{"id":9084,"date":"2020-04-14T10:02:31","date_gmt":"2020-04-14T09:02:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9084"},"modified":"2020-04-14T10:02:31","modified_gmt":"2020-04-14T09:02:31","slug":"regressar-a-bach-breve-apologia-da-vida-pascal-aquem-do-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regressar-a-bach-breve-apologia-da-vida-pascal-aquem-do-digital\/","title":{"rendered":"Regressar a Bach: breve apologia da vida pascal aqu\u00e9m do digital"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo, foto e v\u00eddeos recolhidos do<a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/regressar_a_bach_breve_apologia_da_vida_pascal_aquem_do_digital.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p><span class=\"it\">\u00abEste \u00e9 o ouvinte paciente, sem pressas.<br \/>\nO outro \u00e9 surdo.\u00bb (1)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrar no mundo de Bach \u00e9 como ter uma vertigem na escalada de uma montanha alt\u00edssima. \u00c9 imposs\u00edvel olhar para tr\u00e1s, se se quer avan\u00e7ar. Nele a m\u00fasica faz-se louvor e a adora\u00e7\u00e3o torna-se m\u00fasica pura. Bach \u00e9 um cl\u00e1ssico que jamais passar\u00e1, ao qual todos os grandes compositores ou maestros regressam sempre l\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 programa\u00e7\u00e3o das grandes casas da m\u00fasica ou da cultura que n\u00e3o tenham na sua programa\u00e7\u00e3o as suas cantatas ou Paix\u00f5es evang\u00e9licas de Mateus e de Jo\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 adjetivos que possam titular em absoluto o seu g\u00e9nio. A quest\u00e3o que se coloca \u00e9 radicalmente esta: Porque ser\u00e1 que Bach, e outros que tais, desapareceram da cultura ou experi\u00eancia religiosa contempor\u00e2nea? Porque ser\u00e1 que estes cl\u00e1ssicos, ou testemunhas aud\u00edveis da Palavra, n\u00e3o s\u00e3o propostos como paradigma de ades\u00e3o \u00e0 vida crente ou do caminho espiritual das comunidades eclesiais hodiernas? Porque ser\u00e1 que a pr\u00f3pria teologia acad\u00e9mica ainda n\u00e3o estuda Bach como um verdadeiro te\u00f3logo ou m\u00edstico da qualidade da vida sens\u00edvel e espiritual?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na escuta de Bach seduz-nos a vida do esp\u00edrito no corpo da dram\u00e1tica tonal, a f\u00faria de uma sonoridade serena \u00e0 procura de ouvintes da Palavra, o sil\u00eancio das palavras indiz\u00edveis mas que fendem o nosso corpo de carne para a habita\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito. Regressar a Bach significa voltar a todos os grandes cl\u00e1ssicos da literatura, da pintura ou da m\u00fasica. Eles fazem-nos avan\u00e7ar vagarosa e novamente na inaugura\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>novum<\/em>, de uma densidade humana e espiritual algo perdida num certo estilo contempor\u00e2neo sem heran\u00e7a, sem mem\u00f3ria e sem hist\u00f3ria. Almada Negreiros escrevia que \u00abisto de ser moderno \u00e9 como ser elegante: n\u00e3o \u00e9 uma maneira de vestir mas sim uma\u00a0<em>maneira de ser<\/em>. Ser moderno n\u00e3o \u00e9 fazer a caligrafia moderna, \u00e9 ser\u00a0<em>o leg\u00edtimo descobridor da novidade<\/em>\u00bb. A rutura pela rutura, o desejo de ser moderno contra o antigo, produziu em muitos casos uma arte panflet\u00e1ria, comercial e at\u00e9 utilitarista, na \u00e2nsia desesperada de anula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria realidade, do que \u00e9 intensamente humano na sua mais alta complexidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria experi\u00eancia religiosa contempor\u00e2nea parece sofrer desta eros\u00e3o, que banaliza a qualidade espiritual da proposta em fun\u00e7\u00e3o do audit\u00f3rio. Emigrando facilmente para plataformas de massifica\u00e7\u00e3o digital, reduz o seu esp\u00edrito cr\u00edtico e a criatividade aut\u00eantica, fazendo aquilo que qualquer institui\u00e7\u00e3o ou empresa faz: a comercializa\u00e7\u00e3o de um produto para atrair o m\u00e1ximo de \u201clikes\u201d ou de vendas. As propostas crist\u00e3s parecem preferir a quantidade, a infantiliza\u00e7\u00e3o dos ouvintes, a exalta\u00e7\u00e3o bem-intencionada dos m\u00e9ritos pr\u00f3prios, \u00e0 qualidade de processos germinais; o favorecimento da ades\u00e3o emocional imediata ao produto religioso oferecido em detrimento da gesta\u00e7\u00e3o lenta do si mesmo no encontro corpo-a-corpo com as v\u00e1rias alteridades do mundo. Todos desejam aparecer sem cuidar o\u00a0<em>ser do aparecer<\/em>. \u00c9 a era do divertimento e da com\u00e9dia do \u201ccomo se\u201d, onde j\u00e1 n\u00e3o existe sequer as fronteiras do\u00a0<em>copyright<\/em>! Tudo \u00e9 de todos e nada \u00e9 de ningu\u00e9m! Tudo aquilo que tenha gravidade \u00e9 rejeitado, porque n\u00e3o diverte nem anima a f\u00e9 dos crentes. \u00c9 o \u201csimplex da f\u00e9\u201d! Mais do que nunca \u00e9 o pr\u00f3prio religioso global que est\u00e1 dar raz\u00e3o a Nietzsche, quando este afirmava que \u201co cristianismo \u00e9 um platonismo de massas\u201d. N\u00e3o o era, seguramente, mas tornou-se, poderemos contrapor ao fil\u00f3sofo alem\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diria T.S. Eliot, esta realidade pobre \u00e9 a express\u00e3o de uma \u00abterra devastada\u00bb que a vis\u00e3o utilitarista exacerbou. Uma grande parte das lideran\u00e7as religiosas hodiernas parece recusar o pensamento e recusar a grande arte ou a m\u00fasica sacra de excel\u00eancia em nome de uma ades\u00e3o juvenil \u00e0 m\u00fasica\u00a0<em>techno\u00a0<\/em>ou \u00e0\u00a0<em>pop\u00a0<\/em>religiosa, esquecendo a numerosa multid\u00e3o dos que apreciam a m\u00fasica que eleva o sil\u00eancio do esp\u00edrito e a vida do corpo, como aqueles que estudam e trabalham arduamente nos conservat\u00f3rios de m\u00fasica ou das crian\u00e7as que fazem parte dos numerosos e excelentes escolas mon\u00e1sticas ou catedral\u00edcias. Na compara\u00e7\u00e3o com outros tempos, o poeta dizia que, apesar de tudo, eles \u201camavam as artes\u201d, e por isso, toda a arte era met\u00e1fora de um pensamento humanista! O poeta, o escritor, o pensador, o artista ou o fil\u00f3sofo s\u00e3o hoje postos \u00e0 margem da discuss\u00e3o das grandes quest\u00f5es humanas em favorecimento da ret\u00f3rica f\u00e1cil do jornalista, do t\u00e9cnico especializado ou dos fazedores de opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Todo este posicionamento de rejei\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos que nos fazem ver mais alto do que a nossa pr\u00f3pria sombra resulta de uma conce\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica perigosa. O argumento \u00e9 que as pessoas n\u00e3o percebem ou nem entendem esta linguagem, como se o melhor da cria\u00e7\u00e3o humana e espiritual s\u00f3 fosse acess\u00edvel a uma elite ou grupo social. Todavia, na vis\u00e3o crist\u00e3 do mundo, \u00e9 o pobre ou o desfavorecido que merece o melhor que se possa dar e oferecer, como esse outro rosto de Cristo a ser acolhido e hospedado como gl\u00f3ria de Deus. Ningu\u00e9m merece os restos da mesa farta! Bach, Mozart, Arvo Part ou Karl Jenkins, entre outros, s\u00e3o para todos, e em particular, para os que vivem na pen\u00faria existencial., ou na escurid\u00e3o sem vislumbre de futuro fecundo. A cultura que cultiva n\u00e3o \u00e9 nem pode ser privil\u00e9gio de uma burguesia acomodada. Muitas destas obras de arte nasceram das ru\u00ednas, do sofrimento, do abandono ou da ang\u00fastia dos seus criadores. Na verdade, s\u00f3 os pobres poder\u00e3o compreender verdadeiramente a\u00a0<em>Paix\u00e3o segundo S. Mateus de Bach<\/em>, tal como s\u00e3o os famintos e exasperados compreendiam o toque salv\u00edfico dos gestos e palavras de Jesus\u00a0<em>o Cristo<\/em>. Tudo nele \u00e9 performativo, faz o que diz e diz o que faz. Tudo se faz corpo de comunh\u00e3o e empatia da carne pascal de Cristo com a nossa carne entreaberta \u00e0 espera de salva\u00e7\u00e3o \u00faltima e final, muito al\u00e9m da \u00fatil emerg\u00eancia sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Quando todos estes grandes nomes voltarem a entrar dentro das igrejas, e na pr\u00f3pria Igreja, n\u00e3o como ap\u00eandice ou somente oferta cultural, creio que algo se transformar\u00e1, algo de novo aparecer\u00e1, um renascimento eclesial tornar\u00e1 poss\u00edvel uma nova presen\u00e7a de Deus no meio da carne ferida do humano. Bach \u00e9 um artista te\u00f3logo, talvez o maior te\u00f3logo vivo, o mais escutado ainda hoje. Toda a grande arte encerra em si uma \u00e9tica, ou melhor, uma for\u00e7a espiritual capaz de mobilizar o que h\u00e1 de melhor em n\u00f3s para a constru\u00e7\u00e3o de um templo, para o dom de si ao outro, para a harmonia entre as na\u00e7\u00f5es, para a qualifica\u00e7\u00e3o do tempo e dos lugares. No pensamento musical de Bach acedemos \u00e0 polaridade irresol\u00favel entre a f\u00e9 crente e a confian\u00e7a agn\u00f3stica, que eleve o desejo da iman\u00eancia ao atrito da transcend\u00eancia absoluta, como o desejo mais forte do que a pr\u00f3pria morte. Como afirma o fil\u00f3sofo Markus Gabriel, um dos grandes fil\u00f3sofos emergentes da atualidade: \u00abA n\u00f3s, seres humanos, a arte n\u00e3o nos pergunta se gostamos ou n\u00e3o. Somos fascinados, ou n\u00e3o, pelas obras de arte. Tal \u00e9 o poder da arte.\u00bb (2)<\/p>\n<p>Se a P\u00e1scoa \u00e9 na verdadeira ace\u00e7\u00e3o da palavra \u201cpassagem\u201d, \u00eaxodo de um tempo antigo para a vida nova futura, de nascimento de si para a d\u00e1diva, fica o convite para escutar silenciosa e atentamente, tanto quanto seja poss\u00edvel, a\u00a0<em>Paix\u00e3o segundo S. Mateus\/S\u00e3o Jo\u00e3o de J.S. Bach<\/em>. Ningu\u00e9m sair\u00e1 defraudado, apenas estremecido com a epifania do mist\u00e9rio absoluto a que chamamos Deus! Mesmo sem ouvir Bach, Paulo de Tarso dizia que \u00aba f\u00e9 vem da escuta\u00bb (<em>fides ex auditu<\/em>). A f\u00e9 faz-se m\u00fasica e a m\u00fasica faz-se teologia (3), di\u00e1logo musical com Deus, drama e gozo, desconsolo e consolo, conson\u00e2ncia e disson\u00e2ncia\u2026. As suas notas musicais s\u00e3o orantes, e cada uma delas, dirigidas ao orante, empenha a nossa aten\u00e7\u00e3o toda!\u00a0<em>Converter-se\u00a0<\/em>(\u03bc\u03b5\u03c4\u1fb0\u0301\u03bd\u03bf\u03b9\u1fb0), no sentido de se deixar espantar e transformar pela visita\u00e7\u00e3o de algo at\u00e9 ao si mesmo mais profundo, na escola da audi\u00e7\u00e3o de Bach, \u00e9 um dos modos da palavra divina se encarnar na horizontalidade da vida do mundo e dos humanos. Desperdi\u00e7ar este fragmento de p\u00e3o seria um pecado contra o Esp\u00edrito Santo, pois, como diria o jovem poeta Rimbaud: \u201cNos lameiros, passava a m\u00e3o de Deus\u201d (4).<\/p>\n<p><span class=\"autor\">Breves Notas sobre m\u00fasica, Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, Lisboa 2015, p. 15.<br \/>\n(2) Markus Gabriel,\u00a0<em>El poder del arte<\/em>, Roneo, Santiago de Chile 2019, p. 91.<br \/>\n(3) Para o aprofundamento do pensamento musical e teol\u00f3gico de Bach, o livro germinal e singular de Philippe Charru-Christoph Theobald,\u00a0<em>L&#8217;esprit cr\u00e9ateur dans la pens\u00e9e musicale de Jean-S\u00e9bastien Bach: les chorals pour orgue de l'&#8221;autographe de Leipzig<\/em>, Editions Mardaga, Paris 2002.<br \/>\n(4) Jean-Arthur Rimbaud,\u00a0<em>Ilumina\u00e7\u00f5es. Uma cerveja no Inferno<\/em>, trad. M\u00e1rio de Cesariny, Ass\u00edrio&amp;Alvim, Lisboa 2007, p. 149.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dfLNM7tlSF8?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/a5ICH1gK5fQ?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Jean Delaunay<br \/>\nImagem: Bach | D.R.<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo, foto e<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9085,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-9084","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9084"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9084\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9086,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9084\/revisions\/9086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}