{"id":9201,"date":"2020-04-30T08:30:38","date_gmt":"2020-04-30T07:30:38","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9201"},"modified":"2020-04-29T14:39:58","modified_gmt":"2020-04-29T13:39:58","slug":"pensamento-de-edith-stein-revelacao-economica-e-antropologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-revelacao-economica-e-antropologica\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | Revela\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e antropol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Revela\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e antropol\u00f3gica<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Deus se faz presente na hist\u00f3ria, n\u00e3o o faz s\u00f3 para manifestar aquilo que \u00e9 em si e no seu mist\u00e9rio. Ao revelar o seu ser est\u00e1 a dizer ao homem que o quer salvar, a saber, que a humanidade alcance a sua plenitude. Deus, ao revelar-se, oferece o seu plano de salva\u00e7\u00e3o (economia divina) e revela o homem ao homem (antropologia)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">18<\/a>. Edith descobre nestes dois elementos o conte\u00fado basilar da raz\u00e3o de Deus aparecer na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Deus d\u00e1-se a n\u00f3s na Palavra, o que significaria que a Escritura acolhida \u00e9 participa\u00e7\u00e3o nessa vida divina<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">19<\/a>. E aqui \u00e9 onde radicaria um dos aspectos do mist\u00e9rio que definem a Revela\u00e7\u00e3o escrita: tem o poder de infundir a vida divina:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abPor isso pode dizer-se que a Palavra de Deus \u00e9 mais penetrante que uma \u201cespada de dois gumes\u201d, porque penetra at\u00e9 \u00e1 divis\u00e3o da alma e do esp\u00edrito (Hb 4, 12). Pensa-se aqui na Palavra de Deus que julga, descobre os pensamentos e as inten\u00e7\u00f5es mais secretas do cora\u00e7\u00e3o, e fundando-se sobre a sua pr\u00f3pria tend\u00eancia da alma a qual p\u00f5e a nu, realiza a separa\u00e7\u00e3o: a eleva\u00e7\u00e3o da alma que a liberta da sujei\u00e7\u00e3o natural ao corpo e a conduz at\u00e9 ao livre dom\u00ednio do seu corpo e dela mesma, assim como a infus\u00e3o da vida divina nela.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>Da infus\u00e3o desta vida divina diz:&#8230; Deus d\u00e1 o esp\u00edrito sem medida (Jo 3, 14)\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">20<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que nos encontremos em Edith com uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es contundentes fundamentadas no valor central que a Escritura deveria ter na vida do crist\u00e3o, uma vez que n\u00e3o se trata simplesmente da narra\u00e7\u00e3o das apari\u00e7\u00f5es de Deus na hist\u00f3ria, mas esse agir poderoso de Deus continua a fazer-se presente na Escritura. Por essas raz\u00f5es, Edith n\u00e3o duvidar\u00e1 em dar um valor central, intelectual e existencial, \u00e0 Palavra de Deus. O homem, por meio do acolhimento \u00abemp\u00e1tico\u00bb da Palavra, vai descobrindo o caminho para cumprir a vontade de Deus e se empapar da sua vida divina<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">21<\/a>. Edith descobrir\u00e1, concretamente nos Evangelhos, o meio para gravar em n\u00f3s a imagem de Cristo, de Deus. Numa das suas confer\u00eancias refere:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abA imagem eterna de Deus entrou entre n\u00f3s em figura humana em Jesus Cristo Filho de Deus. Se consideramos esta imagem, como no-lo diz a simples narra\u00e7\u00e3o dos evangelhos, ent\u00e3o se abrem os nossos olhos. Enquanto conhecemos melhor o Salvador, somos muito mais vencidos por esta grandeza e do\u00e7ura da r\u00e9gia liberdade, que n\u00e3o conhece outro la\u00e7o sen\u00e3o a submiss\u00e3o \u00e0 vontade do Pai, desta liberdade de toda a criatura, que, ao mesmo tempo, \u00e9 fundamento do amor misericordioso pela criatura. E quanto mais profundamente se grava em n\u00f3s esta imagem de Deus, quanto mais desperta o nosso amor, mais sens\u00edveis somos a todos os nossos desvios d\u2019Ele em n\u00f3s e nos outros: abrir-se-nos-\u00e3o os olhos para o verdadeiro conhecimento dos homens, livres de toda a dissimula\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">22<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 luz destas afirma\u00e7\u00f5es entende-se o porqu\u00ea de Edith conceder aos Evangelhos um lugar de suma import\u00e2ncia durante toda a sua actividade como pedagoga e formadora. Est\u00e1 convencida de que a Escritura no seu conjunto cont\u00e9m um profundo car\u00e1cter formativo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">23<\/a>, que deve ser perscrutado sempre de novo se queremos educar autenticamente as pessoas, sobretudo quando se trata de tra\u00e7ar o caminho do homem para a uni\u00e3o com Deus<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">24<\/a>. Aqui a Escritura \u00e9 a fonte primordial. E s\u00ea-lo-\u00e1 tamb\u00e9m como lugar onde encontrar as verdades que h\u00e3o-de guiar toda a actividade pedag\u00f3gica<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">25<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas estas afirma\u00e7\u00f5es revalorizam-se ainda mais, se temos presente que para Edith Stein, a revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 manifesta a Deus e o seu plano de salva\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m revela o homem ao homem<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">26<\/a>. A nossa autora afirma que a Revela\u00e7\u00e3o <em>foi dada ao<\/em> <em>homem para que conhe\u00e7a o que \u00e9 e o que deve fazer<\/em><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">27<\/a>. Como veremos no cap\u00edtulo dedicado a uma \u00ableitura antropol\u00f3gica da B\u00edblia\u00bb, a Sagrada Escritura constitui para Edith a principal fonte para captar o mist\u00e9rio que explica e d\u00e1 sentido ao ser e \u00e0 exist\u00eancia do homem. Mas n\u00e3o simplesmente de um modo gen\u00e9rico, mas <em>tem em conta<\/em> <em>as diferen\u00e7as entre os sexos<\/em>, e, al\u00e9m disso, <em>presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 individualidade de cada<\/em> <em>pessoa<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">28<\/a>. Por isso, dir\u00e1 que <em>n\u00e3o h\u00e1 tarefa mais urgente que conhecer o que a verdade<\/em> <em>revelada diz sobre o homem<\/em><a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">29<\/a>. Isso justifica, al\u00e9m disso, que se fa\u00e7a uso da <em>Revela\u00e7\u00e3o para o conhecimento do ser finito<\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">30<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edith Stein est\u00e1 convencida de que na Revela\u00e7\u00e3o encontramos <em>o mais essencial que<\/em> <em>podemos saber sobre o homem<\/em>, <em>o seu objectivo e o caminho que a ele leva<\/em>. E, por isso, n\u00e3o \u00e9 de admirar que entre as suas intui\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas descubramos a sua considera\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia que os pr\u00f3prios mist\u00e9rios de Deus t\u00eam para a vida do homem. Para Edith coincidiriam a iman\u00eancia de Deus (o que Deus \u00e9 em si mesmo) com a economia de Deus (o Deus revelado para a salva\u00e7\u00e3o dos homens). Isso d\u00e1 um peso maior \u00e0 linha mel\u00f3dica que nos quer apresentar na sua obra sobre Jo\u00e3o da Cruz: <em>Ci\u00eancia da Cruz<\/em>. Pretende nesse escrito tra\u00e7ar o caminho espiritual para a uni\u00e3o com Deus (presente nas obras do Santo), \u00e0 luz do mist\u00e9rio de Cristo. Neste sentido, a Revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 revela o homem ao homem, mas o mesmo mist\u00e9rio de Deus tem uma import\u00e2ncia substancial para o conhecimento do homem e do seu caminho para a plenitude. Edith lan\u00e7a estas perguntas que, em si mesmas, nos oferecem j\u00e1 uma resposta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abQuem se atreveria a afirmar que os mist\u00e9rios \u2013 (aqui refere-se \u00e0 Trindade e \u00e0 Encarna\u00e7\u00e3o) \u2013 carecem de import\u00e2ncia para o caminhar terreno do homem, e, portanto, para a sua educa\u00e7\u00e3o? O que poderia ter movido Deus a levantar para n\u00f3s um pouco o v\u00e9u dos seus segredos, sen\u00e3o o facto de que os necessitamos para viver a vida \u00e0 qual fomos chamados?\u00bb<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">31<\/a><\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Deus ao passo do homem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com estas palavras poder\u00edamos descrever a din\u00e2mica interna da Revela\u00e7\u00e3o de Deus durante toda a hist\u00f3ria. S\u00e3o dois os aspectos que encontramos tratados nos escritos de Edith Stein: a rela\u00e7\u00e3o revela\u00e7\u00e3o de Deus e capacidade do homem, e algumas notas sobre o autor \/autores dos diferentes livros sagrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que diz respeito \u00e0 <em>rela\u00e7\u00e3o entre a revela\u00e7\u00e3o e a capacidade do homem<\/em>, Edith Stein est\u00e1 convencida, n\u00e3o s\u00f3 do car\u00e1cter progressivo da revela\u00e7\u00e3o de Deus durante a hist\u00f3ria do Antigo Testamento, revela\u00e7\u00e3o que apontava para a plenitude em Cristo. Quando Deus se revela, f\u00e1-lo conforme a capacidade progressiva do conhecimento do homem. Quando Deus de comunica, diz\u00edamos, entrega-se Ele mesmo, mas a limita\u00e7\u00e3o do conhecimento do homem faz com que esta comunica\u00e7\u00e3o corresponda a algum aspecto determinado. Neste sentido, Edith pensa que a revela\u00e7\u00e3o, enquanto realidade conhecida pelo homem, <em>n\u00e3o abrange a plenitude infinita da verdade divina<\/em><a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">32<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa mesma perspectiva se deveria ler a linguagem da Escritura, que equivaleria a uma acomoda\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem humana por parte de Deus. Deus fala na Escritura \u00e0 medida do homem, tornando <em>acess\u00edvel o inacess\u00edvel<\/em><a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">33<\/a>. O Conc\u00edlio Vaticano II exprimi-lo-\u00e1 dizendo que <em>a Sagrada Escritura nos mostra a admir\u00e1vel condescend\u00eancia de<\/em> <em>Deus<\/em>&#8230; <em>e que a Palavra de Deus<\/em>, <em>expressa em l\u00ednguas humanas<\/em>, <em>se torna semelhante \u00e0<\/em> <em>linguagem humana<\/em><a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">34<\/a>. Contudo, estas limita\u00e7\u00f5es aparentes da revela\u00e7\u00e3o, fruto do modo limitado de conhecer e compreender do homem, n\u00e3o s\u00e3o estritamente uma limita\u00e7\u00e3o \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de Deus. Ele pode, em todo o momento, e por meio da Palavra ou de um acto extraordin\u00e1rio, <em>elevar o homem mais al\u00e9m do seu modo de pensar<\/em><a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">35<\/a>, abeirando-o da vis\u00e3o divina, mas que, apesar de tudo, n\u00e3o se completa at\u00e9 que n\u00e3o se alcance a vis\u00e3o beat\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus manifesta-se na Palavra escrita. E serve-se dos escritores sagrados para transmitir aquilo que quer revelar: <em>Deus valeu-se de homens eleitos<\/em>, <em>que usavam todas<\/em> <em>as suas faculdades e talentos<\/em>; <em>deste modo<\/em>, <em>agindo Deus neles e por eles<\/em>, <em>como verdadeiros autores<\/em>, <em>puseram por escrito tudo e s\u00f3 o que Deus queria<\/em><a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">36<\/a>. Edith coincide plenamente com estas afirma\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio, escrevendo explicitamente que os seus autores <em>est\u00e3o inspirados<\/em>, <em>quer dizer<\/em>, <em>dirigidos pelo Esp\u00edrito Santo<\/em><a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">37<\/a>. De todos os modos ela vai ter em conta outros aspectos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o tema dos escritores dos livros b\u00edblicos, Edith expressou-se no seu escrito <em>Os caminhos do conhecimento de Deus<\/em><a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">38<\/a>. O seu interesse n\u00e3o vai dirigido a considerar todos os elementos que caracterizam o autor b\u00edblico, mas antes a procurar dar luz sobre a linguagem \u2013 tantas vezes simb\u00f3lica \u2013 da Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termina a sua exposi\u00e7\u00e3o com esta vis\u00e3o conclusiva que resume o que estamos a afirmar, isto \u00e9, que o escritor material do livro b\u00edblico pode ser mais ou menos consciente de ser inspirado, mas, em definitivo, embora n\u00e3o o saiba, est\u00e1 a ser guiado pela m\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abPelo contr\u00e1rio, uma revela\u00e7\u00e3o sem inspira\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel. Quando Deus mesmo ou uma verdade escondida se desvela, acontece gra\u00e7as ao seu Esp\u00edrito; e quando um homem \u00e9 solicitado para transmitir uma tal verdade a outro, dever\u00e1 ser movido pelo Esp\u00edrito de Deus. A verdade divina pode ilumin\u00e1-lo espiritualmente, sem que oi\u00e7a palavras ou veja algo. E deixa-se nas suas m\u00e3os a elei\u00e7\u00e3o das palavras com as quais revestir quanto tem que dizer. Percebe com palavras o que lhe \u00e9 manifestado ou o que uma imagem lhe mostra, sendo poss\u00edvel, por sua vez, transmita a imagem e as palavras sem as entender ele mesmo. Mas pode ser-lhe aberto o sentido espiritual por meio de uma ilumina\u00e7\u00e3o interior ou por palavras esclarecedoras acrescentadas\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">46<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O homem capaz de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Deus se revela, e f\u00e1-lo de um modo adequado \u00e0 capacidade do homem, quer dizer que o homem \u00e9 capaz de Deus, tanto na ordem natural como na ordem da gra\u00e7a. Mesmo quando Edith se mostra de acordo com o ap\u00f3stolo (Rm 1, 20) e com o Conc\u00edlio (DV 6), enquanto que o homem pode aproximar-se naturalmente de Deus com a sua raz\u00e3o<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">47<\/a>, a sua aten\u00e7\u00e3o centra-se no modo sobrenatural: o acolhimento do deus revelado em f\u00e9 e amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edith Stein, quase sempre que fala da Sagrada Escritura, pensa numa leitura a partir da f\u00e9. Mesmo quando conhece a abordagem cr\u00edtica da Escritura, e da qual ela mesma far\u00e1 uso, est\u00e1 mais interessada em sublinhar a centralidade da Escritura na vida do crist\u00e3o. H\u00e1, para Edith, um princ\u00edpio at\u00e9 certo ponto l\u00f3gico: quem cr\u00ea em Deus, h\u00e1-de crer tamb\u00e9m na sua Palavra, que h\u00e1-de acolher na obedi\u00eancia da f\u00e9 (Rm 1, 5). O crist\u00e3o sabe que a Escritura \u00e9 Palavra inspirada, e que ela mesma cont\u00e9m e transmite o que Deus nos quer participar. Que algo apare\u00e7a enunciado na B\u00edblia, ter\u00e1 que ser motivo mais do que suficiente para que o crente o aceite: a Escritura leva em si mesma\u00a0 a certeza da veracidade de Deus<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">48<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, \u00e9 evidente que uma leitura aut\u00eantica da Escritura s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a partir da f\u00e9, enquanto esta se apresenta como o \u00fanico meio para acolher a Revela\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">49<\/a>. A f\u00e9 leva, em definitivo, a crer pelo simples facto de que Deus o tenha revelado<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">50<\/a>: uma f\u00e9, que como estamos a sublinhar, cria uma certeza e uma seguran\u00e7a na Palavra de Deus. Edith escreve:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00ab&#8230; se Deus se revela como o ente, como o criador e o conservador, e se o Salvador diz: \u201cAquele que cr\u00ea no Filho tem a vida eterna\u201d <\/em>(Jo 3, 36),<em> estas s\u00e3o respostas claras \u00e0 quest\u00e3o enigm\u00e1tica que concerne ao meu pr\u00f3prio ser. E se Deus me diz pela boca do profeta que me \u00e9 mais fiel que o meu pai e a minha m\u00e3e e que \u00e9 o mesmo amor, reconhe\u00e7o qu\u00e3o \u201crazo\u00e1vel\u201d \u00e9 a minha confian\u00e7a no bra\u00e7o que me sust\u00e9m e como toda a ang\u00fastia de cair no nada \u00e9 insensata, enquanto eu n\u00e3o me desprender por mim mesmo do bra\u00e7o protector\u00bb <\/em><a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">51<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a Revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1-de ser s\u00f3 acolhida na f\u00e9, isto \u00e9, crida. O acolhimento na f\u00e9 implica viver na din\u00e2mica da Revela\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">52<\/a>, deixar que a Palavra se transforme em vida, de tal modo que f\u00e9 e revela\u00e7\u00e3o acabam por ser uma mesma coisa, um mesmo conte\u00fado<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">53<\/a>. A f\u00e9 tem a Deus como objecto e a Revela\u00e7\u00e3o \u00e9 Deus que se manifesta tal qual \u00e9: <em>E caminho da f\u00e9 conduz-nos a Deus pessoal e pr\u00f3ximo, ao amante e ao misericordioso e d\u00e1-nos uma certeza que n\u00e3o se encontra em nenhuma parte no conhecimento natural<\/em><a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">54<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este conhecimento e essa seguran\u00e7a vital que a aceita\u00e7\u00e3o da Revela\u00e7\u00e3o em f\u00e9 realizam no crente, s\u00e3o indica\u00e7\u00f5es de que o acolhimento da Palavra \u00e9, ao mesmo tempo, orienta\u00e7\u00e3o amorosa para Deus, ou, o que \u00e9 o mesmo, acolhimento amoroso do Deus amante:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u00abMas para nos darmos a Ele amando-o, devemos aprender a conhec\u00ea-lo enquanto amante. Assim s\u00f3 Ele pode abrir-se a n\u00f3s. Em certa medida, o Verbo da revela\u00e7\u00e3o chega a este resultado. E a uma orienta\u00e7\u00e3o amorosa, se nos atemos ao seu significado, pertence a aceita\u00e7\u00e3o plena de f\u00e9 na revela\u00e7\u00e3o divina\u00bb<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">55<\/a>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">Javier Sancho.<em> La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. <\/em>Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 42-48.<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/PublicDomainPictures-14\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=71282\">PublicDomainPictures<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=71282\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">18<\/a> A <em>Dei Verbum<\/em>, embora cite explicitamente a salva\u00e7\u00e3o do homem como objectivo da revela\u00e7\u00e3o (n. 6), n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o clara quanto ao segundo conte\u00fado da revela\u00e7\u00e3o do homem. Neste sentido, poder\u00edamos observ\u00e1-lo como original em Edite. V\u00ea-lo-emos mais de perto no cap\u00edtulo sobre a leitura antropol\u00f3gica da Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">19<\/a> Cf. Mensch 52.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">20<\/a> SFSE 475.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">21<\/a> Cf. <em>O mist\u00e9rio do Natal<\/em>, em Obras 387.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">22<\/a> <em>A dignidade da mulher e a sua import\u00e2ncia para a vida do povo<\/em>, em A mulher 296-297.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">23<\/a> Cf. <em>A vida crist\u00e3 da mulher<\/em>, em A mulher 106.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">24<\/a> Cf. CC 45.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">25<\/a> Cf. VT 210.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">26<\/a> Embora a <em>Dei Verbum<\/em> n\u00e3o se detenha a examinar este significado antropol\u00f3gico da Revela\u00e7\u00e3o, o Conc\u00edlio torn\u00e1-lo-\u00e1 presente no documento <em>Gaudium et Spes<\/em>. Cf. GS 22. 41.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">27<\/a> EPH 293.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">28<\/a> EPH 22.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">29<\/a> EPH 293.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">30<\/a> SFSE 75.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">31<\/a> EPH 296.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">32<\/a> SFSE 44.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">33<\/a> SFSE 77.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">34<\/a> DV 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">35<\/a> SFSE 44.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">36<\/a> DV 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">37<\/a> <em>Os caminhos do conhecimento de Deus<\/em>, em Obras 477.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">38<\/a> Em Obras 449-495.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">46<\/a> Ib. 479-480.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">47<\/a> Cf. Mensch 40.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">48<\/a> Cf. <em>Os caminhos do conhecimento de Deus<\/em>, em Obras 476-477.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">49<\/a> Cf. SFSE 75.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">50<\/a> Mensch 41-42. Cf. Hb 11, 1 ss; 1 Co 2, 9 ss.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">51<\/a> SFSE 75-76.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">52<\/a> Cf. CC 208.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">53<\/a> Cf. Ib. 225.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">54<\/a> SFSE 77.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">55<\/a> Ib. 471.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9202,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133,13],"tags":[],"class_list":["post-9201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9201"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9204,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9201\/revisions\/9204"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}