{"id":960,"date":"2017-05-30T15:36:12","date_gmt":"2017-05-30T15:36:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=960"},"modified":"2017-06-02T16:15:28","modified_gmt":"2017-06-02T16:15:28","slug":"rosto-de-misericordia-padre-raul-domingues-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/rosto-de-misericordia-padre-raul-domingues-da-cruz\/","title":{"rendered":"ROSTO DE MISERIC\u00d3RDIA &#8211; PADRE RAUL DOMINGUES DA CRUZ"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>ROSTO DE MISERIC\u00d3RDIA &#8211; PADRE RAUL DOMINGUES DA CRUZ<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Pe. Georgino Rocha (Texto)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pe. Raul Domingues da Cruz nasce a 1909, no Sobreiro, lugar de Albergaria-a-Velha, aqui frequenta a escola prim\u00e1ria, ingressa depois no Semin\u00e1rio do Porto onde conclui os estudos eclesi\u00e1sticos e \u00e9 ordenado na S\u00e9 por D. Ant\u00f3nio Augusto de Castro Meireles, bispo desta diocese, a 6 de Agosto de 1933. Celebra a \u201cmissa nova\u201d em F\u00e1tima, na capelinha das Apari\u00e7\u00f5es, a 17 de Agosto de 1933. \u00c9 encarregado interinamente da par\u00f3quia de Valmaior e, depois nomeado p\u00e1roco de Ribeira de Fr\u00e1guas a 31 de Outubro seguinte. Realiza miss\u00e3o not\u00e1vel, na simplicidade discreta e na caridade pastoral generosa, numa doa\u00e7\u00e3o completa, at\u00e9 1986, ano em que recolhe \u00e0 terra natal e em que vem a falecer a 21 de Maio. <\/strong><\/p>\n<p><strong>A sua vida decorre num tempo marcado por grandes acontecimentos que se repercutem no exerc\u00edcio do seu minist\u00e9rio, sobretudo junto do povo necessitado, dos jovens em busca de um futuro de esperan\u00e7a, de crian\u00e7as a despontarem sonhos de uma vida feliz. E o P. Raul reparte-se em esfor\u00e7os de bondade e de servi\u00e7os de proximidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Acontecimentos marcantes<\/strong><\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7a do regime pol\u00edtico, em 1910, imprime um novo rumo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da Igreja em Portugal. A 1\u00aa rep\u00fablica, nos seus diversos actores, designadamente agentes pol\u00edticos, imp\u00f5e leis que \u201cferem\u201d profundamente a consci\u00eancia crist\u00e3, espoliam os bens da Igreja e perseguem respons\u00e1veis religiosos e eclesi\u00e1sticos. Embora com tonalidades diferentes, a tens\u00e3o crescente encontra \u201cum escape\u201d com o envio de capel\u00e3es para acompanhar o corpo expedicion\u00e1rio portugu\u00eas na parte final da 1\u00aa Grande Guerra e com as apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima em 1917. <\/strong><\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o de 28 de Maio de 1926, comandada pelo General Gomes da Costa, pretende restituir a dignidade \u00e0 P\u00e1tria deslustrada pelos atropelos republicanos e inicia uma era de estabilidade pol\u00edtica que oficialmente se configura no Estado Novo com a constitui\u00e7\u00e3o de 1933. Neste ano celebra o P. Raul em F\u00e1tima a sua primeira missa. A Igreja pode respirar, com intensidades v\u00e1rias, os ares de um tempo novo, de forma\u00e7\u00e3o e revigoramento an\u00edmico e espiritual nos fi\u00e9is, de\u00a0 reorganiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, designadamente semin\u00e1rios, de constru\u00e7\u00e3o de templos, de revitaliza\u00e7\u00e3o nas par\u00f3quias. Os cat\u00f3licos disp\u00f5em de directizes doutrinais e pr\u00e1ticas, sa\u00eddas do Conc\u00edlio Plen\u00e1rio Portugu\u00eas em 1926 e da Carta colectiva do Episcopado de 1930. S\u00e3o convocados para uma nova forma de presen\u00e7a p\u00fablica, organizada, unidos e coesos. Surge a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica em 1933 que rapidamente se estende a muitas par\u00f3quias. O P. Raul acolhe e implementa este\u00a0 movimento com a constitui\u00e7\u00e3o dos organismos da Juventude Agr\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Outros acontecimentos se sucedem com forte repercuss\u00e3o pastoral, como a restaura\u00e7\u00e3o da diocese de Aveiro, em 1939, a realiza\u00e7\u00e3o do 1\u00ba S\u00ednodo e a publica\u00e7\u00e3o das \u201cConstitui\u00e7\u00f5es do Bispado\u201d em 1944, a difus\u00e3o do Catecismo Nacional, a partir dos anos 50 e a celebra\u00e7\u00e3o do II Conc\u00edlio do Vaticano e sua recep\u00e7\u00e3o na Igreja. Sem esquecer \u201co vinte e cinco de Abril\u201d, a revolu\u00e7\u00e3o que desencadeia um movimento de enorme mudan\u00e7a em Portugal. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Nova Igreja paroquial<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segundo refere N\u00e9lia Oliveira e Nuno Jesus no seu livro \u201cRibeira de Fr\u00e1guas \u2013 a sua Hist\u00f3ria\u201d \u2013 2010, um violento inc\u00eandio deflagra na velha igreja matriz desta par\u00f3quia na madrugada de 4 de Maio de 1953. O fogo propaga-se a quase todo o edif\u00edcio, apesar dos esfor\u00e7os do P. Raul que chama o povo tocando os sinos a rebate. Como n\u00e3o h\u00e1 telefone, o p\u00e1roco, descal\u00e7o, p\u00f5e-se a caminho de Albergaria para alertar os bombeiros. O templo fica profundamente danificado e algumas partes s\u00e3o consumidas pelo fogo. A sua constru\u00e7\u00e3o era de 1666.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um outro \u00e9 preciso erguer, sem demora. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito preocupante: Gente pobre e cansada de dar ( o Semin\u00e1rio de Santa Joana estava em constru\u00e7\u00e3o), a procura de local mais central para a popula\u00e7\u00e3o, o consenso a gerar \u00e0 volta deste ideal comum, o acerto de projectos e respectivo or\u00e7amento\u2026 caem sobre \u201cas costas\u201d do P. Raul como uma cruz pesada. Aflito e sem recursos, sente o peso das limita\u00e7\u00f5es e apoiando-se num valoroso grupo de colaboradores, \u201clan\u00e7a m\u00e3o\u201d de iniciativas v\u00e1rias, ficando c\u00e9lebre \u201co cortejo da telha\u201d e a carta enviada aos colegas p\u00e1rocos da diocese e a amigos de outras terras. E d\u00e1 o exemplo de generosidade, encaminhando os parcos haveres de que dispunha para \u201ca caixa comum\u201d. Em 1959, no dia de S. Tiago, padroeiro da par\u00f3quia, \u00e9 dado in\u00edcio \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o da nova matriz que se conclui, s\u00f3 ao fim de quase doze \u00e1rduos anos, tal a dificuldade em se arranjarem fundos para custear as despesas. <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cCom grande esp\u00edrito de sacrif\u00edcio e uma enorme tenacidade conseguiu dar resposta conveniente a todas as interroga\u00e7\u00f5es e dificuldades da popula\u00e7\u00e3o no objetivo da constru\u00e7\u00e3o da nova igreja. \u00c9 nas dificuldades que se revela a t\u00eampera dos homens, e o Padre Raul conseguiu-o\u201d, afirmam os autores mencionados.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Colabora\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio do poder local<\/strong><\/p>\n<p><strong>O P. Raul exerce cargos p\u00fablicos em dois per\u00edodos cruciais para a vida das popula\u00e7\u00f5es. Desempenha fun\u00e7\u00f5es de Vereador da C\u00e2mara Municipal de Albergaria, entre 1946 e 1950, e de escriv\u00e3o da Junta de Freguesia de 1942 a 1956. Os efeitos da 2\u00aa Grande Guerra faziam-se sentir de forma agravada para as fam\u00edlias com poucas posses. O racionamento de bens indispens\u00e1veis, a declara\u00e7\u00e3o\/controle da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, as taxas\/d\u00e9cimas agravadas\u2026 reca\u00edam \u201csem d\u00f3 nem piedade\u201d sobre as costas da pobre gente do campo. O amor ao bem do povo sobrepunha-se a qualquer poss\u00edvel simpatia pelo regime pol\u00edtico vigente, ainda que fosse normal neste per\u00edodo hist\u00f3rico uma natural satisfa\u00e7\u00e3o pelo clima social conseguido. Foi tamb\u00e9m durante anos professor de Moral Cat\u00f3lica no Col\u00e9gio de Albergaria.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pastor com cheiro \u201ca ovelha\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>O P. Raul cultiva um estilo de vida muito pr\u00f3ximo aos paroquianos. \u00c9 um bom \u201cp\u00e1roco de aldeia\u201d! Acolhe quando o procuram, vai sempre que pressente ser prest\u00e1vel, leva consigo o que lhe parece mais \u00fatil e ben\u00e9fico, \u00a0reparte bens alimentares apreciados como o mel das suas colmeias, mais de cinquenta, os produtos agr\u00edcolas da sua horta, o peixe apanhado na pesca fluvial ou na ria de Aveiro, a carne das aves e dos animais das suas ca\u00e7adas. Sabe ser mediador em contendas por quest\u00f5es de serventia de campos ou outras. <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cO Pe. Raul deu praticamente tudo incluindo a pr\u00f3pria vida estando 50 anos ao servi\u00e7o de uma paroquia e de um povo, sem reservas e sem limites daquilo que podia dar\u201d declara um paroquiano entusiasmado que acrescenta: O carro que comprou, um Volkswagen Carocha, foi pago com metades de porco, ou seja, ia dando meia carca\u00e7a de porco para pagar a presta\u00e7\u00e3o do carro\u201d. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Apoia as fam\u00edlias na ora\u00e7\u00e3o ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o e ao cora\u00e7\u00e3o Imaculado de Maria, cujas imagens quer ver em todas as casas. Apaixonado pela mensagem de F\u00e1tima, fomenta a recita\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o e a peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 Cova da Iria. Promove a renova\u00e7\u00e3o da catequese participando juntamente com catequistas em cursos de prepara\u00e7\u00e3o, introduz o servi\u00e7o dos ministros extraordin\u00e1rios da comunh\u00e3o e da visita aos doentes, favorece o despertar vocacional, tendo a alegria de surgiram dois novos padres na sua par\u00f3quia. Como testemunham paroquianos seus: \u201cPrestou sempre aten\u00e7\u00e3o aos mais pobres, aflitos e doentes, foi sempre uma voz de esperan\u00e7a, de conforto, de amizade, conselheira e, muitas vezes, agiu com ajuda material\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rosto de bondade irradiante<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cConheceu o P. Raul da Ribeira de Fr\u00e1guas?\u201d, pergunto a um colega que se aproxima dos noventa anos de idade. \u201cMuito bem. Um homem bom, p\u00e1roco sol\u00edcito e piedoso\u201d, responde.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 tamb\u00e9m esta a mem\u00f3ria de quem relata o modo de ser e de agir do prior Raul. Tinha um carinho especial pelas crian\u00e7as que lhe retribu\u00edam as aten\u00e7\u00f5es. \u201cNos passeios realizados pela Escola, o padre Raul sempre as acompanhou e as animava com palavras alegres e amigas e at\u00e9 com rebu\u00e7ados que distribu\u00eda por elas. Nos conv\u00edvios da catequese (\u2026) quando o senhor prior chegava, corr\u00edamos a beijar-lhe a m\u00e3o e a todos afagava com carinho. \u00c9 esta a imagem de saudade, bondade e agradecimento que o povo da Ribeira de Fr\u00e1guas mant\u00e9m nos seus cora\u00e7\u00f5es\u201d. Mant\u00e9m e perpetua numa pra\u00e7a p\u00fablica que lhe \u00e9 dedicada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>E a miseric\u00f3rdia brilha no rosto de quem serve por amor, enfrenta as dificuldades com confian\u00e7a, cultiva a paci\u00eancia perseverante, faz da sua vida uma doa\u00e7\u00e3o constante como hino de louvor a Deus, de alegria do Evangelho e de sentido da mais nobre aspira\u00e7\u00e3o da nossa humanidade.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROSTO DE MISERIC\u00d3RDIA<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1002,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,13,50,15],"tags":[],"class_list":["post-960","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-olhares","category-pe-georgino-rocha","category-rostos-de-misericorida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=960"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1003,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/960\/revisions\/1003"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1002"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}