiado ocupados numa simples reivindica\u00e7\u00e3o dos seus direitos, sem parar numa an\u00e1lise objectiva da sociedade composta por homens e mulheres. A mulher s\u00f3 poder\u00e1 ter acesso ao seu lugar aut\u00eantico na humanidade se partir de uma an\u00e1lise completa do seu ser antropol\u00f3gico e teol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde encontrar o ser aut\u00eantico do homem e da mulher? Na sua origem, antes da queda no pecado e da perda da ordem primitiva. Descobre no G\u00e9nesis o lugar teol\u00f3gico para come\u00e7ar o seu discurso antropol\u00f3gico. No princ\u00edpio, Deus criou-os \u00abhomem e mulher\u00bb: \u00ab<em>Deus criou o homem \u00e0 sua imagem<\/em>, <em>criou-o \u00e0 imagem de Deus<\/em>, <em>e criou-os<\/em> <em>homem e mulher<\/em>\u00bb (Gn 1, 27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este vers\u00edculo do G\u00e9nesis tem para Edith Stein um evidente significado diferencial, que justifica o facto de falar de uma diferen\u00e7a essencial de sexos, isto \u00e9, como parte do projecto de Deus sobre a humanidade: \u00abJ\u00e1 na primeira narra\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o do homem se fala da diferen\u00e7a entre homem e mulher\u00bb<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">4<\/a>. Esta diferen\u00e7a tem um sentido positivo, no qual se descobre um mist\u00e9rio de grande import\u00e2ncia na hora de realizar a imagem de Deus na hist\u00f3ria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abSe fez o homem n\u00e3o como \u00fanica esp\u00e9cie, mas p\u00f4-lo no mundo como par, ent\u00e3o a sua exist\u00eancia deve alcan\u00e7ar tamb\u00e9m um sentido social e variado. Ambos foram formados \u00e0 imagem de Deus. E como cada criatura na sua limita\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode reflectir sen\u00e3o uma parte fragment\u00e1ria, na multid\u00e3o das criaturas a infinita unidade e unicidade de Deus aparece dividida numa totalidade de raios diferentes, assim tamb\u00e9m a esp\u00e9cie masculina e feminina reflectem a imagem divina de diferentes maneiras\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">5<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toca-se aqui o mist\u00e9rio da diferencia\u00e7\u00e3o do homem e da mulher. N\u00e3o se trata de algo meramente casual ou natural, que vir\u00e1 superado, mas encerra em si um car\u00e1cter vocacional espec\u00edfico chamado a realizar-se tamb\u00e9m na Eternidade. Esta diferencia\u00e7\u00e3o adquire um peso mais significativo na obra da Reden\u00e7\u00e3o, onde descobrimos novamente um par humano com o duplo rosto masculino e feminino, Cristo e Maria<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">6<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ajuda e companheira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras da Escritura, concretamente do livro do G\u00e9nesis, tomadas em sentido literal, chegamos facilmente a uma incompreens\u00e3o da mensagem que nos querem transmitir. E quanto nos \u00e9 dito da mulher, pode soar mesmo a uma linguagem antiquada e machista. Edith n\u00e3o se deixa enganar, pretende ir muito mais al\u00e9m da letra do texto, procura desentranhar os elementos que definem o espec\u00edfico do sexo feminino. Para Edith Stein h\u00e1 duas palavras chaves na determina\u00e7\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o b\u00edblica da mulher: \u00abajuda\u00bb ou \u00abcompanheira\u00bb e \u00abm\u00e3e\u00bb. Por agora, centramo-nos no sentido de \u00abajuda\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em G\u00e9nesis 2, 18-25 encontramos o seguinte relato da cria\u00e7\u00e3o da mulher:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abO Senhor Deus disse: \u201cN\u00e3o \u00e9 bom que o homem esteja s\u00f3 Vou dar-lhe uma ajuda semelhante a ele\u201d. Ent\u00e3o, o Senhor Deus, ap\u00f3s ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos c\u00e9us, conduziu-os at\u00e9 junto do homem, para ver como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes disse. O homem p\u00f4s nomes a todos os animais dom\u00e9sticos, a todas as aves do c\u00e9us e a todos os animais ferozes; contudo, n\u00e3o encontrou para ele uma ajuda adequada. Ent\u00e3o, o Senhor Deus fez cair um profundo sono sobre o homem; que adormeceu. E, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a at\u00e9 ao homem. Ao v\u00ea-la, o homem exclamou: \u201cEsta \u00e9 realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-\u00e1 mulher, visto ter sido tirada do homem\u201d. Por esse motivo, o homem deixar\u00e1 o pai e a m\u00e3e para se unir \u00e0 sua mulher; e os dois ser\u00e3o uma s\u00f3 carne. Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas n\u00e3o sentiam vergonha\u00bb.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abAlgo mais sobre a rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher nos diz o segundo relato sobre a cria\u00e7\u00e3o do homem. Narra a cria\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o e diz-nos que foi posto no \u201cPara\u00edso das del\u00edcias\u201d para o cultivar e proteger; recorda que diante dele foram passando os animais e que lhes deu o seu nome <\/em>(Gn 2, 18 ss).<em> \u201cMas entre todos eles n\u00e3o havia para o homem ajuda proporcionada a ele\u201d <\/em>(Gn 2, 20).<em> A express\u00e3o hebraica que aqui aparece n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de traduzir para o alem\u00e3o: Eser Kenegdo \u2013 literalmente: \u201cuma ajuda correspondente a ele\u201d. Pode-se pensar numa imagem de espelho na qual o homem possa ver a sua pr\u00f3pria natureza. Por isso, as tradu\u00e7\u00f5es falam de uma \u201cajuda semelhante a ele\u201d; pode-se pensar tamb\u00e9m num complemento, num Pendant, em que as duas partes se correspondem;\u00a0 mas n\u00e3o num sentido pleno, mas de tal modo que se completem mutuamente como uma m\u00e3o com a outra. \u201cE o Senhor Deus disse: \u201cN\u00e3o \u00e9 bom que o homem esteja s\u00f3, vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele\u201d <\/em>(Gn 2, 18).<em> E o Senhor fez cair sobre Ad\u00e3o um sono e tomou uma das suas costelas com a qual formou a mulher e apresentou-a a Ad\u00e3o. \u201cO homem exclamou: Isto sim, que \u00e9 osso dos meus ossos e carne da minha carne. Esta chamar-se-\u00e1 mulher, visto ter sido tirada do homem\u201d <\/em>(Gn 2, 23).<em> Por isso, o homem deixar\u00e1 o pai e a m\u00e3e para se unir \u00e0 sua mulher, e os dois ser\u00e3o uma s\u00f3 carne <\/em>(Gn 2, 23).<em> Os dois estavam nus, Ad\u00e3o e sua mulher; mas n\u00e3o sentiam vergonha <\/em>(Gn 2, 24)&#8230;<em> O facto de que o homem fosse criado primeiro, manifesta uma certa prioridade de ordem. E o motivo pelo qual n\u00e3o era bom para ele estar s\u00f3, temos que deduzi-lo da pr\u00f3pria palavra de Deus. Ele fez o homem \u00e0 sua imagem. Mas Deus \u00e9 uno e trino: como o Filho procede do Pai e do Pai e do Filho procede o Esp\u00edrito, assim a mulher procede do homem e dos dois a descend\u00eancia. Mais ainda: Deus \u00e9 amor. O amor n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se n\u00e3o existem pelo menos dois&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aqui n\u00e3o se fala de um dom\u00ednio do homem sobre a mulher: a ela chama-se-lhe companheira e ajuda, e do homem diz-se que se uniria a ela e que os dois seriam uma s\u00f3 carne. Isto quer dizer que a vida dos primeiros seres humanos tem que ser considerada como a mais \u00edntima comunidade de amor, que ambos colaboram em perfeita harmonia de for\u00e7as num \u00fanico ser, tal como sucedia no indiv\u00edduo antes do pecado, a perfeita harmonia das pot\u00eancias; esp\u00edrito e sentido estavam na justa rela\u00e7\u00e3o sem possibilidade de contraste. Por isso, n\u00e3o conheciam no in\u00edcio nenhum instinto desenfreado um diante do outro. Esta ideia est\u00e1 presente nas palavras: estavam nus e n\u00e3o sentiam vergonha <\/em>(Gn 2, 25)\u00bb<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">7<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este longo texto steiniano aproxima-nos muito bem das consequ\u00eancias que uma boa compreens\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o desta vis\u00e3o b\u00edblica teria para a mulher. Falar de ajuda n\u00e3o \u00e9 falar de um ser subordinado, nem muito menos escravizado ao querer do homem. \u00abAjuda\u00bb significa antes de tudo correspond\u00eancia, no sentido de que o homem tem na mulher o seu semelhante, e a uni\u00e3o dos dois reproduz a imagem completa de Deus. A mulher \u00e9 a companheira do homem, o que implica que tudo quanto faz parte da vida e voca\u00e7\u00e3o do homem lhe afecta e interessa directamente. Na pr\u00e1tica quer dizer \u00abparticipa\u00e7\u00e3o da mulher na profiss\u00e3o do homem\u00bb, em todas \u00abas coisas do homem\u00bb<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">8<\/a>. Ser ajuda \u00abcorrespondente\u00bb significa, al\u00e9m disso, complemento: \u00abcomo sua outra metade\u00bb, onde se pode contemplar e encontrar a si mesmo, e com quem realmente pode realizar a sua voca\u00e7\u00e3o de dominar o mundo e criar continuamente a humanidade<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">9<\/a>. E de toda esta realidade deduz-se em grandes tra\u00e7os a vontade\u00a0 an\u00edmica da mulher: \u00ab<em>Esta<\/em> <em>primeira determina\u00e7\u00e3o acomoda-se ao seu modo de ser: ir ao lado do homem, tomar parte com amor na sua vida, com fidelidade e disposta a servir. \u00c9 o caracter\u00edstico da feminidade. Isto traz consigo o ter capacidade de empatia para com o outro e as suas<\/em> <em>necessidades, capacidade e docilidade de adapta\u00e7\u00e3o<\/em>\u00bb<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">10<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A semelhan\u00e7a, a complementaridade ou ajuda correspondente, que a Escritura sublinha com tanta evid\u00eancia, tem uma solu\u00e7\u00e3o ainda mais profunda no mist\u00e9rio de Deus, de tal modo que \u00aba mulher foi posta ao lado do homem a fim de que um ajude o ser do outro a realizar-se\u00bb, quer dizer, para que entre os dois realizem o projecto encomendado por Deus, representado antes de tudo nesse \u00abser imagem de Deus\u00bb. Deixamos novamente que Edith o exprima com as suas palavras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abSe se aparta o facto de que, segundo a nossa concep\u00e7\u00e3o da unidade completa da alma e do corpo, todos os processos corporais (quando s\u00e3o verdadeiramente processos corporais e n\u00e3o pura e simplesmente materiais) s\u00e3o, ao mesmo tempo, processos ps\u00edquicos, a rela\u00e7\u00e3o da mulher com o homem n\u00e3o deve realmente ser concebida como uma rela\u00e7\u00e3o simplesmente ou quase exclusivamente corporal. Devia ser dada uma ajuda (Gn 2, 18) a Ad\u00e3o para que \u201cn\u00e3o estivesse s\u00f3\u201d. A prop\u00f3sito destas duas express\u00f5es n\u00e3o se pode pensar primeiro mais do que numa rela\u00e7\u00e3o ps\u00edquica: \u201cDeus criou os homens \u00e0 sua imagem [&#8230;] Ele criou o homem e a mulher\u201d (Gn 1, 27) e deu-lhe a gra\u00e7a da fecundidade. Criou-os \u00e0 sua imagem enquanto ess\u00eancia espiritual e pessoal. E, precisamente por esta raz\u00e3o n\u00e3o era mau que Ad\u00e3o se encontrasse s\u00f3, visto que o sentido mais elevado do ser espiritual e pessoal \u00e9 o amor rec\u00edproco e a unidade existencial de uma pluralidade de pessoas no amor? Por isso o Senhor deu a Ad\u00e3o \u201cuma ajuda na presen\u00e7a dele\u201d: uma companheira que lhe correspondia como uma m\u00e3o corresponde a outra, que se assemelhava quase inteiramente com ele, e contudo, era, por sua vez, um pouco diferente e capaz assim de uma actividade pr\u00f3pria e complementar, tamb\u00e9m tanto do ponto de vista do seu ser corporal como do ponto de vista do seu ser ps\u00edquico\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">11<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante constatar como Edith leva at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias as afirma\u00e7\u00f5es da Revela\u00e7\u00e3o. A cria\u00e7\u00e3o do homem e da mulher \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a, implica n\u00e3o s\u00f3 uma capacidade de uni\u00e3o f\u00edsica, mas uma uni\u00e3o muito superior, cujo modelo \u00e9 a mesm\u00edssima vida intratrinit\u00e1ria. De tal modo que a complementaridade abrange principalmente a dimens\u00e3o pessoal e espiritual do ser humano, capaz, neste plano,\u00a0 de alcan\u00e7ar uma uni\u00e3o muito superior da f\u00edsica ou ps\u00edquica. E aqui encontramo-nos diante de outro elemento que caracteriza a alma feminina como ajuda, complemento e companheira necess\u00e1ria do homem, a sua maior capacidade de se fazer dom: \u00abMas a for\u00e7a do dom n\u00e3o depende somente do grau de ajuda que \u00e9 prestado, mas tamb\u00e9m do que se pode receber na sua alma, e por conseguinte de eleva\u00e7\u00e3o existencial que se possa experimentar. E se a for\u00e7a mais importante do dom corresponde \u00e0 ess\u00eancia da mulher, \u00e9 que na uni\u00e3o de amor n\u00e3o somente ela dar\u00e1 mais, mas tamb\u00e9m receber\u00e1 mais\u00bb<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">12<\/a>. Precisamente por isso, Edith descobre na pessoa do Esp\u00edrito Santo o prot\u00f3tipo do qual a mulher \u00e9 imagem<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">13<\/a>.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 80px; text-align: right;\">*Javier Sancho.<em> La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. <\/em>Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 93-98.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/zhivko-3946012\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3035665\">Zhivko Dimitrov<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3035665\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">1<\/a> Desenvolvi este tema, com um car\u00e1cter mais doutrinal, no meu livro: <em>Uma espiritualidade para hoje<\/em> <em>segundo Edite Stein<\/em>, Burgos 1998, pp. 321 ss.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">2<\/a> EA 149.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">3<\/a> <em>A voca\u00e7\u00e3o do homem e da mulher<\/em>, em Obras 120-121.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">4<\/a> Ib. 121.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">5<\/a> <em>A vida crist\u00e3 da mulher<\/em>, em Mulher 121.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">6<\/a> Cf. <em>Jugendbildung im Lichte des katholichen Glaubens<\/em>, em ESW XII, 220-221.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">7<\/a> <em>A vida crist\u00e3 da mulher<\/em>, em Mulher 122-123.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">8<\/a> Cf. <em>A vida crist\u00e3 da mulher<\/em>, em Mulher 108-109.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">9<\/a> Cf. <em>Os problemas da educa\u00e7\u00e3o da mulher<\/em>, em Mulher 221.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">10<\/a> Cf. <em>A determina\u00e7\u00e3o vocacional da mulher<\/em>, em Obras 92.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">11<\/a> SFSE 528-529.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">12<\/a> Ib. 529.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">13<\/a> Cf. <em>A vida crist\u00e3 da mulher<\/em>, em Mulher 122.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9688,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-9674","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9674","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9674"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9674\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9689,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9674\/revisions\/9689"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9688"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9674"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9674"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9674"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}