{"id":9036,"date":"2020-04-11T16:03:43","date_gmt":"2020-04-11T15:03:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=9036"},"modified":"2020-04-11T16:03:43","modified_gmt":"2020-04-11T15:03:43","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-o-caminho-de-barrabas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-o-caminho-de-barrabas\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| O caminho de Barrab\u00e1s"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">O caminho de Barrab\u00e1s<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos entre n\u00f3s se emocionaram de forma primordial, diante de uma televis\u00e3o a preto e branco: era a altura da P\u00e1scoa, o filme era \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d de Franco Zeffirelli. Lembro-me muito bem de torcer por Jesus at\u00e9 ao fim, apesar de j\u00e1 conhecer o desfecho: a esperan\u00e7a diante de uma est\u00f3ria de trai\u00e7\u00e3o onde os maus realizam os seus intentos.<br \/>\nTodos reunidos na sala com a televis\u00e3o, o ano seria 1981 ou 82, pai, m\u00e3e e os cinco filhos, ficou-me sobretudo a intensidade dos momentos da Paix\u00e3o do Senhor. As minhas irm\u00e3s eram mais maduras do que eu (s\u00f3 a mais nova, a \u201cmenina\u201d teria \u00e0 volta de cinco anos): nessa altura exprimiam em alta voz o constrangimento que sentiam. E, enquanto Jesus era chicoteado, uma delas observou, espantada: \u201cA menina est\u00e1 a chorar!\u201d<br \/>\nOs filmes sobre Jesus multiplicaram-se nos \u00faltimos anos, como todos sabemos, uns dedicados \u00e0 sua pessoa, outros a pessoas relacionadas com Ele, como Maria Madalena ou a sua m\u00e3e, ou os ap\u00f3stolos. O valor did\u00e1tico da maioria deles \u00e9 ineg\u00e1vel, mesmo se alguns dos mais recentes padecem de anacronismo (o que se poderia chamar mesmo de s\u00edndrome Maria Madalena: quem viu o filme pode atestar).<br \/>\nNesse \u201cMaria Madalena\u201d (Garth Davis, 2018), o problema era o de tantos filmes \u201chist\u00f3ricos\u201d contempor\u00e2neos: o longo espa\u00e7o dado \u00e0 reflex\u00e3o da protagonista sobre a sua voca\u00e7\u00e3o, \u00e9 um desproporcionado reflexo, por excel\u00eancia, do ego ocidental. Al\u00e9m da \u00f3bvia afirma\u00e7\u00e3o da igualdade de g\u00e9nero, um tema que n\u00e3o estava propriamente na moda naquele tempo. Isto sem preju\u00edzo da concreta promo\u00e7\u00e3o feminina operada no novo Testamento.<br \/>\n\u201cBarrab\u00e1s\u201d (Richard Fleischer, 1961), surge como um caso muito gratificante do cinema hist\u00f3rico, um misto de filme sobre um personagem pr\u00f3ximo de Jesus com \u00e9pico. A marca distintiva do filme \u00e9 a de n\u00e3o se tratar da est\u00f3ria de um convertido, mas sim de um bandido, um patife intrat\u00e1vel que s\u00f3 deseja preservar a pr\u00f3pria vida. Confira-se a sua rea\u00e7\u00e3o \u00e0 not\u00edcia de Pilatos de que n\u00e3o o podia condenar \u00e0 morte depois de o ter libertado anteriormente.<br \/>\nEnquanto Jesus \u00e9 levado \u00e0 cruz, Barrab\u00e1s celebra com os amigos, \u00e9 coroado rei por eles (uma ironia feita a partir de outra ironia), recebe como cetro uma vassoura que em pouco tempo usa para atingir um deles. A liberta\u00e7\u00e3o deste personagem n\u00e3o faz sentido, j\u00e1 que ele \u00e9 o oposto do profeta da Galileia: vive para si, para os seus prazeres e rejeita mesmo a ideia que o crucificado possa ter ressuscitado. Sendo um filme sobre a f\u00e9, n\u00e3o segue o trilho \u00f3bvio da hagiografia.<br \/>\n\u00c9 dada a ver a morte do Nazareno, sempre sem o focar diretamente: o eclipse sucessivo constitui uma das cenas mais bem conseguidas, num filme repleto delas. Outros destaques s\u00e3o o desastre nas minas de enxofre, as lutas de gladiadores e o inc\u00eandio em Roma. Os valores de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o em linha com o melhor que se fazia \u00e0 \u00e9poca, numa est\u00f3ria que foge aos estere\u00f3tipos de, por exemplo, o famoso \u201cO Gladiador\u201d (Ridley Scott, 2000).<br \/>\nO mote \u00e9 este homem que fechou as portas \u00e0 f\u00e9 e que dir\u00e1, quando perguntado sobre se pertencia ao movimento crist\u00e3o, que n\u00e3o, mas que tinha tentado acreditar. O retrato \u00e9 rico: o infeliz escapa \u00e0 morte mais do que uma vez, um facto que come\u00e7ar\u00e1 a fazer pesar o dito de que a troca com Jesus tinha o seu prop\u00f3sito. O Barrab\u00e1s que ganha a liberdade ao matar um gladiador d\u00e1 s\u00f3 mais um passo no exteriorizar do seu conflito interior.<br \/>\n\u00c9 essa a chave do filme, a sobreviv\u00eancia prolongada que cada vez mais evidencia a pergunta a que ele pr\u00f3prio quer escapar, o sentido da hist\u00f3rica troca. A morte que trouxe a luz confirma-se \u00e0 sua volta, no companheiro crist\u00e3o que ama a vida mas n\u00e3o teme a morte. Na sua ida \u00e0s catacumbas, ele perde-se e, lentamente, divaga, errante no trajeto, mas nunca t\u00e3o pr\u00f3ximo de si mesmo.<br \/>\nO desfecho \u00e9 previs\u00edvel mas junta todos os fios dispersos. Em Jerusal\u00e9m, no dia da ressurrei\u00e7\u00e3o, Pedro p\u00f4s-se a fazer uma rede de pesca que n\u00e3o ia usar: tal como ele, Barrab\u00e1s s\u00f3 entrou no caminho da f\u00e9 quando se afastou das suas certezas e perguntas. Por isso mesmo, este \u00e9 um filme muito contempor\u00e2neo, um selo para o mundo que so\u00e7obra no fazer pessoal a heran\u00e7a que \u00e9 de todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9037,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-9036","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9036","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9036"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9036\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9865,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9036\/revisions\/9865"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9037"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}