{"id":8804,"date":"2020-03-27T16:12:57","date_gmt":"2020-03-27T16:12:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8804"},"modified":"2020-03-27T16:12:57","modified_gmt":"2020-03-27T16:12:57","slug":"covid-19-poesia-teatro-a-arte-nos-dias-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/covid-19-poesia-teatro-a-arte-nos-dias-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Covid-19 | Poesia, teatro: A arte nos dias da pandemia"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo recolhido do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/poesia_teatro_a_arte_nos_dias_da_pandemia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Dia Mundial da Poesia, 21 de mar\u00e7o, Dia Mundial do Teatro, 27 de mar\u00e7o. Duas datas para festejar a literatura que se exprime atrav\u00e9s de poetas, escritores, dramaturgos, encenadores, atores. Hoje, no entanto, enquanto andamos \u00e0s voltas com a emerg\u00eancia da pandemia, teremos tempo para perder com a arte? Nestes dias, talvez tanto como nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer que a arte nasce do contragolpe que alguns, dotados de sensibilidade e talento particulares, manifestam ao percecionar uma despropor\u00e7\u00e3o entre o seu ser e aquilo que veem acontecer \u00e0 sua volta. \u00c9 o verificar-se de um fen\u00f3meno que rejeita a sincronia entre o normal fluir das coisas. Pode ocorrer por um excesso de positividade ou de negatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das maiores obras da literatura mundial, v\u00e1rias vezes citadas pelos papas, \u201cA divina com\u00e9dia\u201d, de Dante, e que da literatura foi adaptada ao teatro \u2013 encenada em novembro no Teatro Nacional D. Maria II, pel\u2019O Bando, nasceu da priva\u00e7\u00e3o de uma sobreabund\u00e2ncia antes recebida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arte pode parecer perdida no tempo, mas ao contr\u00e1rio oferece a possibilidade de caminhar, juntos, mais rapidamente, em dire\u00e7\u00e3o ao centro das quest\u00f5es vitais. O primeiro movimento que \u00e9 preciso fazer para come\u00e7ar a compreender todo o trabalho art\u00edstico \u00e9 identificar-se com o outro que me est\u00e1 a falar. Dispor-se ao di\u00e1logo sem por resist\u00eancia. A arte \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>H\u00e1, depois, um aspeto pelo qual toda a arte \u00e9 fundamental para o ser humano. Mostra-o a poetisa russa Anna Achmatova na narrativa de um epis\u00f3dio da sua vida: \u00abNos terr\u00edveis anos da \u201ce\u017eov\u0161\u010dina\u201d [depura\u00e7\u00e3o estalinista] passei dezassete meses a p\u00f4r-me na fila para os c\u00e1rceres de Leninegrado. Uma vez, algu\u00e9m me reconheceu. Ent\u00e3o, uma mulher de l\u00e1bios azulados que estava atr\u00e1s de mim, e que, certamente, nunca tinha ouvido o meu nome, despertou do torpor pr\u00f3prio a todos n\u00f3s, e perguntou-me ao ouvido (ali todos falavam em sussurro): \u201cA senhora pode descrever isto?\u201d. E eu disse: \u201cPosso\u201d. Ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de sorriso deslizou por aquilo que antes tinha sido o seu rosto\u00bb.<\/p>\n<p>A arte \u00e9 uma lente poderos\u00edssima para olhar e dar nome inclusive \u00e0quilo que nome, aparentemente, n\u00e3o tem, \u00e0quilo que por vezes parece negar todo o significado. F\u00e1-lo por meio da inven\u00e7\u00e3o de linguagens ins\u00f3litas. Recorre-se \u00e0 poesia quando as palavras habituais j\u00e1 n\u00e3o chegam, porque a realidade escapa \u00e0 pris\u00e3o do j\u00e1 sabido. A realidade est\u00e1 em cont\u00ednuo devir, nome\u00e1-la e renome\u00e1-la \u00e9 qualquer coisa que tem a ver com o in\u00edcio da humanidade: para a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, Deus cria o ser humano \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, e d\u00e1-lhe o poder de dar o nome \u00e0s coisas. Por isso, nomear o mundo reporta-nos \u00e0 nossa origem e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com quem nos fez. A arte \u00e9 um movimento de re-conhecimento.<\/p>\n<p>H\u00e1 um terceiro aspeto pelo qual a arte tem um valor, al\u00e9m de antropol\u00f3gico e espiritual, social: o de acompanhar os seres humanos. Nestes dias de desorienta\u00e7\u00e3o por aquilo que estamos a enfrentar, surpreende como nas redes sociais, no WhatsApp ou mediante outros canais sentimos a necessidade de partilhar com amigos e familiares pinturas, poesias, can\u00e7\u00f5es, muitas vezes associando-as umas \u00e0s outras. \u00c9 um reflexo incondicionado pelo qual, mesmo perante o mal, a alma procura a beleza. Obviamente, pode entender-se isto como puro entretenimento em si mesmo, mas o dado que sensibiliza antes de tudo \u00e9 como tantas pessoas especificaram na arte um apelo para resistir \u00e0 desorienta\u00e7\u00e3o. Andamos \u00e0 procura de palavras e cores que possam descrever os sentimentos que habitam os nossos dias. Sentimos que t\u00ednhamos de procurar os versos de quem, tendo sido encontrados antes de n\u00f3s numa situa\u00e7\u00e3o de dificuldade, nos pudessem oferecer consola\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Vendo tudo isto, ocorre-me uma cena acontecida h\u00e1 muitos anos. Um comboio avan\u00e7a na estepe siberiana, nos vag\u00f5es as pessoas s\u00e3o amontoadas como animais, na sujidade, ao frio, na fome. Dentro de um dos vag\u00f5es, um homem procura, como pode, fazer-se pr\u00f3ximo dos companheiros: recita os versos de um poeta que viveu h\u00e1 seis s\u00e9culos. O homem naquele comboio chama-se Osip Mandel\u2019\u0161tam, \u00e9 um dos maiores poetas do s\u00e9culo XX, e est\u00e1 a redizer, naquela circunst\u00e2ncia infernal para onde foram precipitados, a \u201cDivina com\u00e9dia\u201d. N\u00e3o h\u00e1 de chegar ao destino, morrer\u00e1 de exaust\u00e3o num campo de tr\u00e2nsito pr\u00f3ximo de Vladivostoque. A sua li\u00e7\u00e3o, no entanto, chega at\u00e9 n\u00f3s, e diz-nos que de poesia, hoje, temos muita necessidade.<\/p>\n<p>A Mensagem do Instituto Internacional do Teatro para o Dia Mundial do Teatro \u00e9 reproduzida, no v\u00eddeo seguinte, pelo corpo do Teatro Acad\u00e9mico da Universidade de Lisboa, que tem como encenador o dramaturgo J\u00falio Martin. O filme foi produzido a partir de contributos individuais realizados a partir das casas dos intervenientes.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"video-container\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oa4rr1HY8Ig?rel=0\" width=\"1180\" height=\"664\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">A partir de texto de Alessandro Vergni<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/it\/osservatoreromano\/pdfreader.html\/quo\/2020\/03\/QUO_2020_070_2703.pdf.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad. \/ edi\u00e7\u00e3o: Rui Jorge Martins<\/span><\/div>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/024-657-834-51581\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=794978\">024-657-834<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=794978\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo recolhido do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8805,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[151,13],"tags":[],"class_list":["post-8804","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-covid-19","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8804"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8804\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8807,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8804\/revisions\/8807"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8805"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}