{"id":9445,"date":"2020-05-27T08:00:56","date_gmt":"2020-05-27T07:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9445"},"modified":"2020-05-26T17:08:19","modified_gmt":"2020-05-26T16:08:19","slug":"monsenhor-joao-goncalves-gaspar-o-papa-pio-xii-a-segunda-guerra-mundial-e-os-judeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/monsenhor-joao-goncalves-gaspar-o-papa-pio-xii-a-segunda-guerra-mundial-e-os-judeus\/","title":{"rendered":"Monsenhor Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar | O PAPA PIO XII, A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E OS JUDEUS"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Mons. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar*<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ter conhecimento de notas e coment\u00e1rios sobre as atitudes do papa Pio XII perante as atrocidades nazi-fascistas durante a segunda guerra mundial (1939-1945), sinto que n\u00e3o posso calar algo do que conheci e vivi em cima dos acontecimentos, durante os meus anos jovens. Tais recorda\u00e7\u00f5es pessoais, naturalmente de menor import\u00e2ncia, ser\u00e3o completadas com outros valiosos testemunhos e com outras relevantes informa\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora que a Santa S\u00e9, no dia 02 de Mar\u00e7o de 2020, abriu a consulta dos documentos do pontificado de Pio XII (1939-1958) aos investigadores, espera-se que esta preciosa fonte de informa\u00e7\u00e3o nos mostre um papa \u00abem toda a sua grandiosidade, como defensor da humanidade e como aut\u00eantico pastor universal\u00bb, sendo \u00abum corajoso diplomata\u00bb &#8211; segundo afirmou o arcebispo Paul Richard Gallagher, secret\u00e1rio do Vaticano para as Rela\u00e7\u00f5es com os Estados, que tamb\u00e9m assinalou: &#8211; \u00abPio XII, como papa, demonstrou uma caridade ilimitada, nem sempre compreendida e nem mesmo partilhada dentro dos muros vaticanos. Dos seus documentos evidenciam-se os esfor\u00e7os feitos para tentar responder aos pedidos de ajuda para a salva\u00e7\u00e3o dos perseguidos e dos necessitados em perigo de vida. Certamente poderemos constatar tamb\u00e9m o \u00f3dio do Nazismo contra a Igreja Cat\u00f3lica e contra o pr\u00f3prio papa\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>1 \u2013 Mons.Eug\u00e9nio Maria Pacelli,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>secret\u00e1rio de Estado da Santa S\u00e9<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7o por fazer uma viagem ao passado. Mons. Eug\u00e9nio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, pertencente a uma fam\u00edlia da nobreza italiana, nasceu na cidade de Roma em 02 de mar\u00e7o de 1876 e faleceu em Castelgandolfo no dia 09 de outubro de 1958. Foi ordenado bispo em 13 de maio de 1917 pelo papa Bento XV, \u00e0 mesma hora em que a Virgem Maria se revelava na Cova da Iria (F\u00e1tima) a tr\u00eas crian\u00e7as. Logo nomeado pelo Vaticano como n\u00fancio apost\u00f3lico na Baviera, sentiu a necessidade de intervir, atrav\u00e9s do Governo alem\u00e3o, no sentido de que os judeus residentes na Palestina fossem protegidos frente ao Imp\u00e9rio Otomano da Turquia, libertando-os de um massacre projetado. Ainda no mesmo ano, solicitou \u00e0s inst\u00e2ncias da Santa S\u00e9 para que Nachum Sokolov, ent\u00e3o representante da Organiza\u00e7\u00e3o Sionista Mundial, fosse recebido pessoalmente pelo papa Bento XV, com o fim de dialogar com Sua Santidade sobre a p\u00e1tria judaica. Mais tarde, em 1926, teve ocasi\u00e3o de animar os cat\u00f3licos alem\u00e3es a apoiarem o Comit\u00e9 Pr\u00f3-Palestina, que apadrinhava a emigra\u00e7\u00e3o e a fixa\u00e7\u00e3o dos israelitas na Terra Santa. Entretanto, tendo falecido o atr\u00e1s mencionado Bento XV, em 06 de setembro de 1922 foi escolhido para lhe suceder Mons. Achille Ratti, que tomou o nome de Pio XI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No desenrolar dos acontecimentos na Europa, Adolf Hitler tornar-se-ia o senhor absoluto da Alemanha a partir de 30 de mar\u00e7o de 1933, credenciado por elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Poucos meses decorridos, precisamente em julho seguinte, a Santa S\u00e9 assinou uma Concordata com a Alemanha que, por sua parte, tamb\u00e9m garantia o reconhecimento diplom\u00e1tico do regime nazi pelo Vaticano \u2013 o que ent\u00e3o era muito vantajoso para Hitler no plano internacional. Por tal raz\u00e3o, para l\u00e1 das suas inten\u00e7\u00f5es, este instrumento deu ao ditador um precioso cr\u00e9dito; aumentou o seu prest\u00edgio dentro e fora do pa\u00eds e impediu os bispos cat\u00f3licos de abertamente assumirem posi\u00e7\u00f5es contra as inger\u00eancias do Estado nos assuntos da Igreja ou criticarem publicamente as decis\u00f5es pol\u00edticas contra os direitos humanos. Hoje pergunta-se como foi poss\u00edvel que tantos respons\u00e1veis das Igrejas Crist\u00e3s, de qualquer confiss\u00e3o, pudessem ter sido ludibriados, deixando-se convencer pela pretensa bondade das ideias nacionalistas e racistas do \u2018F\u00fchrer\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante a pol\u00edtica alem\u00e3 em crescente despotismo, o papa Pio XI, apesar do referido acordo bilateral com a Alemanha, n\u00e3o se manteria silencioso. Logo em 28 de abril de 1935, o cardeal Pacelli, secret\u00e1rio de Estado da Santa S\u00e9 desde fevereiro de 1930, dirigindo-se a cerca de duzentos e cinquenta mil peregrinos no santu\u00e1rio mariano de Lourdes, declarava: &#8211; \u00abEstes [nazis] ide\u00f3logos, de facto, s\u00e3o apenas miser\u00e1veis plagiadores, que levantam antigos erros sob novas cores. Pouco importa se o fazem sob a bandeira da revolu\u00e7\u00e3o social&#8230; ou se est\u00e3o possu\u00eddos pela supersti\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a e do sangue\u00bb. Pacelli foi outrossim o inspirador do final da enc\u00edclica de Pio XI, de 14 de mar\u00e7o de 1937, <em>Mit brennender Sorge<\/em> (&#8220;Com profunda tristeza&#8221;). A dita enc\u00edclica, a primeira escrita em alem\u00e3o, foi distribu\u00edda secretamente aos bispos e sacerdotes e lida em todas as igrejas do \u2018III Reich\u2019 no domingo de Ramos (21 de mar\u00e7o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O documento condenou sem paliativos a doutrina totalit\u00e1ria e racista do Nazismo germ\u00e2nico, denunciou a opress\u00e3o exercida sobre a Igreja, proclamou n\u00e3o ser crist\u00e3o quem tivesse como norma suprema uma ra\u00e7a, um povo, um Estado ou os seus representantes, e rejeitou a vis\u00e3o e a filosofia pante\u00edstas daqueles que pugnavam por um deus nacional ou por uma religi\u00e3o nacionalista. \u00abQuem quer que identifique, numa confus\u00e3o pante\u00edsta, Deus e universo, baixando Deus \u00e0s dimens\u00f5es do mundo, ou elevando o mundo \u00e0s de Deus, n\u00e3o pertence \u00e0queles que acreditam em Deus\u00bb &#8211; lia-se no documento. O sumo-pont\u00edfice, no aspeto \u00e9tico, ainda refutou o Nazismo por fomentar o abandono das normas morais objetivas e advertiu: &#8211; \u00abAs leis humanas, que estiverem em oposi\u00e7\u00e3o insol\u00favel com o direito natural, sofrem de um v\u00edcio cong\u00e9nito que se n\u00e3o pode curar nem com opress\u00f5es nem com a ostenta\u00e7\u00e3o da for\u00e7a externa\u00bb. Como resposta, o Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros de Berlim, em face da frontalidade da enc\u00edclica papal, n\u00e3o ficou calado e definiu-a como \u00abuma declara\u00e7\u00e3o de guerra&#8230; pois chama todos os cidad\u00e3os cat\u00f3licos a insurgirem-se contra a autoridade do \u2018III Reich\u2019\u00bb. Pio XII, aludindo mais tarde a este documento do seu antecessor, diria que \u00abningu\u00e9m podia acusar a Igreja de n\u00e3o ter denunciado e indicado, na devida altura, o verdadeiro car\u00e1cter do movimento nacional-socialista e o perigo em que ele punha a civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confiado na \u2018pol\u00edtica de apaziguamento\u2019 das pot\u00eancias ocidentais para evitarem a guerra, Hitler foi desenvolvendo a sua a\u00e7\u00e3o sem travar batalhas. Decretou a obrigatoriedade do servi\u00e7o militar em 16 de mar\u00e7o de 1935; desenvolveu a marinha de guerra com o acordo da Inglaterra em 18 de junho do mesmo ano; remilitarizou a Ren\u00e2nia em 07 de mar\u00e7o de 1936; imp\u00f4s \u00e0 \u00c1ustria, em 12 de mar\u00e7o de 1938, um pacto em que esta, embora auto-reconhecesse a sua independ\u00eancia, se proclamou \u2018Estado Alem\u00e3o\u2019, seguindo-se, logo no dia imediato, a presen\u00e7a das tropas germ\u00e2nicas; anexou a regi\u00e3o dos Sudetas, a que a Checoslov\u00e1quia teve de se submeter no acordo de Munique, em 30 de setembro de 1938, assinado pela Alemanha, pela It\u00e1lia, pela Inglaterra e pela Fran\u00e7a; enviou tropas para esse pa\u00eds a partir de 14 de mar\u00e7o de 1939, a pedido do respetivo presidente, para sufocar poss\u00edveis tentativas de independ\u00eancia da Eslov\u00e1quia; finalmente, em 23 de mar\u00e7o do mesmo ano, anexou o territ\u00f3rio de Memel, arrancando-o \u00e0 Litu\u00e2nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De facto, durante o ano de 1938, a situa\u00e7\u00e3o na Alemanha tornava-se cada vez mais complicada; em face da sua pol\u00edtica, come\u00e7ara-se a perceber que Hitler caminhava para uma guerra europeia e mundial, com o objetivo de demonstrar a superioridade do seu pa\u00eds, da sua pol\u00edtica ditatorial e das suas ideias anti-semitas. Ent\u00e3o, ele tinha de encontrar bodes expiat\u00f3rios; os mais atingidos seriam os indefesos judeus, os exclu\u00eddos ciganos e as pessoas influentes na sociedade e dele discordantes. Consequentemente, na noite de 10 para 11 de novembro, a Alemanha viu-se sacudida por uma onda de terror e de morte. Foi o princ\u00edpio do fim. Pac\u00edficos israelitas foram subitamente expulsos das suas moradias e torturados, as suas cento e noventa e uma sinagogas incendiadas e as suas oitocentas e quinze lojas comerciais destru\u00eddas e expropriadas; al\u00e9m disso, foram destru\u00eddas pelo fogo cento e setenta e uma casas, assassinados trinta e seis judeus e cerca de vinte mil enviados para campos de concentra\u00e7\u00e3o. O p\u00e2nico apoderara-se de todos os alem\u00e3es; mas ningu\u00e9m se atrevia a protestar publicamente. Em conson\u00e2ncia com semelhante pol\u00edtica, a persegui\u00e7\u00e3o foi at\u00e9 \u00e0 determina\u00e7\u00e3o de os atingidos serem relegados de diversas profiss\u00f5es, incluindo as do ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, tamb\u00e9m no mesmo ano, foram sancionadas na It\u00e1lia, aliada da Alemanha, as primeiras leis contra os judeus, o papa Pio XI logo as condenou e, a seguir, agiu em conformidade. No m\u00eas de setembro de 1938, perante peregrinos belgas, pronunciou uma frase que teve grande repercuss\u00e3o: &#8211; \u00abO anti-semitismo \u00e9 um movimento no qual n\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o podemos ter qualquer participa\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Espiritualmente, somos semitas\u00bb. E, em janeiro do ano seguinte, pediu aos embaixadores credenciados junto do Vaticano que conseguissem vistos para os seus pa\u00edses em favor dos judeus alem\u00e3es e italianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de falecer, o mesmo papa ainda chamou um bispo alem\u00e3o a Roma, a fim de preparar um ref\u00fagio para os perseguidos junto da bas\u00edlica de S. Paulo. Como \u00e9 manifesto, o cardeal Pacelli estava envolvido nestas iniciativas. De facto, o general Ludendorf haveria de testemunhar: &#8211; \u00abPacelli foi o animador que esteve por tr\u00e1s de todas as actividades anti-germ\u00e2nicas da pol\u00edtica da Santa S\u00e9\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2 \u2013 Papa Pio XII<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Na segunda guerra mundial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo ocorrido a morte de Pio XI em 10 de fevereiro de 1939, procedeu-se \u00e0 escolha do sucessor, que seria o cardeal Eug\u00e9nio Maria Pacelli; eleito em 02 de mar\u00e7o seguinte, adotou o nome de Pio XII. A prop\u00f3sito desta op\u00e7\u00e3o, p\u00f4de ler-se ent\u00e3o no jornal nazi <em>Berliner Morgenpost: <\/em>&#8211; \u00abA elei\u00e7\u00e3o do cardeal Pacelli n\u00e3o \u00e9 aceite como favor\u00e1vel \u00e0 Alemanha, porque ele sempre se op\u00f4s ao Nazismo e praticamente determinou a pol\u00edtica do Vaticano, orientada pelo seu antecessor\u00bb. Acrescente-se que futuramente, na Alemanha e nos territ\u00f3rios por ela ocupados, era aprisionado quem fosse denunciado como ouvinte da R\u00e1dio do Vaticano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante as press\u00f5es e as persegui\u00e7\u00f5es a que os hebreus estavam a ser expostos, o novo pont\u00edfice convidou-os a acolherem-se no Vaticano e ofereceu-lhes ajuda para emigrarem; muitos aceitaram. Investigando testemunhos e documentos, reconhece-se claramente que a influ\u00eancia de Pio XII, \u00abem toda a Europa durante a guerra\u00bb, fora extraordin\u00e1ria a ponto de mandar e aconselhar os arcebispos e bispos das Dioceses, os religiosos e religiosas dos conventos e os respons\u00e1veis das institui\u00e7\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica que socorressem os perseguidos, apesar dos perigos a que se expunham. Uma outra prova da a\u00e7\u00e3o do pont\u00edfice foi a sua interven\u00e7\u00e3o especial junto dos n\u00fancios, conforme aconteceu com o da Hungria, Mons. \u00c2ngelo Rotta, e com o da Bulg\u00e1ria, mons. \u00c2ngelo Roncalli (futuro S. Jo\u00e3o XXIII), que tiveram um papel decisivo em salvar a vida de alguns milhares de judeus. Tamb\u00e9m \u00e9 elucidativo o caso ocorrido no outono de 1941; o papa, numa audi\u00eancia a refugiados judeus, manifestou a sua estima pelo povo israelita, dizendo sofrer com a sorte dos prisioneiros, \u00abque t\u00eam a mesma dignidade de qualquer outro ser humano\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o s\u00f3. Na sequ\u00eancia de Pio XI, tamb\u00e9m interveio persistentemente junto de embaixadores e c\u00f4nsules de outros pa\u00edses para concederem vistos em seu favor. Atendendo a este pedido, lembro aqui a benem\u00e9rita ac\u00e7\u00e3o do dr. Aristides de Sousa Mendes que, sendo c\u00f4nsul de Portugal em Bord\u00e9us de 1938 a 1940, se distinguiu no aux\u00edlio a foragidos da guerra e do \u00f3dio nazi. O pont\u00edfice, sentindo-se limitado em ac\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, iria fazendo o que lhe parecia ou o que podia atrav\u00e9s do sigilo da diplomacia, da influ\u00eancia do seu prest\u00edgio, da hospitalidade aos perseguidos, da a\u00e7\u00e3o caritativa em favor das v\u00edtimas da guerra. O aparente sil\u00eancio escondeu uma cont\u00ednua atividade discreta junto das nunciaturas, dos episcopados, das organiza\u00e7\u00f5es eclesiais e das autoridades civis para diminuir ou mesmo para evitar as viol\u00eancias \u2013 o que se pode comprovar por documentos guardados em arquivos. A partir de agora, quanto ser\u00e1 revelado do que est\u00e1 no Arquivo do Vaticano?!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pio XII n\u00e3o desaproveitaria o que estava ao seu alcance para impedir os confrontos b\u00e9licos, inclusive com apelos aos Estados e com discursos p\u00fablicos. Neste sentido, em maio de 1939, dois meses ap\u00f3s a sua elei\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ou a ideia de uma confer\u00eancia internacional entre os Governos de Roma, Paris, Londres, Berlim e Vars\u00f3via \u2013 no que n\u00e3o seria ouvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ambiente t\u00e3o carregado e sombrio, o sumo-pont\u00edfice ainda mandou que se fizesse uma nova dilig\u00eancia; tinha a no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o podia esquivar-se ao seu dever inalien\u00e1vel de defensor do homem e da paz. Como diria em 02 de junho de 1945, num tom de reflex\u00e3o sobre o passado: &#8211; \u00abDebru\u00e7\u00e1vamo-nos sobre essa paz, como quem se debru\u00e7a \u00e0 cabeceira de um moribundo, que um amor ardente se obstina a disputar \u00e0s garras da morte, mesmo contra toda a esperan\u00e7a\u00bb. Com efeito, no dia 31, apenas algumas horas antes do come\u00e7o da luta armada, a Secretaria de Estado da Santa S\u00e9 enviou uma exorta\u00e7\u00e3o telegr\u00e1fica aos atr\u00e1s referidos cinco Governos, nestes termos: &#8211; \u00abO soberano pont\u00edfice n\u00e3o quer renunciar \u00e0 esperan\u00e7a de que as negocia\u00e7\u00f5es em curso possam fechar numa solu\u00e7\u00e3o justa e pac\u00edfica, tal como o mundo inteiro a n\u00e3o deixa de implorar. Por consequ\u00eancia, Sua Santidade suplica, em nome de Deus, aos Governos da Alemanha e da Pol\u00f3nia que fa\u00e7am tudo o que lhes for poss\u00edvel para evitar qualquer incidente e se abstenham de tomar qualquer medida suscet\u00edvel de agravar a situa\u00e7\u00e3o atual. O papa implora nomeadamente aos Governos da Inglaterra, da Fran\u00e7a e da It\u00e1lia, a fim de apoiarem este seu pedido\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, em 01 de setembro de 1939, estalou a guerra com a invas\u00e3o da Pol\u00f3nia, o papa ainda diligenciou por evitar que a It\u00e1lia entrasse no conflito, de acordo com Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte; e, em 20 de outubro, na sua primeira enc\u00edclica, <em>Summi Pontificatus,<\/em> condenou alguns erros capitais, como o desrespeito da dignidade humana, a nega\u00e7\u00e3o da igualdade do g\u00e9nero humano e da sua necess\u00e1ria solidariedade, fosse qual fosse o povo a que se pertencesse, e anatematizou ainda a eleva\u00e7\u00e3o do Estado ou da comunidade social, ocupando o lugar do pr\u00f3prio Criador, como fim \u00faltimo da vida humana e como \u00e1rbitro supremo da ordem jur\u00eddica e moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os esfor\u00e7os do sumo-pont\u00edfice, considerado ent\u00e3o (mesmo pela imprensa livre) como um dos poucos baluartes da defesa da liberdade na Europa oprimida, iriam prosseguir durante os anos das hostilidades militares, tantas vezes correndo graves riscos. Contudo, Pio XII era realista; n\u00e3o queria pagar com o sangue dos outros uma razo\u00e1vel mas dura palavra que, no fundo, n\u00e3o lhe teria custado muito. \u00abQuando o papa gostaria de gritar alto e forte, infelizmente s\u00e3o a dila\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio que muitas vezes se antep\u00f5em; quando gostaria de agir e ajudar claramente, s\u00e3o a paci\u00eancia e a espera que se imp\u00f5em\u00bb &#8211; escreveu ele em 20 de fevereiro de 1940, numa carta remetida aos bispos alem\u00e3es. Mais tarde, diria o escritor franc\u00eas Fran\u00e7ois Mauriac que \u00abo sil\u00eancio do papa e da hierarquia correspondia a uma assustadora exig\u00eancia das circunst\u00e2ncias, porque se tratava de evitar males maiores\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem interesse, neste momento, recordar que, quando o papa come\u00e7ou a ser incriminado de ser favor\u00e1vel aos nazis, estes, por seu turno, acusavam-no de tomar partido contr\u00e1rio. Assim, por exemplo, numa audi\u00eancia concedida em 11 de mar\u00e7o de 1940, o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Alemanha, Joachim von Ribbentrop, falou-lhe da futilidade do alinhamento da Santa S\u00e9 com os inimigos do \u2018F\u00fchrer\u2019. Pio XII escutou o ministro, educada e pacientemente. Em seguida, abriu uma pasta e leu uma lista das persegui\u00e7\u00f5es infligidas pelo \u2018III Reich\u2019 na Pol\u00f3nia, indicando com precis\u00e3o as datas, os locais e os pormenores de cada crime. A audi\u00eancia terminou aqui; a posi\u00e7\u00e3o do papa ficara claramente definida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como testemunho pessoal, D\u2019Arcy Osborne, que, de 1936 a 1947, foi ministro plenipotenci\u00e1rio da Gr\u00e3-Bretanha junto da Santa S\u00e9, escreveria no jornal londrino <em>Times, <\/em>na d\u00e9cada de 1960: &#8211; \u00abLonge de ser um g\u00e9lido diplomata, Pio XII foi a personalidade mais calorosamente humana, gentil, generosa e compreensiva que tive a honra de conhecer no curso da minha longa exist\u00eancia. Sei que a sua natureza sens\u00edvel era sempre pungentemente afetada pelos imensos sofrimentos causados pela guerra; e n\u00e3o tenho a menor d\u00favida em afirmar que ele estava pronto a dar com alegria a sua vida para salvar a humanidade das consequ\u00eancias do conflito, sem discriminar nem as nacionalidades nem as cren\u00e7as religiosas dos beneficiados. Mas, na pr\u00e1tica, que poderia ele fazer mais, al\u00e9m do que fez?\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>3 \u2013 Pio XII<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Na defesa dos judeus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As desumanas crueldades executadas pelos nazis nos campos de concentra\u00e7\u00e3o apenas seriam claramente conhecidas ap\u00f3s o termo das opera\u00e7\u00f5es b\u00e9licas, quando os sobreviventes, ao serem libertados, puderam contar tudo o que viveram e sofreram e aquilo a que estavam sujeitos. O pr\u00f3prio projeto alem\u00e3o de exterm\u00ednio total dos judeus n\u00e3o era conhecido nem pelo Vaticano, nem pelas organiza\u00e7\u00f5es judaicas, nem pelos \u2018aliados\u2019 ocidentais; o segredo \u00e9 \u00f3bvio em tempo de guerra. Ainda em 30 de agosto de 1943, o secret\u00e1rio de Estado norte-americano referia: &#8211; \u00abN\u00e3o h\u00e1 provas suficientes para justificar uma declara\u00e7\u00e3o a respeito das execu\u00e7\u00f5es em c\u00e2maras de g\u00e1s\u00bb. O \u2018Holocausto\u2019 imp\u00f4s-se \u00e0 aten\u00e7\u00e3o do mundo, somente depois de haver terminado o conflito. Apesar da falta de informa\u00e7\u00f5es fidedignas, Pio XII e os seus colaboradores fizeram cont\u00ednuos esfor\u00e7os para salvar as pessoas amea\u00e7adas de deporta\u00e7\u00e3o e para minorar as condi\u00e7\u00f5es dos campos, de que, apesar de tudo, iam surgindo suspeitas cada vez mais alarmantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em certa ocasi\u00e3o durante a guerra, o pont\u00edfice escreveu um telegrama ao almirante Mikl\u00f3s Horthy, ent\u00e3o governador nazi da Hungria, para que evitasse a deporta\u00e7\u00e3o dos judeus; o governador acedeu\u2026 e \u2013 segundo se afirma \u2013 foram salvas cerca de oitenta mil vidas. Tamb\u00e9m se contam por v\u00e1rios os seus pedidos de asilo; desta forma, por sua interven\u00e7\u00e3o o Governo do Brasil disp\u00f4s-se a aceitar at\u00e9 tr\u00eas mil \u2018n\u00e3o-iranianos\u2019; Rafael Trujillo, presidente da Rep\u00fablica Dominicana, daria guarida a oitocentos judeus, pelo menos; e outros pa\u00edses aceitaram colaborar na mesma obra humanit\u00e1ria, dizendo-se que o papa, por esta via, ter\u00e1 salvo aproximadamente onze mil judeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia \u2013 conforme testemunhariam pessoas respons\u00e1veis que suportaram o ambiente \u2013 as declara\u00e7\u00f5es e os protestos p\u00fablicos, se fossem feitos, n\u00e3o resultariam e at\u00e9 tornariam mais dif\u00edcil as gest\u00f5es secretas para salvar vidas e poderiam mesmo agravar a sorte das v\u00edtimas e multiplicar o seu n\u00famero, como aconteceu na Holanda ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o formal sobre as deporta\u00e7\u00f5es de judeus; tal protesto foi corajosamente assinado pelos bispos cat\u00f3licos e pelos respons\u00e1veis de quase todas as Igrejas Protestantes, em telegrama enviado a Seyss-Inquart, comiss\u00e1rio local da Gestapo alem\u00e3. Ali\u00e1s, o cardeal-primaz da Holanda, Mons. Johannes de Jong, logo desde o come\u00e7o da ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 em 1940, reagira contra os crimes praticados pela pol\u00edcia germ\u00e2nica no seu pa\u00eds, dando diretrizes que se leram publicamente nas igrejas, entre elas a proibi\u00e7\u00e3o de os cat\u00f3licos participarem em organiza\u00e7\u00f5es nazis. Estas medidas ajudaram o movimento clandestino da resist\u00eancia e estimularam a que muitos sacerdotes e leigos apoiassem os judeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizia o citado documento dos hierarcas crist\u00e3os holandeses, referindo-se em concreto aos judeus: &#8211; \u00abOs abaixo-assinados, profundamente magoados com as medidas de exce\u00e7\u00e3o tomadas contra os judeus e tendentes a exclu\u00ed-los da vida comum da sociedade, souberam com horror a not\u00edcia das deporta\u00e7\u00f5es maci\u00e7as de fam\u00edlias inteiras judias \u2013 homens, mulheres e crian\u00e7as \u2013 para os territ\u00f3rios de Leste sob controle do \u2018III Reich\u2019. A dor que destro\u00e7a dezenas de milhares de pessoas, a certeza de que tais medidas v\u00e3o contra o profundo sentido moral do povo holand\u00eas e dos mandamentos de Deus, que prescrevem a justi\u00e7a e a miseric\u00f3rdia, obrigam os chefes das comunidades crist\u00e3s a dirigir-vos um urgente apelo para evitar, quanto poss\u00edvel, a execu\u00e7\u00e3o de tais medidas. Sobre os crist\u00e3os de origem judaica, a nossa peti\u00e7\u00e3o torna-se mais insistente, porque as disposi\u00e7\u00f5es precipitadas tendem a exclu\u00ed-los da pr\u00f3pria vida das nossas Igrejas\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa primeira resposta, houve a garantia de que os judeus-crist\u00e3os n\u00e3o seriam perturbados. Por\u00e9m, como o seu sequestro continuava sem parar, as autoridades eclesi\u00e1sticas de v\u00e1rias Igrejas Crist\u00e3s entenderam n\u00e3o se calar e prepararam uma carta pastoral conjunta, cuja publica\u00e7\u00e3o foi vetada pelo comiss\u00e1rio do \u2018III Reich\u2019; o documento, sem qualquer refer\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vigente, continha apenas um convite \u00e0 reflex\u00e3o pessoal perante os acontecimentos vividos. Os respons\u00e1veis das Igrejas Protestantes retrocederam, mas os bispos cat\u00f3licos ignoraram as suas ordens, fazendo saber ao ocupante que n\u00e3o tinha o direito de se intrometer nos assuntos da Igreja Cat\u00f3lica. A carta pastoral, em que se inclu\u00eda o dito telegrama, foi publicitada nas liturgias dominicais de 26 de julho de 1942. Nela se lia, entre outras coisas: &#8211; \u00abQueridos fi\u00e9is, antes de mais, suscitemos em n\u00f3s mesmos um profundo sentimento de arrependimento e de humildade. Com efeito, n\u00e3o somos n\u00f3s tamb\u00e9m respons\u00e1veis pelas cat\u00e1strofes que nos afligem? Busc\u00e1mos sempre e acima de tudo o Reino de Deus e a sua justi\u00e7a? Pratic\u00e1mos sempre os nossos deveres de justi\u00e7a e de caridade para com o pr\u00f3ximo? Se refletirmos seriamente, reconheceremos que todos estamos em falta&#8230; Supliquemos a Deus que se digne conceder depressa ao mundo uma paz justa. Que fortale\u00e7a o Povo de Israel, nestes dias t\u00e3o duramente provado, e o conduza \u00e0 verdadeira reden\u00e7\u00e3o de Cristo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rea\u00e7\u00e3o nazi \u00e0 palavra prof\u00e9tica da Igreja Cat\u00f3lica na Holanda n\u00e3o atrasou mais do que uma semana\u2026 e foi brutal. No dia 02 de agosto, todos os judeus-cat\u00f3licos &#8211; cerca de trezentos, incluindo os que viviam em conventos &#8211; foram detidos e logo for\u00e7adamente encaminhados para os campos de morte no Leste, nomeadamente Auschwitz, Birkenau e Breslau; entre eles, contam-se as conhecidas religiosas carmelitas Edith e Rosa Stein, presas no convento de Echt e deportadas para Birknau, onde, com cerca de mil pessoas, foram assassinadas na c\u00e2mara de g\u00e1s em 09 de agosto. Todos eles foram as v\u00edtimas inocentes da vingan\u00e7a e do \u00f3dio que os alem\u00e3es n\u00e3o puderam desferir sobre as autoridades eclesi\u00e1sticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nesta ocasi\u00e3o que o sumo-pont\u00edfice decidiu imediatamente suspender a condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica e formal do Nazismo alem\u00e3o e do Fascismo italiano, que havia decidido publicar no jornal <em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>, tanto mais que soubera das desastrosas consequ\u00eancias, j\u00e1 programadas contra os cat\u00f3licos \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 \u2013 no caso de ele n\u00e3o recuar. Hitler n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o atenderia os apelos, as reclama\u00e7\u00f5es e os protestos, mas iria tornar-se mais cruel com tais manifesta\u00e7\u00f5es, aumentando a persegui\u00e7\u00e3o a judeus e n\u00e3o-judeus. As duas folhas, onde o pr\u00f3prio papa redigira o dito texto com as suas letras miudinhas, foram reduzidas a cinza no fog\u00e3o da cozinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, tomou declaradamente a defesa dos hebreus na mensagem do Natal de 1942, na qual criticou o racismo, a ponto de ser denunciado por Joseph Goebbels, ministro de Propaganda do Governo nazi; de facto, Pio XII, al\u00e9m de lembrar a crueldade da guerra e a viola\u00e7\u00e3o das conven\u00e7\u00f5es internacionais que procuravam limitar os seus horrores, falou das \u00abcentenas de milhares de pessoas inocentes que, pelo \u00fanico motivo de pertencerem a tal na\u00e7\u00e3o ou a tal ra\u00e7a, foram condenadas \u00e0 morte, mediante o seu progressivo exterm\u00ednio\u00bb. Reportando-se a esta mensagem, Sir Martin Gilbert, historiador judeu ingl\u00eas, numa entrevista de 02 de fevereiro de 2003, no programa \u201cIn Depth\u201d do canal de televis\u00e3o \u201cC-Span\u201d, disse abertamente que o papa \u00abdesempenhou tamb\u00e9m um papel importante [\u2026] no resgate das tr\u00eas quartas partes dos judeus de Roma\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sumo-pont\u00edfice, refletindo sobre as atitudes dos respons\u00e1veis da Igreja nesta situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e cr\u00edtica, escreveria ao bispo de Berlim, em 27 de fevereiro de 1943: &#8211; \u00abAs declara\u00e7\u00f5es dos bispos arriscam-se a desencadear paix\u00f5es; al\u00e9m disso, \u00e9 preciso levar em conta outras circunst\u00e2ncias, devidas talvez \u00e0 dura\u00e7\u00e3o e \u00e0 psicologia da guerra. \u00c9 este um dos motivos pelos quais nos impomos certas reservas nas nossas declara\u00e7\u00f5es; a experi\u00eancia que fizemos em 1942, entregando alguns escritos pontif\u00edcios para se distribu\u00edrem aos fi\u00e9is, justificam a nossa atitude\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No rodar dos acontecimentos, no m\u00eas de outubro de 1943, a autoridade nazi de Roma emitiu a ordem de pris\u00e3o imediata de todos os judeus residentes nesta cidade \u2013 5.715 segundo o registo dos alem\u00e3es \u2013 a fim de serem enviados para o campo de concentra\u00e7\u00e3o de Mauthausen. O papa interveio direta e rapidamente, quer recolhendo milhares de judeus no Vaticano e em Castelgandolfo, quer mandando aos superiores e \u00e0s superioras dos mosteiros e dos conventos que, suspensas as suas constitui\u00e7\u00f5es, escondessem sem demora os homens e as mulheres perseguidos; o mesmo aconteceu quanto a igrejas e santu\u00e1rios. Desta forma, salvaram-se 4.715 judeus. Muitos dos que n\u00e3o tinham conseguido ou n\u00e3o quiseram asilar-se foram deportados para Auschwitz \u2013 e mais n\u00e3o foram devido \u00e0 pronta interven\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio de Estado de Sua Santidade, cardeal Luigi Maglione, junto do embaixador alem\u00e3o no Vaticano, Ernst von Weizsacker, a quem pediu: &#8211; \u00abTente salvar os inocentes que sofrem por pertencer a uma ra\u00e7a determinada\u00bb. Ernst von Weizs\u00e4cker, com conhecimento de causa, anotou: &#8211; \u00abUm \u2018protesto flamejante\u2019 pelo papa n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o teria sucesso para deter a m\u00e1quina da destrui\u00e7\u00e3o, mas poderia ter causado uma grande quantidade de danos adicionais aos milhares de judeus, escondidos no Vaticano e nos conventos, aos oriundos de casamentos mistos (entre judeus e crist\u00e3os), \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, \u00e0 integridade territorial da cidade do Vaticano e \u2013 por \u00faltimo e n\u00e3o menor \u2013 aos milh\u00f5es de cat\u00f3licos de toda a Europa ocupada pela Alemanha\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>4 \u2013 Gratid\u00e3o dos judeus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Cinco meses depois de as tropas aliadas terem entrado em Roma, libertando a cidade das for\u00e7as nazi-fascistas, um grupo de setenta israelitas, no dia 29 de novembro de 1944, foi ao Vaticano, com o \u00fanico objetivo de agradecer cordialmente a Pio XII as suas interven\u00e7\u00f5es durante a guerra, em seu favor. Foi um ato que se definiu como de inteira justi\u00e7a a algu\u00e9m que muito continuava a fazer pela dignidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A guerra na Europa terminou em 07 de maio de 1945, com a derrota definitiva e a rendi\u00e7\u00e3o incondicional da Alemanha, j\u00e1 depois do suic\u00eddio de Adolph Hitler em 30 de abril anterior. Tendo consci\u00eancia do apoio humanit\u00e1rio, inteligente e eficaz que lhe fora dado por Pio XII e pelos cat\u00f3licos, o povo judeu manifestar-se-ia penhorado para com o papa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador e professor judeu Pinchas Lapide, que exerceu as fun\u00e7\u00f5es de c\u00f4nsul israelita em Mil\u00e3o e de director do Servi\u00e7o de Imprensa do Governo do seu pa\u00eds, falecido em 1997, foi um dos investigadores que estudaram a atitude de Pio XII referente aos judeus, durante a segunda guerra mundial. Quando, em fevereiro de 1963, se desencadeou um ataque violento e ofensivo da mem\u00f3ria de Pio XII, considerando que ele nada fizera para evitar o genoc\u00eddio do povo israelita e apresentando-o como c\u00famplice de Hitler e um dos maiores respons\u00e1veis pelo exterm\u00ednio dos judeus, com base na publica\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o em Berlim da pe\u00e7a teatral, escrita pelo protestante e comunista Rolf Hochhuth, <em>Der Stellvertreter (O Vig\u00e1rio),<\/em> aquele professor saiu em defesa do sumo-pont\u00edfice com o livro \u2018Rom und die Juden\u2019. Por seu turno, tamb\u00e9m o general Ion Mihai Pacepa, ex-conselheiro do presidente da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Nicolae Ceausescu, ex-respons\u00e1vel dos servi\u00e7os secretos romenos e desertor da KGB, afirmou com conhecimento pessoal que Hochhuth manipulou e falsificou documentos, obedecendo a um \u2018complot\u2019 secreto para desacreditar a Santa S\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1967, no seu livro <em>Three Popes and Jews,<\/em> Lapide calculou que Pio XII e a Igreja Cat\u00f3lica salvaram, com as suas interven\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poucas centenas de milhares de vidas, e escreveu: &#8211; \u00abEm um tempo em que a for\u00e7a armada dominava de forma indiscriminada e o sentido moral havia ca\u00eddo ao n\u00edvel mais baixo, Pio XII n\u00e3o dispunha de for\u00e7a alguma semelhante e p\u00f4de apelar somente \u00e0 moral; viu-se obrigado a contrastar a viol\u00eancia do mal com as m\u00e3os nuas. Poderia ter elevado vibrantes protestos, que pareceriam inclusive insensatos, ou proceder em sil\u00eancio, com decis\u00e3o. Palavras gritadas ou atos silenciosos. Pio XII escolheu os atos silenciosos e tratou de salvar o que poderia ser salvo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes de morrer, Lapide fez novas declara\u00e7\u00f5es, juntamente com sua mulher Rute, historiadora e especialista em juda\u00edsmo, as quais em 1997 foram inclu\u00eddas na revista alem\u00e3 <em>PUR-Magazin<\/em>. Classificou as asser\u00e7\u00f5es de Hochhuth como \u00abpreconceitos injustos contra o papa\u00bb e definiria tais declara\u00e7\u00f5es como \u00abuma simplifica\u00e7\u00e3o e em parte cal\u00fanias\u00bb. Asseverou ele: &#8211; \u00abPosso afirmar com verdade que o papa, pessoalmente, os n\u00fancios e toda a Igreja Cat\u00f3lica salvaram da morte cerca de quatrocentos mil judeus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lapide recordaria ainda que, antes do Natal de 1944, esteve com Pio XII durante cerca de uma hora; entre outras coisas, disse o sumo-pont\u00edfice: &#8211; \u00abSr. Lapide, estou certo de que, no futuro, vai pensar-se que eu poderia ter feito mais para salvar judeus &#8211; e \u00e9 evidente que poderia fazer mais; mas \u00e9 uma realidade aquilo que pude fazer\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de terminar estas linhas, recordo apenas mais tr\u00eas epis\u00f3dios: &#8211; Em 18 de janeiro de 2005, uma delega\u00e7\u00e3o de representantes religiosos judeus, deslocando-se ao Vaticano em visita a S. Jo\u00e3o Paulo II, agradeceu o que a Igreja Cat\u00f3lica havia feito em favor das v\u00edtimas do Nazismo; &#8211; em 18 de junho de 2008, um pequeno grupo de sobreviventes do \u2018Holocausto\u2019 foi \u00e0 presen\u00e7a de Bento XVI com id\u00eantica finalidade; &#8211; e, ainda em 2008, Erich A. Silver, destacado rabino americano de Cheshire (Connecticut), escreveu no pr\u00f3logo do livro de Margherita Marchione, <em>Papa Pio XII &#8211; Un antologia di testi nel 70 anniversario dell&#8217;incoronazione,<\/em> ent\u00e3o publicado: &#8211; \u00abVale a pena destacar que, ap\u00f3s o fim da guerra e at\u00e9 \u00e0 sua morte, os judeus continuamente elogiaram Pio XII, reconhecendo-o como salvador.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra as declara\u00e7\u00f5es inequ\u00edvocas de ilustres judeus, \u00e9 imposs\u00edvel que algu\u00e9m possa sustentar e propagandear as cal\u00fanias contra o papa Pio XII; se assim o fizer, creio que ser\u00e1 por inconsciente ignor\u00e2ncia hist\u00f3rica, que n\u00e3o por maldade consumada. Sem sombra de d\u00favida, julgo que \u00e9 de suprema justi\u00e7a reconhecer que o papa Eug\u00e9nio Pacelli deve ser julgado pelo que fez com toda a coragem e com toda a decis\u00e3o, e menos pelo que n\u00e3o p\u00f4de dizer, por n\u00e3o pretender agravar a sorte das v\u00edtimas. Creio que os documentos do Arquivo do Vaticano, agora publicamente facultados, ir\u00e3o confirmar-nos que o papa Pio XII, em toda a sua grandiosidade, foi um ac\u00e9rrimo defensor da humanidade\u2026 e dos judeus e demais perseguidos.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\">*Academia Portuguesa da Hist\u00f3ria<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem: <em>Pio XII<\/em> | Luis Fern\u00e1ndez-Laguna &#8211; 1958<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00a0 Mons.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9446,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,67],"tags":[],"class_list":["post-9445","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-mons-joao-gaspar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9445"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9445\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9448,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9445\/revisions\/9448"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}