{"id":8321,"date":"2020-02-17T18:07:52","date_gmt":"2020-02-17T18:07:52","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8321"},"modified":"2020-03-17T13:28:32","modified_gmt":"2020-03-17T13:28:32","slug":"edith-stein-iii-o-fim-do-ser-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/edith-stein-iii-o-fim-do-ser-humano\/","title":{"rendered":"Edith Stein | III &#8211; O Fim do ser humano"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Edith Stein*<\/h4>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Vamos acompanhar Edith Stein na confer\u00eancia que proferiu a 5 de Janeiro de 1933 por ocasi\u00e3o de um curso do Instituto alem\u00e3o para a pedagogia cient\u00edfica, que pretendia assinalar os princ\u00edpios gerais de uma pedagogia cat\u00f3lica. O tema do curso era: \u201c<em>Die Katolische P\u00e4dagogik in ihren Grundlagen und in ihrer Bedeutung, A pedagogia cat\u00f3lica e os seus fundamentos e significado\u201d. <\/em><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Dez dias depois da confer\u00eancia escrever\u00e1 a uma amiga e faz a avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da sua interven\u00e7\u00e3o como conferencista: <em>\u201cVisto desde fora, considero que foi um \u00eaxito e estou muito agradecida a todos os que ajudaram com a sua ora\u00e7\u00e3o. Qual seja o efeito que produzir\u00e1 a seu tempo, \u00e9 algo que escapa ao nosso conhecimento. Foram dias esgotantes que claramente me manifestam a grande responsabilidade que \u00e9 a tarefa que temos\u201d (Ct 343).\u00a0 <\/em><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\"><em>O texto que apresentamos baseia-se no texto aut\u00f3grafo e nas mencionadas publica\u00e7\u00f5es alem\u00e3s. O texto est\u00e1 dividido em quatro subtemas e a introdu\u00e7\u00e3o: <\/em>Significado da f\u00e9 e das verdades da f\u00e9 para a ideia e o trabalho da forma\u00e7\u00e3o; I \u2013A conce\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica da natureza humana; II \u2013 O Fim do Homem; III \u2013 Os chamados a serem formadores da juventude; IV \u2013 O processo de forma\u00e7\u00e3o da juventude.<\/h5>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6743 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/id_edith_stein.jpg\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"273\" \/>A designa\u00e7\u00e3o \u201cstatus viae\u201d ou situa\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o diz-nos que se trata de algo transit\u00f3rio, de tr\u00e2nsito at\u00e9 uma meta. E quase \u00e9 imposs\u00edvel expor o que seja a situa\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o sem que isso seja continuamente iluminado por uma meta. A educa\u00e7\u00e3o enquanto interven\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se est\u00e1 orientada para um fim.\u00a0 A enc\u00edclica afirma: \u201cj\u00e1 que a educa\u00e7\u00e3o consiste pela sua ess\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o do ser humano, e a ser realizada de forma a ajuda-lo a conduzir-se neste mundo com vista a alcan\u00e7ar o fim \u00faltimo para o qual foi criado, fica claro que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar, com verdade, de educa\u00e7\u00e3o se esta n\u00e3o est\u00e1 totalmente orientada ao fim \u00faltimo\u201d. O fruto da educa\u00e7\u00e3o tem que ser o \u201ccrist\u00e3o aut\u00eantico, o homem sobrenatural que constante e coerentemente pensa, julga e actua conforme a s\u00e3 raz\u00e3o, iluminada pela luz sobrenatural do exemplo e do magist\u00e9rio de Cristo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui \u00e9 necess\u00e1rio distinguir um duplo fim: o fim \u00faltimo e sumo ao qual est\u00e1 dirigido toda a peregrina\u00e7\u00e3o terrena, a vida eterna em contempla\u00e7\u00e3o de Deus; isto s\u00f3 o pode dar Deus; est\u00e1-lhe subordinado o fim terreno, em cuja realiza\u00e7\u00e3o pode colaborar o trabalho humano da educa\u00e7\u00e3o: quer dizer a forma\u00e7\u00e3o do homem, como \u00e9 que ele deve ser e como deve conduzir a sua exist\u00eancia neste mundo. Na medida em que se trata da reinstaura\u00e7\u00e3o da natureza humana na condi\u00e7\u00e3o em que originariamente foi criada, poder-se-ia falar de um fim natural, se bem que n\u00e3o se possa conseguir apenas com os meios puramente naturais, mas que \u00e9 necess\u00e1rio que seja iluminado pelo exemplo e magist\u00e9rio de Cristo e a ajuda da sua gra\u00e7a. O \u201ccrist\u00e3o autentico\u201d n\u00e3o est\u00e1 chamado a ser apenas homem natural (entendendo por natural a natureza reinstaurada na sua condi\u00e7\u00e3o original de perfeita harmonia), mas homem sobrenatural, quer dizer, homem que por gra\u00e7a participa na vida de Deus, homem no qual a vida eterna j\u00e1 come\u00e7ou durante a sua exist\u00eancia terrena. (S\u00e3o Tom\u00e1s diz que a f\u00e9 \u00e9 o in\u00edcio da vida eterna em n\u00f3s. Ent\u00e3o corresponde \u00e0 gra\u00e7a um duplo objectivo: curar a natureza ca\u00edda e ser o primeiro grau da vida de gl\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, converte-se numa exig\u00eancia urgente da pedagogia te\u00f3rica e pr\u00e1tica, obter claridade sobre como tem que ser a imagem do homem. Na narra\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o encontramos as palavras lapid\u00e1rias: Deus criou o homem \u00e0 sua imagem<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Por isso a pretens\u00e3o do Senhor: Sede perfeitos como o vosso Pai celeste \u00e9 perfeito<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. \u201cSer imagens de Deus \u2013 ser perfeitos\u201d: isto \u00e9, resumidamente, o que tem que ser o homem. Mas em que consiste a imagem de Deus? Em que consiste a perfei\u00e7\u00e3o? Existe um conhecimento natural de Deus; o seu caminho ser\u00e1 tamb\u00e9m o caminho natural que conduz a conseguir o ideal de perfei\u00e7\u00e3o: a contempla\u00e7\u00e3o das \u201cperfei\u00e7\u00f5es\u201d que n\u00f3s reconhecemos no homem, e o afastamento mental de tudo o que nele \u00e9 obscuridade e car\u00eancia: esta \u00e9 a via negativa. Para determinar positivamente a ess\u00eancia de Deus, necessitamos da revela\u00e7\u00e3o. Desta forma sempre se tentou descobrir e mostrar a imagem de Deus no homem como imagem da Trindade<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Tamb\u00e9m temos uma imagem imediata da natureza humana na sua ordem e desenvolvimento perfeito na doutrina teol\u00f3gica do <em>estado origin\u00e1rio<\/em>, da condi\u00e7\u00e3o do homem \u00edntegro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas na enc\u00edclica \u00e9 nos apresentado ainda outro caminho; e \u00e9 o que hoje queremos percorrer: a imagem do homem perfeito \u00e9 nos dada <em>no exemplo e no ensinamento de Cristo. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tra\u00e7ar a imagem de Nosso Senhor, assim como passou pela terra, a imagem que os profetas contemplaram e que os evangelhos nos conservam, e que a nossa Igreja nos continua a propor nessa obra admir\u00e1vel da liturgia desenvolvida ao longo de todo o ano \u2013 tra\u00e7ar este retrato n\u00e3o pode ser tarefa de apenas uma escassa hora. Quem o quiser compreender plenamente, de um modo sempre mais rico, mais profundo, e de facto inesgot\u00e1vel tem que viver com a Sagrada Escritura e viver e orar com a Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 que tentar extrair das palavras do Senhor a imagem do homem tal como ele deve ser. \u00c0 pergunta do disc\u00edpulo: \u201cQue tenho que tenho que fazer para obter a vida eterna\u201d, o Senhor respondeu: \u201cSe queres entrar na vida <em>guarda os mandamentos\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a>. <\/em>E quando os fariseus lhe perguntaram qual \u00e9 o maior dos mandamentos da lei, a resposta foi: \u201cAmar\u00e1s o Senhor teu Deus com todo o cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma e com toda a tua mente\u2026 Nestes dois mandamentos baseia-se a lei e os profetas\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. E ainda se diz no Evangelho de S. Jo\u00e3o: \u201cpor isto conhecerei que me amais, se observais os meus mandamentos\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Tudo isto junto d\u00e1-nos a entender que: o verdadeiro crist\u00e3o \u00e9 o homem que observa os mandamentos, mas fazendo depender a observ\u00e2ncia de todos os mandamentos do cumprimento perfeito do maior de todos: o amor-perfeito pelo Senhor. Do amor de Deus procedem imediatamente o temor reverencial e a adora\u00e7\u00e3o; o amor ao pr\u00f3ximo como amor fraternal aos filhos de Deus, e daqui o comportamento correspondente; do amor de Deus procedem o amor a si que nasce do amor a Deus e daqui o comportamento adequado para connosco (de facto temos que amar o pr\u00f3ximo como a n\u00f3s mesmos). O homem que \u00e9 e vive desta maneira, n\u00e3o \u00e9 apenas portador de uma perfei\u00e7\u00e3o natural, mas vive de uma raiz sobrenatural. De facto, s\u00f3 podemos amar a Deus porque Ele nos amou primeiro. Isto significa que a gra\u00e7a do Senhor est\u00e1 em n\u00f3s, que a vida eterna j\u00e1 come\u00e7ou em n\u00f3s. O amor de Deus \u00e9 esse \u201c\u00fanico necess\u00e1rio\u201d que Deus prop\u00f5e \u00e0 atarefada Marta. Queria indicar aqui a imagem concreta de uma exist\u00eancia humana radicada totalmente no amor de Deus, que foi dada ao nosso tempo na figura de Santa Teresa do Menino Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 que de tudo isto devemos concluir que todo o desejo natural de perfei\u00e7\u00e3o e, consequentemente tamb\u00e9m, todo o trabalho de forma\u00e7\u00e3o que procura desenvolver as capacidades naturais em vista de um miss\u00e3o terrena \u00e9 sup\u00e9rfluo? De maneira alguma: se temos que amar a Deus com todas as nossas for\u00e7as, ent\u00e3o \u00e9 evidente que estas for\u00e7as t\u00eam que se desenvolver. Am\u00e1-lO com todas as for\u00e7as n\u00e3o pode ter outro significado que por todas as nossas for\u00e7as ao seu servi\u00e7o. Isso n\u00e3o pode acontecer fora do mundo, mas nele, no \u00e2mbito de uma rela\u00e7\u00e3o correta com as criaturas; e para isto s\u00e3o necess\u00e1rias as capacidades naturais e os dons da gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Genesis 1, 27.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Mateus 5,48.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Aqui Edith refere-se essencialmente \u00e0 obra cl\u00e1ssica de Santo Agostinho, <em>De Trinitate, <\/em>que citar\u00e1 frequentemente na sua obra Ser finito e Ser eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Mateus 19, 17.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Mateus 22, 37.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Jo\u00e3o 14, 15.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 120px;\">*Edith Stein, <em>La Formaci\u00f3n de la Juventud a la Luz de la f\u00e9 Cat\u00f3lica<\/em>, <em>Obras Completas IV, Escritos Antropol\u00f3gicos y pedag\u00f3gicos<\/em>. Coeditores: Espiritualidad \u2013 Monte Carmelo \u2013 El Carmen, 2003. Pp 428-431.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/SplitShire-364019\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=438432\">SplitShire<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=438432\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8322,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,133,150,13],"tags":[],"class_list":["post-8321","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-duas-asas","category-edith-stein","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8321"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8321\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8656,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8321\/revisions\/8656"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8322"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}