{"id":9534,"date":"2020-06-07T12:33:48","date_gmt":"2020-06-07T11:33:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9534"},"modified":"2020-06-07T12:33:48","modified_gmt":"2020-06-07T11:33:48","slug":"noticias-bispo-catolico-que-conheceu-george-floyd-escreve-lhe-carta-agora-conheces-a-respiracao-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/noticias-bispo-catolico-que-conheceu-george-floyd-escreve-lhe-carta-agora-conheces-a-respiracao-do-amor\/","title":{"rendered":"Not\u00edcias | Bispo cat\u00f3lico que conheceu George Floyd escreve-lhe carta: Agora conheces a respira\u00e7\u00e3o do amor"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/bispo_catolico_que_conheceu_george_floyd_escreve_lhe_carta.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caro George Floyd, bom dia para ti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o fa\u00e7o ideia que horas s\u00e3o na tua parte do Reino de Deus. Mas recordo vividamente do nosso primeiro encontro. Foi num jogo de basebol. Trazia cal\u00e7as de ganga azuis, t-shirt, um bon\u00e9, com um gigantesco copo de papel cheio de Coca-Cola numa m\u00e3o e um saco de pipocas na outra. Est\u00e1vamos sentados; e ent\u00e3o juntaste-te a n\u00f3s. Foi em Pittsburgh, h\u00e1 muitos anos. Ainda eras um jovem, mas tinhas 20 anos, em viagem. Come\u00e7\u00e1mos a conversar e torn\u00e1mo-nos amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dadas as circunst\u00e2ncias, esta ser\u00e1 a minha \u00faltima comunica\u00e7\u00e3o contigo nesta \u201cterra dos vivos\u201d que rejeitou o teu direito a viver. Como te posso esquecer, George? As tuas caracter\u00edsticas distintivas s\u00e3o um grande nariz e l\u00e1bios grossos; tra\u00e7os muito africanos. Eu sei, lembraste-me sempre que n\u00e3o eras africano, mas afro-americano. Ambas as origens eram importantes para ti, e n\u00e3o querias perder nenhuma. Estavas solidamente com ambos os p\u00e9s em duas tradi\u00e7\u00f5es. Entre os teus p\u00e9s estava muit\u00edssima \u00e1gua chamada oceano Atl\u00e2ntico. Nunca o atravessaste!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das coisas a que dou mais valor em ti era o teu sorriso contagiante. Era como se o coronav\u00edrus tivesse aprendido contigo como contagiar as pessoas. O teu cora\u00e7\u00e3o era enorme e acolhia as pessoas. Para ti nunca houve problema chegar a mais uma pessoa. Sim, tu serias capaz de correr uma milha por algu\u00e9m. Como correste por mim em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, mas essa \u00e9 uma hist\u00f3ria que haverei de contar noutra ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu cora\u00e7\u00e3o pesa quando me sento no meu lugar de ora\u00e7\u00e3o para te escrever esta missiva, sabendo bem que outros a v\u00e3o ler, mas tu n\u00e3o. N\u00f3s, humanos, atrav\u00e9s de um nosso representante, assegur\u00e1mo-nos que os teus olhos fossem fechados e nunca mais se abrissem. Por\u00e9m, isto n\u00e3o \u00e9 verdade, os teus olhos ver\u00e3o sempre o fogo que come\u00e7aste na morte. A revolu\u00e7\u00e3o que a tua morte sacrificial inspirou e os novos movimentos e alian\u00e7as contra o racismo, classismo e discrimina\u00e7\u00e3o est\u00e3o a crescer. Ateaste um fogo que est\u00e1 a arder pela paz e pela mudan\u00e7a. Por isso, meu amigo, quando ouvires o canto \u00absim, n\u00f3s podemos\u00bb, fica a saber que estamos a faz\u00ea-lo em teu nome e por ti. Abalaste, mas continuas muito presente aqui. No continente-m\u00e3e chamar-te-\u00edamos o morto-vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-te das f\u00e9rias que passei contigo e com os teus. O Quincy era ent\u00e3o um beb\u00e9. Foi uma boa escapada dos meus livros. Que grandes churrascos desfrut\u00e1mos nas noites de ver\u00e3o. Eu pensava que no sul de \u00c1frica com\u00edamos muita carne, mas, caramba, tu adoravas o teu bife mal passado em sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vais lembrar-te que a minha prefer\u00eancia foi bem concretizada. Levaste-me a ver um verdadeiro jogo de futebol, n\u00e3o a vers\u00e3o americana, mas futebol verdadeiro, o jogo ameno. Oh, sim, aborreceste-te at\u00e9 \u00e0 medula. Querias a tua vers\u00e3o do jogo. Lembro-me de te ter tentado ensinar que a entidade que tutela o futebol se chama FIFA, e n\u00e3o FISA, quando te referias ao futebol que n\u00e3o o americano. Tudo isso \u00e9 \u00e1gua que passou debaixo da ponte perto do est\u00e1dio dos tr\u00eas rios onde nos conhecemos pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A meu convite, estavas a planear visitar a terra-m\u00e3e para tocares as tuas ra\u00edzes. Sugeri que estivesses presente no festival cultural panafricano conhecido por PANAFEST, no Gana, e depois ir ao lind\u00edssimo Botswana para me visitar. Eu ia levar-te a ver a vida selvagem no seu habitat natural, n\u00e3o num jardim zool\u00f3gico. Virias visitar uma herdade de gado e um \u201cmasimo\u201d (campo lavrado) e saborear a nossa cobi\u00e7ada iguaria de carne batida, \u201cseswaa\u201d. (\u2026)<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Quem sabe se o Quincy poder\u00e1 conseguir ver a extraordin\u00e1ria beleza de uma senhora que dia e noite me p\u00f5e ao colo para me alimentar e acalentar. Ela acaricia-me e apoia-me. Esta linda mulher Botswana \u00e9 a casa de grandes homens e mulheres. Como \u00e9 que podes perder esta visita que plane\u00e1mos h\u00e1 tanto tempo? O meu cora\u00e7\u00e3o d\u00f3i muito. Escrever-te esta carta \u00e9 uma maneira terap\u00eautica de lidar com o que aconteceu que eu aprendi h\u00e1 anos, quando nos conhecemos em Pittsburgh. A tua vida foi um remate enviesado, meu amigo.<\/p>\n<p>Estabeleceste outro recorde ao morreres aos olhos do p\u00fablico n\u00e3o como se tratasse de um acidente. O que aconteceu ficou registado para a posteridade. D\u00e1s-te conta que \u00e9s um grande homem? Oh, como adoro os telem\u00f3veis! Ningu\u00e9m pode escapar impunemente a um crime porque as provas documentais v\u00e3o circular nas redes sociais. O sistema de justi\u00e7a criminal pode falhar-te, mas a opini\u00e3o popular saber\u00e1 a verdade.<\/p>\n<p>A sondagem mais recente diz que dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds apoiam a revolu\u00e7\u00e3o que come\u00e7aste na morte. Agora que viste \u00abas portas da morada tenebrosa\u00bb (Job 38,17), respondeste ao teu chamamento, ainda que prematuramente. Creio que as pessoas no C\u00e9u estavam \u00e0 tua espera. Adeus meu irm\u00e3o mais novo de outra m\u00e3e na Am\u00e9rica. Voltaremos a encontrar-nos.<\/p>\n<p>Neste momento estou zangado porque sou humano e nunca pensei que os humanos pudessem descer t\u00e3o baixo. Uma enorme rece\u00e7\u00e3o espera por ti na casa do Pai, e espero que tamb\u00e9m haja Coca-Cola e pipocas. S\u00f3 tens mais uma tarefa a realizar. \u00c9 preparar-te para dar as boas-vindas no C\u00e9u aos conhecidos quatro que te mataram, quando chegar a hora deles, e mostrar-lhes o encantador lugar que chamamos C\u00e9u. Ela disse \u00abquando eles forem para baixo, n\u00f3s vamos para cima\u00bb (M. Obama). Vou sentir a tua falta, George. Agora poder\u00e1s respirar eternamente a respira\u00e7\u00e3o do amor. Descansa em Paz!<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">D. Frank Nubuasah, SVD<br \/>\nBispo de Gaborone, Botswana<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/sacbc.org.za\/bishop-frank-reflects-on-the-murder-of-his-friend-george-floyd\/13166\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Confer\u00eancia dos Bispos do Sul de \u00c1frica<\/a>\u00a0Fonte:<br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: D.R.<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9535,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,10],"tags":[],"class_list":["post-9534","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9534"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9534\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9536,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9534\/revisions\/9536"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9535"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}