{"id":8150,"date":"2020-02-09T12:38:14","date_gmt":"2020-02-09T12:38:14","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8150"},"modified":"2020-02-09T12:38:14","modified_gmt":"2020-02-09T12:38:14","slug":"o-surpreendente-dom-do-cantico-dos-canticos-no-festival-de-sanremo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/o-surpreendente-dom-do-cantico-dos-canticos-no-festival-de-sanremo\/","title":{"rendered":"O surpreendente dom do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos no festival de Sanremo"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e imagem recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/o_surpreendente_dom_do_cantico_dos_canticos_no_festival_de_sanremo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que alegria o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos no festival de m\u00fasica Sanremo! Obrigado a Roberto Begnini que surpreendeu e espantou o festival com aquele livrinho da B\u00edblia que a tradi\u00e7\u00e3o judaica e crist\u00e3 conservou como a can\u00e7\u00e3o mais bela, a \u00abcan\u00e7\u00e3oz\u00edssima\u00bb, segundo uma sugest\u00e3o de Gianluigi Prato. S\u00e3o tr\u00eas os transcendentais: verdadeiro, bom e belo. \u00c9 importante o belo. A arte, nas suas formas mais nobres &#8211; como a m\u00fasica, a pintura, a poesia -, \u00e9 capaz de fazer emergir o divino que se aninha na Palavra, mais do que qualquer outra linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a ideia de dar a conhecer e apreciar o C\u00e2ntico foi verdadeiramente estupenda, apropriada, preciosa para um p\u00fablico t\u00e3o vasto e popular como o de Sanremo em mundovis\u00e3o (e n\u00e3o pode anul\u00e1-la, sequer, a for\u00e7ada &#8220;licen\u00e7a interpretativa&#8221; que traduziu, traindo-o, o amor entre amado e amada noutros amores que est\u00e3o longe e fora do l\u00edmpido horizonte b\u00edblico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De resto, os duetos do C\u00e2ntico, intervalados pelas vozes do coro, assemelham-se aos textos das can\u00e7\u00f5es a concurso [no festival], e tamb\u00e9m eles nascem num ambiente popular; quadros de vida rural que t\u00eam o sabor das noites de ver\u00e3o ou do primeiro outono, quando, depois das colheitas ou da vindima, \u00e0 noite, se fazia festa, e os olhos e os bra\u00e7os dos rapazes e das raparigas se atravessavam, cruzavam, inebriavam ao sonho dos beijos. No C\u00e2ntico &#8211; escreve Guido Ceronetti &#8211; n\u00e3o h\u00e1 o nome de Deus, porque tudo \u00e9 puro, portanto tudo \u00e9 sagrado!<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>A for\u00e7a do amor desperta a primavera sobre os passos do amante que &#8211; inverosimilmente &#8211; \u00e9 uma mulher. A \u00abirm\u00e3\u00bb do C\u00e2ntico \u00e9 transgressiva, obstinada, subtrai-se \u00e0 autoridade dos irm\u00e3os, n\u00e3o trata da sua vinha mas corre para a \u00abtenda dos pastores\u00bb, sai para os desertos, bate os campos, desafia os guardas nas muralhas da cidade, \u00abdoente de amor\u00bb! Uma verdadeira anomalia para um mundo em que as mulheres n\u00e3o podiam escolher os seus homens, mas eram dadas como esposas com o prop\u00f3sito de proporcionar aos maridos uma descend\u00eancia. N\u00e3o tinham direito ao pr\u00f3prio corpo, mas a mulher do C\u00e2ntico rapta-o e dele faz guia e gram\u00e1tica da viagem do Amor. H\u00e1 um \u00eaxodo de si, uma rutura do eu, para ousar os caminhos ignotos, as curvas arriscadas, as tortuosidades do rosto do Outro.<\/p>\n<p>O Amor \u00e9 uma aventura sem garantias, uma estrada sem retorno, \u00abmais forte do que a morte\u00bb. Irrevers\u00edvel, fonte de criaturas novas, diferentes, banhadas de futuro. Amor que reduz a zero os possessivos: \u00abEu sou sua, enquanto ele \u00e9 meu\u00bb; o \u00eaxtase de uma uni\u00e3o que n\u00e3o responde \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de devorar o outro, tornando-o num cad\u00e1ver. H\u00e1, antes, a plenitude do &#8220;tu&#8221;: do entregar-me a ti.<\/p>\n<p>Boca de infinito, sorvo de eternidade, arranhadela de Vida! No texto origin\u00e1rio as suas consoantes s\u00e3o enxutas, l\u00edmpidas, imposs\u00edveis de ser mal-entendidas. Os sentidos s\u00e3o sentinelas e janelas do corpo, em tens\u00e3o para fora de si.<\/p>\n<p>\u00abUma voz, o meu amado\u00bb: o primeiro sentido \u00e9 casto como a audi\u00e7\u00e3o. \u00abComo \u00e9s bela, amiga minha, como \u00e9s bela, os teus l\u00e1bios uma linha de p\u00farpura\u00bb. Os olhos dele descobrem o encanto da pele dela \u00abcor de mel\u00bb, traduz magnificamente Luca Mazzinghi. O teu perfume \u00e9 a quinta-ess\u00eancia de cada aroma das plantas mais requintadas do Oriente; \u00abh\u00e1 leite e mel debaixo da tua l\u00edngua\u00bb; o olfato\u00a0e o gosto aliam-se no \u00eaxtase de Amor onde o teu nardo \u00e9 muito mais forte do que qualquer vinho\u00a0 aromatizado. Restituem ao corpo a sua alma. Um minuto s\u00f3 dura o tato, mas procura um verdadeiro desvanecimento; como era para os gregos, assim no C\u00e2ntico o Amor \u00e9 &#8220;lelymmenos&#8221;, &#8220;desatador de membros&#8221;. Para fazer \u00abdos dois um corpo s\u00f3\u00bb, diria o ap\u00f3stolo Paulo.<\/p>\n<p>O Amor \u00e9 expetativa, esfor\u00e7o, suor de desejo e de temor; ele oferece instantes de \u00eaxtase e anos de deserto, mas esses instantes valem bem os anos! O Amor \u00e9 corpo nu, vazio, puro, como o Santo dos Santos. Por isso o C\u00e2ntico \u00e9 o livro dos m\u00edsticos, terra suspensa, Deus como numa passagem, a &#8220;meghill\u00e0&#8221; de P\u00e1scoa. No corpo que se perde est\u00e1 o perfume de Deus. Por isso \u00e9 um grande pecado que a Igreja tenha impedido durante s\u00e9culos o acesso a este pequeno livro, grand\u00edssimo tesouro, fonte de sa\u00fade e salva\u00e7\u00e3o para o corpo e para a alma. Tenhamos o cora\u00e7\u00e3o desperto, agora que &#8220;o tempo do canto voltou&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Rosanna Virgili<br \/>\nBiblista, autora de &#8220;Os aposentos do amor &#8211; Amor, casal, matrim\u00f3nio na B\u00edblia&#8221;, ed. Paulinas<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"https:\/\/www.avvenire.it\/opinioni\/pagine\/canzonissima-della-bibbia-corpi-umani-e-profumo-di-dio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Avvenire<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: &#8220;Estudo para o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos IV&#8221; (det.) | Marc Chagall | D.R.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e imagem<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8151,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-8150","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8150"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8150\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8152,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8150\/revisions\/8152"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}