{"id":9470,"date":"2020-05-28T12:01:01","date_gmt":"2020-05-28T11:01:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9470"},"modified":"2020-05-28T09:07:02","modified_gmt":"2020-05-28T08:07:02","slug":"pensamento-de-edith-stein-aproximacao-empatica-a-sagrada-escritura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-aproximacao-empatica-a-sagrada-escritura\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | Aproxima\u00e7\u00e3o emp\u00e1tica \u00e0 Sagrada Escritura"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Aproxima\u00e7\u00e3o emp\u00e1tica \u00e0 Sagrada Escritura<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo quanto fomos descobrindo sobre o acto da empatia est\u00e1 a indicar qu\u00e3o justificada seria uma leitura do texto sagrado com este instrumento de trabalho t\u00e3o pr\u00f3prio do ser humano. De facto, na Sagrada Escritura n\u00e3o nos encontramos com frios relatos hist\u00f3ricos, mas com uma experi\u00eancia de um Deus que se foi revelando como salva\u00e7\u00e3o ao longo da hist\u00f3ria. Os escritores dos diversos livros que comp\u00f5em o conjunto b\u00edblico s\u00e3o, na maioria dos casos, testemunhas qualificadas dessa presen\u00e7a e da passagem de Deus pela Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um ponto de vista narrativo, um dos objectivos imediatos dos autores dos livros b\u00edblicos (pensemos de um modo mais palp\u00e1vel nos Evangelistas) consiste em suscitar o assentimento da f\u00e9 a partir do an\u00fancio de um testemunho de vida. De facto, poder\u00edamos pensar que os autores dos quatro Evangelhos, quando se prop\u00f5em escrever sobre Jesus, procuram favorecer no leitor a possibilidade de se aproximar e conhecer de perto a Jesus, ao Outro, pondo diante dos olhos do leitor uma experi\u00eancia distinta, nova, que necessariamente \u2013 se empatizada na f\u00e9 \u2013 leva \u00e0 confiss\u00e3o de que Jesus \u00e9 o Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, a inten\u00e7\u00e3o do evangelista est\u00e1 a oferecer conte\u00fados experienciais que se constituem no objecto imediato do acto da empatia, do qual pode fazer uso o leitor. E quem assim se aproxima da Escritura ser\u00e1 capaz certamente de captar uma boa parte do essencial. E n\u00e3o assistir\u00e1 \u00e0 sua leitura como um espectador frio, mas ver-se-\u00e1 implicado na mesma realidade que ali \u00e9 narrada. Ver-se-\u00e1 transladado para \u00abum mundo novo\u00bb, talvez em grande parte desconhecido, mas que vai transformando a pessoa sem quase se dar conta. E isto torna-se mais efectivo na medida em que a pessoa se aproxima com o pressuposto da f\u00e9 j\u00e1 presente nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edith Stein \u00e9 testemunha experiencial de que inclusivamente uma leitura emp\u00e1tica da b\u00edblia, mesmo sem o pressuposto da f\u00e9, pode servir de ajuda na busca e disposi\u00e7\u00e3o pessoal para receber o dom da f\u00e9, e portanto, a crer no Deus de Jesus Cristo. Uma leitura emp\u00e1tica n\u00e3o pode deixar indiferente as pessoas. Numa carta ao fil\u00f3sofo Roman Ingarden, datada em 1918, pouco antes de que Edith fizesse experi\u00eancia m\u00edstica da presen\u00e7a de Deus, faz-nos ver como uma tal aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 Escritura, acaba por afectar e interrogar a pr\u00f3pria exist\u00eancia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abEsfor\u00e7o-me uma e outra vez em v\u00e3o, por compreender o papel que os humanos jogamos na hist\u00f3ria do mundo. H\u00e1 algum tempo chamou-me a aten\u00e7\u00e3o uma passagem do Evangelho de Lucas: \u201cO Filho do homem parte, como est\u00e1 decidido. Mas ai daquele que o haver\u00e1 de entregar\u201d (Lc 22, 22). Acaso n\u00e3o tem isto uma aplica\u00e7\u00e3o universal? Somos n\u00f3s quem levamos os acontecimentos adiante e somos respons\u00e1veis disso. E, no entanto, no fundo, n\u00e3o sabemos o que fazemos, e n\u00e3o podemos deter a hist\u00f3ria do mundo, mesmo que renunciemos a ela, Isto certamente n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de compreender. Al\u00e9m disso,\u00a0 para mim a religi\u00e3o e a hist\u00f3ria acontecem juntas&#8230;\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">21<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que por meio da empatia torna-se poss\u00edvel o reviver a hist\u00f3ria, o passado, um acontecimento ou a experi\u00eancia de alguma figura, como aproximando-a a si, estando aberta a possibilidade de encontrar um sentido de comunh\u00e3o entre a pr\u00f3pria experi\u00eancia e a experi\u00eancia do outro. Isto \u00e9 tanto mais poss\u00edvel, quanto mais capacidade de empatizar a pessoa conquista, e sobretudo quanto maior \u00e9 a sua experi\u00eancia directa de Deus. Neste sentido, e tal como afirma Rolf K\u00fchn ao estudar as intui\u00e7\u00f5es de base em Edith Stein, na vida m\u00edstica dar-se-ia a mais pura e aut\u00eantica pr\u00e1tica da empatia<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">22<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Edith Stein significa que o Santo, o m\u00edstico, tem uma capacidade emp\u00e1tica muito desenvolvida, que o levam a ter um sentido mais claro e objectivo da realidade, e tem uma maior capacidade de perceber a experi\u00eancia ou experi\u00eancias que se enquadram nos relatos b\u00edblicos<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">23<\/a>. Assim, ao falar do contacto de S. Jo\u00e3o da Cruz com as Escrituras, afirma:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00ab&#8230; a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia abre-lhe os olhos para o conhecimento m\u00edstico dos Sagrados Livros&#8230; tudo se lhe torna transparente e permite-lhe dirigir um olhar cada vez mais rico e profundo ao \u00fanico que pretende alcan\u00e7ar: o caminho da alma para Deus e a ac\u00e7\u00e3o de Deus na alma\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">24<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de passar a apresentar algumas propostas pr\u00e1ticas que Edith nos oferece para uma aplica\u00e7\u00e3o da empatia na leitura da B\u00edblia, poder\u00edamos concluir este apartado dizendo que uma leitura emp\u00e1tica da Escritura, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 leg\u00edtima, mas pode ser uma chave de acess\u00edvel e ao alcance de todos para poder captar pessoalmente a mensagem da Revela\u00e7\u00e3o, e deste modo pod\u00ea-la transformar em vida. Isso evitaria, al\u00e9m disso, o perigo ao qual nos pode levar alguma das tend\u00eancias presentes na exegese b\u00edblica moderna: fazer-nos quase crer que a mensagem da Escritura \u00e9 inacess\u00edvel se antes n\u00e3o se conhecem a l\u00edngua, os condicionamentos hist\u00f3ricos, os estratos redactoriais, o autor material do livro, etc&#8230; Ler empaticamente a B\u00edblia, significar\u00e1 em \u00faltimo termo penetrar nos horizontes da mesma vida divina, quase foi encarnando em experi\u00eancias, acontecimentos e personagens, que a Sagrada Escritura nos apresenta. Constataremos certamente que Edith Stein n\u00e3o dedica nenhum estudo a isso. Mas os seus recursos a esta t\u00e9cnica, dar-nos-\u00e3o as pistas necess\u00e1rias para que possamos aplicar \u00e0 leitura da Escritura o acto da empatia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">*Javier Sancho.<em> La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. <\/em>Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 67-69.<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Comfreak-51581\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2929646\">Comfreak<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2929646\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">21<\/a> <em>Carta de 19 de Fevereiro de 1918<\/em>, em <em>Cartas a Roman Ingarden<\/em>, EDE, Madrid, 1998, p. 74.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">22<\/a> Cf. R. K\u00dcHN, <em>Leben aus dem Sein<\/em>. <em>Zur philosophische Grundintuition<\/em> <em>Edith Steins<\/em>, em <em>Freiburger<\/em> <em>Zeitschift f\u00fcr Philosophie und Theologie<\/em> 35 (1988) 161.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">23<\/a> Sobre este aspecto deter-nos-emos mais de perto no apartado deste cap\u00edtulo dedicado \u00e0 \u00absabedoria da Cruz\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">24<\/a> CC 45.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9471,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-9470","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9470","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9470"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9470\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9472,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9470\/revisions\/9472"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9470"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9470"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9470"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}