{"id":8056,"date":"2020-02-03T17:44:53","date_gmt":"2020-02-03T17:44:53","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8056"},"modified":"2020-02-03T17:44:53","modified_gmt":"2020-02-03T17:44:53","slug":"entrevista-jose-manuel-vidal-a-morte-digna-nao-e-a-que-encurta-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/entrevista-jose-manuel-vidal-a-morte-digna-nao-e-a-que-encurta-a-vida\/","title":{"rendered":"Entrevista | Jos\u00e9 Manuel Vidal &#8211; \u00abA morte digna n\u00e3o \u00e9 a que encurta a vida\u00bb"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do<a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/a_morte_digna_nao_e_a_que_encurta_a_vida.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> SNPC<\/a><\/h5>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong><span class=\"autor\">Jos\u00e9 Manuel Vidal*<\/span><\/strong><\/h4>\n<p>Desde que assumiu a presid\u00eancia do Conselho Pontif\u00edcio para a Fam\u00edlia, o arcebispo italiano Vincenzo Paglia tem apostado na recupera\u00e7\u00e3o, pela positiva, da defesa da fam\u00edlia e da vida. Nesse sentido, defende que \u00aba morte digna n\u00e3o \u00e9 a que encurta a vida\u00bb, e est\u00e1 convicto de que os Estados \u00abpromovem a eutan\u00e1sia por cegueira cultural\u00bb. Por isso, afirma que \u00aba Igreja nunca dir\u00e1 sim \u00e0 eutan\u00e1sia e ao suic\u00eddio assistido\u00bb. Entrevista ao respons\u00e1vel, a tr\u00eas semanas da discuss\u00e3o e vota\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia no parlamento portugu\u00eas, prevista para 20 de fevereiro, depois de na legislatura passada a sua legaliza\u00e7\u00e3o ter sido chumbada por cinco votos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Acaba de apresentar um congresso sobre cuidados paliativos, o que significa que o Vaticano considera que se trata de uma quest\u00e3o muito importante.<\/span><\/em><\/p>\n<p>Sim, trata-se de um congresso sobre cuidados paliativos organizado pela Academia Pontif\u00edcia para a Vida, a Cimeira Mundial de Inova\u00e7\u00e3o para a Sa\u00fade (WISH), do Qatar, e de um conhecido peri\u00f3dico cient\u00edfico ingl\u00eas, o British Medical Journal (BMJ). O tema dos cuidados paliativos \u00e9 fundamental neste momento nas tarefas da Academia Pontif\u00edcia para a Vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">O que se prop\u00f5e com esta iniciativa?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Propomos favorecer o crescimento de uma sensibilidade, ou, melhor, de uma cultura do cuidado perante o perigo de uma cultura do descarte, que \u00e9 o terreno fecundo para a eutan\u00e1sia e para o suic\u00eddio assistido. Neste sentido, a perspetiva dos cuidados paliativos, que tem em conta n\u00e3o s\u00f3 o doente, mas tamb\u00e9m a sua fam\u00edlia nos momentos finais da vida, \u00e9 uma das perspetivas mais urgentes na sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Porqu\u00ea?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Porque est\u00e1 a aumentar o n\u00famero de idosos, aumentam as doen\u00e7as cr\u00f3nicas, aumenta, portanto, a esperan\u00e7a de vida. Se tudo isto desaparece num horizonte de solid\u00e3o, torna-se algo terr\u00edvel, um aut\u00eantico inferno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Da\u00ed a import\u00e2ncia dos cuidados paliativos.<\/span><\/em><\/p>\n<p>Efetivamente. Da\u00ed a import\u00e2ncia de promover os cuidados paliativos, para cuidar dos doentes a 360 graus, incluindo o aspeto espiritual, humano, social e familiar. Por isso acreditamos que esta perspetiva \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o de humanidade, para fazer que os \u00faltimos tempos da nossa vida terrena n\u00e3o sejam momentos de dor nem de abandono, mas tempos em que a dor possa ser, inclusivamente, derrotada, e, sobretudo, que o acompanhamento possa ser real e efetivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Quando a Igreja se pronuncia desta forma, alguns acusam-na de opor-se \u00e0 morte digna.<\/span><\/em><\/p>\n<p>A morte digna n\u00e3o \u00e9 a que encurta a vida. A morte digna \u00e9 deixar viver e acompanhar quem est\u00e1 a passar pelos \u00faltimos momentos da sua exist\u00eancia com a ora\u00e7\u00e3o, apertando-lhe a m\u00e3o, mostrando-lhe afeto, acariciando-o e sem o deixar s\u00f3. Porque a dignidade \u00e9 isto. A dignidade n\u00e3o \u00e9 gozar de boa sa\u00fade, porque ningu\u00e9m goza de uma sa\u00fade perfeita. Quando n\u00e3o nos d\u00f3i o est\u00f4mago, queixamo-nos dos dentes\u2026 Por isso, quando estamos doentes, nem por isso temos menos dignidade. A dignidade \u00e9 estender a m\u00e3o, sempre. Ou seja, n\u00e3o existe uma dignidade s\u00f3 individual. A dignidade \u00e9 estar uns ao lado dos outros, querendo-nos bem, perdoando-nos, quando h\u00e1 problemas. A dignidade \u00e9 a fraternidade humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">O que diz aos que prop\u00f5em que, chegado a determinado momento da vida, algu\u00e9m, na sua plena consci\u00eancia, pode decidir p\u00f4r fim \u00e0 sua vida?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Direi que lamento que haja pessoas que se suicidem. Para mim, o suic\u00eddio \u00e9 uma derrota da sociedade, porque o suic\u00eddio \u00e9 sempre uma peti\u00e7\u00e3o de amor n\u00e3o atendida, ou pode ser tamb\u00e9m uma resposta inapropriada \u00e0 demanda de amor de outra pessoa. Temos de estar atentos, porque a quem decide tirar a sua vida podemos convenc\u00ea-lo de que \u00e9 importante para n\u00f3s e para outras pessoas. E n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido nem honrado dizer que \u00abeu j\u00e1 n\u00e3o aguento mais\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Porque \u00e9 que os Estados n\u00e3o veem isso?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Os Estados n\u00e3o podem fazer tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Mas porque promovem a eutan\u00e1sia?<\/span><\/em><\/p>\n<p>A meu ver, por cegueira cultural. Estou absolutamente convencido de que o que se passa \u00e9 que h\u00e1 o primado de um falso conceito de dignidade, de liberdade e de autonomia. Temos que trabalhar, portanto, para que todos possamos viver as rela\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas, que s\u00e3o indispens\u00e1veis para uma vida em plenitude.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">A Igreja nunca vai dizer sim \u00e0 eutan\u00e1sia?<\/span><\/em><\/p>\n<p>A Igreja nunca dir\u00e1 sim \u00e0 eutan\u00e1sia nem ao suic\u00eddio assistido. Porque n\u00f3s dizemos sim ao amor. A Igreja n\u00e3o pode fazer o jogo sujo da morte. Que a morte o fa\u00e7a. N\u00f3s temos outro trabalho para fazer. \u00c9 verdade que n\u00e3o podemos impedir que a morte fa\u00e7a o seu processo, mas aceler\u00e1-lo, n\u00e3o. N\u00e3o podemos, porque estar\u00edamos a atentar contra o humano, e tamb\u00e9m contra Deus. Neste sentido, temos de descobrir a beleza do estarmos juntos, a beleza de nos manteremos unidos. Desta forma, derrota-se o medo da solid\u00e3o, do sofrimento, e, portanto, desse falso desejo de querer acabar com a vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Todavia, h\u00e1 cada vez mais pessoas s\u00f3s, sobretudo nas grandes cidades.<\/span><\/em><\/p>\n<p>Por isso digo que se trata de uma derrota da sociedade. E, por isso, digo tamb\u00e9m que dever\u00edamos estar muito preocupados pela solid\u00e3o que reina nas nossas cidades. E n\u00e3o se trata s\u00f3 de um problema dos governantes ou dos legisladores. \u00c9 um problema de todos, incluindo a Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Em que sentido \u00e9 um problema tamb\u00e9m da Igreja?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Porque pode acontecer que na Igreja haja uma viv\u00eancia individualista do cristianismo, na qual cada um s\u00f3 pensa em salvar a sua alma. Isto n\u00e3o \u00e9 Evangelho. Temos de nos salvar juntos, como povo. Aquele que pensa s\u00f3 em si mesmo n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o. Este v\u00edrus individualista, que est\u00e1 a infetar inclusivamente o cristianismo, \u00e9 algo terr\u00edvel. E, por isso, o papa Bento perguntava-se: \u00abComo \u00e9 poss\u00edvel que os crist\u00e3os pensem que se podem salvar sozinhos?\u00bb. Esse \u00e9 um exame de consci\u00eancia que temos de fazer. Porque podemos estar a pensar que, com essa atitude, estamos a viver uma suposta espiritualidade, que, na realidade, n\u00e3o o \u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">A fam\u00edlia goza de boa sa\u00fade?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Em todas os inqu\u00e9ritos dos \u00faltimos anos constata-se isto: a fam\u00edlia (pai, m\u00e3e, filhos) \u00e9 a realidade que mais sustenta a sociedade. Se a sociedade se debilitou, \u00e9 porque tamb\u00e9m se debilitaram os v\u00ednculos familiares. A meu ver, faz falta uma reflex\u00e3o teol\u00f3gico-espiritual sobre a fam\u00edlia, entendida em todas as suas articula\u00e7\u00f5es e v\u00ednculos. Muitas vezes dedic\u00e1mo-nos s\u00f3 a refletir sobre o homem e a mulher, o marido e a esposa. E sobre este tema escrevemos rios de tinta. Em contrapartida, escreveu-se pouco sobre a fraternidade, sobre a irmandade, sobre a rela\u00e7\u00e3o com os idosos ou com os familiares. Ou sobre a tarefa social da fam\u00edlia, para criar uma sociedade mais familiar. Este \u00e9 um dos maiores desafios que tem diante de si o novo Instituto para a Fam\u00edlia Jo\u00e3o Paulo II.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Terminaram-se os problemas no Instituto para a Fam\u00edlia Jo\u00e3o Paulo II?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Terminaram-se alguns problemas que, a meu ver, eram pretensiosos. Agora, come\u00e7a para o Instituto o grande desafio de como promover uma cultura ampla da fam\u00edlia em rela\u00e7\u00e3o com a Igreja e com a sociedade. Neste contexto, s\u00e3o importantes algumas novas indica\u00e7\u00f5es, que se correspondem com algumas novas mat\u00e9rias curriculares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span class=\"it\">Qual \u00e9 o objetivo final das mudan\u00e7as no Instituto para a Fam\u00edlia?<\/span><\/em><\/p>\n<p>Demo-nos conta de que \u00e9 muito importante dar fundamento teol\u00f3gico aos afetos. Da\u00ed, a teologia fundamental dos afetos. E n\u00e3o s\u00f3 os afetos morais. Compreendemos a necessidade de um v\u00ednculo mais estreito entre Igreja e fam\u00edlia, que n\u00e3o podem estar separadas, a import\u00e2ncia da transmiss\u00e3o da f\u00e9 e das tradi\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da fam\u00edlia, a import\u00e2ncia de conhecer as diversas tradi\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas. Estamos, portanto, ante uma nova componente jur\u00eddica das diversas tradi\u00e7\u00f5es sobre a fam\u00edlia. Descobrimos, por exemplo, a import\u00e2ncia de tratar o tema da pol\u00edtica e da economia em rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia. Descobrimos a import\u00e2ncia da dimens\u00e3o hist\u00f3rica dos afetos, e n\u00e3o s\u00f3 encerrar o amor na restringida perspetiva rom\u00e2ntica, que, muitas vezes, \u00e9 s\u00f3 sentimental e emotiva, e n\u00e3o hist\u00f3rica e construtora de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\"><br \/>\n*In <a href=\"https:\/\/www.religiondigital.org\/opinion\/Monsenor-Vincenzo-Paglia-eutanasia-vida-paliativos_0_2198480154.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Religi\u00f3n Digital<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins:<br \/>\nImagem: Chinnapong\/Bigstock.com<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8057,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[146,13],"tags":[],"class_list":["post-8056","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8056","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8056"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8056\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8060,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8056\/revisions\/8060"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}