{"id":8430,"date":"2020-02-22T18:17:15","date_gmt":"2020-02-22T18:17:15","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8430"},"modified":"2020-02-22T18:17:37","modified_gmt":"2020-02-22T18:17:37","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-o-limite-da-vontade-e-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-limite-da-vontade-e-a-liberdade\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | O limite da vontade \u00e9 a liberdade!"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-7998 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"149\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg 739w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-217x300.jpg 217w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-768x1064.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-600x831.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1109x1536.jpg 1109w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1478x2048.jpg 1478w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1200x1662.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-850x1178.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-480x665.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1320x1829.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-scaled.jpg 1848w\" sizes=\"auto, (max-width: 149px) 100vw, 149px\" \/>O t\u00edtulo parece paradoxal, mas uma reflex\u00e3o cuidada permitir\u00e1 constatar que n\u00e3o o \u00e9. Ali\u00e1s, a sensa\u00e7\u00e3o de paradoxo nasce, estou convencido disso, dessa identifica\u00e7\u00e3o que o t\u00edtulo dissocia: a liberdade n\u00e3o \u00e9 mera indetermina\u00e7\u00e3o da vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitos respons\u00e1veis por essa confus\u00e3o, mas importa, antes de os identificarmos, darmo-nos conta de que, ao falar de liberdade, estamos no \u00e2mago do sentido das sociedades modernas. E, se juntarmos a esta constata\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia de que, por nos reconhecermos como seres racionais, o que pensamos condiciona, tremendamente, como vivemos a realidade pensada, ent\u00e3o, maior \u00e9 a import\u00e2ncia de uma reflex\u00e3o cuidada sobre liberdade. Para mais quando a nossa sociedade ocidental, em geral, e portuguesa, em particular, se prop\u00f5e defender a possibilidade de infligir a morte (a si ou a outro), em nome da referida liberdade. Ser\u00e1 que o horizonte de legitima\u00e7\u00e3o de que o matar ou o matar-se possam defender-se como admiss\u00edveis n\u00e3o deveria ser suficiente para questionar se o conceito de liberdade que o sustenta \u00e9 correto? N\u00e3o deveria ser evidente que jamais se poder\u00e1 admitir a legitimidade do matar ou do matar-se sem ser em nome da defesa da vida (por exemplo, em caso de leg\u00edtima defesa) e nunca em nome da disponibilidade de si que acaba quando de si se disp\u00f5e?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simplifiquemos a reflex\u00e3o sem a banalizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de mais, \u00e9 importante ter consci\u00eancia de que o modo como pensamos a liberdade condicionar\u00e1 (afetar\u00e1) o modo como a viveremos. Buscaremos ser livres \u00e0 medida da ideia de liberdade que perseguirmos. E, se essa ideia estiver errada, ser\u00e1 em busca de um erro que andaremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, estou precisamente convencido de que a ideia de liberdade que se invoca para legitimar a eutan\u00e1sia ou a ideia de suic\u00eddio nobre est\u00e1 errada e parte de uma confus\u00e3o entre liberdade e voluntarismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o ser\u00e1 preciso ir para al\u00e9m do s\u00e9culo XIX para perceber essa confus\u00e3o. Autores como Nietzsche e Schopenhauer estar\u00e3o entre os primeiros a contar nessa lista. E veja-se como a sua posi\u00e7\u00e3o confirma a convic\u00e7\u00e3o que aqui iremos defender. O seu pensamento conduziu-os a um pessimismo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia humana e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 raz\u00e3o humana que n\u00e3o podemos, sem graves consequ\u00eancias, aceitar e subscrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liberdade \u00e9, para os seus disc\u00edpulos, a indetermina\u00e7\u00e3o da vontade; de modo simplificado, poderemos dizer que \u00e9 a possibilidade de fazer o que a vontade assim determinar, sem qualquer outro condicionamento. Parece \u00f3bvio e aceit\u00e1vel, mas, quando refletimos com cuidado, percebemos que, por ser pouco, se identificamos liberdade com isto, rapidamente nos afundamos num modelo de exist\u00eancia humana que a torna desumana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meu entender, \u00e9 precisamente aqui, nesta defini\u00e7\u00e3o, que reside o problema. A vontade, de acordo com esta abordagem, fica sem qualquer condicionamento iluminador da raz\u00e3o ou da intelig\u00eancia que \u00e9, afinal, aquela que pode assegurar as condi\u00e7\u00f5es para a liberdade. Ser livre, para o voluntarismo, baseia-se no querer. Para esses, limitar o querer \u00e9 impedir a liberdade. Logo, os outros, os que podem limitar o querer, s\u00e3o um estorvo. \u00abO inferno s\u00e3o os outros\u00bb, dizia Sartre, coerentemente com esta linha de pensamento. De facto, se liberdade for isto, os outros impedem-nos de sermos livres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, estou certo de que, n\u00e3o s\u00f3 os outros n\u00e3o s\u00e3o um impedimento \u00e0 nossa liberdade, como s\u00e3o, inclusive, a sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade. N\u00e3o se pode ser livre sozinho. Tal como n\u00e3o se pode vir a ter consci\u00eancia de si mesmo sem o contributo dos outros que fazem emergir a consci\u00eancia de n\u00f3s. Uma crian\u00e7a que fosse abandonada na selva aos tr\u00eas anos, poderia, eventualmente, sobreviver, mas jamais adquiriria consci\u00eancia de si mesma sem o contacto com outros humanos. Que o digam as hist\u00f3rias de Kaspar Hauser ou de Victor de l&#8217;Aveyron. Os outros s\u00e3o, precisamente, a nossa condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de sermos humanos, de nos realizarmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E porqu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, tal como o demonstra a etimologia da palavra liberdade (<em>libra<\/em>\u00a0era, em latim, a balan\u00e7a de dois bra\u00e7os em que se procura o justo equil\u00edbrio), ser livre \u00e9 ter condi\u00e7\u00f5es para escolher. E escolher significa p\u00f4r em a\u00e7\u00e3o o pensamento, discernir e deliberar, diante de v\u00e1rios cen\u00e1rios, escolhendo o melhor. Logo, n\u00e3o ser\u00e1 livre o mero ato de fazer o que a vontade quer, mas sim a capacidade de se mobilizar para colocar a vontade ao servi\u00e7o do que a intelig\u00eancia leva a concluir ser o melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fumar, por exemplo, \u00e9, seguramente, um ato da vontade de algu\u00e9m, mas estou em d\u00favida sobre se ser\u00e1 um ato livre. Estou certo de que muitos fumadores gostariam de se \u00ablibertar\u00bb da vontade que continua a querer fumar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, neste quadro, ser livre n\u00e3o pode significar, jamais, escolher morrer. A morte provocada, por n\u00e3o ser em defesa do melhor para a vida, poder\u00e1 ser um ato de vontade, mas n\u00e3o ser\u00e1, seguramente, um ato livre. Porque a liberdade realiza a humanidade que h\u00e1 em cada um; n\u00e3o a extingue.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230;&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/photos\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=984083\">Free-Photos<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=984083\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8431,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,146,55,13],"tags":[],"class_list":["post-8430","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8430"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8430\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8432,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8430\/revisions\/8432"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8430"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}