{"id":7979,"date":"2020-01-30T22:29:27","date_gmt":"2020-01-30T22:29:27","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7979"},"modified":"2020-03-17T13:28:46","modified_gmt":"2020-03-17T13:28:46","slug":"edith-stein-ii-a-concecao-catolica-da-natureza-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/edith-stein-ii-a-concecao-catolica-da-natureza-humana\/","title":{"rendered":"Edith Stein | II &#8211; A Conce\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica da Natureza Humana"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Edith Stein*<\/h4>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Vamos acompanhar Edith Stein na confer\u00eancia que proferiu a 5 de Janeiro de 1933 por ocasi\u00e3o de um curso do Instituto alem\u00e3o para a pedagogia cient\u00edfica, que pretendia assinalar os princ\u00edpios gerais de uma pedagogia cat\u00f3lica. O tema do curso era: \u201c<em>Die Katolische P\u00e4dagogik in ihren Grundlagen und in ihrer Bedeutung, A pedagogia cat\u00f3lica e os seus fundamentos e significado\u201d. <\/em><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Dez dias depois da confer\u00eancia escrever\u00e1 a uma amiga e faz a avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da sua interven\u00e7\u00e3o como conferencista: <em>\u201cVisto desde fora, considero que foi um \u00eaxito e estou muito agradecida a todos os que ajudaram com a sua ora\u00e7\u00e3o. Qual seja o efeito que produzir\u00e1 a seu tempo, \u00e9 algo que escapa ao nosso conhecimento. Foram dias esgotantes que claramente me manifestam a grande responsabilidade que \u00e9 a tarefa que temos\u201d (Ct 343).\u00a0 <\/em><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\"><em>O texto que apresentamos baseia-se no texto aut\u00f3grafo e nas mencionadas publica\u00e7\u00f5es alem\u00e3s. O texto est\u00e1 dividido em quatro subtemas e a introdu\u00e7\u00e3o: <\/em>Significado da f\u00e9 e das verdades da f\u00e9 para a ideia e o trabalho da forma\u00e7\u00e3o; I \u2013A conce\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica da natureza humana; II \u2013 O Fim do Homem; III \u2013 Os chamados a serem formadores da juventude; IV \u2013 O processo de forma\u00e7\u00e3o da juventude.<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6740 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/id_edith_stein_3.jpg\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"245\" \/><\/p>\n<p><strong>A Conce\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica da Natureza Humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fundamental import\u00e2ncia para a conce\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a ideia de homem que \u2013 explicitada teoricamente ou proposta de modo ing\u00e9nuo \u2013 domina o pedagogo. Para quem pensa que o homem est\u00e1 totalmente corrompido e \u00e9 incapaz de naturalmente fazer o bem, a educa\u00e7\u00e3o do ser humano por parte do ser humano como rendimento puramente natural parece imposs\u00edvel. O ser humana, atravessado pelo pecado at\u00e9 \u00e0s suas ra\u00edzes mais profundas, n\u00e3o pode educar nem ser educado. Para quem acredita na bondade da natureza humana a educa\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 ou totalmente sup\u00e9rflua \u2013 dado o pressuposto natural de que a natureza se desenvolve por si mesma \u2013 e a sua tarefa \u00e9 dominar o \u201cdeixar crescer\u201d; ou ser\u00e1 uma atividade bastante f\u00e1cil e agrad\u00e1vel: n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio mais do que um ensinamento e de um correcto plano de actividades, para alcan\u00e7ar a perfeita forma\u00e7\u00e3o do homem, estamos diante do otimismo da pedagogia da ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conce\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica est\u00e1 no meio destes dois extremos. Para ela o objecto da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201co homem na sua totalidade\u2026 o esp\u00edrito unido ao corpo na unidade da natureza, com todas as suas faculdades naturais e sobrenaturais, tal como o conhecemos por meio da raz\u00e3o e da revela\u00e7\u00e3o; quer dizer, o homem ca\u00eddo do seu estado original paradis\u00edaco, que por meio de Cristo foi redimido e reintegrado novamente no seu estado de filho adotivo de Deus, contudo, n\u00e3o nas prerrogativas sobrenaturais da imortalidade do corpo e da integridade ou harmonia das suas inclina\u00e7\u00f5es. Na natureza humana ficam as consequ\u00eancias do pecado original, sobretudo a debilidade da vontade e dos instintos desordenados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 o fundamento que temos que ter em conta: o homem era originalmente bom; a sua natureza perverteu-se pelo pecado original, mas n\u00e3o totalmente de modo a perder todas as suas capacidades naturais; por meio da Reden\u00e7\u00e3o de Cristo foi libertado o caminho que conduz \u00e0 filia\u00e7\u00e3o divina, e com isto foi aberta a oportunidade de uma reinstaura\u00e7\u00e3o da \u201cjusti\u00e7a\u201d origin\u00e1ria. Mas o homem redimido n\u00e3o recuperou apenas o estado origin\u00e1rio; nele permanece a \u201cfomes pecati\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>; todo o seu caminho neste mundo \u00e9 uma luta contra a corru\u00e7\u00e3o da sua natureza e uma luta pela \u201cjusti\u00e7a\u201d, uma luta que conduz o pr\u00f3prio ser humano segundo a sua livre vontade; mas uma luta em que ao mesmo tempo, a gra\u00e7a de Deus est\u00e1 a atuar nele e por ele, e que realiza o essencial: \u00e9 esta que a que definitivamente conduz o homem \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o na gl\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os alunos e educadores s\u00e3o seres humanos \u201cin statu viae\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Clarifiquemos um pouco mais como a natureza humana est\u00e1 \u201cem estado de viandantes\u201d. Corpo e alma s\u00e3o uma unidade: o esp\u00edrito necessita do corpo como instrumento de conhecimento \u2013 uma vez que o conhecimento humano se baseia nos dados dos sentidos, e consequentemente est\u00e1 ligada aos \u00f3rg\u00e3os corporais \u2013 e como instrumento das suas ac\u00e7\u00f5es; mas este instrumento indispens\u00e1vel \u00e9 ao mesmo tempo um impedimento: os sentidos est\u00e3o submetidos ao engano; as debilidades e doen\u00e7as do corpo obstaculizam o esp\u00edrito \u00e0 hora de levar por diante os seus projetos; e as necessidades do corpo for\u00e7am o esp\u00edrito no seu servi\u00e7o; \u00e9 pr\u00f3prio da natureza ca\u00edda que os instintos corp\u00f3reo-sensoriais n\u00e3o queiram subordinar-se ao esp\u00edrito, que anseiem o dom\u00ednio e, se cedemos, que sufoquem a vida espiritual superior. O homem \u00e9 capaz de conhecer, mas est\u00e1 submetido ao erro: se d\u00e1 f\u00e9 acriticamente ao que os sentidos lhe apresentam, e se n\u00e3o procede segundo as leis do pensamento. O homem tem conhecimento do bem, e a sua consci\u00eancia diz-lhe, em casos concretos, o que tem que fazer. Mas a vontade nem sempre tende ao que foi compreendido como um bem; deixa-se determinar pelos instintos sens\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo este estado \u00e9 um estado de suspens\u00e3o. Os perigos assinalados existem de facto; mas em nenhum caso o homem tem que se deixar dominar por eles; diante de todos os perigos tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o meios de ajuda naturais e tem a liberdade de os usar: pode exercer a cr\u00edtica perante os sentidos ou diante dos processos intelectuais, pode dominar os instintos ou ceder-lhes, pode aspirar ao conhecimento do bem e realiz\u00e1-lo. Todas estas possibilidades subsistem tamb\u00e9m para quem n\u00e3o foi redimido, mas \u00e9 inveros\u00edmil, se n\u00e3o praticamente imposs\u00edvel, que este seja capaz de escapar a todos os perigos. Inclusive o homem em estado de gra\u00e7a vive um estado de suspens\u00e3o, mas est\u00e1 protegido pela for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, de tal modo que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil que sucumba ao perigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que defini como estado de suspens\u00e3o \u2013 a liberdade de escolher entre diversas possibilidades \u2013 d\u00e1-nos um ponto de apoio para o trabalho educativo do homem. A liberdade torna a educa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, mas tamb\u00e9m necess\u00e1ria: conseguir a gra\u00e7a, e permanecer e progredir nela depende da colabora\u00e7\u00e3o do ser humano. Que o trabalho educativo tenha que ser exercido em primeiro lugar sobre os outros, est\u00e1 fundamentado na ordem origin\u00e1ria do mundo do homem, que fez o primeiro homem perfeito no seu ser, mas para as gera\u00e7\u00f5es seguintes, previu a sua procria\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o por homens \u201cmaduros\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho educativo \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o no estado de suspens\u00e3o, para desde a\u00ed levar a que a escolha se fa\u00e7a sempre de forma correta. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio um conhecimento profundo do pr\u00f3prio estado de suspens\u00e3o (quer dizer da natureza humana em statu viae, da situa\u00e7\u00e3o particular concreta do aluno, finalmente da situa\u00e7\u00e3o concreta do educador, na sua condi\u00e7\u00e3o de viandante, que deve conhecer claramente o que deve desempenhar na sua fun\u00e7\u00e3o de educador); al\u00e9m disso \u00e9 necess\u00e1rio um crit\u00e9rio para o conhecimento da decis\u00e3o correta, quer dizer, claridade sobre qual \u00e9 o fim do ser humano; finalmente conhecimento e \u2013 quanto seja poss\u00edvel \u2013 dom\u00ednio dos meios e caminhos que possam conduzir \u00e0 meta. \u201cNa medida do poss\u00edvel\u201d, de tudo o que j\u00e1 se disse sobre o statu viae \u00e9 poss\u00edvel deduzir que n\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o humana sem ter em conta a condi\u00e7\u00e3o humana de status viae; isto porque, por um lado, n\u00e3o existe nenhuma seguran\u00e7a definitiva contra a debilidade, a doen\u00e7a, o engano, o erro e o pecado; por outro lado, porque tamb\u00e9m o educador no seu trabalho educativo permanece submetido a estas car\u00eancias. Converter o estado de suspens\u00e3o em \u201cstatus termini\u201d s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de passar \u00e0 considera\u00e7\u00e3o do fim, queremos apresentar ainda o satus viae noutro sentido: o satus viae n\u00e3o diz apenas respeito ao individuo humano considerado isoladamente. O pecado original foi um afastamento do ser humano de Deus, e a sua consequ\u00eancia foi uma perturba\u00e7\u00e3o da ordem de todo o universo. O homem pecador est\u00e1 em rebeli\u00e3o contra Deus, e a cria\u00e7\u00e3o inteira est\u00e1 em rebeli\u00e3o contra ele, que se lhe quer impor na luta contra ela. Em lugar de um temor reverencial pelas criaturas, aprovando-as no que s\u00e3o e procurando preserv\u00e1-las e socorre-las, entrou no plano da sua explora\u00e7\u00e3o em favor de si pr\u00f3prio, o que se estende aos pr\u00f3prios semelhantes, mesmo quando a natural \u201csimpatia\u201d n\u00e3o foi suprimida. O homem em estado de gra\u00e7a regressou \u00e0 rela\u00e7\u00e3o filial com Deus, e nele abriu-se o olhar voltado para os outros enquanto criaturas de Deus e filhos de Deus. Mas tamb\u00e9m na sua rela\u00e7\u00e3o com o Senhor e com o mundo, se encontra numa situa\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o. Permanece a possibilidade da queda, permanece a concupisc\u00eancia, o ego\u00edsmo, a sede de poder. A chegada da ordem justa ao homem significa, ao mesmo tempo, a chegada da ordem justa ao mundo, em particular \u00e0 vida social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">*Edith Stein, <em>La Formaci\u00f3n de la Juventud a la Luz de la f\u00e9 Cat\u00f3lica<\/em>, <em>Obras Completas IV, Escritos Antropol\u00f3gicos y pedag\u00f3gicos<\/em>. Coeditores: Espiritualidad \u2013 Monte Carmelo \u2013 El Carmen, 2003. Pp 425-428.<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u201cInclina\u00e7\u00e3o para o pecado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cEm estado de viandantes ou em peregrina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/aitoff-388338\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1665061\">Andrew Martin<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1665061\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7981,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,133,150,13],"tags":[],"class_list":["post-7979","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-duas-asas","category-edith-stein","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7979","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7979"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7979\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7982,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7979\/revisions\/7982"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7981"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}