{"id":9581,"date":"2020-06-11T19:04:38","date_gmt":"2020-06-11T18:04:38","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9581"},"modified":"2020-06-11T19:07:17","modified_gmt":"2020-06-11T18:07:17","slug":"noticias-10-de-junho-d-jose-tolentino-mendonca-apela-a-pacto-entre-geracoes-e-valorizacao-da-dimensao-comunitaria-c-fotos-e-video","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/noticias-10-de-junho-d-jose-tolentino-mendonca-apela-a-pacto-entre-geracoes-e-valorizacao-da-dimensao-comunitaria-c-fotos-e-video\/","title":{"rendered":"Documentos | O que \u00e9 amar um pa\u00eds \u2013 Cardeal D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a (c\/ v\u00eddeo)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo, fotos e v\u00eddeos recolhidos da <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/10-de-junho-d-jose-tolentino-mendonca-apela-a-pacto-entre-geracoes-e-valorizacao-da-dimensao-comunitaria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ag\u00eancia Ecclesia<\/a><\/p>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Interven\u00e7\u00e3o do Cardeal D. Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a, presidente da Comiss\u00e3o Organizadora das Comemora\u00e7\u00f5es do Dia de Portugal, de Cam\u00f5es e das Comunidades Portuguesas 2020<\/em><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper fluid-width-video-wrapper\" style=\"text-align: justify;\"><iframe id=\"_ytid_62377\" class=\"__youtube_prefs__ no-lazyload\" title=\"YouTube player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vKsQUE0_qMs?enablejsapi=1&amp;autoplay=0&amp;cc_load_policy=0&amp;iv_load_policy=1&amp;loop=0&amp;modestbranding=0&amp;rel=0&amp;fs=1&amp;playsinline=1&amp;autohide=2&amp;theme=dark&amp;color=red&amp;controls=1&amp;\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-origwidth=\"1080\" data-origheight=\"608\" data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O QUE \u00c9 AMAR UM PA\u00cdS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agrade\u00e7o ao senhor Presidente o convite para presidir \u00e0 Comiss\u00e3o das comemora\u00e7\u00f5es do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Cam\u00f5es e das Comunidades. Estas comemora\u00e7\u00f5es estavam para acontecer n\u00e3o s\u00f3 com outro formato, mas tamb\u00e9m noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado\u00a0<em>Flash<\/em>, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente \u00abcomo pesa na \u00e1gua (\u2026) a raiz de uma ilha\u00bb. Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflex\u00e3o sobre as ra\u00edzes, por saudar a raiz dessa ilha-arquip\u00e9lago, tamb\u00e9m minha raiz, que desde h\u00e1 seis s\u00e9culos se tornou uma das admir\u00e1veis entradas atl\u00e2nticas de Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma bela tradi\u00e7\u00e3o da nossa Rep\u00fablica esta de convidar um cidad\u00e3o a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidad\u00e3os que somos. \u00c9 nessa condi\u00e7\u00e3o, como mais um entre os dez milh\u00f5es de portugueses, que hoje me dirijo \u00e0s mulheres e aos homens do meu pa\u00eds, \u00e0quelas e \u00e0queles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no territ\u00f3rio continental ou nas regi\u00f5es aut\u00f3nomas dos A\u00e7ores e da Madeira, no espa\u00e7o f\u00edsico nacional ou nas extensas redes da nossa di\u00e1spora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se interrog\u00e1ssemos cada um, provavelmente responderia que est\u00e1 apenas a cuidar da sua parte \u2013 a tratar do seu trabalho, da sua fam\u00edlia; a cultivar as suas rela\u00e7\u00f5es ou o seu territ\u00f3rio de vizinhan\u00e7a \u2013 mas \u00e9 importante que se recorde que, cuidando das m\u00faltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada portugu\u00eas \u00e9 uma express\u00e3o de Portugal e \u00e9 chamado a sentir-se respons\u00e1vel por ele. Pois quando arquitetamos uma casa n\u00e3o podemos esquecer que, nesse momento, estamos tamb\u00e9m a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarca\u00e7\u00e3o n\u00e3o somos apenas respons\u00e1veis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a \u00e1rvore n\u00e3o podemos esquecer que ela n\u00e3o viveria sem as ra\u00edzes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cam\u00f5es e a arte do desconfinamento<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_178123\" class=\"wp-caption alignright fbx-instance\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><a class=\"fbx-link\" href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/53Arlindo-Homem.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-178123\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/53Arlindo-Homem-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" aria-describedby=\"caption-attachment-178123\" \/><\/a><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-178123\" class=\"wp-caption-text\">Foto Arlindo Homem\/AE, Dia de Portugal 2020<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensemos no contributo de Cam\u00f5es. Cam\u00f5es n\u00e3o nos deu s\u00f3 o poema. Se quisermos ser precisos, Cam\u00f5es deixou-nos em heran\u00e7a a poesia. Se, \u00e0 dist\u00e2ncia destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, n\u00e3o \u00e9 apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordin\u00e1rio mapa mental do Portugal do seu tempo, mas tamb\u00e9m porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapass\u00e1vel ci\u00eancia de navega\u00e7\u00e3o interior que \u00e9 a poesia. A poesia \u00e9 um guia n\u00e1utico perp\u00e9tuo; \u00e9 um tratado de marinhagem para a experi\u00eancia oce\u00e2nica que fazemos da vida; \u00e9 uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que\u00a0<em>Os Lus\u00edadas<\/em>sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar at\u00e9 \u00e0 India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representa\u00e7\u00f5es que nos definem como indiv\u00edduos e como na\u00e7\u00e3o; faz-nos aportar \u2013 e esse \u00e9 o prod\u00edgio da grande literatura \u2013 \u00e0quela consci\u00eancia \u00faltima de n\u00f3s mesmos, ao quinh\u00e3o daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, n\u00e3o se pode isentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u00e9 verdade, como escreveu Wittgenstein, que \u00abos limites da minha linguagem s\u00e3o os limites do meu mundo\u00bb, Cam\u00f5es desconfinou Portugal. A quem tivesse d\u00favidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds bastaria recordar isso. Cam\u00f5es desconfinou Portugal no s\u00e9culo XVI e continua a ser para a nossa \u00e9poca um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar n\u00e3o \u00e9 simplesmente voltar a ocupar o espa\u00e7o comunit\u00e1rio, mas \u00e9 poder, sim, habit\u00e1-lo plenamente; poder model\u00e1-lo de forma criativa, com for\u00e7as e intensidades novas, como um exerc\u00edcio deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar \u00e9 sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em constru\u00e7\u00e3o, que a todos diz respeito. \u00c9 n\u00e3o conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do pr\u00f3prio tempo. Numa esta\u00e7\u00e3o de tetos baixos, Cam\u00f5es \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o para ousar sonhos grandes. E isso \u00e9 tanto mais decisivo numa \u00e9poca que n\u00e3o apenas nos confronta com m\u00faltiplas mudan\u00e7as, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudan\u00e7a de \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que a crise nos encontre unidos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d\u2019<em>Os Lus\u00edadas<\/em>, que celebra a chegada da expedi\u00e7\u00e3o portuguesa \u00e0 India. Os marinheiros, dependurados na g\u00e1vea, avistam finalmente \u00abterra alta pela proa\u00bb e passam not\u00edcia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da miss\u00e3o est\u00e1 assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composi\u00e7\u00e3o em ant\u00edtese, \u00e0 qual n\u00e3o podemos n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 que \u00e0 vis\u00e3o do sonho concretizado n\u00e3o se chega sem atravessar uma dura experi\u00eancia de crise, provocada por uma tempestade mar\u00edtima que Cam\u00f5es sabiamente se empenha em descrever, com impressiva for\u00e7a pl\u00e1stica. Digo sabiamente, porque n\u00e3o h\u00e1 viagem sem tempestades. N\u00e3o h\u00e1 demandas que n\u00e3o enfrentem a sua pr\u00f3pria complexifica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 itiner\u00e1rio hist\u00f3rico sem crises. Isso vem-nos dito n\u2019<em>Os Lus\u00edadas<\/em>\u00a0de Cam\u00f5es, mas tamb\u00e9m nas\u00a0<em>Metamorfoses<\/em>\u00a0de Ov\u00eddio, na\u00a0<em>Eneida<\/em>\u00a0de Virg\u00edlio, na\u00a0<em>Odisseia<\/em>\u00a0de Homero ou nos\u00a0<em>Evangelhos<\/em>\u00a0crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No itiner\u00e1rio de um pa\u00eds, cada gera\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada a viver tempos bons e maus, \u00e9pocas de fortuna e infelizmente tamb\u00e9m de infort\u00fanio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um\u00a0<em>continuum<\/em>, mas \u00e9 feita de matura\u00e7\u00f5es, desloca\u00e7\u00f5es, ruturas e recome\u00e7os. O importante a salvaguardar \u00e9 que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e0 observa\u00e7\u00e3o real\u00edstica que Cam\u00f5es faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflex\u00e3o que proponho: a palavra \u00abra\u00edzes\u00bb. Na est\u00e2ncia 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: \u00abQuantas \u00e1rvores velhas arrancaram\/ Do vento bravo as f\u00farias indignadas\/ As for\u00e7osas ra\u00edzes n\u00e3o cuidaram\/Que nunca para o C\u00e9u fossem viradas\u00bb. A leitura da imagem em jogo \u00e9 imediata: as velhas \u00e1rvores reviradas ao contr\u00e1rio, arrancadas com viol\u00eancia ao solo, exp\u00f5em dramaticamente, a c\u00e9u aberto, as pr\u00f3prias ra\u00edzes. A tempestade descrita por Cam\u00f5es recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As ra\u00edzes, que julgamos inabal\u00e1veis, s\u00e3o tamb\u00e9m fr\u00e1geis, sofrem os efeitos da turbul\u00eancia da m\u00e1quina do mundo. N\u00e3o h\u00e1 super-pa\u00edses, como n\u00e3o h\u00e1 super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e dilig\u00eancia nas nossas for\u00e7as e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de tudo o que est\u00e1 sobre este mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 amar um pa\u00eds<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_178118\" class=\"wp-caption alignleft fbx-instance\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><a class=\"fbx-link\" href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/16Arlindo-Homem.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-178118\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/16Arlindo-Homem-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" aria-describedby=\"caption-attachment-178118\" \/><\/a><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-178118\" class=\"wp-caption-text\">Foto Arlindo Homem\/AE, Dia de Portugal 2020<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um pa\u00eds. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75\u00ba anivers\u00e1rio, escreveu o seguinte: um pa\u00eds pode ser amado por duas raz\u00f5es, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um pa\u00eds idealmente, emoldurando-o para que permane\u00e7a fixo numa imagem de gl\u00f3ria, e desejando que esta n\u00e3o se modifique jamais. Ou podemos amar um pa\u00eds como algo que, precisamente por estar colocado dentro da hist\u00f3ria, sujeito aos seus solavancos, est\u00e1 exposto a tantos riscos. S\u00e3o dois amores diferentes. Podemos amar pela for\u00e7a ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando \u00e9 o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste \u00e9 muito mais pura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor a um pa\u00eds, ao nosso pa\u00eds, pede-nos que coloquemos em pr\u00e1tica a compaix\u00e3o \u2013 no seu sentido mais nobre \u2013 e que essa seja vivida como exerc\u00edcio efetivo da fraternidade. Compaix\u00e3o e fraternidade n\u00e3o s\u00e3o flores ocasionais. Compaix\u00e3o e fraternidade s\u00e3o permanentes e necess\u00e1rias ra\u00edzes de que nos orgulhamos, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria passada de Portugal, mas tamb\u00e9m \u00e0quela hodierna, que o nosso presente escreve. E \u00e9 nesse ch\u00e3o que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas ra\u00edzes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes \u00faltimos meses abateu-se sobre n\u00f3s uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequ\u00eancias estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanit\u00e1ria tornou-se uma crise poli\u00e9drica, de amplo espetro, atingindo todos os dom\u00ednios da nossa vida comum. Sabendo que n\u00e3o regressaremos ao ponto em que est\u00e1vamos quando esta tempestade rebentou, \u00e9 importante, por\u00e9m, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d\u2019<em>Os Lus\u00edadas<\/em>\u00a0a tempestade n\u00e3o suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reabilitar o pacto comunit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa par\u00e1bola. Circula h\u00e1 anos, atribu\u00edda \u00e0 antrop\u00f3loga Margaret Mead, a seguinte hist\u00f3ria. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civiliza\u00e7\u00e3o. E a expectativa geral \u00e9 que nomeasse, por exemplo, os primeir\u00edssimos instrumentos de ca\u00e7a, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antrop\u00f3loga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vest\u00edgio de civiliza\u00e7\u00e3o um f\u00e9mur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido est\u00e1 automaticamente condenado \u00e0 morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si pr\u00f3prio. Que um f\u00e9mur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emerg\u00eancia de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa n\u00e3o foi deixada para tr\u00e1s, sozinha; que algu\u00e9m a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necess\u00e1rio e garantindo a sua seguran\u00e7a, at\u00e9 que recuperasse. A raiz da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9, por isso, a comunidade. \u00c9 na comunidade que a nossa hist\u00f3ria come\u00e7a. Quando do eu fomos capazes de passar ao n\u00f3s e de dar a este uma determinada configura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, espiritual e \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (<em>communitas<\/em>). Associando dois termos,\u00a0<em>cum<\/em>\u00a0e\u00a0<em>munus<\/em>, ela explica que os membros de uma comunidade \u2013 e tamb\u00e9m de uma comunidade nacional \u2013 n\u00e3o est\u00e3o unidos por uma raiz ocasional qualquer. Est\u00e3o ligados sim por um m\u00fanus, isto \u00e9, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa \u00e9 essa? Qual \u00e9 a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. N\u00e3o h\u00e1 miss\u00e3o mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunit\u00e1rio que \u00e9 a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualifica\u00e7\u00e3o fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferen\u00e7a e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimens\u00e3o humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando n\u00e3o se empenha em tornar concreta a justi\u00e7a social, quando desiste de corrigir as dr\u00e1sticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que s\u00e3o os \u00faltimos. N\u00e3o podemos esquecer a multid\u00e3o dos nossos concidad\u00e3os para quem o Covid19 ficar\u00e1 como sin\u00f3nimo de desemprego, de diminui\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pand\u00e9mico, foi, por exemplo, um sinal humanit\u00e1rio importante a regulariza\u00e7\u00e3o dos imigrantes com pedidos de autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia, pendentes no Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integra\u00e7\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir ra\u00edzes. E essas n\u00e3o se improvisam: s\u00e3o lentas, requerem tempo, pol\u00edticas apropriadas e uma participa\u00e7\u00e3o do conjunto da sociedade. Lembro-me de um di\u00e1logo do filme do cineasta Pedro Costa, \u00abVitalina Varela\u00bb, onde se diz a algu\u00e9m que chega ao nosso pa\u00eds: \u00abchegaste atrasada, aqui em Portugal n\u00e3o h\u00e1 nada para ti\u00bb. Sem compaix\u00e3o e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lan\u00e7ar ra\u00edzes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fortalecer o pacto intergeracional<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_178126\" class=\"wp-caption alignright fbx-instance\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><a class=\"fbx-link\" href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/13Arlindo-Homem.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-178126\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/13Arlindo-Homem-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" aria-describedby=\"caption-attachment-178126\" \/><\/a><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-178126\" class=\"wp-caption-text\">Foto Arlindo Homem\/AE, Dia de Portugal 2020<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reabilitar o pacto comunit\u00e1rio implica robustecer, entre n\u00f3s, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas et\u00e1rias, resignando-nos a uma vis\u00e3o desagregada e desigual, como se n\u00e3o fossemos a cada momento um todo insepar\u00e1vel: velhos e jovens, reformados e jovens \u00e0 procura do primeiro emprego, av\u00f3s e netos, crian\u00e7as e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma vis\u00e3o mais inclusiva do contributo das diversas gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 um erro pensar ou representar uma gera\u00e7\u00e3o como um peso, pois n\u00e3o poder\u00edamos viver uns sem os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situa\u00e7\u00e3o dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles t\u00eam sido as principais v\u00edtimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas l\u00e1grimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda n\u00e3o nos concedemos, pois o luto de uma gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperan\u00e7a de vida mais breve determine uma diminui\u00e7\u00e3o do seu valor. A vida \u00e9 um valor sem varia\u00e7\u00f5es. Uma raiz de futuro em Portugal ser\u00e1, pelo contr\u00e1rio, aprofundar a contribui\u00e7\u00e3o dos seus idosos, ajud\u00e1-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gera\u00e7\u00f5es. Quando tomei posse como arquivista e bibliotec\u00e1rio da Santa S\u00e9, uma das refer\u00eancias que quis evocar nesse momento foi a da minha av\u00f3 materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era crian\u00e7a, pensava que as hist\u00f3rias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunst\u00e2ncia, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradi\u00e7\u00e3o portuguesa. E que afinal aquela av\u00f3 analfabeta estava, sem que n\u00f3s soub\u00e9ssemos, e provavelmente sem que ela pr\u00f3pria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Robustecer o pacto intergeracional \u00e9 tamb\u00e9m olhar seriamente para uma das nossas gera\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, que \u00e9 a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; gera\u00e7\u00e3o que, praticamente numa d\u00e9cada, v\u00ea abater-se sobre as suas aspira\u00e7\u00f5es, uma segunda crise econ\u00f3mica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualifica\u00e7\u00e3o escolar, remetidos para uma experi\u00eancia intermin\u00e1vel de trabalho prec\u00e1rio ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os leg\u00edtimos sonhos de autonomia pessoal, de lan\u00e7ar ra\u00edzes familiares, de ter filhos e de se realizarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Implementar um novo pacto ambiental<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pandemia veio, por fim, expor a urg\u00eancia de um novo pacto ambiental. Hoje \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ver a dimens\u00e3o do problema ecol\u00f3gico e clim\u00e1tico, que t\u00eam uma clara raiz sist\u00e9mica. N\u00e3o podemos continuar a chamar progresso \u00e0quilo que para as fr\u00e1geis condi\u00e7\u00f5es do planeta, ou para a exist\u00eancia dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regress\u00e3o. Num dos textos centrais deste s\u00e9culo XXI, a Enc\u00edclica\u00a0<em>Laudato Sii\u2019<\/em>, o Papa Francisco exorta a uma \u00abecologia integral\u00bb, onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Est\u00e1 tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores desp\u00f3ticos apare\u00e7amos como cuidadores sensatos, praticando uma \u00e9tica da cria\u00e7\u00e3o, que tenha express\u00e3o jur\u00eddica efetiva nos tratados transnacionais, mas tamb\u00e9m nos estilos de vida, nas escolhas e nas express\u00f5es mais dom\u00e9sticas do nosso quotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma viagem que fazemos juntos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cam\u00f5es n\u2019<em>Os Lus\u00edadas<\/em>\u00a0n\u00e3o apenas documentou um pa\u00eds em viagem, mas foi mais longe: representou o pr\u00f3prio pa\u00eds como viagem. Portugal \u00e9 uma viagem que fazemos juntos h\u00e1 quase nove s\u00e9culos. E o maior tesouro que esta nos tem dado \u00e9 a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos s\u00e3o necess\u00e1rios, onde todos se sentem \u2013 e efetivamente s\u00e3o \u2013 correspons\u00e1veis pelo incessante tr\u00e2nsito que liga a multiplicidade das ra\u00edzes \u00e0 composi\u00e7\u00e3o ampla e esperan\u00e7osa do futuro. Portugal \u00e9 e ser\u00e1, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem \u00e9 como um grande amor. Uma viagem assim \u2013 explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais l\u00edmpidas da nossa contemporaneidade -, n\u00e3o se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da hist\u00f3ria, mas constitui uma esp\u00e9cie de \u00abrasto do fulgor\u00bb que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mosteiro dos Jer\u00f3nimos, 10 de junho de 2020<\/em><br \/>\n<em>Cardeal D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo, fotos e<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9582,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-9581","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9581"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9588,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9581\/revisions\/9588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9582"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}