{"id":8433,"date":"2020-02-22T18:21:39","date_gmt":"2020-02-22T18:21:39","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8433"},"modified":"2020-02-22T18:22:17","modified_gmt":"2020-02-22T18:22:17","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-a-grande-ilusao-pode-o-homem-ser-livre-sozinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-a-grande-ilusao-pode-o-homem-ser-livre-sozinho\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | A grande ilus\u00e3o &#8211; Pode o Homem ser livre sozinho?"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-7998 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"147\" height=\"204\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg 739w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-217x300.jpg 217w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-768x1064.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-600x831.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1109x1536.jpg 1109w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1478x2048.jpg 1478w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1200x1662.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-850x1178.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-480x665.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1320x1829.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-scaled.jpg 1848w\" sizes=\"auto, (max-width: 147px) 100vw, 147px\" \/>Grandes ilus\u00f5es geram grandes desilus\u00f5es. Assim \u00e9 na vida; assim \u00e9 na ordem do pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos tempos reconhecidamente individualistas, marcados por um egocentrismo cultural que parece levar de vencida uma batalha em que todos somos, em simult\u00e2neo, advers\u00e1rios e leais defensores, num combate absurdo, em que parecemos querer insurgir-nos ao mesmo tempo que nos rendemos como se a derrota nos fosse favor\u00e1vel. Queixamo-nos dele, mas vivemos dele, como se n\u00e3o pud\u00e9ssemos dispens\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este paradoxo da nossa sociedade contempor\u00e2nea, a que j\u00e1 chamaram p\u00f3s-moderna, hipermoderna, mas tamb\u00e9m anti moderna e, mesmo, \u00e9poca de crise, sem identidade nem defini\u00e7\u00e3o, merece an\u00e1lise. Seja o que for que chamemos \u00e0 nossa \u00e9poca, ser\u00e1 dif\u00edcil escapar ao reconhecimento de que se configura como um tempo de afirma\u00e7\u00e3o da autonomia entendida de forma solipsista [o indiv\u00edduo encerrado em si mesmo]: definimo-nos por oposi\u00e7\u00e3o aos outros. Representa muito bem esta defini\u00e7\u00e3o um propalado ad\u00e1gio que sustenta que \u00aba minha liberdade acaba onde come\u00e7a a do outro\u00bb. Uma frase que, de tantas vezes repetida, se torna uma verdade em que pouco se reflete. Nela se concentra, por\u00e9m, a vis\u00e3o que, de facto, se foi consolidando do que seja a liberdade: um exerc\u00edcio meramente individual em que os outros s\u00e3o um estorvo. Uma tal defini\u00e7\u00e3o nasce, por\u00e9m, de um tremendo erro. O erro em que parece gravitar uma certa linha de entendimento do que seja a modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para nos entendermos, consideremos a modernidade como a era iniciada no s\u00e9culo XV (\u00e9 usualmente atribu\u00eddo \u00e0 queda de Constantinopla, em 1453, o estatuto de marco definidor do fim da idade m\u00e9dia e in\u00edcio da moderna), que se afirma pelos valores da autonomia, pela ideia do progresso e pela import\u00e2ncia do futuro. A modernidade vincula-se \u00e0 ideia de afirma\u00e7\u00e3o do humano diante de tudo o que pudesse limit\u00e1-lo. Tal ideia, por si, positiva, contribuiu, por\u00e9m, para a gesta\u00e7\u00e3o de um conceito de liberdade como afirma\u00e7\u00e3o da identidade por oposi\u00e7\u00e3o a outros, favorecendo a convic\u00e7\u00e3o de que o processo de liberta\u00e7\u00e3o seja um dinamismo meramente individual, em que tanto mais se ser\u00e1 quanto mais se afastar da rela\u00e7\u00e3o com os demais. Neste quadro, apareceram movimentos fort\u00edssimos que vincularam a modernidade a esta compreens\u00e3o, influenciando, de modo decisivo, o pensamento ocidental, particularmente a partir do s\u00e9culo XVIII (com nomes como Rousseau, Hobbes, Locke e tantos outros que ainda hoje continuam a chegar-nos, por exemplo, atrav\u00e9s de certas conce\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas), e cuja marca continua a sentir-se, talvez mais forte do que nunca, afirmando que antes da comunidade est\u00e1 o indiv\u00edduo. Mais ainda, sustentando que o ser humano s\u00f3 ser\u00e1 na medida em que se afirmar como indiv\u00edduo, na sua solid\u00e3o. Todo o pensamento liberal (nas suas mais diversas manifesta\u00e7\u00f5es: da pol\u00edtica \u00e0 economia, da moral \u00e0 pr\u00f3pria teologia) tem a sua g\u00e9nese neste processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como observa, por\u00e9m, um dos grandes gurus desta vis\u00e3o da sociedade, no final do s\u00e9culo XX, Francis Fukuyama, h\u00e1 aqui uma esp\u00e9cie de pecado original de que importa tomarmos consci\u00eancia para come\u00e7ar a inverter este processo que n\u00e3o poder\u00e1 sen\u00e3o conduzir a sociedade ao seu pr\u00f3prio fim, pois uma tal vis\u00e3o faz da sociedade uma mera soma de indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fukuyama recorda, num dos seus mais recentes livros &#8211; \u00abas origens da ordem pol\u00edtica\u00bb-, que Rousseau, Hobbes e Locke est\u00e3o entre os mais influentes preconizadores desta vis\u00e3o. Ora, continua Fukuyama, \u00abqualquer um dos tr\u00eas pensadores considerou os seres humanos no estado de natureza enquanto indiv\u00edduos isolados, para os quais a sociedade n\u00e3o era natural. [\u2026] a sociedade humana surge apenas com a passagem do tempo e envolve ced\u00eancias ao n\u00edvel da liberdade natural.\u00bb Fukuyama vem a reconhecer, no referido livro, que, por oposi\u00e7\u00e3o a estes, muitos s\u00e9culos antes, \u00abArist\u00f3teles estava mais correto do que estes te\u00f3ricos liberais dos prim\u00f3rdios da modernidade, quando afirmava que os seres humanos s\u00e3o pol\u00edticos por natureza\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais afirma\u00e7\u00f5es devem levar-nos a reconhecer que o que nos define n\u00e3o pode ser uma certa ideia de liberdade em que os outros s\u00e3o um estorvo, mas uma ideia de liberdade em que a nossa realiza\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ocorrer porque nela e com ela tamb\u00e9m os outros se realizam. Melhor seria, assim, dizer que a nossa liberdade s\u00f3 aumenta na medida em que fizer aumentar a liberdade dos outros e diminuir\u00e1 na medida em que fizer diminuir a dos demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande ilus\u00e3o da modernidade \u2013 ali\u00e1s, de uma certa modernidade! \u2013 foi admitir que algu\u00e9m pudesse tornar-se mais humano sem os outros. Tal ilus\u00e3o n\u00e3o poderia sen\u00e3o gerar enorme desilus\u00e3o, pois parte de pressupostos errados, pressupostos sobre o que seja o ser humano que nada t\u00eam a ver com a real natureza humana. O homem s\u00f3 se torna humano na medida em que os outros suscitam nele a humanidade que est\u00e1 em pot\u00eancia. Tal reconhecimento faz de n\u00f3s um-ser-para-os-outros e um-ser-com-os-outros. Tudo o que seja nega\u00e7\u00e3o disto ser\u00e1 nega\u00e7\u00e3o do humano na sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E veja-se como tal pode permitir compreender como decis\u00f5es que pressup\u00f5em um humano fechado sobre si mesmo, autocompreendido, s\u00e3o decis\u00f5es suicidas e \u00abgeradoras\u00bb de morte. No contexto portugu\u00eas atual, em que se discute a possibilidade da legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, este \u00e9 o erro de tal aceita\u00e7\u00e3o, na sua origem. Muitos, que defendem a eutan\u00e1sia como se ela fosse uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio perpetrado por outro, erram, precisamente, por pressuporem que o suic\u00eddio fosse um ato meramente individual. Nada mais errado, sendo que a eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 um suic\u00eddio, mas um ato perpetrado por algu\u00e9m a quem caberia cuidar a pretexto da compaix\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como recorda a psiquiatra, Alexandrina Meleiro, na Revista Brasileira de Medicina (Set 2013) recuperando afirma\u00e7\u00f5es formuladas pelo filho de um suicida, \u00abquando uma pessoa se mata, n\u00e3o se mata s\u00f3 a si mesma. Mata todos ao seu redor. Mata todos os que a amam. Condena todos os outros para sempre. O suic\u00eddio amaldi\u00e7oa os seus parentes e amigos para sempre. A pessoa que se mata condena e prende todos os outros.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa superar a ilus\u00e3o, para n\u00e3o redundar numa desilus\u00e3o. E a sua supera\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ocorrer olhando, de frente, o humano real que somos, aceitando-o como \u00e9, nos seus limites, porque a fragilidade, a vulnerabilidade, fazem parte da sua identidade; s\u00e3o, ali\u00e1s, a condi\u00e7\u00e3o que nos torna recetivos aos outros e, por isso, afinal, capazes de ser afetados (o que os afetos demonstram!) por eles e, com eles, construir a identidade que somos que, enfim, \u00e9 um n\u00f3 de identidades em conflu\u00eancia. N\u00f3s somos pelos outros. Os outros s\u00e3o-no por n\u00f3s. E isto n\u00e3o gera desilus\u00e3o: realiza-nos!<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230;&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Hermann-130146\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=396533\">Hermann Traub<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=396533\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8434,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,146,55,13],"tags":[],"class_list":["post-8433","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8433"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8433\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8436,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8433\/revisions\/8436"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}