{"id":9437,"date":"2020-05-23T18:31:32","date_gmt":"2020-05-23T17:31:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9437"},"modified":"2020-05-23T18:32:25","modified_gmt":"2020-05-23T17:32:25","slug":"tiago-azevedo-ramalho-algumas-observacoes-sobre-a-covid-19-e-os-seus-efeitos-notas-a-margem-da-leitura-de-agamben","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-azevedo-ramalho-algumas-observacoes-sobre-a-covid-19-e-os-seus-efeitos-notas-a-margem-da-leitura-de-agamben\/","title":{"rendered":"Tiago Azevedo Ramalho | Algumas observa\u00e7\u00f5es sobre a COVID 19 e os seus efeitos &#8211; Notas \u00e0 margem da leitura de Agamben"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><em><strong>Direto ao contradit\u00f3rio<\/strong><\/em> | Uma rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as certezas de sociedade tidas como insofism\u00e1veis<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho*<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-7993\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"113\" height=\"170\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-683x1024.jpg 683w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-200x300.jpg 200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-768x1151.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-600x899.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1025x1536.jpg 1025w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1367x2048.jpg 1367w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1200x1798.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-850x1274.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-480x719.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-1320x1978.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/2017.10-scaled.jpg 1708w\" sizes=\"auto, (max-width: 113px) 100vw, 113px\" \/>Ainda com grande incerteza acerca do curso evolutivo futuro da COVID 19, e incerteza ainda maior acerca dos efeitos econ\u00f3mico-sociais das medidas de restri\u00e7\u00e3o do surto pand\u00e9mico que foram sendo adoptadas, \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a identificar alguns dos principais tra\u00e7os que caracterizaram a realidade pol\u00edtico-social ao longo destes meses. Tra\u00e7os resultantes sobretudo do impacto das medidas adoptadas (e da atmosfera que as motivou e que ajudaram a alimentar) durante o Estado de Emerg\u00eancia entre 19 de Mar\u00e7o e 2 de Maio de 2020 (cf., sucessivamente, os Decretos do Presidente da Rep\u00fablica de 14-A\/2020, de 18 de Mar\u00e7o, 17-A\/2020, de 2 de Abril e 20-A\/2020, de 17 de Abril), mas que a certo ponto j\u00e1 se divisavam antes do in\u00edcio do referido per\u00edodo e que, certamente, se notam ainda de modo muito vincado para al\u00e9m do respectivo termo final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os resultados deste esbo\u00e7o de caracteriza\u00e7\u00e3o h\u00e3o-de ser recebidos, naturalmente, com muita cautela. Mergulhados ainda na voragem do acontecimento, torna-se imposs\u00edvel aquele tipo de objectividade resultante de uma an\u00e1lise detida, ponderada, maturada, com distanciamento. \u00c9 bem poss\u00edvel que alguns dos tra\u00e7os aqui identificados resultem de erros de \u00f3ptica, da sobrevaloriza\u00e7\u00e3o de certas dimens\u00f5es da realidade social em preju\u00edzo de algumas outras que, por si s\u00f3, conduziriam a diferentes resultados. Mas, sem preju\u00edzo de posteriores e mais bem reflectidas abordagens que impliquem a revis\u00e3o de quanto provisoriamente aqui se sustenta, n\u00e3o se deve deixar de, paralelamente, tentar sentir o pulso ao tempo, sob pena de, afinal, se abdicar de uma plena participa\u00e7\u00e3o na \u00e9poca que nos calhou viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farei esta an\u00e1lise sum\u00e1ria servindo-me com frequ\u00eancia das muito provocat\u00f3rias reflex\u00f5es que Giorgio Agamben foi publicando ao longo dos \u00faltimos meses na p\u00e1gina htttp:\/\/www.quodlibet.it\/una-voce-giorgio-agamben, e que ser\u00e3o citadas doravante pelos respectivos t\u00edtulos e data. Escritas no limite da suportabilidade \u2013 a muitos, certamente, parecer\u00e1 que ultrapassam os patamares m\u00ednimos de aceitabilidade \u2013, n\u00e3o deixam de advertir de modo muito impressivo para algumas das dimens\u00f5es dos efeitos pol\u00edtico-sociais da (resposta \u00e0) COVID-19. E se para fim diferente n\u00e3o servirem, prestam-se a gerar aquele tipo de visceral desconforto, mesmo de indigna\u00e7\u00e3o, que porventura sentiram outrora aqueles que eram atingidos pelas invectivas prof\u00e9ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assumo \u00e0 partida que a globalidade dos dados que nos s\u00e3o fornecidos acerca da COVID-19 pelas entidades p\u00fablicas s\u00e3o verdadeiros, e que a interpreta\u00e7\u00e3o que nos foi facultada acerca da respectiva perigosidade foi valorada de um modo devido, n\u00e3o exagerado. Acaso assim n\u00e3o seja (cf. por ex. <em>Sul vero e sul falso, <\/em>28 de Abril de 2020; <em>Biosicurezza e politica<\/em>, 11 de Maio de 2020), haver-se-\u00e1 de fazer outras, e bem mais inquietantes, reflex\u00f5es. Diga-se finalmente que, embora a reflex\u00e3o tenha particularmente em vista a realidade portuguesa, considera-a n\u00e3o enquanto realidade isolada, mas como espelho de um certo modelo de sociedade que, neste per\u00edodo, por toda a parte se afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis as tr\u00eas caracter\u00edsticas que me parecem mais salientes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><u>1. A neutraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica a favor da \u201cfor\u00e7a da necessidade\u201d<\/u> \u2013 A primeira caracter\u00edstica do bloco de medidas de conten\u00e7\u00e3o da COVID-19 \u00e9 a invoca\u00e7\u00e3o da \u201cfor\u00e7a da necessidade\u201d. As medidas adoptadas para combater a COVID-19 s\u00e3o, portanto, apresentadas como as <em>necess\u00e1rias, <\/em>isto \u00e9, como as <em>\u00fanicas<\/em> admiss\u00edveis dadas as circunst\u00e2ncias<em>. <\/em>O que tem uma consequ\u00eancia: se n\u00e3o h\u00e1 alternativas, ent\u00e3o desaparece o espa\u00e7o para a autonomia da decis\u00e3o \u00e9tica (decis\u00e3o que tem lugar apenas onde haja ao menos <em>dois caminhos <\/em>que sirvam de alternativas de escolha), e, bem assim, do espa\u00e7o da \u00e9tica que respeita \u00e0 escolha das grandes op\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias \u2013 a pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 h\u00e1 pol\u00edtica onde existam diferentes possibilidades de ac\u00e7\u00e3o; onde n\u00e3o h\u00e1 alternativas de ac\u00e7\u00e3o, nada h\u00e1 a decidir, nem a deliberar, nem a escolher. Tamb\u00e9m desaparece o espa\u00e7o da pol\u00edtica quando a direc\u00e7\u00e3o dos assuntos p\u00fablico \u00e9 confiada a col\u00e9gios de especialistas, ainda mais quando se chega a entender que esse silenciamento \u00e9 um dever c\u00edvico: \u201cA biosseguran\u00e7a provou ser capaz de apresentar a absoluta cessa\u00e7\u00e3o de toda a actividade pol\u00edtica e de qualquer rela\u00e7\u00e3o social como a m\u00e1xima forma de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d (<em>Biosicurezza e politica<\/em>, 11 de Maio 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas obviamente que as decis\u00f5es humanas sobre os assuntos p\u00fablicos s\u00e3o sempre, mesmo que o pretendam ocultar, decis\u00f5es com uma dimens\u00e3o pol\u00edtica. Em sentido filos\u00f3fico, n\u00e3o obedecem \u00e0 lei da necessidade, mas s\u00e3o somente op\u00e7\u00e3o entre alternativas \u2013 ainda que algumas das op\u00e7\u00f5es sejam <em>a priori <\/em>desconsideradas, e ainda que, porventura, o melhor caminho seja aquele que fora apresentado como \u201cnecess\u00e1rio\u201d. Qualquer op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica traduz o desejo de proteger certos valores em sacrif\u00edcio de outros. Distribui os custos do \u201ccombate\u201d de modo desigual pelo conjunto da sociedade. Sacrifica de modo especial certos sectores da popula\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, as decis\u00f5es de especialistas em sa\u00fade p\u00fablica, ainda que servindo-se de instrumentos t\u00e9cnicos, s\u00e3o, em \u00faltima linha, decis\u00f5es ao menos com impacto pol\u00edtico, uma vez que se prestam a afirmar certos valores em preju\u00edzo de alguns outros. Que a \u00a0OMS ou a DGS auxiliem na determina\u00e7\u00e3o de quais as melhores medidas para a conten\u00e7\u00e3o da pandemia \u00e9 muito correcto; mas a decis\u00e3o acerca do combate, ou do custo que se dever\u00e1 pagar, ou do modo como dever\u00e1 ser repartido, \u00e9 quest\u00e3o puramente pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente que, perante calamidades de ordem p\u00fablica, a <em>curto prazo <\/em>ser\u00e1 dif\u00edcil dar lugar a um procedimento deliberativo sereno e ponderado, e haver-se-\u00e1 de permitir ao poder executivo alargar o feixe da sua ac\u00e7\u00e3o. Mas nunca se h\u00e1-de perder de vista que se est\u00e3o a tomar <em>op\u00e7\u00f5es<\/em>, e que, como <em>op\u00e7\u00f5es <\/em>que s\u00e3o, nalgum momento haver\u00e3o de poder ser sindicadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A COVID-19, tanto quanto se sabe, tem causas naturais. Mas a resposta pol\u00edtica \u00e9 somente humana. E, por isso, h\u00e1-de tamb\u00e9m ser sujeita a um ju\u00edzo pol\u00edtico. H\u00e1 pois que perguntar: o que se procurou proteger com o bloco de medidas adoptadas? E depois: s\u00e3o as medidas eficazes para esse prop\u00f3sito? Sobre esta segunda quest\u00e3o n\u00e3o me pronunciarei, pois implicaria a considera\u00e7\u00e3o de diferentes sectores da vida social (adequa\u00e7\u00e3o das medidas no sector sanit\u00e1rio; na protec\u00e7\u00e3o do trabalho; do tecido empresarial,\u2026) dos quais pouco sei, al\u00e9m de que conduziria a que o presente texto se prolongasse excessivamente. Mas aquela primeira quest\u00e3o j\u00e1 a todos respeita, pois tem a ver com a imagem de homem que a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social projecta. Respeita ao modo como a sociedade nos olha, nos v\u00ea, nos considera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><u>2. A absolutiza\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 valor: a \u201cnua vida\u201d<\/u> \u2013 Assim chegamos ao segundo eixo caracterizante da estrutura dessa sociedade que foi ganhando forma ao longo destes meses. As medidas que sucessivamente foram adoptadas podem ter escapado ao controlo de um discurso \u201cpol\u00edtico\u201d, conforme antes j\u00e1 se exp\u00f4s \u2013 o que, tamb\u00e9m se referiu, pode justificar-se num primeiro momento pela muito conveniente urg\u00eancia de resposta. Mas n\u00e3o surgiram desacompanhadas de um discurso legitimador, isto \u00e9, de um esfor\u00e7o de justifica\u00e7\u00e3o da sua conformidade com valores fundamentais da comunidade. A justifica\u00e7\u00e3o dada, oferecida como <em>evidente <\/em>(e tamb\u00e9m atrav\u00e9s desse atributo de <em>evid\u00eancia<\/em> se retirou a quest\u00e3o do campo da delibera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica), foi a seguinte: <em>a protec\u00e7\u00e3o a todo o custo da vida humana<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 justifica\u00e7\u00e3o longe de gozar a evid\u00eancia que aparenta possuir. Pois que vida humana se protege por esta via? De que vida humana se trata? A vida humana n\u00e3o \u00e9 um fim em si pr\u00f3pria, mas o tempo e o lugar de abertura da pessoa a certos fins. Mas de tal forma que ela pr\u00f3pria, que habilita a essas possibilidades v\u00e1rias de ac\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sempre em risco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida humana, com efeito, \u00e9 marcada por uma sucessiva aceita\u00e7\u00e3o de pequenos riscos pelos quais a pessoa, arriscando-a, procura atingir aquela perfectibilidade para a qual se descobre chamada. N\u00e3o me refiro sequer a actividades extraordin\u00e1rias de alta perigosidade, mas atenho-me aos riscos habituais que todos os cidad\u00e3os nalguma medida aceitam nos seus quotidianos: \u00e9 o risco de um acidente de trabalho (assumido em vista do auto-sustento e do sustento familiar); \u00e9 o risco de uma longa viagem de regresso a casa ap\u00f3s prolongada aus\u00eancia (assumido em vista da comunh\u00e3o familiar); \u00e9 o risco de longas noites de assist\u00eancia a um rec\u00e9m-nascido, com perdas, por vezes permanentes, de val\u00eancias pessoais (assumido em ordem \u00e0 alegria do amor); \u00e9 o risco de assistir os doentes (assumido em vista da caridade para com o pr\u00f3ximo); \u00e9 o risco de denunciar a injusti\u00e7a (assumido em vista das exig\u00eancias da verdade). Em qualquer um destes casos, ou, mais em geral, em todos aqueles nos quais a vida se experimenta como bem vivida, abdica-se ou sacrifica-se uma parte da pr\u00f3pria vida \u2013 do pr\u00f3prio tempo, das pr\u00f3prias for\u00e7as, da pr\u00f3pria capacidade, da pr\u00f3pria sa\u00fade \u2013 em vista da promo\u00e7\u00e3o de fins que se divisam superiores: \u201cN\u00e3o \u00e9 a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa?\u201d (Mt 6, 25). E conclui-se mesmo que \u201caquele que quiser salvar a sua vida, a perder\u00e1\u201d (Mc 8, 35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o parece ser esta a \u201cvida humana\u201d que \u00e9 invocada como legitimadora das medidas de conten\u00e7\u00e3o de COVID-19 \u2013 mas, pelo contr\u00e1rio, a vida meramente biol\u00f3gica, aquela que Agamben designa \u201cnua vida\u201d, como que elevada a \u00fanico e supremo bem: \u201cA primeira coisa que a onda de p\u00e2nico que paralisou o pa\u00eds mostra com evid\u00eancia \u00e9 que a nossa sociedade j\u00e1 n\u00e3o acredita em coisa nenhuma a n\u00e3o ser a nua vida. (\u2026) \u00c9 evidente que os italianos est\u00e3o dispostos a sacrificar praticamente tudo, as condi\u00e7\u00f5es normais de vida, as rela\u00e7\u00f5es sociais, o trabalho, finalmente a amizade, os afectos e as convic\u00e7\u00f5es religiosas e pol\u00edticas pelo perigo de ficarem doentes\u201d (<em>Chiarimenti, <\/em>17 de Mar\u00e7o 2020). Ou ainda: \u201cdir-se-\u00e1 que os homens j\u00e1 n\u00e3o acreditam em nada \u2013 excepto na nua exist\u00eancia biol\u00f3gica que ocorre salvar a todo o custo\u201d (<em>Riflessioni sulla peste,<\/em> 27 de Mar\u00e7o 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma absolutiza\u00e7\u00e3o do valor vida, portanto, que conduz mesmo \u00e0 priva\u00e7\u00e3o de significado da pr\u00f3pria vida. E que, porque de absolutiza\u00e7\u00e3o se tratando, se presta a gerar um verdadeiro <em>estado de p\u00e2nico colectivo <\/em>(<em>L\u2019invenzione di un\u2019epidemia<\/em>, de 26 de Fevereiro de 2020 e <em>Contagio, <\/em>de 11 Mar\u00e7o de 2020), dado assentar numa impossibilidade: impedir o destino a que, agora <em>necessariamente,<\/em> est\u00e1 sujeito qualquer ser biol\u00f3gico, a morte f\u00edsica. Aquele que eleva tal bem acima de tudo viver\u00e1, naturalmente, acossado pelo receio permanente, transferindo para o poder tudo quanto for necess\u00e1rio para o proteger do possivelmente inevit\u00e1vel. \u201cMas sobre o medo de perder a vida apenas se pode fundar uma tirania, s\u00f3 o monstruoso Leviat\u00e3 com a sua espada desembainhada\u201d (<em>Riflessioni sulla peste, <\/em>de 27 Mar\u00e7o de 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente que se deve proteger a vida humana \u2013 mas deve proteger-se uma vida humana <em>humanizada<\/em>, em termos tais que se garanta a possibilidade de sociabilidade, de contacto humano efectivo, o que implica rec\u00edproca presen\u00e7a, toque, partilha de espa\u00e7os comuns. Pode aceitar-se que se coloquem restri\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, e intensas, a certas formas de socializa\u00e7\u00e3o. Mas desde que n\u00e3o se perca de vista que n\u00e3o se trata de um caso em que se abdica do acess\u00f3rio para proteger o fundamental, mas em que, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 j\u00e1 o <em>fundamental <\/em>que est\u00e1 a ser restringido. Exigir-se-ia, portanto, que a protec\u00e7\u00e3o do valor \u201cvida\u201d integrasse j\u00e1 a garantia de possibilidade de certos n\u00edveis de sociabilidade <em>f\u00edsica <\/em>e <em>presencial<\/em>, certamente al\u00e9m da mera conviv\u00eancia com o agregado familiar sob um mesmo tecto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particularmente em rela\u00e7\u00e3o a tr\u00eas grupos sociais se pressente que se ultrapassaram linhas vermelhas: em rela\u00e7\u00e3o ao dos doentes privados de companhia humana no momento da morte (traduzindo, n\u00e3o por acaso, uma viv\u00eancia da morte como mero \u201cfacto f\u00edsico\u201d, e n\u00e3o como acontecimento humano); ao das fam\u00edlias impedidas da celebra\u00e7\u00e3o das ex\u00e9quias ou do culto da mem\u00f3ria dos defuntos (cf. <em>Una domanda, <\/em>de 13 de Abril 2020, apontando este exemplo como uma das linhas de delimita\u00e7\u00e3o entre a \u201chumanidade\u201d e a \u201cbarb\u00e1rie\u201d ultrapassadas); ao dos idosos que, por raz\u00f5es v\u00e1rias, permanecem totalmente isolados das respectivas fam\u00edlias e continuam a ser destinat\u00e1rios, ainda que indirectamente (medidas dirigidas a lares residenciais, por ex.), de medidas espec\u00edficas de restri\u00e7\u00e3o (<em>Fase 2<\/em>, de 20 de Abril 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><u>3. A desagrega\u00e7\u00e3o do todo social e a afirma\u00e7\u00e3o do poder <\/u>\u2013 As reflex\u00f5es anteriores conduzem-nos a uma terceira caracter\u00edstica marcante deste per\u00edodo. Trata-se de uma caracter\u00edstica que, de h\u00e1 muito, \u00e9 pr\u00f3pria da sociedade moderna, mas que aqui marcou presen\u00e7a de um modo in\u00e9dito e como que em plenitude: a rela\u00e7\u00e3o imediata entre o poder pol\u00edtico e o indiv\u00edduo, sem qualquer media\u00e7\u00e3o <em>efectiva <\/em>por corpos interm\u00e9dios. Desagregadas as empresas, desagregadas as associa\u00e7\u00f5es, desagregadas as igrejas, desagregadas as conversas de caf\u00e9, desagregadas as fam\u00edlias, desagregada mesmo a fam\u00edlia nuclear: o <em>habitat <\/em>de cada um reduziu-se a umas poucas pessoas, ou mesmo a uma s\u00f3 pessoa, ardentemente aguardando as nov\u00e9is indica\u00e7\u00f5es acerca do seu expect\u00e1vel modo de agir, sem que se escutasse nenhuma voz p\u00fablica significativa a pretender ou pelo menos a conseguir erguer a voz, <em>ainda que irrazoavelemente,<\/em> em vista de uma leitura alternativa dos acontecimentos (<em>Una domanda, <\/em>de 13 Abril de 2020 e <em>La medicina come religione, <\/em>de 2 de Maio de 2020); sem que se pressentisse uma \u201cporosidade\u201d ou \u201cambiguidade\u201d na comunica\u00e7\u00e3o. De um modo certamente in\u00e9dito na hist\u00f3ria, os diferentes comandos do poder (uso de m\u00e1scara, restri\u00e7\u00e3o \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o, medidas de higieniza\u00e7\u00e3o, \u2026) lograram efectivar-se praticamente sem qualquer barreira ou resist\u00eancia. Assim se experimentou, tamb\u00e9m, o alt\u00edssimo n\u00edvel de efic\u00e1cia propiciado por uma comunica\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica permanente: durante muito tempo, o <em>real<\/em> deixou de ser o vizinho, o amigo, o familiar, e passou a ser o \u00faltimo comunicado transmitido a partir de um lugar distante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sustenta Agamben, a este respeito, que tal n\u00edvel de efic\u00e1cia foi somente poss\u00edvel uma vez que os indiv\u00edduos transferiram para a ci\u00eancia (<em>Riflessioni sulla peste<\/em>, 27 de Mar\u00e7o de 2020), especialmente para a Medicina (<em>La medicina come religione, <\/em>2 de Maio 2020), o seu sentimento religioso. Que, em parte, a ci\u00eancia \u2013 como ali\u00e1s qualquer outra realidade humana \u2013 pode operar e opera efectivamente como um \u00eddolo, e bem reluzente, n\u00e3o deve levantar qualquer d\u00favida. Mas a raz\u00e3o de semelhante n\u00edvel de efic\u00e1cia parece dever encontrar-se, a meu ver, somente na quase total desagrega\u00e7\u00e3o dos corpos interm\u00e9dios como inst\u00e2ncias verdadeiramente aut\u00f3nomas, que, por isso, se encontram muito limitados na capacidade de elaborarem um qualquer discurso independente em rela\u00e7\u00e3o ao publicamente veiculado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta desagrega\u00e7\u00e3o dos corpos interm\u00e9dios encontrou finalmente eco na f\u00f3rmula que, qual divisa de guerra, mais se repetiu ao longo destes dias, de t\u00e3o dita e redita vezes e vezes sem fim: manter o distanciamento social (<em>Distanziamento sociale<\/em>, de 6 de Abril 2020). F\u00f3rmula que conduz a uma consequ\u00eancia lapidar e brutalmente extra\u00edda por Agamben: \u201cO nosso pr\u00f3ximo foi abolido\u201d (<em>Contagio, <\/em>de 11 de Mar\u00e7o de 2020). Numa epocal viragem hist\u00f3rica, o bom samaritano foi agora apresentado como aquele que, no momento em que v\u00ea o outro, desvia o olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num dos primeiros dias da pandemia, apareceu citada certa passagem de Camus da sua obra <em>A<\/em> <em>Peste: \u201c<\/em>A \u00fanica maneira de p\u00f4r as pessoas juntas \u00e9 ainda mandar-lhes a peste<em>\u201d<\/em>. Mas afinal parece ocorrer o oposto: mandar-lhes a peste parece ser, nos tempos que correm, o mais eficaz modo de as desagregar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que estas caracter\u00edsticas, por si pr\u00f3prias, s\u00e3o profundamente <em>tem\u00edveis<\/em>. Mas mais <em>tem\u00edvel<\/em> ainda \u00e9 que possam ser apresentadas <em>em si <\/em>como boas. N\u00e3o o s\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 boa a aniquila\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e do discurso \u00e9tico a favor do \u201csaber de especialistas\u201d; n\u00e3o \u00e9 boa a protec\u00e7\u00e3o da \u201cnua vida\u201d; n\u00e3o \u00e9 boa a desagrega\u00e7\u00e3o dos <em>corpora <\/em>que animam o <em>corpus <\/em>social, oferecendo-se em seu lugar a inser\u00e7\u00e3o numa desgarrada \u201ccomunidade\u201d medi\u00e1tica global. Ainda que o Estado de Excep\u00e7\u00e3o (ou outras medidas de significativa restri\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o social) possa ser ou ter sido a melhor op\u00e7\u00e3o em concreto, n\u00e3o deixa de constituir uma total anormalidade, que, portanto, s\u00f3 por circunst\u00e2ncias excepcionais pode justificar-se. O primeiro passo para desejar a sua supera\u00e7\u00e3o, garantindo a respectiva temporalidade, \u00e9 compreender, e recordar sempre, quanto tem ele de <em>potencialmente<\/em> desp\u00f3tico e de <em>actualmente<\/em> delet\u00e9rio de uma desej\u00e1vel ordem social em que o ser humano, mais do que indiv\u00edduo, \u00e9 tratado como pessoa envolta numa rede pr\u00f3xima, efectiva e incarnada de rela\u00e7\u00f5es humanas. H\u00e1 que t\u00ea-lo bem presente, atento sobretudo o bem justificado receio de que venha a constituir uma nova normalidade (<em>L\u2019invenzione di un\u2019epidemia<\/em>, de 26 de Fevereiro 2020).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Direito da Universidade do Porto<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Alexandra_Koch-621802\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4971013\">Alexandra_Koch<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4971013\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto ao contradit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9440,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[96,157,13,144],"tags":[],"class_list":["post-9437","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores-iii","category-direto-ao-contraditorio","category-olhares","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9437"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9437\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9439,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9437\/revisions\/9439"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9440"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}