{"id":8076,"date":"2020-02-04T19:24:00","date_gmt":"2020-02-04T19:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8076"},"modified":"2020-02-04T19:24:00","modified_gmt":"2020-02-04T19:24:00","slug":"o-canone-steiner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/o-canone-steiner\/","title":{"rendered":"O c\u00e2none Steiner"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h5 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/o_canone_steiner.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h5>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">[Refer\u00eancias a Steiner, em www.diocese-aveiro.pt\/cultura: <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/vestigia-dei-4-2-uma-terra-de-poetas-e-um-povo-de-suicidas-dou-caca-um-por-um-aos-meus-fantasmas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/o-destino-de-edipo-levado-a-cena-em-aveiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui]<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existe s\u00f3 o c\u00e2none ocidental de Harold Bloom, h\u00e1 tamb\u00e9m aquele formulado por George Steiner, falecido a 3 de fevereiro, em Cambridge, aos 90 anos. O grande cr\u00edtico, fil\u00f3sofo e ensa\u00edsta franc\u00eas abra\u00e7ou todo o saber da literatura: da trag\u00e9dia grega a Heidegger, de Shakespeare aos romancistas russos, at\u00e9 ao horr\u00edvel abismo do Holocausto. Recentemente tinha exprimido uma forte preocupa\u00e7\u00e3o pelo inquietante recrudescimento do populismo e do antissemitismo na Europa, fen\u00f3menos destinados \u2013 sublinhara \u2013 a minar e a destruir os equil\u00edbrios j\u00e1 prec\u00e1rios sobre os quais se apoia o velho continente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido de uma fam\u00edlia de judeus vienenses, para fugir \u00e0s garras do nazismo refugiou-se, em 1940, nos EUA, para depois se tornar cidad\u00e3o norte-americano. A carreira acad\u00e9mica foi caracterizada por algumas das c\u00e1tedras mais prestigiosas, em particular as de Princeton, Cambridge, Oxford e Genebra: os estudantes eram entusiastas das suas li\u00e7\u00f5es, ricas de doutrina, mas sempre facilmente fru\u00edveis. Como s\u00e3o de f\u00e1cil compreens\u00e3o os artigos redigidos para as maiores publica\u00e7\u00f5es internacionais. Foi o cr\u00edtico de ponta da revista \u201cNew Yorker\u201d, onde, na realidade, publicou aut\u00eanticos ensaios, obras-primas do g\u00e9nero, nos quais soube conjugar o ato da recens\u00e3o com a homenagem aos escritores em voga: um excelente misto de doutrina e humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido era tamb\u00e9m equilibrada a cr\u00edtica: podia ser severa e aguda, mas nunca irritante e ofensiva. Mesmo a palavra mais c\u00e1ustica era envolvida por um v\u00e9u de cortesia e eleg\u00e2ncia. E Steiner tinha uma venera\u00e7\u00e3o pela palavra. Sublinhava como nunca deixava de se espantar pelo uso que dela se pode fazer: \u00abA palavra humana pode usar-se para amar, construir e perdoar, mas tamb\u00e9m para torturar, destruir e aniquilar\u00bb, dizia.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Entre as obras mais conhecidas (escreveu mais de quarenta) inclui-se \u201cDepois de Babel\u201d, uma iluminadora reflex\u00e3o sobre a comunica\u00e7\u00e3o humana, entendida como ato cont\u00ednuo de tradu\u00e7\u00e3o, e \u201cNostalgia do absoluto\u201d, na qual responde \u00e0s perguntas da jornalista Laure Adler. Narrando-se a si mesmo e \u00e0 sua par\u00e1bola existencial, Steiner exprime neste livro uma convic\u00e7\u00e3o que pode emergir como manifesto do seu sentir e da sua singular, quanto intrigante, conce\u00e7\u00e3o do estar no mundo: \u00abPode estar-se na pr\u00f3pria casa em todo o lado. Deem-me uma mesa de trabalho, e ser\u00e1 a minha p\u00e1tria\u00bb. Mas a sua p\u00e1tria n\u00e3o era s\u00f3 a das letras, antes uma p\u00e1tria universal, que se liberta de todas as esc\u00f3rias sup\u00e9rfluas e poeirentas que podem derivar de uma cultura acad\u00e9mica encerrada numa torre de marfim e fechada aos influxos e solicita\u00e7\u00f5es do mundo exterior. De resto, Steiner era um europeu poliglota: podia escrever e falar em ingl\u00eas, alem\u00e3o, franc\u00eas e italiano.<\/p>\n<p>De not\u00e1vel valor s\u00e3o igualmente os seus ensaios sobre o fil\u00f3sofo e historiador h\u00fangaro Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, que, na reformula\u00e7\u00e3o em chave antidogm\u00e1tica e humanista da teoria marxista, tinha vincado o conceito \u2013 muito caro a Steiner \u2013 da aliena\u00e7\u00e3o do homem moderno na moderna sociedade capitalista. Uma aliena\u00e7\u00e3o que, segundo Steiner, se centrava no intelectual. Ele que, gra\u00e7as apenas a uma mesa de trabalho, se sentia cidad\u00e3o do mundo perfeitamente \u00e0 vontade, temia ao mesmo tempo que o homem de cultura n\u00e3o pudesse, num mundo marcado pela viol\u00eancia, pelos contrastes de classe e pela corrup\u00e7\u00e3o moral, encontrar a sua justa coloca\u00e7\u00e3o. E isto porque, precisamente por causa desses males da sociedade, era muito dif\u00edcil encontrar uma mesa de trabalho diante da qual se pudesse sentar e depois exprimir livremente, em papel, o seu pensamento.<\/p>\n<p>Steiner nunca compilou classifica\u00e7\u00f5es dos seus atores preferidos, que aos poucos estudava e examinava. Disto \u00e9 indicativo o ensaio \u201cTolstoi ou Dostoi\u00e9vski\u201d, no qual o cr\u00edtico n\u00e3o se coloca o objetivo de estabelecer uma supremacia entre ambos. O dado em que se apoia \u00e9 a complementaridade. Tolstoi instila no g\u00e9nero do romance a exemplaridade escult\u00f3rica da \u00e9pica hom\u00e9rica, enquanto Dostoi\u00e9vski nele reproduz o dinamismo tr\u00e1gico de Shakespeare. Uma complementaridade que se torna paradigma sobre o qual mede a subst\u00e2ncia e o valor dos romances de todos os outros escritores.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Gabriele Nicol\u00f3<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/il-canone-steiner\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: George Steiner | D.R.<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8077,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-8076","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8076"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8076\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8079,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8076\/revisions\/8079"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8077"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}