{"id":8711,"date":"2020-03-21T14:44:31","date_gmt":"2020-03-21T14:44:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8711"},"modified":"2020-03-21T14:44:31","modified_gmt":"2020-03-21T14:44:31","slug":"dia-da-poesia-a-urgencia-de-uma-conversao-poetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/dia-da-poesia-a-urgencia-de-uma-conversao-poetica\/","title":{"rendered":"Dia da Poesia | A urg\u00eancia de uma convers\u00e3o po\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do SNPC<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim de novembro, o papa, regressando da viagem ao continente asi\u00e1tico, \u00e0 pergunta sobre o que pode ensinar o Oriente ao Ocidente, responde prontamente: a poesia, \u00e9 isto que falta ao Ocidente ao mesmo tempo tecnol\u00f3gico e perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois meses depois, a 24 de janeiro, publica a mensagem para o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, e coloca no centro da sua reflex\u00e3o o tema da narrativa, partindo do facto de que o ser humano \u00e9 um \u00abanimal narrativo\u00bb: a linfa que permite a boa circula\u00e7\u00e3o de uma pessoa, de uma comunidade, da sociedade, \u00e9 a linfa das hist\u00f3rias, porque \u00abpara n\u00e3o nos perdermos precisamos de respirar a verdade das hist\u00f3rias boas\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dias a seguir, ao participar num congresso no \u00e2mbito do projeto do Pacto Educativo Global por ele fortemente desejado, afirmou que uma boa educa\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela capaz de criar poetas. E, mais tarde, ao publicar o aguardado texto da exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal \u201cQuerida Amaz\u00f3nia\u201d, cita nada menos do que dezassete poetas, alguns conhecidos, como Pablo Neruda, todos provenientes da Am\u00e9rica do Sul. Dezassete poetas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos muito para al\u00e9m do teorema proposto por Agatha Christie, segundo o qual \u00abum ind\u00edcio \u00e9 um ind\u00edcio, dois ind\u00edcios s\u00e3o uma coincid\u00eancia, mas tr\u00eas ind\u00edcios constituem uma prova\u00bb; por isso, talvez seja o caso de pararmos e refletirmos sobre aquilo que o papa nos est\u00e1 a dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu trabalho de an\u00fancio do Evangelho e de convite \u00e0 convers\u00e3o dirigido aos seres humanos do seu tempo, o papa Francisco est\u00e1 a apontar para uma particular \u201cnatureza\u201d da convers\u00e3o que ele considera urgente, precisamente a natureza po\u00e9tica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Ao lado das convers\u00f5es que emergiram durante os trabalhos e, depois, no documento final do s\u00ednodo para a Amaz\u00f3nia \u2013 a pastoral, sinodal, cultural e ecol\u00f3gica \u2013, h\u00e1 tamb\u00e9m esta outra convers\u00e3o, para uma dimens\u00e3o po\u00e9tica da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, a partir de todos estes \u201cind\u00edcios\u201d, que se trata de um tema muito querido pelo papa Francisco, que sente com urg\u00eancia a crise de um Ocidente dobrado sobre um horizonte exclusivamente produtivo, em que o perfil da efici\u00eancia prevalece sobre tudo o resto.<\/p>\n<p>No seu tempo, j\u00e1 Jo\u00e3o Paulo II o tinha sublinhado na enc\u00edclica \u201cO Evangelho da vida\u201d: \u00abO crit\u00e9rio pr\u00f3prio da dignidade pessoal \u2014 isto \u00e9, o do respeito, do altru\u00edsmo e do servi\u00e7o \u2014 \u00e9 substitu\u00eddo pelo crit\u00e9rio da efici\u00eancia, do funcional e da utilidade: o outro \u00e9 apreciado n\u00e3o por aquilo que \u201c\u00e9\u201d, mas por aquilo que \u201ctem, faz e rende\u201d\u00bb.<\/p>\n<p>Contra o v\u00edrus da efici\u00eancia existe um ant\u00eddoto que, para o papa, \u00e9 a poesia, ou seja, a capacidade de ter um olhar grato e gratuito, livre e contemplativo para com a realidade, o mundo, os outros que, vistos com os olhos da poesia, se revelam como dons, e n\u00e3o como obst\u00e1culos \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o do ego.<\/p>\n<p>Poesia \u00e9 livre abertura \u00e0 vida, contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da exist\u00eancia e narrativa da experi\u00eancia que brota do impacto com a pr\u00f3pria vida. \u00c9 poeta aquele que serve e n\u00e3o se serve da realidade, que n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de a dominar, de a definir, porque a linguagem po\u00e9tica n\u00e3o explica a realidade, nem muito menos a dobra em fun\u00e7\u00e3o de um fim, mas desdobra-a, isto \u00e9, deixa que a realidade possa desdobrar-se em todas as suas poss\u00edveis dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um poeta argentino caro ao papa, J.L.Borges, dizia que se pode definir um pol\u00edgono, mas n\u00e3o uma dor de dentes, e que a ess\u00eancia da poesia \u00e9 colher as coisas enquanto estranhas. O olhar po\u00e9tico vence o risco da \u201cfamiliaridade\u201d com as coisas, que leva a d\u00e1-las como adquiridas, e da\u00ed ao t\u00e9dio, \u00e0 tristeza e ao ressentimento.<\/p>\n<p>A natureza da poesia, pelo contr\u00e1rio, radica-se no sentido da maravilha e conduz \u00e0 liberdade porque nos recorda que a realidade do mundo e dos seres humanos n\u00e3o \u00e9 um objeto de que possuamos o manual de instru\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 algo que deve suscitar o espanto.<\/p>\n<p>Talvez, ent\u00e3o, as \u00fanicas \u201cinstru\u00e7\u00f5es\u201d admitidas no mundo da poesia sejam aquelas proclamadas por Mary Olivier, poetisa americana desaparecida em 2019, na sua breve l\u00edrica intitulada \u201cInstru\u00e7\u00f5es para viver uma vida\u201d: \u00abPay attention\/ Be astonished\/ Tell about it\u00bb (presta aten\u00e7\u00e3o\/ admira-te\/ conta-lo).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Andrea Monda<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/lurgenza-di-una-conversione-poetica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: Jorge Luis Borges | D.R.<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8712,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,8],"tags":[],"class_list":["post-8711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-em-cartaz"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8711"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8711\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8713,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8711\/revisions\/8713"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}