{"id":8004,"date":"2020-02-07T08:00:08","date_gmt":"2020-02-07T08:00:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=8004"},"modified":"2020-02-05T08:11:34","modified_gmt":"2020-02-05T08:11:34","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-a-eutanasia-legalizada-matar-nos-a-a-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-a-eutanasia-legalizada-matar-nos-a-a-todos\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | A eutan\u00e1sia legalizada matar-nos-\u00e1 a todos"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/h4>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7998 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"166\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-739x1024.jpg 739w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-217x300.jpg 217w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-768x1064.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-600x831.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1109x1536.jpg 1109w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1478x2048.jpg 1478w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1200x1662.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-850x1178.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-480x665.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-1320x1829.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Foto-Lu\u00eds-scaled.jpg 1848w\" sizes=\"auto, (max-width: 166px) 100vw, 166px\" \/>O t\u00edtulo \u00e9 dram\u00e1tico, mas a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para menos. Temos vindo a assistir ao emergir de um tsunami ideol\u00f3gico que tem feito subir o mar da indiferen\u00e7a, sem que nos apercebamos de nos estar a submergir.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Na verdade, se \u00e9 certo que n\u00e3o h\u00e1 dores n\u00e3o trat\u00e1veis, que a resposta para as fases terminais de doen\u00e7as graves passa pela melhoria dos cuidados paliativos, que a alternativa \u00e0 eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 ter de suportar dores incomport\u00e1veis, que a eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 um ato m\u00e9dico, mas um ato de matar, que o prolongamento indevido da vida \u00e0 maneira de um \u00abencarni\u00e7amento terap\u00eautico\u00bb \u00e9 um erro \u00e9tico, ent\u00e3o, a que se deve esta obsess\u00e3o de legalizar a morte a pedido, realizada com o contributo dos t\u00e9cnicos de sa\u00fade, pondo em causa que se \u00e9 m\u00e9dico ou enfermeiro para curar e cuidar?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">E a resposta vai sempre bater ao mesmo s\u00edtio. Argumenta-se que legalizar a eutan\u00e1sia s\u00f3 afeta os que a pedem. E isso, mais uma vez, n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Ningu\u00e9m nasce sozinho como ningu\u00e9m morre sozinho; ningu\u00e9m enriquece sozinho como ningu\u00e9m empobrece sozinho; ningu\u00e9m se educa sozinho como ningu\u00e9m se torna rebelde sozinho; ningu\u00e9m se cria sozinho como ningu\u00e9m se destr\u00f3i sozinho; ningu\u00e9m se torna humano sozinho como tamb\u00e9m ningu\u00e9m se desumaniza sozinho. Somos seres em e de rela\u00e7\u00e3o. O que fazemos aos outros afeta-nos a n\u00f3s; o que nos fazem a n\u00f3s afeta os outros; o que, tamb\u00e9m, fazemos a n\u00f3s pr\u00f3prios repercute-se nos outros.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u00c9 o mesmo Estado que pretende legalizar a eutan\u00e1sia, a pretexto de ser uma decis\u00e3o individual, aquele que se sente legitimado para nos punir se n\u00e3o utilizamos cinto de seguran\u00e7a, quando, na verdade, supostamente, s\u00f3 a n\u00f3s mesmos nos penalizamos se n\u00e3o o usarmos. Mas, aqui, o Estado \u2013 e bem! \u2013 quer dar o sinal de que temos a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o nos fazermos mal ou de n\u00e3o descuidarmos a nossa pr\u00f3pria prote\u00e7\u00e3o. Porqu\u00ea, ent\u00e3o, abandonar-nos \u00e0 dramaticidade de decidirmos sobre a antecipa\u00e7\u00e3o da morte, num momento t\u00e3o dram\u00e1tico como o da maior fragilidade em face da doen\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u00c9 este mesmo Estado que, agora, se prop\u00f5e legitimar a morte efetiva, com o pretexto de ser mat\u00e9ria meramente individual.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 verdade que seja mat\u00e9ria meramente individual.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia faz recair sobre todos os que se sentem em situa\u00e7\u00e3o de maior fragilidade a suspeita de que a sociedade os quer ver mortos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Se a eutan\u00e1sia for legalizada, todo o doente em fase terminal, que morrer de modo natural, ter\u00e1 sido, durante os seus anos de vida, um sobrevivente \u00e0 lei. E isso n\u00e3o poder\u00e1 sen\u00e3o significar que a lei \u00e9 inumana.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">S\u00f3 se compreende esta vertigem individualista \u00e0 luz do emergir do tal \u00abtsunami ideol\u00f3gico\u00bb que se vai apoderando das nossas sociedades ocidentais: um tsunami que d\u00e1 pelo nome de \u00ablibertarismo\u00bb. O movimento libert\u00e1rio \u00e9 transversal \u00e0 direita e \u00e0 esquerda e define-se como a sustenta\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o de que, em primeiro lugar, est\u00e1 o indiv\u00edduo, que se define como autossuficiente e insuscet\u00edvel de qualquer limita\u00e7\u00e3o por parte dos demais. \u00c9 bom que se tenha a consci\u00eancia de que o movimento libert\u00e1rio n\u00e3o se limita a sustentar a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, da eutan\u00e1sia, da prostitui\u00e7\u00e3o, etc. A sua inten\u00e7\u00e3o vai bem mais longe e, por isso, como muito bem observa Michael Sandel, no seu livro \u00abJusti\u00e7a: fazemos o que devemos?\u00bb (editado pela Presen\u00e7a), \u00e9 uma vis\u00e3o que perpassa todos os quadrantes pol\u00edticos: no limite, o libertarismo defende a ideia de \u00abautopropriedade\u00bb e que o que for consentido \u00e9 leg\u00edtimo, sendo que o que n\u00e3o for explicitamente consentido n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo: a pr\u00f3pria venda de \u00f3rg\u00e3os pr\u00f3prios, se consentida, pode ser leg\u00edtima; j\u00e1 a aplica\u00e7\u00e3o de qualquer imposto, se n\u00e3o for consentida, \u00e9 inaceit\u00e1vel para o libert\u00e1rio: prop\u00f5e, por isso, o fim todos os impostos e que, quem \u00e9 rico, fique com tudo o que recebe, pois, se o conquistou pela sua liberdade, com que legitimidade v\u00eam outros (o Estado) retirar-lhe o que \u00e9 seu?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Este mesmo libertarismo legitima, no limite, comportamentos como o do canibal de Rotemburgo (2001) em que dois adultos acordaram que um mataria e devoraria o outro, sob pretexto de que era uma decis\u00e3o entre duas pessoas livres.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u00c9 esta a vis\u00e3o de sociedade que pretendemos defender?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Mas \u00e9 esta a vis\u00e3o que se prop\u00f5em defender os libert\u00e1rios que reivindicam que a morte de um humano \u00e9 assunto s\u00f3 seu. Se a morte de um humano for assunto que s\u00f3 a si diz respeito, tamb\u00e9m a vida deixar\u00e1 de merecer a preocupa\u00e7\u00e3o e cuidado de todos. N\u00e3o \u00e9 esta a presun\u00e7\u00e3o que assistiu \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos e n\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, a que sustenta a vis\u00e3o de Estado Social que, paradoxalmente, dizem defender muitos dos que se associam \u00e0 tentativa de legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia. Se esta for legalizada, como acontece nos pa\u00edses que j\u00e1 o fizeram, todos os que regressarmos a casa depois de uma fase grave de doen\u00e7a, seremos sobreviventes de uma guerra silenciosa que se travar\u00e1 nos hospitais nacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00f3 a dramatiza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es poder\u00e1 despertar as consci\u00eancias para o que est\u00e1 em causa. Os que querem que se morra n\u00e3o podem matar com eles os que querem que se viva.<\/span><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230;&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Comfreak-51581\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=845848\">Comfreak<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=845848\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8005,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,146,55,13],"tags":[],"class_list":["post-8004","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8004","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8004"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8004\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8010,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8004\/revisions\/8010"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8004"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8004"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8004"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}