{"id":8862,"date":"2020-03-31T10:20:45","date_gmt":"2020-03-31T09:20:45","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8862"},"modified":"2020-03-31T10:20:45","modified_gmt":"2020-03-31T09:20:45","slug":"covid-19-a-paixao-nos-dias-do-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/covid-19-a-paixao-nos-dias-do-coronavirus\/","title":{"rendered":"Covid-19 | A Paix\u00e3o nos dias do coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/a_paixao_nos_dias_do_coronavirus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrevo com embara\u00e7o estas linhas. Parecia-me, com efeito, ouvir a voz, rouca pelos gritos em demasia, de Job, que rejeitava as palavras dos amigos te\u00f3logos que o tinham vindo consolar, definindo-os como \u00abinfus\u00f5es de malva\u00bb, incapazes de extinguir a sua dor lacerante. Ou, come\u00e7ando a escrever algumas linhas, ouvia ressoar ao ouvido a frase \u00e1spera de um outro s\u00e1bio b\u00edblico, Qoh\u00e9let, que me advertia: \u00abTodas as palavras est\u00e3o gastas, e o homem n\u00e3o pode mais us\u00e1-las\u00bb (1,8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, decidir rasgar o sil\u00eancio, como fizeram o papa e muitos outros pastores com palavras intensas, s\u00f3 para dizer que todos experimentamos na alma os mesmos estremecimentos dos muitos doentes com a boca colada a um ventilador. E sobretudo para estar ombro a ombro com a multid\u00e3o de parentes, amigos, vizinhos paralisados pelo sofrimento dos seus amados, impossibilitados de dar uma s\u00f3 car\u00edcia nos seus rostos, ou inclusive de os acompanhar at\u00e9 ao fim com um rito de despedida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 uma outra raz\u00e3o que convida todos n\u00f3s (por agora) s\u00e3os a n\u00e3o calar, e est\u00e1 precisamente ligada aos iminentes dias da Semana Santa, quando \u00e0 nossa frente caminhar Cristo nas suas \u00faltimas horas terrenas. Imagino-o como no filme \u201cAndrei Rubl\u00ebv\u201d, do grande realizador russo Andrei Tarkovski, enquanto avan\u00e7a trope\u00e7ando na neve, colorindo-a com o sangue das suas feridas, arrastando, exausto, a cruz, seguido pela multid\u00e3o dos pobres agricultores e dos \u00faltimos daquelas terras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Deus crist\u00e3o \u00e9 diferente das divindades antigas como J\u00fapiter, relegadas para o seu mundo ol\u00edmpico dourado, ap\u00e1ticos em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento humano. \u00c9, pelo contr\u00e1rio, um Deus que escolheu assumir o mesmo nosso bilhete de identidade, feito, sim, tamb\u00e9m de alegria, mas sobretudo de limite, de dor e de morte. Ainda que estejamos distantes das igrejas desertas, ouviremos da voz do sacerdote solit\u00e1rio a narrativa evang\u00e9lica daquelas horas \u00faltimas de um Deus verdadeiramente irm\u00e3o da humanidade. E veremos desfilar diante dos olhos, vividas nele, todas as desola\u00e7\u00f5es destes nossos dias.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Tamb\u00e9m Ele tem medo e horror da morte, cujo rosto severo de apresenta diante dele e de n\u00f3s, ainda que o tiv\u00e9ssemos antes exorcizado e ignorado: \u00abPai, se \u00e9 poss\u00edvel, passe de mim este c\u00e1lice\u00bb envenenado. Tamb\u00e9m Ele experimenta o isolamento dos amigos, os disc\u00edpulos que permanecem distantes, ou, como no caso de tantas pessoas s\u00f3s doentes, o abandonam. Tamb\u00e9m Ele tem a carne ferida pelas torturas, e experimenta at\u00e9 a pior das solid\u00f5es, o sil\u00eancio do Pai (\u00abDeus meu, Deus meu, porque me abandonaste?\u00bb).<\/p>\n<p>Por fim, tamb\u00e9m Ele, por causa da crucifica\u00e7\u00e3o, morre como muitos doentes de coronav\u00edrus, por asfixia, depois de ter emanado um respiro extremo. Tinha raz\u00e3o um te\u00f3logo m\u00e1rtir do nazismo, o alem\u00e3o Dietrich Bonhoeffer, quando no seu di\u00e1rio na pris\u00e3o escrevia: \u00abDeus em Cristo n\u00e3o nos salva em virtude da sua omnipot\u00eancia, mas pela for\u00e7a da sua impot\u00eancia\u00bb. Sim porque naqueles momentos n\u00e3o se dobra sobre um qualquer doente para o curar, como tinha feito durante a sua vida terrena, mas torna-se Ele pr\u00f3prio sofredor e mortal. N\u00e3o nos liberta\u00a0<em>do<\/em>\u00a0mal, mas est\u00e1 connosco no\u00a0<em>mal<\/em>\u00a0f\u00edsico e interior.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo quando \u00e9 um cad\u00e1ver sacudido aqui e ali, como acontece hoje \u00e0s v\u00edtimas do v\u00edrus, Ele \u00e9 sempre o Filho de Deus. \u00c9 por isto que \u2013 experimentando na sua carne a nossa humanidade m\u00edsera, fr\u00e1gil e mortal \u2013 dep\u00f4s nela para sempre uma semente de eternidade e de esperan\u00e7a destinada a desabrochar. \u00c9 este o sentido da P\u00e1scoa, \u00aba outra face da vida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela que est\u00e1 voltada para n\u00f3s\u00bb, como dizia o poeta austr\u00edaco Rainer M. Rilke.<\/p>\n<p>Muitas outras coisas ensinou este mal a quem cr\u00ea e tamb\u00e9m a quem n\u00e3o cr\u00ea. Desvelou-nos, com efeito, a grandeza da ci\u00eancia, mas tamb\u00e9m os seus limites; reescreveu a escala dos valores que n\u00e3o tem no seu v\u00e9rtice o dinheiro ou o poder; o estar em casa juntos, pais e filhos, jovens e idosos, reprop\u00f4s cansa\u00e7os e alegrias das rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 virtuais; simplificou o sup\u00e9rfluo e ensinou-nos a essencialidade; tornou-nos irm\u00e3os e irm\u00e3s dos muitos Job, dando-nos o direito at\u00e9 de protestar com Deus, de erguer as nossas perguntas e lamentos a Ele.<\/p>\n<p>Mas sobretudo revelou um valor supremo, o amor. Muitos dos leitores conhecem o romance do escritor colombiano Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, \u201cO amor nos tempos de c\u00f3lera\u201d (1982), um t\u00edtulo que poderia ser transcrito para o coronav\u00edrus. Um t\u00edtulo que \u00e9 verdade sobretudo nos muitos m\u00e9dicos, enfermeiros, volunt\u00e1rios, agentes v\u00e1rios, prontos a ir para al\u00e9m da lei do \u00abamar o pr\u00f3ximo como a si mesmos\u00bb, para seguir aquela extrema de Jesus: \u00abN\u00e3o h\u00e1 amor maior do que aquele que d\u00e1 a vida pelos seus amigos\u00bb.<\/p>\n<p>Na B\u00edblia ressoa 365 vezes esta sauda\u00e7\u00e3o divina: \u00abN\u00e3o ter medo!\u00bb. \u00c9 quase o \u00abbom dia\u00bb que Deus repete a cada aurora. Repete-o tamb\u00e9m nestes dias de terror. E para quem perdeu a f\u00e9, proporei a confiss\u00e3o do mesmo escritor Garc\u00eda M\u00e1rquez: \u00abDesafortunadamente, Deus n\u00e3o tem um espa\u00e7o na minha vida. Nutro a esperan\u00e7a, se existe, de ter eu um espa\u00e7o na sua\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Card. Gianfranco Ravasi<br \/>\nPresidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura<br \/>\nIn Cortile dei Gentili<br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: &#8220;Andrei Rublev&#8221;<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8863,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[151,13],"tags":[],"class_list":["post-8862","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-covid-19","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8862","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8862"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8862\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8864,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8862\/revisions\/8864"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8863"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}