{"id":7606,"date":"2020-01-25T15:23:38","date_gmt":"2020-01-25T15:23:38","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7606"},"modified":"2019-12-16T00:20:37","modified_gmt":"2019-12-16T00:20:37","slug":"vestigia-dei-8-6-poetas-em-tempo-de-indigencia-agora-nenhum-gesto-nesse-alguem-comeca-ou-morre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/vestigia-dei-8-6-poetas-em-tempo-de-indigencia-agora-nenhum-gesto-nesse-alguem-comeca-ou-morre\/","title":{"rendered":"Vestigia Dei | 8 &#8211; [6.] POETAS EM TEMPO DE INDIG\u00caNCIA: AGORA NENHUM GESTO NESSE ALGU\u00c9M COME\u00c7A OU MORRE"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Vestigia Dei<\/em> &#8216;- <em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o projeto <a href=\"http:\/\/www.teotopias.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Teotopias<\/em><\/a>)<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\">[6.] POETAS EM TEMPO DE INDIG\u00caNCIA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">AGORA NENHUM GESTO NESSE ALGU\u00c9M COME\u00c7A OU MORRE<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um exerc\u00edcio arriscado o da teotopologia liter\u00e1ria, sobretudo quando todas as perguntas convergem e se densificam na interroga\u00e7\u00e3o de H\u00f6lderlin. \u00c9 como se houvesse um antes e um depois da elegia \u00abO p\u00e3o e o vinho\u00bb<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, um antes e um depois dessa incontorn\u00e1vel pergunta: \u00abwozu Dichter in d\u00fcrftiger Zeit?\u00bb \u2013 \u00abpara que servem poetas em tempo de indig\u00eancia?\u00bb<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Heidegger reflete e insiste na interroga\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. O tempo a que se refere \u2013 tempo de indig\u00eancia, de pen\u00faria \u2013 \u00e9 a \u00abnoite do mundo\u00bb, o nosso tempo, caracterizado pela aus\u00eancia de Deus:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">A falta de Deus significa que j\u00e1 n\u00e3o existe um Deus que re\u00fane em si, vis\u00edvel e univocamente, as pessoas e as coisas e que, com base nessa reuni\u00e3o, articule a hist\u00f3ria do mundo e a est\u00e2ncia humana nessa hist\u00f3ria. A falta de Deus anuncia, por\u00e9m, algo de muito pior. N\u00e3o s\u00f3 se foram os deuses e Deus, como tamb\u00e9m se apagou na hist\u00f3ria do mundo o fulgor da divindade. O tempo da noite do mundo \u00e9 o tempo indigente, porque se tornar\u00e1 cada vez mais indigente. Ele tornou-se t\u00e3o indigente que j\u00e1 nem \u00e9 capaz de notar que a falta de Deus \u00e9 uma falta.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ser poeta em tempos de indig\u00eancia significa \u2013 para Heidegger \u2013 dizer o sagrado, \u00abcantar, tendo em aten\u00e7\u00e3o o vest\u00edgio dos deuses foragidos\u00bb<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, cuja desapari\u00e7\u00e3o coincide \u2013 a partir da leitura de um dos <em>Sonetos a Orfeu<\/em> de Rilke \u2013 com a oculta\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia da dor, do amor e da morte<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>: \u00abA pr\u00f3pria indig\u00eancia \u00e9 indigente porque esconde o dom\u00ednio essencial no qual a dor, a morte e o amor pertencem uns aos outros\u00bb<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 num outro poema de Rilke \u2013 versos que improvisou numa carta de 1924<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> \u2013 que Heidegger desdobra a pergunta de H\u00f6lderlin, articulando conceitos como \u00abrisco\u00bb, \u00abdesamparo\u00bb, \u00ababerto\u00bb e \u00abc\u00edrculo mais vasto\u00bb, com a consci\u00eancia de que a poesia \u00e9 tamb\u00e9m \u00abtarefa para um pensamento, eis o que ainda temos de aprender neste instante do mundo. Tomemos o poema como um ensaio de medita\u00e7\u00e3o po\u00e9tica\u00bb<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, Heidegger aborda a pergunta de H\u00f6lderlin ao modo dos fil\u00f3sofos. H\u00e1 um momento na sua reflex\u00e3o em que parece ruminar o poema de Rilke e j\u00e1 n\u00e3o nos ocorre a pergunta de H\u00f6lderlin. Quando \u00e9 assim, quase nos convencemos de que a verdade n\u00e3o h\u00e1 de escapar-nos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem se referir a H\u00f6lderlin, Antero de Quental escreve, a prop\u00f3sito da publica\u00e7\u00e3o de <em>Lira \u00edntima <\/em>(1881) de Joaquim de Ara\u00fajo, um importante texto \u2013 \u00abA poesia na atualidade\u00bb<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> \u2013 onde reflete sobre o fim da poesia: \u00abA fase po\u00e9tica da Humanidade pode dizer-se que est\u00e1 a terminar. Este s\u00e9culo ter\u00e1 visto os \u00faltimos poetas, como viu os \u00faltimos crentes\u00bb<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Para Antero, o esp\u00edrito humano tinha entrado decididamente numa fase de racionalismo, de an\u00e1lise e cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma reflex\u00e3o extraordin\u00e1ria, na qual Antero afirma que \u00abentre a poesia, a metaf\u00edsica e a teologia h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o \u00edntimas, h\u00e1 um ar de fam\u00edlia t\u00e3o caracter\u00edstico, que imediatamente denuncia uma verdadeira comunidade de origem\u00bb<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa esp\u00e9cie de cosmorama da hist\u00f3ria da poesia, desde Homero e Hes\u00edodo, Antero guia-nos at\u00e9 \u00e0 Renascen\u00e7a, antec\u00e2mara do \u00abimp\u00e9rio decidido da an\u00e1lise, pela constitui\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias e a correspondente organiza\u00e7\u00e3o dum ponto de vista racional, sistematicamente positivo\u00bb<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Esta seria, no entendimento do poeta, a \u00faltima e a maior das revolu\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito humano. E entre \u00abos destro\u00e7os do passado, com os deuses e as entidades metaf\u00edsicas, ficaria tamb\u00e9m soterrada a poesia\u00bb<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, foram ainda necess\u00e1rios mais tr\u00eas s\u00e9culos para que tal resultado se manifestasse claramente. O ciclo po\u00e9tico do fim do s\u00e9culo xviii e do primeiro quartel do s\u00e9culo xix \u00e9, para Antero, apenas um incidente: \u00abo rebento tardio da velha \u00e1rvore que, antes de morrer, concentrou nele um resto de seiva\u00bb<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">Essa poesia (sinal bem claro de enfraquecimento) \u00e9 toda subjetiva. \u00c9 o individualismo, o <em>egotismo<\/em> que a inspira nos seus grandes representantes, Byron, Shelley, Schiller, Heine, Lamartine, Hugo (onde \u00e9 verdadeiramente Hugo), <em>Mickiewicz<\/em>, Espronceda, Herculano, Jo\u00e3o de Deus (que, por vir t\u00e3o tarde, n\u00e3o deixa por isso de pertencer a essa ilustre fam\u00edlia), Leopardi, Foscolo. Eles n\u00e3o representam j\u00e1 a vida coletiva do esp\u00edrito humano, a cren\u00e7a e as aspira\u00e7\u00f5es dum mundo, a apoteose gloriosa ou sombria da humanidade, que os tem por int\u00e9rpretes: representam-se apenas a si, eles, os \u00faltimos de uma ra\u00e7a condenada a desaparecer e que, sentindo a ferida interior por onde lhes foge a vida, interrogam inquietos o horizonte e, chorando ou rugindo, se assentam \u00e0 beira da estrada para morrerem.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Antero, esse egotismo e o desaparecimento da mat\u00e9ria po\u00e9tica objetiva determinam o fim da poesia. E foi frustrada a tentativa de Goethe de retomar a grande tradi\u00e7\u00e3o: \u00abA tentativa de Goethe era v\u00e3. E se ele, um dos maiores esp\u00edritos do seu s\u00e9culo e do nosso, o n\u00e3o conseguiu, loucura seria esperar ainda bom \u00eaxito duma empresa que o momento hist\u00f3rico condena\u00bb<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. Coube a Heine \u2013 escarnecendo o que adorava, fazendo a s\u00e1tira da pr\u00f3pria como\u00e7\u00e3o, elevando o ceticismo \u00e0 categoria de uma est\u00e9tica \u2013<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">entoar o <em>consumatum est<\/em> sobre os destro\u00e7os do antigo sentimento po\u00e9tico e quem sabe se de todo o sentimento\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">O riso cheio de fel e l\u00e1grimas de Heine foi o suor da agonia, o suor de sangue da poesia, que a prosa racional, decididamente e universalmente triunfante do mundo, ia pregar num madeiro, dizendo-lhe: \u00abse \u00e9s filha de Deus, livra-te a ti mesma!\u00bb<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguiram-se Baudelaire \u2013 \u00abprostituindo a poesia, a antiga inspiradora da virtude e do hero\u00edsmo, e obrigando-a a respirar as pest\u00edferas <em>flores do mal<\/em> e a cantar o v\u00edcio incur\u00e1vel, a maldade impenitente\u00bb<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> \u2013 e Poe, que \u00abassentava o Desespero no s\u00f3lio sagrado, a repetir num sonambulismo de t\u00e9dio incur\u00e1vel, de t\u00e9dio infinito, o seu estribilho de morte: \u201cNever, oh, never more!\u201d\u00bb<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Para Antero, foi assim que a poesia, na segunda metade do s\u00e9culo xix, anunciou ao mundo a sua pr\u00f3xima extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ser muito extensa a cita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quero substituir-me \u00e0s suas palavras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">Outrora, em Israel, os poetas foram os pastores do Povo. Os vates sagrados, depois de criarem Deus, fizeram do Povo o primog\u00e9nito desse Deus e o seu servo fiel no cativeiro do mundo. E, pelos seus poetas, imp\u00f4s Israel a sua f\u00e9 \u00e0s na\u00e7\u00f5es, a f\u00e9 que eles haviam criado. \u2013 Um pouco mais tarde, em Atenas, a Rep\u00fablica erguia em face da Acr\u00f3pole a est\u00e1tua de bronze de \u00c9squilo, como um segundo g\u00e9nio tutelar da cidade: as representa\u00e7\u00f5es das suas trag\u00e9dias eram solenidades religiosas, faziam parte do culto p\u00fablico, e uma c\u00f3pia aut\u00eantica conservava-se nos arquivos da Rep\u00fablica, entre os documentos dos tratados, das alian\u00e7as, das funda\u00e7\u00f5es de col\u00f3nias, como uma das bases da grandeza nacional. \u2013 Mais tarde ainda, a Senhoria de Floren\u00e7a fazia explicar publicamente, na Igreja de Santa Maria, a Divina Com\u00e9dia, como um quinto Evangelho, e encarregava esse of\u00edcio a Boccaccio, o maior erudito da \u00e9poca. \u2013 Cam\u00f5es morreu na mis\u00e9ria: mas n\u00e3o serviu o seu livro de consola\u00e7\u00e3o ao seu povo deca\u00eddo e cativo? N\u00e3o o uniu o povo no culto messi\u00e2nico prestado ao Salvador encoberto? N\u00e3o lhe comentou as estrofes como texto de profecias de futura grandeza? N\u00e3o lhas contaram os \u00faltimos portugueses do Oriente, entre balas, no cerco de Colombo? Esta apoteose transformou num s\u00f3lio, ou num altar, a legend\u00e1ria enxerga do hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">E o que \u00e9 hoje a poesia? O que \u00e9 hoje o poeta? Que diz ele hoje ao mundo? Uma experi\u00eancia de Berthelot ou de Virchow, uma descoberta de Darwin ou Haeckel, uma p\u00e1gina hist\u00f3rica de Ranke ou Renan valem mais, dizem mais ao esp\u00edrito do s\u00e9culo, do que toda a Babel sonora das estrofes de Victor Hugo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">E o mundo, a ele, que lhe diz, que ele entenda e que o inspire? Que lhe podem dizer o determinismo, o transformismo, a concorr\u00eancia vital, a fatalidade da hist\u00f3ria? O mundo real, o mundo visto \u00e0 luz da ci\u00eancia, \u00e9 uma coisa atroz \u2014 atroz e ao mesmo tempo inexpressiva. <em>Despair and die!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">O div\u00f3rcio \u00e9 completo. A poesia deixou de ter miss\u00e3o social. Os raros poetas, que ainda existem, s\u00e3o apenas os restos destro\u00e7ados duma ra\u00e7a de outras idades e que breve ter\u00e1 desaparecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">A poesia passou decididamente \u00e0 categoria de literatura amena \u2014 ao lado da teologia, outra esp\u00e9cie tamb\u00e9m de literatura, com a diferen\u00e7a de ser mais enfadonha. <em>Requiescant in pace<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">Querer\u00e1 isto dizer que a poesia ou pelo menos o poetar, tenha de desaparecer <em>completamente<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">N\u00e3o \u00e9 esse o meu pensamento. Mas afigura-se-me que ficar\u00e1 reduzida \u00e0 express\u00e3o isolada de sentimentos muito pessoais e muito limitados, e cultivada e amada s\u00f3 por aquelas pessoas que, ou permanentemente e por natureza, como as mulheres, ou temporariamente, como os rapazes muito mo\u00e7os e dotados dalguma fantasia, reagem contra a tirania da reflex\u00e3o e tendem a isolar o seu mundo de sentimentos da influ\u00eancia mortal do esp\u00edrito anal\u00edtico e positivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">A alta poesia, \u00e9pica, tr\u00e1gica, l\u00edrica \u2013 essa irm\u00e3 da metaf\u00edsica e da religi\u00e3o \u2013 ter\u00e1 assim desaparecido, mas subsistir\u00e1 a poesia subjetiva, familiar e pessoal, como express\u00e3o de estados de esp\u00edrito, ou particulares, ou raros e passageiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">A poesia conservar-se-\u00e1, pois, mas tendo perdido o antigo car\u00e1cter de uma das grandes for\u00e7as sociais e espirituais da Humanidade, de agente poderoso da civiliza\u00e7\u00e3o. Ao som augusto da lira de Orfeu j\u00e1 se n\u00e3o erguer\u00e3o cidade nem civilizar\u00e3o povos. Essas cordas solenes e soberanas ter\u00e3o emudecido para sempre.<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 impressionante o vatic\u00ednio de Antero. \u00c9 como se o mito do poeta rom\u00e2ntico tivesse consistido num simulacro: o poeta rom\u00e2ntico \u00e9 um egotista autocomprazido na mornid\u00e3o de \u00abestados de alma\u00bb e o seu mito n\u00e3o \u00e9 mais do que a tentativa de reanima\u00e7\u00e3o de um cad\u00e1ver. Para que servem os poetas em tempos de indig\u00eancia? Que rela\u00e7\u00e3o pode ainda estabelecer a poesia moderna \u2013 neste caso rom\u00e2ntica e p\u00f3s-rom\u00e2ntica \u2013 com qualquer coisa da ordem do sagrado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tanta verdade pressentida nas palavras de Antero. E, ainda assim, alguma verdade h\u00e1 de ter-lhe escapado. Antero \u00e9, no contexto da literatura portuguesa, o mais alto representante dos poetas em tempos de indig\u00eancia. Ao p\u00f4r fim \u00e0 sua vida no dia 11 de setembro de 1891, em Ponta Delgada, num banco junto ao muro que fecha a cerca do Convento da Esperan\u00e7a \u2013 sob uma \u00e2ncora e a palavra \u00abesperan\u00e7a\u00bb, em relevo e pintadas a azul sobre a parede branca \u2013, Antero redime simbolicamene o m\u00fanus do poeta: a sua poesia pode n\u00e3o ter erguido cidades nem civilizado povos, mas ser\u00e1 uma caixa de resson\u00e2ncia para a pergunta de H\u00f6lderlin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, no fundo, seria esse o trabalho da teotopologia liter\u00e1ria, se a teotopologia liter\u00e1ria existisse: tentar perceber \u2013 enquanto reitera a pergunta de H\u00f6lderlin \u2013 de que modo a literatura, recusando a banalidade intranscendente, se situa nas est\u00e2ncias transimanentes de Deus como interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os habitantes de Macondo \u2013 aldeia de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em> (1967) de Garc\u00eda M\u00e1rquez \u2013, v\u00edtimas de ins\u00f3nia, procuravam retomar a sua vida sem a preocupa\u00e7\u00e3o com o in\u00fatil h\u00e1bito de dormir, Aureliano Buend\u00eda concebeu a f\u00f3rmula que havia de os defender das evas\u00f5es da mem\u00f3ria: identificar cada objeto com um papel com o respetivo nome inscrito. Em pouco tempo, por toda a aldeia havia inscri\u00e7\u00f5es que identificavam todas as coisas, dos objetos dom\u00e9sticos aos animais e \u00e0s plantas. Mais tarde, \u00abestudando as infinitas possibilidades do esquecimento, deu-se conta de que podia chegar o dia em que se reconhecessem as coisas pelas inscri\u00e7\u00f5es, mas em que n\u00e3o se lembrasse da sua utilidade\u00bb<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>. Na luta contra o esquecimento, os insones habitantes de Macondo, depois de identificar cada por\u00e7\u00e3o do seu quotidiano, procuraram descrever quais as funcionalidades de cada uma dessas por\u00e7\u00f5es: uma esp\u00e9cie de manual de vida pr\u00e1tica desdobrado na realidade, que j\u00e1 n\u00e3o exigia apenas a identifica\u00e7\u00e3o dos objetos e das suas funcionalidades, mas tamb\u00e9m dos sentimentos. \u00abNa entrada do caminho para o p\u00e2ntano tinham posto um cartaz que dizia <em>Macondo<\/em> e outro, maior, na rua central, que dizia <em>Deus existe<\/em>\u00bb<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a teotopologia liter\u00e1ria existisse, o teotop\u00f3logo liter\u00e1rio teria de conhecer quem escreveu esse grande cartaz na rua central da aldeia. Por que motivo os habitantes de Macondo precisavam lembrar-se que Deus existe em tempos de ins\u00f3nia e amn\u00e9sia? Cada objeto tinha j\u00e1 uma inscri\u00e7\u00e3o com o seu nome e o seu modo de utiliza\u00e7\u00e3o. A banalidade intranscendente estava j\u00e1 descrita: o pormenor de cada descri\u00e7\u00e3o era j\u00e1 uma forma de anu\u00eancia e at\u00e9 de exalta\u00e7\u00e3o do prosa\u00edsmo. N\u00e3o sendo relativo a um objeto concreto, o cartaz onde se lia <em>Deus existe<\/em> n\u00e3o tinha qualquer utilidade e n\u00e3o consta que nele tivesse descrito para que \u00e9 que Deus \u2013 ou a exist\u00eancia de Deus &#8211; servia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se H\u00f6lderlin tivesse, ent\u00e3o, passado por Macondo, teria certamente querido conhecer o autor daquele cartaz, porque nele reconheceria o poeta em tempos de indig\u00eancia; porque s\u00f3 H\u00f6lderlin poderia assumir at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, n\u00e3o qualquer resposta, mas a pergunta: por que motivo precisamos lembrar-nos que Deus existe em tempos de ins\u00f3nia e amn\u00e9sia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ruy Belo, <em>Todos os poemas<\/em>, p. 108.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> H\u00f6lderlin, <em>Elegias<\/em>, Lisboa, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 1992, pp. 51-61.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibid., pp. 58-59<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Martin Heidegger, \u00abPara qu\u00ea poetas?\u00bb, in <em>Caminhos de floresta<\/em>, Lisboa, Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2014, pp. 307-367.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibid., p. 309.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ibid., p. 312. Este \u00e9 um bom contexto para sugerir a reflex\u00e3o de Roberto Calasso: <em>A literatura e os deuses<\/em>, Lisboa, G\u00f3tica, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Rainer Maria Rilke, \u00abSonetos a Orfeu\u00bb (xix), in <em>Poemas \u2013 As Elegias de Du\u00edno \u2013 Sonetos a Orfeu<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00f5es Asa, 2001, p. 210<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Martin Heidegger, \u00abPara qu\u00ea poetas?\u00bb, p. 316.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Cf. ibid., pp. 317-318.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ibid., p. 318. Na sequ\u00eancia desta afirma\u00e7\u00e3o de Heidegger, seria interessante convocar a reflex\u00e3o de Chantal Maillard: <em>La creaci\u00f3n por la met\u00e1fora \u2013 Introducci\u00f3n a la raz\u00f3n-po\u00e9tica<\/em>, Barcelona, Anthropos, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Antero de Quental, \u00abA poesia na atualidade\u00bb, in <em>Prosas <\/em>(vol. ii), Lisboa, Couto Martins, s\/d, pp. 310-326.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ibid., p. 310.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ibid., p. 311. \u00abA poesia, tomada nos seus altos exemplares, nos Salmos hebreus, na Trag\u00e9dia esquiliana, e ainda na de S\u00f3focles e Eur\u00edpedes, em Hes\u00edodo e P\u00edndaro, em Virg\u00edlio e Lucr\u00e9cio, em Dante e Calder\u00f3n, participa da natureza da especula\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica e do dogmatismo teol\u00f3gico. E, por outro lado, o que s\u00e3o a metaf\u00edsica e a teologia sen\u00e3o vastos poemas cosmog\u00f3nicos e psicol\u00f3gicos, constru\u00eddos com uma amalgama de s\u00edmbolos e racioc\u00ednios, em que a imagina\u00e7\u00e3o, apesar duma subtileza silog\u00edstica toda formal, domina e triunfa?\u00bb \u2013 ibid., pp. 311-312.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Ibid., p. 317.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Ibid., pp. 317-318.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Ibid., p. 319.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Ibid., pp. 319-320.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Ibid., p. 320.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Ibid., pp. 320-322.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, Lisboa, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 2001, p. 45.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Ibid.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 200px; text-align: right;\"><span style=\"font-size: 10.72px;\">Imagem de\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 10.72px;\" href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/aitoff-388338\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=628494\">Andrew Martin<\/a><span style=\"font-size: 10.72px;\">\u00a0por\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 10.72px;\" href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=628494\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Textos recolhidos de TEIXEIRA, Jos\u00e9 Rui &#8211; <em>Vestigia Dei: Uma leitura teotopol\u00f3gica da literatura portuguesa<\/em>. Maia: Cosmorama Edi\u00e7\u00f5es, 2019, 78pp.<\/h6>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cosmorama.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7618 aligncenter\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"417\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg 714w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-209x300.jpg 209w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-768x1101.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-600x860.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1071x1536.jpg 1071w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1428x2048.jpg 1428w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1200x1721.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-850x1219.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-480x688.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1320x1893.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-scaled.jpg 1785w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Vestigia Dei &#8216;-<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7607,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,139,91,140],"tags":[],"class_list":["post-7606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-jose-rui-teixeira","category-olhares-ii","category-vestigia-dei"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7606"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7626,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7606\/revisions\/7626"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}