{"id":9408,"date":"2020-05-20T17:26:34","date_gmt":"2020-05-20T16:26:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9408"},"modified":"2020-05-20T17:26:34","modified_gmt":"2020-05-20T16:26:34","slug":"os-embustes-e-a-verdade-de-qumran","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-embustes-e-a-verdade-de-qumran\/","title":{"rendered":"Os \u201cembustes\u201d e a verdade de Qumran"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/os_embustes_e_a_verdade_de_qumran.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 incessante a pesquisa dos investigadores em torno aos m\u00faltiplos manuscritos que vieram \u00e0 luz nas grutas do s\u00edtio de Qumran, na margem norte-ocidental do mar Morto, a partir de 1947, quando um bedu\u00edno deu casualmente de caras com os primeiros achados. Para a localidade e para estes textos, pertencentes a uma comunidade judaica l\u00e1 residente certamente a partir do s\u00e9culo I a.C., se n\u00e3o antes, se apontaram os interesses de arque\u00f3logos, papir\u00f3logos, pale\u00f3grafos, filologistas, exegetas, te\u00f3logos, historiadores, como tamb\u00e9m de soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos culturais. Os acontecimentos rocambolescos a que foram submetidos aqueles fragmentos e a sua proximidade \u00e0s origens da nova f\u00e9 crist\u00e3 desencadearam tamb\u00e9m a curiosidade voraz de muitos jornalistas e, naturalmente, de intriguistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, come\u00e7aram a engrossar, a ritmo constante, t\u00edtulos do g\u00e9nero: Jesus teria vivido a sua experi\u00eancia naquela comunidade? Jo\u00e3o Batista era o \u00abmestre de justi\u00e7a\u00bb de que se fala naqueles escritos? Os primeiros crist\u00e3os eram adeptos dos ess\u00e9nios, a \u00abordem\u00bb religiosa presente em Qumran (mas n\u00e3o s\u00f3)? De um min\u00fasculo fragmento de Qumram pode reconstruir-se um passo do Evangelho de Marcos? A comunidade j\u00e1 era judeo-crist\u00e3? O Vaticano boicota e faz segredo dos manuscritos do mar Morto porque arrombam a g\u00e9nese tradicionalmente adquirida do cristianismo? E fantasiando assim por diante, inclusive com aut\u00eanticos \u201cembustes\u201d espec\u00edficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o ficaram sossegados os aventureiros, prontos a introduzir artefactos \u201cgenuinamente falsos\u201d no mercado. O caso recente mais clamoroso \u00e9 o que foi revelado em Washington, onde um multimilion\u00e1rio protestante de Oklahoma City, Steve Green, com um investimento colossal, edificou um \u201cMuseu da B\u00edblia\u201d, nele colocando, entre outros, dezasseis fragmentos de Qumran adquiridos num mercado clandestino. Seriam origin\u00e1rios de outras 56 grutas exploradas, e n\u00e3o das 11 identificadas ao in\u00edcio, as \u00fanicas que continham cer\u00e2mica, papiros e pergaminhos aut\u00eanticos. Na realidade, tratou-se de uma h\u00e1bil fraude atrav\u00e9s da qual foi enganado o mecenas americano e os seus consultores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os achados considerados genu\u00ednos est\u00e3o classificados, s\u00e3o estudados rigorosamente e publicados, e est\u00e3o guardados em locais conhecidos, a partir do patrim\u00f3nio maior, o do denominado \u201cMuseu do Livro\u201d da Jerusal\u00e9m hebraica. Outros documentos est\u00e3o, em menor m\u00e9nida, e por vezes m\u00ednima, no Museu Rockfeller, na Jerusal\u00e9m \u00e1rabe, no Museu Nacional Jordano de Am\u00e3, nas universidades McGill de Montreal, de Manchester, Heidelberg Oxford, na igreja de Todos os Santos de Nova Iorque, no Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico McCormick de Chicago, e at\u00e9 em Baden-W\u00fcrttenberg, na sequ\u00eancia de uma aquisi\u00e7\u00e3o efetuada na Jord\u00e2nia pelas autoridades daquela regi\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este longo enquadramento \u00e9 destinado a reenviar \u2013 na imensa bibliografia (n\u00e3o faltam tamb\u00e9m ensaios muito problem\u00e1ticos, como o de R. Eisenmann, \u201cJames the brother of Jesus\u201d (Tiago o irm\u00e3o de Jesus), onde se colocava como hip\u00f3tese a matriz crist\u00e3 dos textos) \u2013 a um livro assinado por um dos especialistas m\u00e1ximos do juda\u00edsmo daquele per\u00edodo, James C. VanderKam, professor em\u00e9rito da prestigiada Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA), que tem no seu ativo 13 volumes na s\u00e9rie \u201cDiscoveries in the Judean desert\u201d (Descobertas no deserto judaico), cole\u00e7\u00e3o de Oxford que edita cientificamente os manuscritos qumr\u00e2nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas p\u00e1ginas sint\u00e9ticas deste volume, \u201cThe Dead Sea scrolls and the Bible\u201d (Os escritos do Mar Morto e a B\u00edblia), que nasce de uma s\u00e9rie de \u201cleituras\u201d proferidas pelo estudioso em Oxford, delineia-se um mapa dos mais de 900 manuscritos individuados, dos quais mais de 200 s\u00e3o textos b\u00edblicos (alguns importantes, inclusive pela sua extens\u00e3o, como o c\u00e9lebre \u201crolo de Isa\u00edas\u201d, do citado Museu do Livro), compostos entre os s\u00e9culos I a.C. e I d.C., ainda que haja ind\u00edcios de fragmentos anteriores, at\u00e9 ao s\u00e9culo III a.C. Se os testemunhos b\u00edblicos s\u00e3o relevantes pela compara\u00e7\u00e3o com os c\u00f3dices medievais dispon\u00edveis, sugestiva \u00e9 a documenta\u00e7\u00e3o textual referente \u00e0 vida daquela comunidade judaica, de alguma forma \u201cheterodoxa\u201d e aut\u00f3noma em rela\u00e7\u00e3o ao Templo oficial de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Mas os leitores ser\u00e3o particularmente envolvidos pelos \u00faltimos dois cap\u00edtulos, que procuram responder ao quesito, acima evocado, do nexo com os Evangelhos do Novo Testamento, e at\u00e9 com o epistol\u00e1rio paulino e a primeira sec\u00e7\u00e3o (cap\u00edtulos 1-4) dos Atos dos Ap\u00f3stolos, que, como \u00e9 sabido, \u00e9 um retrato da Igreja das origens esbo\u00e7ado pelo evangelista Lucas na sua segunda obra. Alguns v\u00ednculos s\u00e3o, com efeito, de grande interesse: pensemos nos temas do messianismo, da interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras, das normas jur\u00eddicas da comunidade e das estruturas e rela\u00e7\u00f5es internas. Por exemplo, quanto ao primeiro tema, do Messias, \u00e9 curioso notar que em Qumran parece dominar a ideia de uma duplicidade, ou seja, de um Messias sacerdotal denominado \u00abde Aar\u00e3o\u00bb, e de um dav\u00eddico, dito \u00abde Israel\u00bb.<\/p>\n<p>Escreve, a prop\u00f3sito, Vanderkam: \u00abO Novo Testamento, diferentemente dos rolos, fala de um \u00fanico Messias\u2026 de descend\u00eancia dav\u00eddica. Vale a pena, no entanto, recordar que a figura neotestament\u00e1ria de Jesus Messias \u00e9mais complexa do que a de um simples descendente especial de David. Na Carta aos Hebreus, em particular, Jesus reveste-se de qualidades sacerdotais segundo a ordem de Melquisedec, oficiante no santu\u00e1rio celeste. A ideia de um Messias sacerdotal n\u00e3o \u00e9 por isso estranha ao Novo Testamento\u2026 Contrariamente aos ensinamentos messi\u00e2nicos dos rolos, Jesus no Novo Testamento re\u00fane, portanto, na sua pessoa alguns aspetos dos dois Messias atestados nos textos de Qumran\u00bb.<\/p>\n<p>Deixamos aos leitores interessados num horizonte revelador de muitas surpresas que se encontram atrav\u00e9s dos dois trilhos ao longo dos quais se desenrola este estudo: por um lado, entra-se na vida e no pensamento deste grupo, aparentemente de \u201creligiosos\u201d celibat\u00e1rios, com o testemunho das suas \u201cregras\u201d comunit\u00e1rias e das suas conce\u00e7\u00f5es por vezes integralistas; por outro, reconstroem-se os contactos e as diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mensagem e pr\u00e1tica crist\u00e3 das origens. Sugerimos, \u00e0 margem, uma aten\u00e7\u00e3o particular a um passo \u00e0 primeira vista desconcertante da Segunda Carta paulina aos crist\u00e3os de Corinto, do vers\u00edculo 14 do cap\u00edtulo 6 ao vers\u00edculo 1 do cap\u00edtulo 7. Mesmo na orienta\u00e7\u00e3o radicalmente diversa do ap\u00f3stolo, este enxerto textual revela pelo menos na linguagem o influxo exercido por aquela comunidade. Esta, perante o avan\u00e7o da D\u00e9cima Legi\u00e3o Fretense das for\u00e7as romanas de ocupa\u00e7\u00e3o no interior do deserto da Judeia, ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m em 70 d.C., empenhou-se n\u00e3o em salvar os seus membros, mas o tesouro mais precioso, os seus textos sagrados e comunit\u00e1rios nas grutas dos penhascos escarpados \u00e0 volta do seu \u201cmosteiro\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Card. Gianfranco Ravasi<br \/>\nPresidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cultura.va\/content\/cultura\/it\/organico\/cardinale-presidente\/texts\/ilsole24ore\/qumran3.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pontificio Consiglio della Cultura<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: D.R.<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"ficha_tecnica_multimedia\"><a href=\"https:\/\/www.wook.pt\/livro\/the-dead-sea-scrolls-and-the-bible-james-c-vanderkam\/12404534\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&#8220;The Dead Sea scrolls and the Bible&#8221; (James C. Vanderkam) (ed. inglesa)<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.claudiana.it\/scheda-libro\/james-c-vanderkam\/gli-scritti-di-qumran-e-la-bibbia-9788839409461-2122.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&#8220;Gli scritti di Qumran e la Bibbia (James C. Vanderkam) (ed. italiana)<\/a><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9409,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-9408","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9408"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9408\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9411,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9408\/revisions\/9411"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}