{"id":7684,"date":"2019-12-19T12:10:19","date_gmt":"2019-12-19T12:10:19","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7684"},"modified":"2020-03-17T13:29:16","modified_gmt":"2020-03-17T13:29:16","slug":"edith-stein-natal-iii-meios-de-salvacao-que-o-natal-oferece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/edith-stein-natal-iii-meios-de-salvacao-que-o-natal-oferece\/","title":{"rendered":"Edith Stein | Natal [III] &#8211; Meios de salva\u00e7\u00e3o que o Natal oferece"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Edith Stein*<\/h4>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>[III parte]<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6743 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/id_edith_stein.jpg\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"273\" \/>Mas podemos dizer ainda esse \u00abfa\u00e7a-se a tua vontade\u00bb quando n\u00e3o possu\u00edmos nenhuma certeza do que a vontade de Deus exige de n\u00f3s? Temos ainda alguns meios para permanecer nos seus caminhos, quando a luz interior se extingue? Efetivamente, h\u00e1 meios, e t\u00e3o poderosos, que o desviar-se do caminho tra\u00e7ado, por muitas possibilidades que haja, torna-se absolutamente improv\u00e1vel. Deus veio ao mundo precisamente para nos salvar: para nos unir consigo e nos unir com os outros, para conformar o nosso querer com o seu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele conhece a nossa natureza, e conta com ela, e por isso disp\u00f4s todas as coisas para nos ajudar a alcan\u00e7ar a meta. O divino Menino tornou-se nosso Mestre e disse-nos o que devemos fazer. N\u00e3o basta ajoelhar-se uma vez por ano diante do pres\u00e9pio, e deixar-se vencer pela magia da Noite Santa para que toda uma vida humana seja invadida pela vida divina. Para obter esta plena compenetra\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio manter durante toda a vida uma rela\u00e7\u00e3o di\u00e1ria com Deus, escutar a Palavra que Ele pronunciou e que nos foi transmitida, e ater-se a esta Palavra. Sobretudo rezar, como o pr\u00f3prio Salvador nos ensinou e sempre t\u00e3o insistentemente recomendou. \u00abPedi e recebereis\u00bb. Esta \u00e9 a promessa certa que veremos atendida. E quem cada dia reza com o cora\u00e7\u00e3o o seu \u00abSenhor, fa\u00e7a-se a tua vontade\u00bb pode crer que n\u00e3o desfalecer\u00e1 na obedi\u00eancia \u00e0 vontade de Deus, mesmo quando lhe falte uma certeza subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, Cristo n\u00e3o nos deixou \u00f3rf\u00e3os. Enviou o seu Esp\u00edrito para nos ensinar todas as coisas; fundou a sua Igreja, guiada pelo seu Esp\u00edrito, e p\u00f4s nela os seus representantes, pela boca dos quais o seu Esp\u00edrito continua a falar-nos com palavras humanas. Nela reuniu os crentes em comunidade, e quer que cada um responda pelo outro. Deste modo, n\u00e3o nos deixou s\u00f3s; e quando faltar a confian\u00e7a no pr\u00f3prio discernimento, e mesmo a f\u00e9 na pr\u00f3pria ora\u00e7\u00e3o, vem sempre em nosso aux\u00edlio a for\u00e7a da obedi\u00eancia e o poder da intercess\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abEt Verbum caro factum est\u00bb [E o Verbo se fez carne]. Eis o que verdadeiramente aconteceu no est\u00e1bulo de Bel\u00e9m. Mas cumpriu-se ainda de uma outra forma: \u00abQuem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna\u00bb. O Salvador, que sabe que somos seres humanos e que como tal permanecemos, que cada dia devemos lutar com as debilidades humanas, vem em ajuda da nossa humanidade de modo verdadeiramente divino. Assim como o nosso corpo de carne necessita do p\u00e3o quotidiano, do mesmo modo tamb\u00e9m o corpo divino em n\u00f3s necessita incessantemente de se alimentar. \u00abEste \u00e9 o p\u00e3o descido do c\u00e9u\u00bb. Naquele que verdadeiramente faz deste p\u00e3o o seu p\u00e3o quotidiano, cumpre-se cada dia o mist\u00e9rio do Natal, a Encarna\u00e7\u00e3o do Verbo. Este \u00e9 certamente o modo mais seguro de manter permanentemente o \u00abUnum esse cum Deo\u00bb, de integrar-se cada dia de modo mais forte e mais profundo no Corpo m\u00edstico de Cristo. Sei bem que a muitos este parecer\u00e1 um pedido demasiado radical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a maior parte dos que se convertem, na pr\u00e1tica, significa uma transforma\u00e7\u00e3o radical de toda a sua vida, exterior e interior. Mas \u00e9 precisamente isto que deve acontecer! Dar lugar, na nossa vida, ao Salvador eucar\u00edstico, de modo que possa transformar a nossa vida na sua: \u00e9 pedir muito? Temos sempre tanto tempo para tantas coisas in\u00fateis, para lermos toda a esp\u00e9cie de not\u00edcias in\u00fateis em livros, revistas, jornais, para estarmos sentados ociosamente em qualquer caf\u00e9, para conversarmos na rua durante um quarto de hora ou meia hora: tudo \u00abdissipa\u00e7\u00f5es\u00bb, nas quais gastamos o pr\u00f3prio tempo e as pr\u00f3prias energias de modo fragmentado. N\u00e3o seria verdadeiramente poss\u00edvel arranjarmos uma hora pela manh\u00e3 na qual n\u00e3o nos dispersemos, mas nos recolhamos, em que n\u00e3o malgastemos, mas antes acumulemos energias para sustentar todo o dia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, \u00e9 certamente necess\u00e1rio mais do que uma hora. Devemos viver as outras horas na base daquela, de modo que a ela possamos retornar. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u201cdeixarmo-nos distrair\u201d, nem mesmo temporariamente. N\u00e3o podemos escapar ao ju\u00edzo daqueles com quem nos relacionamos diariamente. Mesmo que n\u00e3o nos digam explicitamente uma palavra, percebemos qual a atitude dos outros em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procuraremos adaptar-nos ao ambiente e, se n\u00e3o for poss\u00edvel, a vida em comum tornar-se-\u00e1 num tormento. O mesmo acontece tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o quotidiana com o Salvador. Tornamo-nos sempre mais sens\u00edveis ao que lhe agrada e ao que lhe desagrada. Se anteriormente est\u00e1vamos de um modo geral satisfeitos connosco, agora tudo ser\u00e1 diferente. Descobriremos muitas coisas que ser\u00e1 preciso mudar, e mudar-se-\u00e1 o que se puder. E descobriremos algumas coisas que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apropriadas e positivas, e que todavia n\u00e3o mais se podem mudar. Tornar-nos-emos ent\u00e3o pouco a pouco muito pequenos, muito humildes; tornar-nos-emos muito pacientes e indulgentes com a palha nos olhos dos outros, porque conseguiremos ver a trave nos nossos; finalmente aprenderemos a suportar-nos a n\u00f3s mesmos \u00e0 luz inexor\u00e1vel da divina Presen\u00e7a, e a abandonar-nos \u00e0 miseric\u00f3rdia divina, que pode libertar-nos de tudo o que rouba as nossas energias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 um outro modo, diferente, de estar satisfeitos connosco mesmos: passar de ser um \u201cbom cat\u00f3lico\u201d que \u201ccumpre o seu dever\u201d, l\u00ea um \u201cbom jornal\u201d, \u201cvota como se deve\u201d mas acaba por fazer o que lhe parece e apraz, que \u00e9 viver nas m\u00e3os de Deus com a simplicidade da crian\u00e7a e a humildade do publicano. Quem avan\u00e7a por este caminho, j\u00e1 n\u00e3o mais voltar\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis o que significa ser filhos de Deus: tornar-nos pequenos. Mas, significa, ao mesmo tempo, tornar-nos grandes. Viver eucaristicamente significa sair das ang\u00fastias da pr\u00f3pria vida e inserir-se no horizonte infinito da vida de Cristo. Quem procura o Senhor na sua Casa, n\u00e3o querer\u00e1 t\u00ea-lo sempre ocupado falando-lhe de si mesmo e das suas preocupa\u00e7\u00f5es. Come\u00e7ar\u00e1 a interessar-se pelas preocupa\u00e7\u00f5es do Senhor. A participa\u00e7\u00e3o no Sacrif\u00edcio eucar\u00edstico quotidiano arrasta-nos, sem nos darmos conta, na grande corrente da vida lit\u00fargica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ora\u00e7\u00f5es e os gestos da celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica tornam a representar \u00e0 nossa alma, no decorrer do ano lit\u00fargico, a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, e fazem-nos penetrar sempre mais profundamente no seu sentido. E o pr\u00f3prio Sacrif\u00edcio [eucar\u00edstico] imprime em n\u00f3s sempre mais o mist\u00e9rio central da nossa f\u00e9, eixo da Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o: o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o e da Reden\u00e7\u00e3o. Quem poder\u00e1 participar com empatia de esp\u00edrito e de cora\u00e7\u00e3o na Santa Eucaristia, sem ser ele pr\u00f3prio tocado pelo esp\u00edrito de sacrif\u00edcio, sem ser tomado pelo desejo de ser, ele pr\u00f3prio e a sua pequena exist\u00eancia pessoal, colaborador na grande obra de reden\u00e7\u00e3o do Salvador?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mist\u00e9rios do cristianismo formam um todo indivis\u00edvel. Se mergulhamos num deles, somos conduzidos tamb\u00e9m a todos os outros. Assim, o caminho de Bel\u00e9m conduz for\u00e7osamente ao G\u00f3lgota, do pres\u00e9pio \u00e0 Cruz. Encontramo-nos precisamente a meio do ciclo lit\u00fargico do Natal: h\u00e1 vinte dias celebr\u00e1mos o Natal do Salvador; dentro de vinte dias ser\u00e1 a Candel\u00e1ria, a festa da Apresenta\u00e7\u00e3o de Jesus no Templo, festa com a qual se fecha o ciclo lit\u00fargico do Natal. Quando a Virgem levou o Menino ao Templo foi-lhe profetizado que uma espada haveria de trespassar a sua alma, que aquele Menino seria ocasi\u00e3o de queda e de ressurgimento para muitos em Israel, um sinal de contradi\u00e7\u00e3o. Foi o an\u00fancio das dores, o an\u00fancio daquela luta entre a Luz e as trevas, que j\u00e1 se tinha manifestado no est\u00e1bulo de Bel\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ano a festa da Candel\u00e1ria e a Septuag\u00e9sima quase coincidem: a celebra\u00e7\u00e3o da Encarna\u00e7\u00e3o e a prepara\u00e7\u00e3o para a Paix\u00e3o. Na noite do pecado brilha a estrela de Bel\u00e9m. Sobre o esplendor que se difunde do pres\u00e9pio projecta-se a sombra da Cruz. A Luz extingue-se nas trevas de Sexta-Feira Santa, mas brilha como o sol na manh\u00e3 da Ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00abPer Passionem et Crucem ad resurrectionis gloriam\u00bb: \u00e9 o caminho do Filho de Deus feito homem. Com o Filho do homem, atrav\u00e9s do sofrimento e da morte, \u00e0 gl\u00f3ria da Ressurrei\u00e7\u00e3o: \u00e9 o caminho de cada um de n\u00f3s, \u00e9 o caminho de toda a humanidade.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\">* Edith Stein<em>, A Mensagem de Natal. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas 2013. pp 15-20.<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem: Natividade &#8211; Josefa de \u00d3bidos [1630-1684]<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7697,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,133,150,91],"tags":[],"class_list":["post-7684","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-duas-asas","category-edith-stein","category-olhares-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7684"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7684\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7699,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7684\/revisions\/7699"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7697"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}