{"id":7983,"date":"2020-01-30T22:42:08","date_gmt":"2020-01-30T22:42:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7983"},"modified":"2020-01-30T22:46:20","modified_gmt":"2020-01-30T22:46:20","slug":"joao-cesar-das-neves-o-busilis-da-questao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/joao-cesar-das-neves-o-busilis-da-questao\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves | O bus\u00edlis da quest\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h4><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-327 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/GetResource.gif\" alt=\"\" width=\"163\" height=\"223\" \/>Por que raz\u00e3o tanta gente pretende hoje usar a lei para matar outros? Esta quest\u00e3o est\u00e1 na ordem do dia, embora n\u00e3o seja referida assim na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao facto em si, ele \u00e9 indiscut\u00edvel. Portugal assistiu durante v\u00e1rias d\u00e9cadas a uma enorme press\u00e3o para liberalizar o aborto, que teve sucesso em 2007, passando a mesma m\u00e1quina a ser dirigida para a promo\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, processo que permanece. Em ambos os casos \u00e9 indubit\u00e1vel que est\u00e1 em causa a morte de seres humanos, ali\u00e1s em situa\u00e7\u00f5es de especial fragilidade: embri\u00f5es, doentes ou idosos. Por outro lado, \u00e9 tamb\u00e9m incontroverso que o tema pr\u00f3prio dessas campanhas \u00e9 legal, pretendendo-se a permiss\u00e3o, facilita\u00e7\u00e3o e at\u00e9 promo\u00e7\u00e3o e subsidia\u00e7\u00e3o legislativa dessas mortes. Assim a quest\u00e3o candente do momento \u00e9 mesmo esta: porque se quer usar a lei para matar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paradoxo impl\u00edcito adv\u00e9m de o nosso pa\u00eds se orgulhar de ter sido o primeiro povo europeu a recusar a execu\u00e7\u00e3o legal de condenados, abolindo a pena de morte em 1852. Como \u00e9 poss\u00edvel que a sociedade que se adiantou \u00e0s demais na elimina\u00e7\u00e3o da morte legal como castigo, esteja agora ansiosamente a promover a ado\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o fatal para pessoas inocentes, muitas delas no in\u00edcio da vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando encontramos contradi\u00e7\u00f5es destas, \u00e9 sempre importante tentar entender as raz\u00f5es do lado oposto. Quem faz isto, para mais de forma t\u00e3o intensa e apaixonada, tem certamente raz\u00f5es ponderosas. N\u00e3o s\u00e3o loucos, monstros ou desmiolados a propor medidas t\u00e3o extremas. O maior drama dos debates contempor\u00e2neos sobre quest\u00f5es fraturantes \u00e9 precisamente eles se transformarem em di\u00e1logos de surdos, onde cada lado repete as suas raz\u00f5es sem ouvir mais nada. \u00c9 fundamental manter um debate civilizado e construtivo, para mais em temas t\u00e3o decisivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lado que se op\u00f5e ao aborto e eutan\u00e1sia tem uma posi\u00e7\u00e3o simples e clara: afirma que a lei tem de, antes de mais nada, proteger o direito \u00e0 vida de todos os cidad\u00e3os, n\u00e3o permitindo nunca que algu\u00e9m a destrua, qualquer que seja o interesse envolvido, exceto se estiver em jogo outra vida, na leg\u00edtima defesa. O lado oposto promove estas mortes em nome da liberdade. \u00c9 a liberdade da mulher, do doente, do idoso que \u00e9 sempre invocada nestas quest\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que todas as pessoas civilizadas est\u00e3o conscientes que, sendo os dois muitos importantes, o direito \u00e0 vida \u00e9 anterior e superior ao direito \u00e0 liberdade, pois a segunda n\u00e3o pode existir sem a primeira. Existem alguns fan\u00e1ticos que desafiam este consenso, mas s\u00e3o aberrantes sem real influ\u00eancia. A grande maioria dos participantes, de ambos os lados, concordam que a vida \u00e9 essencial, pelo menos t\u00e3o importante quanto a liberdade, tamb\u00e9m ela indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos aqui ao bus\u00edlis da quest\u00e3o. A defesa do aborto e eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel sem um segundo elemento essencial: a nega\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e0 v\u00edtima. Quem defende a liberaliza\u00e7\u00e3o destas pr\u00e1ticas implicitamente considera que o embri\u00e3o ou o doente n\u00e3o t\u00eam direitos plenos de cidadania. Assim, a quest\u00e3o que divide est\u00e1 na atribui\u00e7\u00e3o de humanidade aos sujeitos. Enquanto um lado acha que se est\u00e3o a matar crian\u00e7as ou doentes, o outro diz que se trata de um amontoado de c\u00e9lulas ou vidas que j\u00e1 n\u00e3o vale a pena viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ponto \u00e9 decisivo, porque est\u00e1 sempre por detr\u00e1s de todos os debates essenciais. Ao longo dos s\u00e9culos, os defensores da escravatura, racismo, xenofobia, pena de morte, campos de concentra\u00e7\u00e3o e afins n\u00e3o foram monstros, mas pessoas que negavam a humanidade de negros, judeus, condenados, crist\u00e3os e tantos outros. A nega\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e9 o verdadeiro bus\u00edlis da quest\u00e3o.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor catedr\u00e1tico de Economia<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/jclk8888-894784\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=699486\">James Chan<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=699486\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7985,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,53,146,13],"tags":[],"class_list":["post-7983","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-joao-cesar-das-neves","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7983","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7983"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7983\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7994,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7983\/revisions\/7994"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7985"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}