{"id":7610,"date":"2020-02-01T15:32:02","date_gmt":"2020-02-01T15:32:02","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7610"},"modified":"2019-12-16T00:21:19","modified_gmt":"2019-12-16T00:21:19","slug":"vestigia-dei-9-7-teotopografar-a-poesia-o-melhor-sitio-para-saber-qualquer-coisa-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/vestigia-dei-9-7-teotopografar-a-poesia-o-melhor-sitio-para-saber-qualquer-coisa-da-vida\/","title":{"rendered":"Vestigia Dei | 9 &#8211; [7.] TEOTOPOGRAFAR A POESIA: O MELHOR S\u00cdTIO PARA SABER QUALQUER COISA DA VIDA"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Vestigia Dei<\/em> &#8216;- <em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o projeto <a href=\"http:\/\/www.teotopias.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Teotopias<\/em><\/a>)<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\">[7.] TEOTOPOGRAFAR A POESIA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O MELHOR S\u00cdTIO PARA SABER QUALQUER COISA DA VIDA<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressemos s\u00f3 mais uma vez \u00e0 a\u00e7\u00e3o de antologiar: j\u00e1 vimos como a antologia organizada por Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia \u00e9 diferente das que a precederam. Em <em>Na m\u00e3o de Deus<\/em>, R\u00e9gio e Serpa escolhem um poema de Fernando Pessoa: \u00abD. Fernando, Infante de Portugal\u00bb<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, da <em>Mensagem<\/em> (1934), na antologia intitulado \u00abGl\u00e1dio\u00bb<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deu-me Deus o seu gl\u00e1dio, por que eu fa\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua santa guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sagrou-me seu em honra e em desgra\u00e7a,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s horas em que um frio vento passa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sobre a fria terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P\u00f4s-me as m\u00e3os sobre os ombros e doirou-me<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fronte com o olhar;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esta febre de Al\u00e9m, que me consome,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E este querer grandeza s\u00e3o seu nome<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro de mim a vibrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu vou, e a luz do gl\u00e1dio erguido d\u00e1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minha face calma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheio de Deus, n\u00e3o temo o que vir\u00e1,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, venha o que vier, nunca ser\u00e1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maior do que a minha alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 R\u00e9gio e Alberto de Serpa retiram este poema do contexto da <em>Mensagem<\/em>, mudam o seu t\u00edtulo e, silenciando a voz do Infante D. Fernando, emprestam-lhe o estatuto de \u00abpoema religioso\u00bb de Fernando Pessoa. Confesso que, se organizasse uma antologia de poesia no \u00e2mbito da teotopologia liter\u00e1ria, teria preferido este fragmento po\u00e9tico do <em>Livro do Desassossego<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde est\u00e1 Deus, mesmo que n\u00e3o exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que n\u00e3o cometi, gozar ser perdoado como uma car\u00edcia n\u00e3o propriamente materna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um rega\u00e7o para chorar, mas um rega\u00e7o enorme, sem forma, espa\u00e7oso como uma noite de ver\u00e3o, e contudo pr\u00f3ximo, quente, feminino, ao p\u00e9 de uma lareira qualquer\u2026 Poder ali chorar coisas impens\u00e1veis, fal\u00eancias que n\u00e3o sei quais s\u00e3o, ternuras de coisas inexistentes, e grandes d\u00favidas arrepiadas de n\u00e3o sei que futuro\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma inf\u00e2ncia nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma aten\u00e7\u00e3o morna, de perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo\u2026 E tudo isto muito grande, muito eteno, definitivo para sempre, da estatura \u00fanica de Deus, l\u00e1 no fundo triste e sonolento da realidade \u00faltima das Coisas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um colo ou um ber\u00e7o ou um bra\u00e7o quente em torno do meu pesco\u00e7o\u2026 Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar\u2026 O ru\u00eddo de lume na lareira\u2026 Um calor no inverno\u2026 Um extravio morno da minha consci\u00eancia\u2026 E depois sem som, um sonho calmo num espa\u00e7o enorme, como a luz rodando entre estrelas\u2026<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto prossegue: \u00abDe meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome n\u00e3o me d\u00e1 ideia de nada. \u00c0s vezes, na noite, quando me sinto s\u00f3, chamo por ele e choro, e fa\u00e7o-me uma ideia dele a que possa amar\u2026\u00bb<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Talvez seja assim que a literatura se situa nas est\u00e2ncias transimanentes de Deus como interroga\u00e7\u00e3o. E talvez seja assim que certos homens continuem a ser \u00aba grande ilha do sil\u00eancio de deus\u00bb<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, como escreveu Ruy Belo. Deus entranhado nas p\u00e1ginas do <em>Livro do desassossego<\/em>. Deus entranhado nas p\u00e1ginas de <em>H\u00famus<\/em> (1917) de Raul Brand\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu \u00e9s o meu sonho fren\u00e9tico. [\u2026] Cheguei ao ponto em que n\u00e3o te distingo da vida. Tu \u00e9s a vida maior. [\u2026] Cheguei ao ponto, Morte, em que n\u00e3o me metes medo. Aceito-te. [\u2026] \u00c9s o \u00fanico mist\u00e9rio que me interessa. [\u2026] recebo-te, mas como um passo mais para outra inicia\u00e7\u00e3o, para outro assombro, e at\u00e9 para outra dor, se quiseres, porque da dor extraio mais beleza, mais vida e mais sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2026 E contudo esta resigna\u00e7\u00e3o \u00e9 fict\u00edcia\u2026 N\u00e3o, nunca acordei sem espanto nem me deitei sem terror. [\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Siga a vida seu curso espl\u00eandido. Sabe a sonho e a ferro. \u00c9 ternura, desgra\u00e7a e desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de ilus\u00e3o, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilh\u00e3o do lodo. Mata-nos. Mas, um momento s\u00f3 que seja, obriga-nos a olhar para o alto, e at\u00e9 ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 mesmo poss\u00edvel que seja assim que a literatura se situa nas est\u00e2ncias transimanentes de Deus como interroga\u00e7\u00e3o. Profiss\u00e3o de f\u00e9 tremenda, esta\u2026 diante da morte. Se tivermos em considera\u00e7\u00e3o a intensa trama existencialista de <em>H\u00famus<\/em>, percebemos o drama de uma f\u00e9 que freme: uma f\u00e9-fr\u00e9mito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo, a esse prop\u00f3sito, o modo como Manuel Laranjeira \u2013 talvez refletindo sobre a sua pr\u00f3pria f\u00e9 \u2013 descreve a f\u00e9 de Unamuno numa passagem do <em>Di\u00e1rio \u00edntimo<\/em>, no dia 15 agosto de 1908:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Unamuno ainda. Com a viol\u00eancia de quem precisa enganar-se. Unamuno proclama a f\u00e9. Compreendo: Unamuno <em>quer<\/em> ter f\u00e9, debate-se e sente-se homem \u2013 sem f\u00e9. Raciocinar a f\u00e9 \u00e9 duvidar. A f\u00e9 morreu. Unamuno quer reanimar as cinzas mortas e desvaira porque as cinzas lhe gelam as m\u00e3os. A f\u00e9 n\u00e3o se demonstra, cr\u00ea-se. E Unamuno quer demonstrar a f\u00e9. Eis o seu drama \u00edntimo.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, Manuel Laranjeira regressa ao seu di\u00e1rio: \u00abPenso em Unamuno e no seu drama \u00edntimo. O grito de f\u00e9 deste homem faz-me lembrar uma l\u00e2mpada que, antes de extinguir-se, despede clar\u00f5es mais intensos, mais vivos\u00bb<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. \u00abAl rector de Salamanca le interesaron siempre hombres de la estirpe moral del m\u00e9dico de Espinho, hombres atormentados\u00bb, escreve Garc\u00eda Morej\u00f3n, que oportunamente acrescenta: Unamuno \u00abhab\u00eda descubierto el retrato m\u00e1s vivo del hombre de pasi\u00f3n portugu\u00e9s despu\u00e9s de la desesperaci\u00f3n de Antero\u00bb<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou convencido de que a rela\u00e7\u00e3o com Manuel Laranjeira, entre 1908 e 1912, afeta significativamente a trama de <em>Del sentimiento tr\u00e1gico de la vida <\/em>(1913). Com efeito, Laranjeira n\u00e3o ensinou Unamuno a ver apenas a alma tr\u00e1gica de Portugal, como ele pr\u00f3prio confessa: \u00abme ense\u00f1\u00f3 a ver no pocos rincones de los abismos tenebrosos del alma humana\u00bb<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tudo isto traz-me \u00e0 mem\u00f3ria essas outras palavras de Unamuno, quando escrevia sobre Espinosa, em <em>Del sentimiento tr\u00e1gico de la vida<\/em>: \u00abComo a otros les duele una mano, o un pie, o el coraz\u00f3n, o la cabeza, a Spinoza le dol\u00eda Dios\u00bb<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Unamuno sabia que tamb\u00e9m a Laranjeira \u00able dol\u00eda Dios\u00bb. E como n\u00e3o encontrou na vida lenitivo para essa dor, assumiu a postura de ap\u00f3stata, descrente de tudo, \u00edmpio que avoca o suic\u00eddio como um ato de sedi\u00e7\u00e3o, como se l\u00ea nessa not\u00e1vel \u00abBlasf\u00e9mia in\u00fatil\u00bb:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz esta lenda v\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">que tu, minh&#8217;alma, \u00e9s barro convertido<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">em esp\u00edrito, ao sopro do Senhor\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas revoltou-se o p\u00f3: veio Sat\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">tentar-te com o fruto proibido<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e ensinar-te o caminho do amor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 e da culpa saborosa\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tu, alma rebelde, ambiciosa,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">querendo igualar Deus, foste punida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Deus sabe punir e perdoar,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">alma ca\u00edda;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus ama ainda a vida, e deu-te a Dor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">em reden\u00e7\u00e3o, pra voltar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">at\u00e9 ele, de novo, arrependida\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alma rebelde, suicida,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">seja a Obra maior que o Criador:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">s\u00ea maior que Deus \u2013 despreza a vida\u2026<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pergunto-me se arriscaria incluir este impressivo poema numa antologia de poesia no \u00e2mbito da teotopologia liter\u00e1ria: uma antologia de poesia dolente de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, numa leitura comparada de <em>H\u00famus<\/em> de Raul Brand\u00e3o e de <em>Grito<\/em> de Rui Nunes, apercebi-me que essa f\u00e9-fr\u00e9mito \u00e9 um sintoma que invariavelmente ocorre na vida e na obra daqueles que, consciente ou inconscientemente, assumem o risco de ser-habitar \u00aba grande ilha do sil\u00eancio de deus\u00bb, coabit\u00e1-la \u2013 uma teotopia liter\u00e1ria, portanto. E d\u00f3i-lhes Deus, invariavelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dor como um halo em torno \u00abdessas figuras im\u00f3veis, e sobre elas outra figura maior, curva e atenta, que h\u00e1 s\u00e9culos espera o desenlace\u00bb<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. A dor, esse \u00abanimal insaci\u00e1vel\u00bb<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> \u2013 e as figuras im\u00f3veis, e essa outra figura maior. \u00abDeus \u00e9 uma pequena coisa\u00bb, disse-me Rui Nunes uma vez. Uma pequena coisa e um grande sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja Deus esse \u00abtu\u00bb com quem Brand\u00e3o enseja um mon\u00f3logo: \u00abTu n\u00e3o existes! tu n\u00e3o existes! [\u2026] \u2013 E tu rodeias-me, tu reclamas-me e queres viver comigo para todo o sempre. N\u00e3o te posso ver!\u2026\u00bb<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. Ali em <em>H\u00famus<\/em>, como aqui em <em>Grito<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">que voz se insinua nas vozes e nelas produz os interst\u00edcios da soletra\u00e7\u00e3o? H\u00e1 um ouvido a ouvir os sons maculados, e deus n\u00e3o nasce, deus n\u00e3o morre, deus \u00e9 o nome que oscila entre dois abandonos.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a morte \u00e9 o semantema implicitamente predominante nestas duas obras, Deus \u00e9 a interroga\u00e7\u00e3o que perpassa suas paisagens desoladas. E a rela\u00e7\u00e3o difusa que aqui se estabelece \u00e9 o <em>sitz im leben<\/em> da nostalgia de absoluto, ali em <em>H\u00famus<\/em> t\u00e3o expressivamente ag\u00f3nica: \u00abToda a gente fala no c\u00e9u, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o c\u00e9u na sua profunda, na sua temerosa realidade?\u00bb<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. Ali em <em>H\u00famus,<\/em> como aqui em <em>Grito<\/em>, apercebemo-nos que o mundo estava parado na noite dos sons e que o \u00abc\u00e9u era o som que mais se aproximava de Deus, a clara perfei\u00e7\u00e3o do que se ouvia\u00bb<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>. Aprendemos que Deus \u2013 com \u00abd\u00bb mai\u00fasculo ou min\u00fasculo \u2013 chega \u00abcomo uma eira silenciosamente branca\u00bb<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> e espera as palavras que o enredem num segredo<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um Deus desfigurado, sem rosto; despossu\u00eddo. Ocasionalmente, uma personagem sabe que Deus n\u00e3o dorme; acredita que a sua pr\u00f3pria ins\u00f3nia cont\u00e9m todos os sinais da ins\u00f3nia de Deus \u2013 \u00abDeus \u00e9 uma eterna ins\u00f3nia\u00bb<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. \u00abNenhuma palavra diz o presente, Deus disse, Deus n\u00e3o diz\u00bb<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a> \u2013 ocasionalmente, uma personagem sabe que o presente \u00e9 o passado de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ali em <em>Grito<\/em>, como aqui em <em>H\u00famus<\/em>, enquanto as personagens se apertam no \u00abpressentimento de uma absoluta solid\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>, \u00e9 a dor o que interessa. E \u00e9 ainda um Deus temporalmente desfasado, essa outra figura maior. E o homem \u00e9, disforicamente, esse animal aflito:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ano ainda! Outro passo ainda para a morte! Sinto uma dor sem gritos por tr\u00e1s da imobilidade. Cada hora \u00e9 menos uma hora na minha vida. E o tempo foge, o tempo cor de mata-borr\u00e3o que ao granito salitroso junta camada denegrida, e \u00e0s almas sepultadas outra pazada de cinza\u2026 H\u00e1 momentos em que as figuras t\u00eam tanta vida como os santos im\u00f3veis nos seus nichos \u2013 mas h\u00e1 momentos em que cada um redobra de propor\u00e7\u00f5es, h\u00e1 momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. H\u00e1 momentos em que cada um grita: \u2013 Eu n\u00e3o vivi! eu n\u00e3o vivi! \u2013 H\u00e1 momento em que deparamos com outra figura maior que nos mete medo. A vida \u00e9 s\u00f3 isto? Por mais que queira n\u00e3o posso desfazer-me de pequenas a\u00e7\u00f5es, de pequenos rid\u00edculos, n\u00e3o posso desfazer-me de imbecilidades nem deste ser esfarrapado que vai de polo a polo. Tenho de aturar ao mesmo tempo esta ideia e este gesto rid\u00edculo. Tenho de ser grotesco ao lado da vida e da morte, mesmo quando estou s\u00f3 o meu riso \u00e9 idiota. E estou s\u00f3 e a noite. Por tr\u00e1s daquela parede fica o c\u00e9u infinito.<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali em <em>Grito<\/em>, como aqui em <em>H\u00famus<\/em>, o tempo tem met\u00e1stases e a consci\u00eancia \u00e9 um co\u00e1gulo, at\u00e9 se tornar um corpo que obstrui, um \u00eambolo. Brand\u00e3o insiste. Sabe que o tempo chega para tudo, o tempo dura s\u00e9culos. Brand\u00e3o sabe que \u00abdentro de cada ser como dentro das casas de granito salitroso, as paix\u00f5es tecem na escurid\u00e3o e no sil\u00eancio, teias de escurid\u00e3o e de sil\u00eancio\u00bb<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a>. Situa-se meticulosamente na periferia da realidade: \u00abO nosso mundo n\u00e3o \u00e9 real: vivemos num mundo como eu o compreendo e o explico. N\u00e3o temos outro. Estamos aqui como peixes num aqu\u00e1rio\u00bb<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a>. Est\u00e1 dentro do aqu\u00e1rio, mas observa-se a si mesmo de fora do aqu\u00e1rio. E denuncia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sentindo que h\u00e1 outra vida ao nosso lado, vamos at\u00e9 \u00e0 cova sem dar por ela. E n\u00e3o s\u00f3 esta vida monstruosa e grotesca \u00e9 a \u00fanica que podemos viver, como \u00e9 a \u00fanica que defendemos com desespero. [\u2026] Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da morte e do espanto [\u2026]. Estamos aqui a matar o tempo.<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali em <em>H\u00famus<\/em>, como aqui em <em>Grito<\/em>, ouve-se a mesma ru\u00edna, \u00aba mesma exposi\u00e7\u00e3o do abandono\u00bb<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a>, a mesma voz que atravessa o mesmo decl\u00ednio<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a>. E Rui Nunes \u2013 enquanto escreve \u00abcontra a mudez do olhar que espia\u00bb<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a> \u2013 reconhece que o grito que habita a casa<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a> \u00e9 um grito mudo: um grito que se v\u00ea, mas n\u00e3o se ouve: essa t\u00e3o grande \u00abfalta de som que vem da boca entreaberta\u00bb<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a>, boca que est\u00e1 cheia de eu n\u00e3o querer falar; boca que est\u00e1 cheia de eu me calar \u2013 boca que \u00ab\u00e9 um animal espesso\u00bb<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim \u2013 ali em <em>H\u00famus<\/em>, como aqui em <em>Grito<\/em> \u2013 se chora o lugar desocupado<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a>; assim tudo \u00abvem \u00e0 superf\u00edcie da sua solid\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a>; assim, como \u00abn\u00e3o h\u00e1 noite que me proteja desta noite que a sombra ilumina, fico parado no seu interior como na dispers\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a>; e assim Deus \u00e9 ainda essa pequena coisa que me falta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">falta-me o teu corpo e \u00e9 Deus que me falta, falta-me a tua voz e \u00e9 Deus que me falta, falta-me a tua pele e \u00e9 Deus que falta, tu \u00e9s um erro que alimentei, a monstruosidade de um erro a que soube dar nome [\u2026] e onde n\u00e3o descanso. Tornaste-te a palavra mais pobre: a da sobreviv\u00eancia.<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[38]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pergunto: que tipo de antologia seria a que reunisse alguns destes textos? Diferente, por certo, de <em>Verbo \u2013 Deus como interroga\u00e7\u00e3o na poesia portuguesa<\/em>, assumindo mais ou menos riscos, descomedindo-se ocasionalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, queremos ainda saber de que modo a literatura contempor\u00e2nea, recusando a banalidade intranscendente, se situa nas est\u00e2ncias transimanentes de Deus como interroga\u00e7\u00e3o. Noutra perspetiva, mas com a mesma intencionalidade referencial: queremos saber de que modo Deus habita a literatura \u2013 a poesia \u2013, tendo em considera\u00e7\u00e3o, neste caso, a poesia portuguesa e, mais especificamente, a poesia portuguesa contempor\u00e2nea, do nosso tempo (de indig\u00eancia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante que em Portugal, na d\u00e9cada de 90, uma poetisa \u2013 ent\u00e3o septuagen\u00e1ria \u2013 como Dalila Pereira da Costa e um jovem poeta como Daniel Faria, tenham publicado obras tendencialmente m\u00edsticas<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dalila Pereira da Costa subordina a sua express\u00e3o liter\u00e1ria \u00e0s funcionalidades oraculares de uma obra h\u00edbrida, que n\u00e3o desobstruiu um lugar para si na hist\u00f3ria da literatura portuguesa, mas que assegurou, no entanto, a continuidade com uma tradi\u00e7\u00e3o de poetas de tend\u00eancia m\u00edstica, ocasionalmente sincr\u00e9ticos e esot\u00e9ricos, para os quais foram sempre pouco definidas as fronteiras entre literatura, pensamento filos\u00f3fico e experi\u00eancia religiosa. Da\u00ed as resson\u00e2ncias partilhadas com o gnosticismo de Teixeira de Pascoaes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o a Daniel Faria, arrisco afirmar que \u2013 no \u00e2mbito da teotopologia liter\u00e1ria \u2013 ocupa no final do s\u00e9culo xx o lugar de destaque que Antero ocupou no final do s\u00e9culo xix. A rela\u00e7\u00e3o de Daniel Faria com a transcend\u00eancia \u00e9, talvez, menos contundente do que a de Antero, mas nem por isso \u00e9 menos ag\u00f3nica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tinha nada donde vim. Aqui n\u00e3o encontrei<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que tive e a cadeira n\u00e3o serve o meu repouso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda n\u00e3o h\u00e1 lugar no mundo onde possa sossegar de tu n\u00e3o seres<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vazio que persiste \u00e0 minha beira.<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\">[40]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se queremos saber de que modo a literatura portuguesa contempor\u00e2nea se situa nas est\u00e2ncias transimanentes de Deus como interroga\u00e7\u00e3o, teremos de escutar atentamente a voz deste poeta que morreu com apenas 28 anos, em 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia d\u00e3o-lhe um lugar de destaque na antologia <em>Verbo \u2013 Deus como interroga\u00e7\u00e3o na poesia portuguesa<\/em>: dos quinze poemas que o representam, nove s\u00e3o do livro <em>Homens que s\u00e3o como lugares mal situados <\/em>(1998) e seis de<em> Dos l\u00edquidos <\/em>(2000). Mas talvez seja em <em>Explica\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores e de outros animais<\/em> (1998) que melhor se percebe a intensa luta interior do poeta, entre a consci\u00eancia de promessa n\u00e3o cumprida e a espera dolorosamente prolongada: \u00abDepois o tempo nunca mais se abeirou da promessa\/ Nem se cumpriu\/ E a espera \u00e9 n\u00e3o acontecer [\u2026]\/ E a saudade \u00e9 tudo ser igual\u00bb<a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[41]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A temporalidade tende a ser, para Daniel Faria, uma mortificante experi\u00eancia de desterro. Mais ou menos inconformado, o poeta n\u00e3o disfar\u00e7a a desola\u00e7\u00e3o diante da aus\u00eancia de Deus ou da sua presen\u00e7a n\u00e3o pressentida. Por vezes, escuta-se um rumor de macera\u00e7\u00e3o nos seus versos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou-me p\u00f4r \u00e0 mesa e esperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho afli\u00e7\u00e3o por toda a aus\u00eancia n\u00e3o anunciada<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acendi a luz por toda a casa e eletrifiquei a voz<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora posso ampliar o clar\u00e3o dos gritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou-me sentar \u00e0 mesa. Vou deixar arrefecer a comida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazer de conta que estou a esperar.<a href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref42\">[42]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abUm modo de te amar dentro do tempo\u00bb<a href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref43\">[43]<\/a> \u00e9 a express\u00e3o da saudade de Deus na obra deste poeta que nas \u00e1rvores n\u00e3o buscou o lenitivo das ra\u00edzes, mas a \u00abincompar\u00e1vel paci\u00eancia de procurar o alto\u00bb<a href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref44\">[44]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se queremos saber de que modo a literatura contempor\u00e2nea se situa nas est\u00e2ncias transimanentes de Deus como interroga\u00e7\u00e3o, teremos de ler atentamente a <em>Obra Po\u00e9tica<\/em><a href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref45\">[45]<\/a> de Sophia de Mello Breyner Andresen, a <em>Obra inacabada<\/em><a href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref46\">[46]<\/a> de Fernando Echevarr\u00eda e <em>A noite abre meus olhos<\/em><a href=\"#_ftn47\" name=\"_ftnref47\">[47]<\/a> de Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, mas n\u00e3o podemos evitar outros lugares, eventualmente mais in\u00f3spitos, teotopias mais improv\u00e1veis, desabridas como certos lugarejos fronteiri\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ruy Belo, <em>Todos os poemas<\/em>, p. 59.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Fernando Pessoa, <em>Mensagem<\/em>, Lisboa, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2004, p. 30.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cf. <em>Na m\u00e3o de Deus \u2013 Antologia de poesia religiosa portuguesa<\/em>, p. 304.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Fernando Pessoa, <em>Livro do desassossego<\/em>, p. 107.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ruy Belo, Todos os poemas, p. 58.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Raul Brand\u00e3o, <em>H\u00famus<\/em>, Lisboa, Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 2015, pp. 224-225. Lembra este texto, esse outro \u2013 magn\u00edfico \u2013 com que Brand\u00e3o prefacia as suas <em>Mem\u00f3rias<\/em>: \u00abSe tivesse de recome\u00e7ar a vida, recome\u00e7ava-a com os mesmos erros e paix\u00f5es. N\u00e3o me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que \u00e9 eterno, embebido ainda neste sonho pu\u00eddo. N\u00e3o me habituo: n\u00e3o posso ver uma \u00e1rvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo espl\u00eandido, at\u00e9 as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra. N\u00e3o sei \u2013 nem me importo \u2013 se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agrade\u00e7o a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espet\u00e1culo desabalado da vida\u00bb \u2013 id., <em>Mem\u00f3rias<\/em>, p. 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Manuel Laranjeira, \u00abDi\u00e1rio \u00edntimo\u00bb (15 de agosto de 1908), in <em>Obras de Manuel Laranjeira<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00f5es Asa, 1993, pp. 271-272.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ibid. (16 de agosto de 1908), p. 272.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Julio Garc\u00eda Morej\u00f3n, <em>Unamuno y Portugal<\/em>, Madrid, Ediciones Cultura Hisp\u00e1nica, 1964, p. 459.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Miguel de Unamuno, \u00abPref\u00e1cio\u00bb, in Manuel Laranjeira, <em>Cartas<\/em>, Lisboa, Portug\u00e1lia Editora, 1943, p. 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Id., <em>Del sentimiento tr\u00e1gico de la vida<\/em>, Madrid, Alianza Editorial, 2013, p. 34.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Manuel Laranjeira, \u00abComigo (Versos dum solit\u00e1rio)\u00bb, in <em>Obras de Manuel Laranjeira <\/em>(vol. i), p. 192.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Raul Brand\u00e3o, <em>H\u00famus<\/em>, p. 56.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Rui Nunes, <em>Grito<\/em>, Lisboa, Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 1997, p. 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Raul Brand\u00e3o, <em>H\u00famus<\/em>, pp. 59-60.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Rui Nunes, <em>Grito<\/em>, p. 53.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Ibid., p. 59.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Rui Nunes, <em>Grito<\/em>, p. 116.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Ibid., p. 123.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Cf. ibid., p. 62.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Ibid., p. 114.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Ibid., p. 115.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Ibid., p. 27.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Raul Brand\u00e3o, <em>H\u00famus<\/em>, p. 60.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> Ibid., p. 59.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> Ibid., pp. 60-61.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> Ibid., p. 61.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Rui Nunes, <em>Grito<\/em>, p. 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> Cf. ibid., p. 69.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> Ibid., p. 120.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> Cf. ibid., p. 32.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> Ibid., p. 57.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> Ibid., p. 110.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> Cf. ibid., p. 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> Ibid., p. 59.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> Ibid., p. 122.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> Id., ibid., p. 120.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[39]<\/a> A quest\u00e3o dos crit\u00e9rios que nos permitem considerar m\u00edstico um poeta \u2013 e m\u00edstica uma po\u00e9tica \u2013 carecem de algum aprofundamento. Sugiro, sobre esta quest\u00e3o: Miguel Garc\u00eda-Bar\u00f3, <em>De est\u00e9tica y m\u00edstica<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\">[40]<\/a> Daniel Faria, <em>Poesia<\/em>, Porto, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2015, p. 57.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\">[41]<\/a> Ibid., p. 110.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref42\" name=\"_ftn42\">[42]<\/a> Ibid., p. 41.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref43\" name=\"_ftn43\">[43]<\/a> Ibid., p. 85.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref44\" name=\"_ftn44\">[44]<\/a> Ibid., p. 44.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref45\" name=\"_ftn45\">[45]<\/a> Sophia de Mello Breyner Andresen, <em>Obra Po\u00e9tica<\/em>, Lisboa, Caminho, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref46\" name=\"_ftn46\">[46]<\/a> Fernando Echevarr\u00eda, <em>Obra inacabada<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento, 2006 (vol. i) e 2016 (vol. ii).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref47\" name=\"_ftn47\">[47]<\/a> Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, <em>A noite abre meus olhos<\/em>, Porto, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2014.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 200px; text-align: right;\"><span style=\"font-size: 10.72px;\">Imagem de\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 10.72px;\" href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tookapic-1386459\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=933203\">tookapic<\/a><span style=\"font-size: 10.72px;\">\u00a0por\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 10.72px;\" href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=933203\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Textos recolhidos de TEIXEIRA, Jos\u00e9 Rui &#8211; <em>Vestigia Dei: Uma leitura teotopol\u00f3gica da literatura portuguesa<\/em>. Maia: Cosmorama Edi\u00e7\u00f5es, 2019, 78pp.<\/h6>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cosmorama.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7618 aligncenter\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"383\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg 714w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-209x300.jpg 209w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-768x1101.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-600x860.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1071x1536.jpg 1071w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1428x2048.jpg 1428w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1200x1721.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-850x1219.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-480x688.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1320x1893.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-scaled.jpg 1785w\" sizes=\"auto, (max-width: 267px) 100vw, 267px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Vestigia Dei &#8216;-<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7611,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,139,91,140],"tags":[],"class_list":["post-7610","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-jose-rui-teixeira","category-olhares-ii","category-vestigia-dei"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7610"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7627,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7610\/revisions\/7627"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7611"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}