{"id":8695,"date":"2020-03-20T00:04:43","date_gmt":"2020-03-20T00:04:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8695"},"modified":"2020-03-20T00:42:30","modified_gmt":"2020-03-20T00:42:30","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-o-individualismo-morreu-com-o-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-individualismo-morreu-com-o-covid-19\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | O individualismo morreu com a Covid-19"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-7998 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"153\" height=\"212\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg 739w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-217x300.jpg 217w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-768x1064.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-600x831.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1109x1536.jpg 1109w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1478x2048.jpg 1478w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1200x1662.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-850x1178.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-480x665.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1320x1829.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-scaled.jpg 1848w\" sizes=\"auto, (max-width: 153px) 100vw, 153px\" \/>O individualismo \u00e9 uma ilus\u00e3o. E como, habitualmente, grandes ilus\u00f5es redundam em maiores desilus\u00f5es, n\u00e3o se espere melhor fim para esta. N\u00e3o sem, antes, por\u00e9m, muitos estragos ter feito pelo caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esclare\u00e7amos o conceito. Deixemo-nos, para tal, levar pela m\u00e3o de Roque Cabral, que, na enciclop\u00e9dia de filosofia, <em>Logos<\/em>, define \u2018individualismo\u2019 como \u2018grande variedade de atitudes, doutrinas e teorias [\u2026] as quais apresentam a nota comum da sobrevaloriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo\u2018 e acrescenta que se trata de \u2018uma conce\u00e7\u00e3o da vida em sociedade [que] resulta de uma inaceit\u00e1vel e mutiladora conce\u00e7\u00e3o do homem como ser associal ou antissocial, anterior \u00e0 sociedade e conceb\u00edvel sem ela; a qual, por sua vez, \u00e9 concebida como pura soma de indiv\u00edduos, sem outra realidade al\u00e9m destes e por eles criada\u2019. (Cfr. Roque Cabral, \u2018Individualismo\u2019 in <em>Logos<\/em> 2, 1408-1409).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As manifesta\u00e7\u00f5es desta conce\u00e7\u00e3o, desta cosmovis\u00e3o, s\u00e3o m\u00faltiplas, da economia \u00e0 pol\u00edtica, da moral ao lazer, etc\u2026 No pr\u00f3prio dizermo-nos se expressa esta leitura da exist\u00eancia. Quem nunca ouviu e reproduziu a afirma\u00e7\u00e3o de que \u2018a minha liberdade termina onde come\u00e7a a do outro\u2019, sem, por\u00e9m, se interrogar sobre o real significado de tal proposi\u00e7\u00e3o? Quando ser\u00edamos mais livres? Quando o outro estivesse diminu\u00eddo na sua \u2018liberdade\u2019 e, no limite, quando ele desaparecesse! Nesta afirma\u00e7\u00e3o expressa-se o pensamento do seu criador, Herbert Spencer, um dos preconizadores, durante o s\u00e9culo XIX, do liberalismo cl\u00e1ssico, defensor de um \u2018ideal [que] convergia para uma sociedade onde o indiv\u00edduo fosse tudo e o Estado nada\u2019 (Ac\u00edlio da Silva Estanqueiro Rocha, \u2018Herbert Spencer\u2019 in <em>Logos<\/em> 4, 1279-1288).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, mais do que denunciador de um insuper\u00e1vel antagonismo entre indiv\u00edduo e Estado, o individualismo expressa uma vis\u00e3o de que possa conceber-se a exist\u00eancia de cada um de n\u00f3s sem os demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, um dos muitos pecados da afirma\u00e7\u00e3o acima recordada est\u00e1, precisamente, no entendimento de que as liberdades individuais sejam realidades fechadas sobre si mesmas, conceb\u00edveis em antagonismo com os outros. Nada mais errado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum de n\u00f3s pode conceber-se sem os outros (pense-se no fen\u00f3meno da pr\u00f3pria autoconsci\u00eancia que \u00e9 imposs\u00edvel sem o trabalho de a despertar que os outros t\u00eam. Nenhuma crian\u00e7a teria, algum dia, consci\u00eancia de si mesma sem a a\u00e7\u00e3o dos outros humanos. Assim, tamb\u00e9m, no \u00e2mbito biol\u00f3gico ou econ\u00f3mico ou qualquer outro\u2026). N\u00e3o nos podemos pensar sem a a\u00e7\u00e3o dos outros. O que \u00e9, afinal, a cultura sen\u00e3o a partilha do que \u00e9 cultivado por uns e outros, que recebemos e transmitimos? N\u00e3o h\u00e1 liberdades fechadas. N\u00e3o se pode conceber a liberdade sem a interpenetra\u00e7\u00e3o na liberdade dos outros. Ser livre \u00e9 realizar-se como humano, \u00e9 estar em condi\u00e7\u00e3o de incompletude, escolhendo, sempre, de entre v\u00e1rias possibilidade em aberto, envolvendo, n\u00e3o apenas a vontade (um dos outros erros da conce\u00e7\u00e3o de liberdade do individualismo: reduz a liberdade ao voluntarismo, como mera a\u00e7\u00e3o da vontade, do querer\u2026), mas tamb\u00e9m o afeto e, principalmente, a intelig\u00eancia. A liberdade n\u00e3o \u00e9, primeiramente, um ato da vontade: \u00e9, antes, ato de um ser racional e intrinsecamente relacional. N\u00e3o h\u00e1 liberdade onde n\u00e3o houver esta racionalidade e relacionalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi isso que a pandemia da Covid-19 veio demonstrar, cabalmente. N\u00e3o vivemos s\u00f3s e podemos ter de decidir que, pelo nosso bem e pelo bem dos outros, devamos submeter a nossa vontade ao que lhe imp\u00f5e a intelig\u00eancia. E isso \u00e9 ser livre! N\u00e3o \u00e0 maneira individualista, bem certo, mas numa vis\u00e3o humanista e personalista que s\u00f3 pode ser, tamb\u00e9m, intrinsecamente, comunitarista, que n\u00e3o comunista. Curiosamente, Roque Cabral recorda, na mesma entrada da enciclop\u00e9dia<em> Logos<\/em>, que, por influ\u00eancia do anarquismo, o socialismo afirma o papel do Estado, mas tamb\u00e9m n\u00e3o ficou imune \u00e0 influ\u00eancia nefasta do individualismo. Poderemos acrescentar que, de forma sim\u00e9trica, tamb\u00e9m os movimentos ditos conservadores n\u00e3o souberam imunizar-se contra esta nefanda influ\u00eancia, ao acolherem o liberalismo na economia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a universaliza\u00e7\u00e3o de um v\u00edrus t\u00e3o pequeno quanto potente possa despertar deste torpor coletivo que, pela esquerda e pela direita, nos ilude e encaminha para a desilus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada somos, sozinhos! Um grito no vazio. Mas quem poder\u00e1 ouvir o nosso clamor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que n\u00e3o nos esque\u00e7amos, quando estivermos a decidir, depois de passada a borrasca, que ningu\u00e9m decide sozinho, que n\u00e3o se vive sozinho, que n\u00e3o se morre sozinho\u2026 que somos, sim, um ser relacional, intrinsecamente \u2018tus\u2019 diante de outros \u2018tus\u2019, em cujo face-a-face se gera o eu que \u00e9 cada um de n\u00f3s. Mas \u00e9 o \u2018tu\u2019 que gera a consci\u00eancia do \u2018eu\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pudemos andar t\u00e3o solitariamente distra\u00eddos?<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230;&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/nir_design-2509457\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4945000\">nir_design<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4945000\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8700,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,151,146,55,13],"tags":[],"class_list":["post-8695","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-covid-19","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8695"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8695\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8707,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8695\/revisions\/8707"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8700"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}