{"id":8087,"date":"2020-02-05T08:34:12","date_gmt":"2020-02-05T08:34:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8087"},"modified":"2020-02-05T08:34:12","modified_gmt":"2020-02-05T08:34:12","slug":"os-primeiros-passos-de-cresto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-primeiros-passos-de-cresto\/","title":{"rendered":"Os primeiros passos de \u201cCresto\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo e imagem recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/os_primeiros_passos_de_Cresto.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Card. Gianfranco Ravasi*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois livros publicados recentemente oferecem a ocasi\u00e3o para lan\u00e7ar um olhar sobre dois momentos da hist\u00f3ria do cristianismo das origens. O primeiro texto conduz-nos aos alvores da nova religi\u00e3o e da sua apresenta\u00e7\u00e3o na ribalta p\u00fablica. Trata-se da c\u00e9lebre carta (catalogada X, 96) que Pl\u00ednio o Jovem, neto do naturalista Pl\u00ednio o Velho (de quem descrever\u00e1 o tr\u00e1gico fim, na erup\u00e7\u00e3o do Ves\u00favio de agosto de 79), dirige ao imperador Trajano, sublinhando o perigo representado pelo surgimento de uma seita que se referia a Cristo, e que ele qualificava como \u00abuma supersti\u00e7\u00e3o perversa e desenfreada\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do interior da den\u00fancia deveras articulada e do conselho pedido ao imperador sobre a pr\u00e1xis judici\u00e1ria a adotar (Pl\u00ednio tinha iniciado ent\u00e3o \u2013 estamos em torno de 110-111 \u2013 a tarefa de governador do Ponto e da Bit\u00ednia), escolhemos um par\u00e1grafo interessante, recorrendo \u00e0 edi\u00e7\u00e3o antol\u00f3gica do epistol\u00e1rio de Pl\u00ednio, que Giulio Vannini publicou mediante a sele\u00e7\u00e3o de 50 das mais de 350 cartas que chegaram at\u00e9 n\u00f3s, oferecendo-as no original latino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era-lhes \u00abhabitual reunir-se antes da aurora de um dia estabelecido [o domingo], recitar alternadamente um hino a Cristo como se fosse um deus, e comprometer-se com um juramento para n\u00e3o realizar qualquer delito, bem como para n\u00e3o cometer nem furtos, nem extors\u00e3o, nem adult\u00e9rio, a n\u00e3o trair a palavra dada e a n\u00e3o negar a restitui\u00e7\u00e3o de um dep\u00f3sito se lhes tivesse sido pedido. No termo destas cerim\u00f3nias, iam-se embora e reencontravam-se para consumar uma refei\u00e7\u00e3o, usual e in\u00f3cua\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 estava, portanto, consolidada uma pr\u00e1tica lit\u00fargica crist\u00e3 espec\u00edfica que compreendia uma hinologia, diversamente interpretada pelos investigadores (antifon\u00e1ria, responsorial, batismal?), e sobretudo um banquete comunit\u00e1rio, a \u201c\u00e1gape\u201d eucar\u00edstica. \u00c0 dimens\u00e3o cultual, Pl\u00ednio acrescenta a \u00e9tica, que torna a primitiva comunidade crist\u00e3 exemplar aos pr\u00f3prios olhos de um pag\u00e3o. A atesta\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente relevante tamb\u00e9m por uma raz\u00e3o hist\u00f3rica: \u00e9 o primeiro testemunho externo da exist\u00eancia do cristianismo estruturado. Ela precede uma dezena de anos os famoso passo dos \u201cAnais de T\u00e1cito\u201d (XV, 44), em que no historiador romano evoca o inc\u00eandio de Roma, por obra de Nero, em 64, assinalando que o imperador \u00abdeclarou culpados e votou aos tormentos mais atrozes aqueles que o vulgo chama cristianos \u2026 os quais tomavam o nome a partir de Cresto, condenado \u00e0 morte pelo procurador P\u00f4ncio Pilatos sob o imp\u00e9rio de Tib\u00e9rio\u00bb. Pouco depois, ser\u00e1 Suet\u00f3nio, no seu perfil do imperador Cl\u00e1udio, a repropor a figura de \u00abCresto\u00bb, considerado um personagem sedicioso atrav\u00e9s da sua comunidade de origem judaica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passamos agora a outro acontecimento cronologicamente posterior, que, todavia, se coloca no mesmo s\u00e9culo II. Entre em cena um personagem enigm\u00e1tico, o armador Marci\u00e3o, origin\u00e1rio do Ponto, chegado a Roma em torno de 140, imperando ent\u00e3o Antonino Pio. Temos, neste caso, o emergir de um fen\u00f3meno que repetidamente sacudir\u00e1 a Igreja das origens, classificado como heresia, conceito muito complexo e polivalente. Acolhido pela comunidade crist\u00e3 romana, Marci\u00e3o depressa se revela um protagonista do dissenso da ortodoxia dominante, ao ponto de criar uma fratura que o impele a deixar Roma, para pregar o seu verbo na regi\u00e3o mediterr\u00e2nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tese central da sua doutrina pode ser rubricada, de maneira simplificada, como um dualismo. Por um lado, h\u00e1 o Deus da B\u00edblia judaica, um criador opressivo, moralmente arbitr\u00e1rio e tutor r\u00edgido da sua justi\u00e7a; por outro, eis o Deus do amor anunciado por Jesus, que oferece uma salva\u00e7\u00e3o universal pela gra\u00e7a, atuando-a atrav\u00e9s do sacrif\u00edcio do seu Filho, que liberta a humanidade da condena\u00e7\u00e3o infligifa pelo Deus do Antigo Testamento. \u00c9 \u00f3bvia, nesta conce\u00e7\u00e3o, a radicaliza\u00e7\u00e3o da teologia paulina sobre a lei e sobre a gra\u00e7a. Marci\u00e3o \u00e9, talvez, o primeiro a delinear um c\u00e2none das Sagradas Escrituras aut\u00eanticas, naturalmente s\u00f3 do Novo Testamento, em que o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 colocado no Evangelho e no epistol\u00e1rio paulino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, nesta opera\u00e7\u00e3o, que envolver\u00e1 ao longo de percursos m\u00faltiplos toda a Igreja das origens, o nosso personagem introduz uma esp\u00e9cie de eixo evang\u00e9lico estrutural: aquele que vem a ser definido como o \u201cEvangelho de Marci\u00e3o\u201d; modulado e modelado sobre o de Lucas. Temos a possibilidade de o ler atrav\u00e9s da reconstru\u00e7\u00e3o do texto grego feita por Andrea Nicolotti, que junta uma vers\u00e3o comentada na qual se evidencia a filigrana textual origin\u00e1ria. O evangelho marcionita \u00e9 recomposto criticamente de maneira conjuntural sobre a base das cita\u00e7\u00f5es e excertos que chegaram at\u00e9 n\u00f3s atrav\u00e9s de alguns escritores crist\u00e3os antigos, entre os quais avulta Tertuliano, com o seu tratado \u201cContra Marcionem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma opera\u00e7\u00e3o muito sofisticada que permite fazer a leitura de um texto fluido, mas muito sugestivo. Esta tessitura revela a presen\u00e7a do Evangelho de Lucas, adotado e adaptado de acordo com a finalidade do heresiarca, ainda que seja dif\u00edcil definir-lhe as conex\u00f5es. Estamos, por isso, num terreno movedi\u00e7o, mas fascinante para quem quer entrar num horizonte t\u00e3o criativo que depois se alargou \u00e0 imponente reflex\u00e3o dos sucessivos Padres da Igreja. O famoso estudioso alem\u00e3o Adolf von Harnack (1851-1930) chegou ao ponto de escrever no seu ensaio dedicado a Marci\u00e3o que \u00abele foi a figura mais significativa entre Paulo e Agostinho\u00bb. Para al\u00e9m do ju\u00edzo excessivo, \u00e9 indubit\u00e1vel que este personagem criou uma tempestade na Igreja com o seu dualismo teol\u00f3gico, um conceito ainda hoje encrustado na mente de alguns crist\u00e3os, suspeitosos em rela\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n*Presidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cortiledeigentili.com\/i-primi-passi-di-quel-cresto-storia-della-cristianita\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cortile dei Gentili<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: &#8220;Jesus cura mulher como hemorragia&#8221; (det.) | C. 300-350<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e imagem<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8088,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-8087","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8087"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8087\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8089,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8087\/revisions\/8089"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8088"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}