{"id":8738,"date":"2020-03-24T12:12:47","date_gmt":"2020-03-24T12:12:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8738"},"modified":"2020-03-23T12:24:38","modified_gmt":"2020-03-23T12:24:38","slug":"para-uma-sociedade-com-rosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/para-uma-sociedade-com-rosto\/","title":{"rendered":"Para uma sociedade com rosto"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo recolhido do<a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/para_uma_sociedade_com_rosto.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span class=\"autor\">D. Ant\u00f3nio Couto*<\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"it\">A quest\u00e3o do Outro \u00e9 a quest\u00e3o do Ocidente<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emmanuel Levinas (1906-1995) escreveu que \u00aba hist\u00f3ria da filosofia Ocidental foi uma destrui\u00e7\u00e3o da transcend\u00eancia\u00bb. Na sua esteira, o tamb\u00e9m hebreu e professor de hist\u00f3ria moderna, Jacob Leib Talmon (1916-1980), assume que, \u00abna hist\u00f3ria da humanidade, n\u00e3o se consegue encontrar uma revolu\u00e7\u00e3o de t\u00e3o vasto alcance como a perda da f\u00e9 numa Provid\u00eancia que vela sobre os homens e sobre a sociedade, e a guia para uma solu\u00e7\u00e3o racional e salv\u00edfica\u00bb. Este desfalque nefasto \u00e9 tudo o que resulta de um\u00a0<em>Ego cogito<\/em>\u00a0que p\u00f5e a consci\u00eancia, de facto e de direito, como absoluta, fonte e fundamento da sua pr\u00f3pria verdade e liberdade, portanto como \u00abateia\u00bb, separada de todo e qualquer princ\u00edpio exterior a ela. Destrui\u00e7\u00e3o da Transcend\u00eancia, arrasamento da Provid\u00eancia, nenhuma paternidade ou fraternidade (Jean-Luc Marion), labir\u00edntica orfandade, escurid\u00e3o, solid\u00e3o (Martin Heidegger). Torna-se, ent\u00e3o, vis\u00edvel daqui que a quest\u00e3o do \u00aboutro\u00bb \u00e9 hoje a quest\u00e3o do Ocidente, sendo sobre ela que se mede a crise em que vive, e se abre a possibilidade de superar a desorienta\u00e7\u00e3o que nos afeta. Jacques Derrida, no seu\u00a0<em>A-Deus<\/em>\u00a0a Emmanuel Levinas, vinca bem que a ideia do Outro, e a rela\u00e7\u00e3o com os outros que da\u00ed deriva, \u00e9 como um novo in\u00edcio da filosofia, in\u00edcio de uma nova racionalidade \u00abde outro modo que ser\u00bb. O tra\u00e7o fundamental do\u00a0<em>ser<\/em>\u00a0\u00e9 a perseveran\u00e7a no ser, o espinoziano\u00a0<em>conatus essendi<\/em>. A quest\u00e3o do Ocidente n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o do\u00a0<em>ser<\/em>\u00a0ou da\u00a0<em>ontologia<\/em>, mas a quest\u00e3o da \u00e9tica, sendo que a \u00e9tica n\u00e3o s\u00e3o os valores, mas os rostos. E aqui o\u00a0<em>bom-dia<\/em>\u00a0precede o\u00a0<em>cogito<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"it\">1. O senhor \u00abeu\u00bb: eu penso, eu compro, eu sou visto, eu, eu, eu\u2026<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O senhor \u00abeu\u00bb enche a modernidade. A luz da modernidade \u00e9 a raz\u00e3o que quer iluminar todas as coisas, querendo assim compreender, com o que h\u00e1 de \u00abprender\u00bb no \u00abcompreender\u00bb, toda a realidade. Esta luz da raz\u00e3o produz\u00a0<em>identifica\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>.\u00a0<em>Identifica\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do \u00aboutro\u00bb, de todo o \u00aboutro\u00bb, \u00e0 esfera do \u00abeu\u00bb, e\u00a0<em>emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9 como que o \u00abevangelho\u00bb de um mundo finalmente libertado de todas as depend\u00eancias. Diz, a prop\u00f3sito, Karl Marx (1818-1883) em\u00a0<em>Sobre a Quest\u00e3o judaica<\/em>\u00a0(<em>Zur Judenfrage<\/em>) (1844): \u00abA\u00a0<em>emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9 a recondu\u00e7\u00e3o do mundo e de todas as coisas ao homem, para fazer do homem, n\u00e3o mais o objeto, mas o sujeito da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, do seu pr\u00f3prio destino\u00bb, indo ao encontro de Immanuel Kant (1724-1804) que, na sua\u00a0<em>\u00abResposta \u00e0 pergunta: \u201cO que \u00e9 o iluminismo?\u201d\u00bb<\/em>\u00a0(<em>Beantwortung der Frage: Was ist Aufkl\u00e4rung<\/em>) (1784), tinha deixado claro que a ess\u00eancia da modernidade est\u00e1 no \u00abOusa saber\u00bb (<em>sapere aude<\/em>, de horaciana mem\u00f3ria), que implica a coragem de sair do \u00abestado de menoridade\u00bb, cortando todas as liga\u00e7\u00f5es com o que \u00e9 exterior ao \u00abeu\u00bb (mito, tradi\u00e7\u00e3o, religi\u00e3o), e afirmando a raz\u00e3o humana, a consci\u00eancia humana, como independente de qualquer v\u00ednculo exterior ou\u00a0<em>exterioridade<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, na verdade, de estabelecer a consci\u00eancia humana, de facto e de direito, como absoluta, fonte e fundamento da sua pr\u00f3pria verdade e liberdade, separada de todo e qualquer princ\u00edpio exterior a ela, em que o\u00a0<em>Ego cogito<\/em>\u00a0passa a ser a \u00fanica pedra-base sobre a qual assenta o inteiro edif\u00edcio do mundo. \u00c9 tamb\u00e9m a li\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo polaco Zygmunt Bauman (1925-2017), um dos melhores leitores da sociedade hodierna, que afirma em a \u00ab<em>Modernidade l\u00edquida<\/em>\u00bb: \u00abA situa\u00e7\u00e3o atual nasce da radical obra de demoli\u00e7\u00e3o de todos os impedimentos e obst\u00e1culos de um modo ou de outro suspeitos de limitar a liberdade individual de escolher e agir\u00bb. A ess\u00eancia da\u00a0<em>modernidade<\/em>\u00a0\u00e9, portanto, a institui\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0como \u00fanica chave de leitura do humano, a que acresce a afirma\u00e7\u00e3o de que qualquer forma de\u00a0<em>heteronomia<\/em>\u00a0\u00e9 pura aliena\u00e7\u00e3o. A\u00ed est\u00e1 o mito cartesiano do \u00abEu penso\u00bb (\u00ab<em>Ego cogito<\/em>\u00bb), que sup\u00f5e um\u00a0<em>Cogito<\/em>\u00a0que tem instalado em si o seu ser e o seu pensamento de maneira mais segura do que ter os p\u00e9s no ch\u00e3o. Como se v\u00ea, o homem Descartes (1596-1650), arvorado em senhor absoluto, liquida de um s\u00f3 golpe a ideia de cria\u00e7\u00e3o (Deus) e a ideia de gera\u00e7\u00e3o (m\u00e3e), pondo Deus de lado e esquecendo a sua m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste verdadeiro redemoinho em cujo centro est\u00e1 o imperialismo do sujeito, o \u00abeu\u00bb emancipado, senhor absoluto de tudo, \u00e9 removido tamb\u00e9m o pr\u00f3prio\u00a0<em>nascimento<\/em>\u00a0que me fazia recebedor da vida de algu\u00e9m, pois ningu\u00e9m nasce sozinho, sem umbigo, ningu\u00e9m nasce sem m\u00e3e, querendo com esta remo\u00e7\u00e3o passar a ideia de que o \u00abeu\u00bb se p\u00f5e sozinho no ser pelo seu pr\u00f3prio pensamento, criatura h\u00edbrida pelo pensamento gerada, um universal fant\u00e1stico produto da mente (Adriana Cavarero), e nada fica a dever a ningu\u00e9m, quer no plano gen\u00e9tico, quer cultural, quer social, quer tradicional. Nenhuma conce\u00e7\u00e3o (biol\u00f3gica, cultural, social, tradicional) se imp\u00f5e ou antep\u00f5e ao \u00abeu\u00bb emancipado, senhor \u00fanico de tudo, que est\u00e1 sozinho na origem de tudo. E v\u00ea-se bem tamb\u00e9m daqui a posi\u00e7\u00e3o daquele filho que pretende levar os pais a tribunal pelo simples facto de o terem trazido \u00e0 vida sem o ouvirem (!), a op\u00e7\u00e3o em crescendo pela apostasia, com a soberana decis\u00e3o pessoal do cancelamento do batismo, que traduz a anula\u00e7\u00e3o da perten\u00e7a a uma comunidade religiosa, o querer estabelecer que o masculino e o feminino n\u00e3o resultam do nascimento, mas de uma soberana decis\u00e3o pessoal (ideologia do g\u00e9nero), a estrat\u00e9gia de remo\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a prolongada e da morte, que necessariamente deixaria o \u00abeu\u00bb soberano numa situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia imposs\u00edvel de suportar neste vendaval de\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0insano e insensato. \u00c9 aqui que se insere em cheio tamb\u00e9m a tem\u00e1tica da\u00a0<em>eutan\u00e1sia<\/em>, por assentar na minha\u00a0<em>autonomia<\/em>, ampliando, por isso, o leque do exerc\u00edcio da minha\u00a0<em>liberdade de escolha<\/em>. E \u00e9 assim tamb\u00e9m que os velhinhos, que j\u00e1 perderam a\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0e a quem j\u00e1 se roubou a\u00a0<em>soberania<\/em>, v\u00e3o sendo depositados no contentor das inutilidades e dos desperd\u00edcios, sabe-se l\u00e1 por quem (!), mas seguramente por algu\u00e9m que ainda mant\u00e9m, ou a quem \u00e9 mantida (para j\u00e1!), a\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0e o soberano exerc\u00edcio da soberania e da liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma coisa \u00e9 \u00abeu\u00bb ainda poder configurar-me a partir do\u00a0<em>Ego cogito<\/em>, que me permite pensar por mim e, portanto, ser capaz de produzir a certeza em que me fundamento em perfeita, ou, pelo menos, relativa\u00a0<em>autonomia<\/em>; outra coisa \u00e9, rompida essa l\u00f3gica, entrar numa nova configura\u00e7\u00e3o, em que se passa da afirma\u00e7\u00e3o pretensamente segura do\u00a0<em>Ego cogito<\/em>\u00a0para uma pergunta at\u00e9 aqui adormecida porque desnecess\u00e1ria: \u00abalgu\u00e9m pensa em mim?\u00bb, \u00abalgu\u00e9m me ama?\u00bb (Jean-Luc Marion), ainda que ainda sem resposta. Claro que esta nova configura\u00e7\u00e3o abre um sulco e um desfalque irrevers\u00edvel na velha\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0e\u00a0<em>soberania<\/em>\u00a0em que \u00abeu\u00bb me apoiava, tornando-me agora dependente de outrem, ignoto e an\u00f3nimo, que facilmente me deixa do lado de fora da porta da\u00a0<em>autonomia perdida<\/em>\u00a0e da\u00a0<em>soberania roubada<\/em>, do lado de fora de qualquer porta. Fico assim\u00a0<em>exposto \u00e0 roda<\/em>\u00a0da incerteza radical de uma resposta problem\u00e1tica que nunca chega, talvez, a ser dada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bom que se v\u00e1 compreendendo que este paradigma do\u00a0<em>Ego cogito<\/em>\u00a0n\u00e3o afeta apenas os que, pela idade e\/ou pela doen\u00e7a, v\u00e3o perdendo\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0e\u00a0<em>soberania<\/em>. Na verdade, afeta-nos a todos, ainda que pare\u00e7a enganar-nos a todos, apenas enganar-nos, pois \u00e9 verdade que, neste paradigma, todos vamos perdendo\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0e\u00a0<em>soberania<\/em>, do mesmo modo que vamos perdendo a raz\u00e3o ou a consci\u00eancia. Eis diagnosticada a verdadeira doen\u00e7a deste mundo moderno,\u00a0<em>libertado<\/em>\u00a0e\u00a0<em>emancipado<\/em>, assente na\u00a0<em>atividade<\/em>\u00a0dos meus\u00a0<em>atos<\/em>, que v\u00e3o, todavia, passando a\u00a0<em>atos<\/em>\u00a0<em>sem atividade<\/em>. Assim se assiste \u00e0 decad\u00eancia e deposi\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Ego cogito<\/em>, mortalmente ferido, de uma ferida j\u00e1 n\u00e3o cicatriz\u00e1vel, podendo organizar-se desde j\u00e1 a sua f\u00fanebre despedida, como sugere o fil\u00f3sofo franc\u00eas Jean-Luc Marion.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A doen\u00e7a \u00e9, porventura, o lugar que melhor exp\u00f5e este desfalque, pois a doen\u00e7a faz ver, antes de mais, a componente\u00a0<em>passiva<\/em>\u00a0inscrita na corporeidade, porque mostra violentamente que o corpo precede a vontade e a inten\u00e7\u00e3o do sujeito,\u00a0<em>sendo dado antes<\/em>\u00a0que se possa quer\u00ea-lo. Neste sentido, a doen\u00e7a revela, de maneira singular, a paradoxal estrutura da consci\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, que n\u00e3o \u00e9 pens\u00e1vel, sem a\u00a0<em>passividade<\/em>\u00a0que a precede, ficando fora de qualquer minha decis\u00e3o consciente, mostrando, portanto, que a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o in\u00edcio, mas que \u00e9 precedida por uma experi\u00eancia que ela n\u00e3o p\u00f5e, e de que, de facto, n\u00e3o disp\u00f5e, nem p\u00f4de dispor (Angelo Bertuletti).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante este desconcerto evidente, continuamos hoje a assistir ao desmesurado triunfo do\u00a0<em>conhecimento<\/em>\u00a0sobre a\u00a0<em>socialidade<\/em>, da\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0sobre a\u00a0<em>heteronomia<\/em>, da\u00a0<em>identidade<\/em>\u00a0sobre a\u00a0<em>alteridade<\/em>, com o normal corol\u00e1rio da desmedida \u00abidentifica\u00e7\u00e3o\u00bb, redu\u00e7\u00e3o de tudo ao \u00abeu\u00bb e ao\u00a0<em>idem<\/em>, ao \u00abmesmo\u00bb, hipertrofia ou intumesc\u00eancia ou incha\u00e7o ou \u00abnascida\u00bb do \u00abeu\u00bb, que produz a solid\u00e3o, sete bili\u00f5es de solid\u00f5es. O conhecimento \u00e9, desde Arist\u00f3teles, a adequa\u00e7\u00e3o entre o pensamento e o que ele pensa (<em>adequatio rei et intellectus<\/em>), havendo, portanto, no\u00a0<em>conhecimento<\/em>\u00a0a impossibilidade de o \u00abeu\u00bb sair de si. O\u00a0<em>conhecimento<\/em>\u00a0\u00e9 assimila\u00e7\u00e3o, incha\u00e7o, orgulho, gorgulho, intumesc\u00eancia ou \u00abnascida\u00bb do \u00abeu\u00bb omnicompreensivo, que tudo \u00abprende\u00bb e aperta nos seus tent\u00e1culos cognoscitivos. No\u00a0<em>modo do conhecimento<\/em>, n\u00e3o h\u00e1\u00a0<em>exterioridade<\/em>, pois tamb\u00e9m ela \u00e9 ingerida e reduzida \u00e0 iman\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salta \u00e0 vista que esta maneira de ver e de viver, de ser, faz aparecer pela primeira vez, na hist\u00f3ria da humanidade, o ate\u00edsmo, e torna-se fonte de totalitarismos e viol\u00eancias inauditas. Em cheio a anota\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969), da escola de Frankfurt, que escrevem a abrir a sua\u00a0<em>Dial\u00e9tica do Iluminismo<\/em>\u00a0(<em>Dialektik der Aufkl\u00e4rung<\/em>) (1947): \u00abO\u00a0<em>iluminismo<\/em>, no sentido mais amplo de pensamento em cont\u00ednuo progresso, perseguiu desde sempre o objetivo de libertar os homens do medo e de os tornar donos e senhores. Mas a terra inteiramente\u00a0<em>iluminada<\/em>\u00a0resplandece, ao contr\u00e1rio, de triunfal desventura\u00bb. \u00c9 o triunfo da luz da nossa pequena raz\u00e3o cient\u00edfico-t\u00e9cnica, pol\u00edtica e filos\u00f3fica, com a qual pensamos que podemos dominar o mundo, emancipar o homem de todas as escravid\u00f5es, instituir a\u00a0<em>autonomia<\/em>\u00a0como \u00fanica chave de leitura do humano, dando a entender que toda e qualquer forma de\u00a0<em>heteronomia<\/em>\u00a0\u00e9 pura aliena\u00e7\u00e3o e fonte de escravid\u00e3o. Esta ambi\u00e7\u00e3o de uma compreens\u00e3o solar do mundo, deste \u00abs\u00e9culo das luzes\u00bb, ruiu clamorosamente no decurso do s\u00e9culo XX, chamado \u00abs\u00e9culo breve\u00bb na express\u00e3o do historiador marxista ingl\u00eas Eric Hobsbawm (1917-2012), que, para o efeito, o abre em 1914, com a primeira guerra mundial, e o fecha em 1989, com a queda do muro de Berlim. Na verdade, ao longo da hist\u00f3ria humana, nunca, como neste \u00abs\u00e9culo breve\u00bb, iluminado e emancipado, se produziu tanta insensatez, aliena\u00e7\u00e3o, estupidez e sofrimento. Nunca se abriram tantas valas comuns, e continuar\u00e1 a retinir nos nossos ouvidos e na nossa intelig\u00eancia a incisiva quest\u00e3o de Jean-Fran\u00e7ois Lyotard (1924-1998): \u00abQue g\u00e9nero de doutrina pode conceber Auschwitz como parte de um processo [\u2026] global de\u00a0<em>emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0universal?\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"it\">2. A heteronomia, a socialidade, a responsabilidade pelo outro<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste mundo hermeticamente cerrado sobre o \u00abeu\u00bb e o seu c\u00edrculo (des)encantado, \u00e9 imperioso reabilitar a\u00a0<em>alteridade<\/em>, a\u00a0<em>heteronomia<\/em>, a\u00a0<em>exterioridade<\/em>, a\u00a0<em>socialidade<\/em>, empreendimento a que Emmanuel Levinas deu um contributo inestim\u00e1vel. A hipertrofia e intumesc\u00eancia do \u00abeu\u00bb \u00abcriou\u00bb, e deu azo a um abcesso da\u00a0<em>autonomia<\/em>, e atirou-se com a\u00a0<em>heteronomia<\/em>\u00a0para o s\u00f3t\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o e da escravid\u00e3o. Mas \u00e9 mesmo verdade que a\u00a0<em>heteronomia<\/em>\u00a0anula a\u00a0<em>autonomia<\/em>? N\u00e3o ser\u00e1, antes, a\u00a0<em>heteronomia<\/em>\u00a0que institui, fundamenta e alimenta a\u00a0<em>autonomia<\/em>? Por exemplo, \u00e9 verdade que o aluno que aprende com o professor a fon\u00e9tica e a gram\u00e1tica n\u00e3o ver\u00e1, com certeza, comprometida a sua autonomia; pelo contr\u00e1rio, v\u00ea-la-\u00e1 desenvolvida com a capacidade de falar e de comunicar; e este crescimento da autonomia n\u00e3o se desdobra das potencialidades do seu eu, mas deriva do e-vento e do milagre da\u00a0<em>exterioridade<\/em>. Da mesma maneira, o corpo, que depende do alimento para crescer e se desenvolver, n\u00e3o se v\u00ea, no processo da alimenta\u00e7\u00e3o, privado da sua autonomia; antes, encontrar\u00e1 nele o meio necess\u00e1rio para o crescimento da sua liberdade e das suas capacidades. O mesmo se diga do recurso aos medicamentos, em caso de doen\u00e7a. Tamb\u00e9m o filho, que \u00e9 gerado pelo seu pai e pela sua m\u00e3e, n\u00e3o v\u00ea nessa gera\u00e7\u00e3o uma priva\u00e7\u00e3o da sua autonomia, mas antes a condi\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia. S\u00e3o apenas quatro exemplos que mostram como a ideia moderna de autonomia, sem nenhuma heteronomia, \u00e9 claramente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00a0<em>heteronomia<\/em>\u00a0n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>autonomia<\/em>, como pode bem ser o seu suporte e fonte de alimenta\u00e7\u00e3o. O modo da\u00a0<em>socialidade<\/em>\u00a0\u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o completamente diferente da que se estabelece no\u00a0<em>conhecimento<\/em>, sendo a\u00a0<em>socialidade<\/em>\u00a0comandada pelo\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0nu do outro que irrompe de improviso no meu mundo e me ordena, dando-me as suas ordens, de uma altura tal, que a palavra por ele proferida, ou j\u00e1 por mim obedecida ainda antes de ele a proferir, bem se pode chamar Palavra de Deus (Emmanuel Levinas). O\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0nu do outro n\u00e3o \u00e9 a media\u00e7\u00e3o, mas o modo e o lugar \u00abn\u00e3o-lugar\u00bb da Palavra de Deus. O\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0\u00e9 o n\u00e3o assimil\u00e1vel e o n\u00e3o tematiz\u00e1vel, n\u00e3o naturaliz\u00e1vel, pois n\u00e3o se pode transformar em\u00a0<em>conte\u00fado<\/em>, e abre em mim um\u00a0<em>sentido<\/em>\u00a0novo, anterior \u00e0 minha\u00a0<em>Sinngebung<\/em>, que \u00e9 a minha capacidade de produzir sentido e intencionalidade, sendo, portanto, anterior a\/ e independente de\/ qualquer iniciativa provinda do meu poder ou do meu saber, e n\u00e3o \u00e9, portanto, abarcado, engolido ou ingerido pelos tent\u00e1culos do pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem que jaz em coma na valeta da estrada que descia de Jerusal\u00e9m para Jeric\u00f3, porque jaz em coma, n\u00e3o tem nenhum saber, nenhum poder, nenhum dizer. E, todavia, sai do seu\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0nu, da sua radical pobreza, um mandamento fort\u00edssimo que comanda as entranhas do Samaritano e as minhas. Bem entendido, este homem que jaz na valeta, na m\u00e1xima pobreza e aparente impot\u00eancia, \u00e9 que \u00e9 o verdadeiro soberano, pois sem nada dizer nem poder, me ordenou que me debru\u00e7asse sobre ele, e eu fi-lo. N\u00e3o fui eu que o escolhi ou que decidi fosse o que fosse; foi ele que se interp\u00f4s no meu caminho, e me ordenou que cuidasse dele. Responsabilidade anterior \u00e0 liberdade. No\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0nu do outro exprime-se e exp\u00f5e-se um Sentido novo, preliminar \u00e0 minha\u00a0<em>Sinngebung<\/em>\u00a0ou produ\u00e7\u00e3o de sentido subjetivo dentro da esfera da minha liberdade e intencionalidade. Ultrapassagem de Descartes e Husserl por Levinas, isto \u00e9, do primado da subjetividade intencional da consci\u00eancia ou do\u00a0<em>Ego cogito<\/em>, que assume a iniciativa do sentido, para a alteridade do\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0do outro em que se inscreve um sentido preliminar e anterior \u00e0 minha\u00a0<em>Sinngebung<\/em>. V\u00ea-se bem, neste paradigma, que o\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0do outro n\u00e3o \u00e9\u00a0<em>conte\u00fado<\/em>, n\u00e3o entra na estrutura do\u00a0<em>conhecimento<\/em>, que \u00e9 sempre o procedimento pelo qual uma\u00a0<em>exterioridade<\/em>\u00a0se encontra no interior de uma\u00a0<em>consci\u00eancia<\/em>, que n\u00e3o cessa de\u00a0<em>identificar<\/em>, sendo\u00a0<em>identificar<\/em>\u00a0o seu afazer, e\u00a0<em>identificar<\/em>\u00a0\u00e9 reduzir tudo ao\u00a0<em>idem<\/em>\u00a0e ao\u00a0<em>unum<\/em>, tra\u00e7o dominante de toda a filosofia ocidental e g\u00e9rmen de toda a viol\u00eancia e totalitarismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio, a\u00a0<em>socialidade<\/em>\u00a0p\u00f5e-me em rela\u00e7\u00e3o com o\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>viso<\/em>\u00a0nu do outro, ao mesmo tempo pobre e senhor, pobre porque nu, e senhor porque pobre e nu,\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>viso<\/em>\u00a0que n\u00e3o surge como\u00a0<em>conte\u00fado<\/em>, mas como s\u00faplica e mandamento, s\u00faplica que \u00e9 mandamento, que quebra e interrompe a minha espontaneidade e expansividade selvagem, decapitando-me e apeando-me e impedindo-me de o ingerir, isto \u00e9, de o assimilar e transformar em objeto do pensamento, e imp\u00f5e-me a\u00a0<em>responsabilidade por ele, pelo outro<\/em>, que \u00e9 o verdadeiro sentido da\u00a0<em>proximidade<\/em>, na ace\u00e7\u00e3o nova de me obrigar a responder ao outro e pelo outro, portanto, por aquilo que n\u00e3o fui eu que fiz, e n\u00e3o apenas na ace\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, filos\u00f3fica, jur\u00eddica, social e cultural de \u00abeu\u00bb, como senhor mais ou menos civilizado e engravatado, que responde apenas pelo que sou \u00abeu\u00bb que fa\u00e7o. Na verdade, se o \u00abeu\u00bb responde apenas a si mesmo acerca daquilo que ele decide, n\u00e3o se pode dizer que estejamos perante verdadeira responsabilidade. Seria mais acertado chamar-lhe coer\u00eancia, dado que o \u00e9timo de\u00a0<em>responsabilidade<\/em>\u00a0remete para \u00abresposta\u00bb, e esta pode instaurar-se somente onde haja verdadeira alteridade. Entrar nesta\u00a0<em>alteridade<\/em>\u00a0\u00e9 o modo em que o \u00abeu\u00bb \u00e9 apeado do seu pedestal, acedendo assim \u00e0 sua identidade paradoxal: paradoxal, porque se trata de identidade n\u00e3o identit\u00e1ria, a \u00fanica que des-identifica e separa, institui a riqueza da multiplicidade que \u00e9 dualidade e fraternidade, e abre para a\u00a0<em>responsabilidade ilimitada pelo outro<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Responsabilidade<\/em>\u00a0\u00e9 uma das palavras-chave do percurso filos\u00f3fico de Levinas, o que quer dizer que tamb\u00e9m o \u00e9 da sua vida, das suas origens, do leite da sua l\u00edngua materna. E a\u00ed est\u00e1, ent\u00e3o, a riqueza poliss\u00e9mica da\u00a0<em>\u055aahar\u00ee\u00fbt<\/em>\u00a0hebraica, em que ressoa em simult\u00e2neo o \u00abirm\u00e3o\u00bb (<em>\u055aah<\/em>), o \u00aboutro\u00bb (<em>\u055aaher<\/em>) e o \u00ab\u00faltimo\u00bb (<em>\u055aahar<\/em>), tr\u00eas termos que guiar\u00e3o a sua vida e a sua reflex\u00e3o: o\u00a0<em>irm\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9, na verdade, sempre tamb\u00e9m o\u00a0<em>outro<\/em>, e \u00e9 tamb\u00e9m o\u00a0<em>\u00faltimo<\/em>\u00a0homem, aquele que nada possui a n\u00e3o ser a injun\u00e7\u00e3o \u00abTu n\u00e3o matar\u00e1s\u00bb inscrita sobre o seu rosto nu; em \u00faltima an\u00e1lise, o\u00a0<em>irm\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9 sempre Abel (<em>Hebel<\/em>), o n\u00f3mada sem fixa\u00e7\u00e3o no solo e cuja exist\u00eancia tem a inconsist\u00eancia do fumo ou do sopro e a n\u00e3o-forma do vazio, do oco, como sugere a etimologia do seu nome, e que \u00e9 importante registar, pois mostra que n\u00e3o pode ser possu\u00eddo por ningu\u00e9m \u2013 \u00abningu\u00e9m \u00e9 dono do vento, para reter o vento\u00bb (Qohelet 8,8) \u2013, em claro contraponto com Caim cuja etimologia remete para o verbo\u00a0<em>qanna\u055a<\/em>, que significa\u00a0<em>possuir<\/em>. Sendo ainda o\u00a0<em>\u00faltimo<\/em>, n\u00e3o fica em aberto nenhum \u00abdepois\u00bb, nenhuma escapat\u00f3ria ou sa\u00edda de emerg\u00eancia, nenhuma nova possibilidade que nos permitiria redimir ou resgatar o erro, corrigir perspetivas, recuperar o perdido. \u00c9, portanto, absolutamente decisivo o que eu fa\u00e7o agora. Sendo a vida ent\u00e3o um cont\u00ednuo estado de emerg\u00eancia, o bem que deve ser feito agora assume um car\u00e1cter de extrema urg\u00eancia, e \u00e9 sabido que, para a B\u00edblia, o bem se identifica com a vida.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Esta\u00a0<em>responsabilidade pelo outro<\/em>\u00a0arrasta consigo a redefini\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>proximidade<\/em>, obriga a ler a\u00a0<em>proximidade<\/em>\u00a0de \u00aboutro modo que ser\u00bb, pois deixa de ser, portanto, uma\u00a0<em>proximidade<\/em>\u00a0meramente espacial, que se traduziria na simples redu\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o que separa os termos que se dizem pr\u00f3ximos, mas difere tamb\u00e9m da simples afetividade, sempre por a\u00ed muito reclamada, entoada, emproada e propalada, para entrar pelo dom\u00ednio novo e exigente de ter de\u00a0<em>responder ao outro e pelo outro<\/em>, rela\u00e7\u00e3o nova onde nasce a\u00a0<em>fraternidade<\/em>. Esta transforma\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o da\u00a0<em>proximidade<\/em>\u00a0em\u00a0<em>responsabilidade pelo outro<\/em>\u00a0deixa-nos no terreno da\u00a0<em>socialidade<\/em>\u00a0que, sendo\u00a0<em>responsabilidade pelo outro<\/em>, pelo pr\u00f3ximo, gera entre n\u00f3s uma rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica, an\u00e1rquica e traum\u00e1tica, dado que o\u00a0<em>rosto<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>viso<\/em>\u00a0nu do outro se alevanta diante de mim de improviso, sem que eu o tenha chamado, e me manda am\u00e1-lo, antes de eu ter andado algum caminho, constru\u00eddo alguma casa, alinhado alguma ideia, adiantado algum ato livre ou alguma decis\u00e3o mais ou menos merit\u00f3ria. O\u00a0<em>rosto nu<\/em>\u00a0\u00e9 sempre o\u00a0<em>pr\u00f3ximo<\/em>, o\u00a0<em>primeiro chegado<\/em>, que surge diante de mim sempre pela primeira vez (ainda que seja um velho conhecido, velho amigo, velho amor, de h\u00e1 muito implicado na trama das minhas rela\u00e7\u00f5es), e me ordena antes de ser reconhecido, e me constitui seu servo, j\u00e1 atrasado e culpado do atraso. A\u00ed est\u00e1 todo o novo saber da B\u00edblia, que \u00e9 a prioridade do outro sobre mim. O\u00a0<em>modo do<\/em>\u00a0<em>conhecimento<\/em>\u00a0\u00e9 apenas e sempre solid\u00e3o, pois todo o seu trabalho consiste na redu\u00e7\u00e3o de tudo ao mesmo, intumesc\u00eancia, incha\u00e7o ou \u00abnascida\u00bb do \u00abeu\u00bb. Ou, se se preferir, rela\u00e7\u00e3o com a morte, porque, neste tipo de pensamento que tudo engloba, ingere, inclui, e logo incha e rebenta, se morre sempre sozinho, como mostrou Martin Heidegger nas severas an\u00e1lises do seu\u00a0<em>Sein und Zeit<\/em>. O\u00a0<em>modo do conhecimento<\/em>\u00a0sou \u00abeu\u00bb sozinho no meio de objetos, depois de reduzir tamb\u00e9m os outros e o pr\u00f3prio tempo a objetos (G\u00e9nesis 2,18), como mostrou Abraham Joshua Heschel (1907-1972).<\/p>\n<p>Sociedade an\u00f3nima, desencantada, sem Deus e sem profetas (Max Weber), anestesiada, desinfetada, medicada, dependurada, n\u00e3o apenas vazia, mas esvaziada. Ningu\u00e9m pode levantar um saco vazio. Pode-se apenas dependur\u00e1-lo. Como as harpas, j\u00e1 sem uso \u00e0 m\u00edngua de alegria e de Deus, dependuradas nos salgueiros da Babil\u00f3nia, como o futebolista, em fim de carreira, que dependura as botas, ou como as enxadas dependuradas \u00e0 entrada de portas fechadas, por j\u00e1 n\u00e3o haver m\u00e3os que lhes peguem.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o se pode levantar um saco vazio, t\u00e3o-pouco se pode levantar uma sociedade esvaziada. A falta que um rosto faz! Ou a diferen\u00e7a que um rosto faz!<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\"><br \/>\n*Bispo de Lamego, biblista<br \/>\n<\/span><\/div>\n<div class=\"ficha_tecnica_multimedia\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.aletheia.pt\/products\/leitura-do-tempo-em-que-vamos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&#8220;Leitura do tempo em que vamos&#8221; (ed. Aletheia)<\/a><\/div>\n<\/div>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1597555\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1597555\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo recolhido do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8740,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[151,13,91,14],"tags":[],"class_list":["post-8738","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-covid-19","category-olhares","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8738","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8738"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8738\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8743,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8738\/revisions\/8743"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}