{"id":7599,"date":"2020-01-18T15:13:26","date_gmt":"2020-01-18T15:13:26","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7599"},"modified":"2019-12-16T00:19:20","modified_gmt":"2019-12-16T00:19:20","slug":"vestigia-dei-6-4-poesia-religiosa-e-teotopias-poeticas-e-muito-triste-andar-por-entre-deus-ausente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/vestigia-dei-6-4-poesia-religiosa-e-teotopias-poeticas-e-muito-triste-andar-por-entre-deus-ausente\/","title":{"rendered":"Vestigia Dei | 6 &#8211; [4.] POESIA RELIGIOSA E TEOTOPIAS PO\u00c9TICAS: \u00c9 MUITO TRISTE ANDAR POR ENTRE DEUS AUSENTE"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Vestigia Dei<\/em> &#8216;- <em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o projeto <a href=\"http:\/\/www.teotopias.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Teotopias<\/em><\/a>)<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\">[4.] POESIA RELIGIOSA E TEOTOPIAS PO\u00c9TICAS<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00c9 MUITO TRISTE ANDAR POR ENTRE DEUS AUSENTE<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meados da d\u00e9cada de 20, o poeta Guilherme de Faria dedicou-se \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de uma <em>Antologia de poesias religiosas<\/em>. Apesar de ser muito jovem, valeu-se de uma invulgar cultura liter\u00e1ria para reunir 112 poemas, aos quais adicionou 21 quadras populares. Quando, no Natal de 1926, D. Manuel Mendes da Concei\u00e7\u00e3o Santos, Arcebispo de \u00c9vora, escreveu uma carta-pref\u00e1cio para esta <em>Antologia de poesias religiosas<\/em>, Guilherme de Faria n\u00e3o tinha ainda vinte anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um extenso subt\u00edtulo explica que ali se antologiam poesias religiosas \u00abdesde o s\u00e9culo xv [\u2026] at\u00e9 aos nossos tempos, incluindo romances e cantigas da tradi\u00e7\u00e3o popular\u00bb. Na carta-pref\u00e1cio, o Arcebispo de \u00c9vora destaca o \u00abreflexo constante da religi\u00e3o em toda a evolu\u00e7\u00e3o da poesia nacional\u00bb<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> e acrescenta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a sua preciosa cole\u00e7\u00e3o de poesias p\u00f5e diante dos olhos de todos uma verdade flagrante, e \u00e9 que em todas as fases da literatura portuguesa, uma forte inspira\u00e7\u00e3o religiosa dominou a alma nacional. E \u00e9 tanto mais curioso este fen\u00f3meno quanto o vemos reproduzir-se, dir\u00edamos quase contra a vontade dos pr\u00f3prios poetas, porquanto \u00e9 sabido que alguns nomes que firmam poesias contidas neste volume n\u00e3o s\u00e3o crentes. Prevaleceu neles a inspira\u00e7\u00e3o coletiva ao preconceito pessoal: sentiu e cantou na sua obra a alma da ra\u00e7a.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Arcebispo de \u00c9vora denuncia a superficialidade da poesia religiosa dos autores mais recentes e louva as \u00abregi\u00f5es serenas e puras onde as almas nobres encontram inspira\u00e7\u00e3o sublime para as suas composi\u00e7\u00f5es\u00bb, acima \u00abdos p\u00e2ntanos onde se revoluteiam os disc\u00edpulos de Epicuro\u00bb<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onze poemas separam a \u00abOra\u00e7\u00e3o do Justo Juiz\u00bb, de D. Duarte, de cinco excertos de autos de Gil Vicente. Entre S\u00e1 de Miranda e Bocage, destacam-se oito poemas de Cam\u00f5es e quinze de Frei Agostinho da Cruz. Do s\u00e9culo xix, entre outros, ombreiam-se Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Jo\u00e3o de Deus, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes Leal e Ant\u00f3nio Nobre. Como a antologia s\u00f3 foi publicada em 1947<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, quase vinte anos ap\u00f3s a morte de Guilherme de Faria, os editores acrescentaram \u2013 \u00abcomo preito de saudade\u00bb \u2013 quatro poemas do desventurado poeta que se suicidou no princ\u00edpio de 1929.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco depois, C\u00e9sar de Frias organiza a antologia <em>Cem das melhores poesias religiosas da l\u00edngua portuguesa<\/em>, publicada em 1932. Na introdu\u00e7\u00e3o, repara que uma das caracter\u00edsticas mais vincadas da poesia portuguesa e brasileira \u00e9 a frequ\u00eancia de motivos religiosos; repara ainda que, apesar de \u00abcada vez mais enfraquecida a f\u00e9, \u00e0 medida que os s\u00e9culos foram rolando, da poesia ela n\u00e3o se ausentou\u00bb<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Guilherme de Faria morreu em 1929 e a sua <em>Antologia de poesias religiosas <\/em>s\u00f3 foi publicada em 1947, os documentos n\u00e3o se influenciaram. S\u00e3o, por isso, poucos os poemas que coincidem nas duas antologias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De cada autor, C\u00e9sar de Frias escolheu apenas um poema, entre S\u00e1 de Miranda e Guilherme de Faria. Mesmo considerando os poetas brasileiros, esta antologia integrou poemas de v\u00e1rios autores mais recentes: Eug\u00e9nio de Castro, J\u00falio Brand\u00e3o, Fausto Guedes Teixeira, Augusto Gil, Afonso Lopes Vieira, Afonso Duarte, Ant\u00f3nio Sardinha, M\u00e1rio Beir\u00e3o, Am\u00e9rico Dur\u00e3o e, entre outros, algumas poetisas, como Florbela Espanca, Virg\u00ednia Vitorino e Fernanda de Castro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados vinte anos, em 1952, \u00e9 publicado <em>Cristo \u2013 tal como os pintores, escultores e poetas portugueses O viram, sentiram e entenderam<\/em>. N\u00e3o se tratando especificamente de uma antologia de poesia religiosa, a\u00ed se re\u00fanem 31 poemas, escolhidos por Nataniel Costa, muitos dos quais j\u00e1 integrados nas antologias de Guilherme de Faria e C\u00e9sar de Frias. Destacam-se cinco autores nascidos no s\u00e9culo xx: Jos\u00e9 R\u00e9gio, Alberto de Serpa, Miguel Torga, Pedro Homem de Mello e Sebasti\u00e3o da Gama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, em 1958, dois desses poetas \u2013 Jos\u00e9 R\u00e9gio e Alberto de Serpa \u2013 publicam <em>Na m\u00e3o de Deus \u2013 Antologia de poesia religiosa portuguesa<\/em>, t\u00edtulo que evoca o not\u00e1vel soneto de Antero<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na introdu\u00e7\u00e3o, a mesma consci\u00eancia de que quase \u00abtodos os melhores poetas portugueses se voltaram, uma que outra vez, para Deus, ao longo de uma vida t\u00e3o dada ao mundo como frequentemente \u00e9 a dos poetas\u00bb<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Conscientes tamb\u00e9m de que para<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a grande maioria dos nossos poetas \u2013 e aqui se aproximam eles da alma do nosso povo \u2013 a m\u00e3o de Deus n\u00e3o \u00e9, muitas vezes, concebida sen\u00e3o atrav\u00e9s das misericordiosas m\u00e3os da Virgem Sant\u00edssima, [\u2026] ou atrav\u00e9s das m\u00e3ozinhas rosadas de Jesus pequenino [\u2026]; ou atrav\u00e9s das m\u00e3os penitentes dos seus Santos [\u2026]; ou atrav\u00e9s das m\u00e3os cravadas do Crucificado [\u2026]. N\u00e3o se estranhe, pois, que nesta recolha abundem os poemas em louvor a Nossa Senhora, de Santa Maria Madalena, dos passos da Paix\u00e3o de Jesus Cristo, do mist\u00e9rio do Natal. Revela isso uma caracter\u00edstica muito importante da religiosidade dos portugueses. E, pelo menos em cr\u00edtica liter\u00e1ria, \u00e9 in\u00fatil discutir com a natureza profunda dum povo, ainda mais quando revelada e sancionada pelos poetas.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto justifica que Jos\u00e9 R\u00e9gio e Alberto de Serpa, enquanto organizadores desta antologia, n\u00e3o fa\u00e7am depender a inclus\u00e3o ou exclus\u00e3o de certos poemas do modo como concebem a experi\u00eancia religiosa ou a experi\u00eancia m\u00edstica, mesmo com a consci\u00eancia de que s\u00e3o raros os poemas religiosos que atingem \u00abum superior n\u00edvel metaf\u00edsico, ou uma consci\u00eancia profunda e anal\u00edtica, ou a riqueza dos embates entre a f\u00e9 e a tenta\u00e7\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, o que n\u00e3o significa que em muitos dos poemas que escolheram \u2013 muitos deles tamb\u00e9m escolhidos por Guilherme de Faria e C\u00e9sar de Frias<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> \u2013 \u00abn\u00e3o fulgurem versos que voam alto ou mergulham fundo\u00bb<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta antologia re\u00fane 153 poemas de 86 poetas e termina com 17 quadras populares. Nomes como os de Vitorino Nem\u00e9sio, Jorge de Sena e Fernando Echevarr\u00eda aparecem entre os poetas nascidos no s\u00e9culo xx, juntamente com o dos presb\u00edteros Ant\u00f3nio de Magalh\u00e3es e Moreira das Neves. Mas \u2013 entre os 86 poetas a\u00ed representados \u2013 \u00e9 Antero de Quental quem R\u00e9gio e Serpa destacam, s\u00f3 nele encontram<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a tritura\u00e7\u00e3o do pensamento sobre a espont\u00e2nea necessidade de crer; o ansioso exame a uma cren\u00e7a perdida, mas nunca de todo abandonada, a conce\u00e7\u00e3o de Deus sublimada por uma intelig\u00eancia superior que se dilacera.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Datam de 1973 e 1974 os dois volumes de <em>Poesia e Teologia \u2013 poetas de l\u00edngua portuguesa<\/em>, organizados por Ant\u00f3nio de Azevedo Pires. Trata-se de um modelo diferente de antologia, dividida por temas e apresentada ao modo de aforismos, com poemas e excertos, \u00e0s vezes apenas um verso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o princ\u00edpio do primeiro volume e o final do segundo, Azevedo Pires divide a sua ecl\u00e9tica antologia de poetas portugueses e brasileiros em 42 cap\u00edtulos\/temas, entre \u00ab\u00c0 procura de Deus\u00bb e \u00abPara\u00edso\u00bb. Cada cap\u00edtulo \u00e9 introduzido por uma pequena reflex\u00e3o e s\u00e3o muitos as pequenas apresenta\u00e7\u00f5es circunstanciais, uma esp\u00e9cie de interm\u00e9dios que acentuam o efeito de manta de retalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enferma esta antologia de dois pressupostos que a fragilizam irremediavelmente: o primeiro \u00e9 o que afirma que o poeta \u00e9, ao seu modo, um te\u00f3logo \u2013 n\u00e3o se deve estranhar, por isso, \u00abo recurso \u00e0 Poesia para encher p\u00e1ginas de Teologia\u00bb<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> \u2013; e o segundo \u00e9 o que afirma que \u00abo Poeta \u00e9 um escolhido de Deus\u00bb<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, caracterizando-o Azevedo Pires como \u00abalgu\u00e9m que procura um <em>para\u00edso perdido <\/em>e, para o encontrar, conserva-se livre, isento, silencioso e puro, totalmente dispon\u00edvel para captar as resson\u00e2ncias do Verbo\u00bb<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. \u00c9 impressionante a ingenuidade de uma afirma\u00e7\u00e3o como esta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quarenta anos separa a publica\u00e7\u00e3o de <em>Poesia e Teologia <\/em>de <em>Verbo \u2013 Deus como interroga\u00e7\u00e3o na poesia portuguesa<\/em>, antologia organizada por Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia: n\u00e3o se trata de uma recolha de poesia religiosa, mas de uma antologia de poetas portugueses nascidos no s\u00e9culo xx, em cuja obra Deus assoma como interroga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. E talvez n\u00e3o responda \u00e0 pergunta de Jean-Claude Pinson: \u00abQue rela\u00e7\u00e3o pode ainda estabelecer a poesia moderna com qualquer coisa da ordem do sagrado?\u00bb. Ou talvez balbucie outras perguntas por dentro dessa mesma pergunta reformulada: de que modo a poesia contempor\u00e2nea recusa a banalidade intranscendente e se situa nas est\u00e2ncias transimanentes de Deus como interroga\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As antologias anteriores tinham um prop\u00f3sito significativamente menos ambicioso: bastava-lhes, de acordo com crit\u00e9rios pouco discut\u00edveis, escolher poemas de tem\u00e1tica religiosa escritos por poetas representativos de cada \u00e9poca da hist\u00f3ria da literatura portuguesa. Respeitados os crit\u00e9rios e certas evid\u00eancias, o c\u00e2non resultante dependeu fundamentalmente das escolhas dos organizadores, que estavam legitimadas nem que fosse por circunst\u00e2ncias idiossincr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia decidem organizar a antologia <em>Verbo \u2013 Deus como interroga\u00e7\u00e3o na poesia portuguesa<\/em>, o desafio \u00e9 claramente outro, significativamente mais exigente. \u00c9 certo que n\u00e3o se pode dizer que tenham corrido grandes riscos na escolha dos poetas e dos poemas que os representam, mas conseguiram deslocar a perspetiva: se nas antologias que a precederam havia uma certa condescend\u00eancia com poetas que, n\u00e3o sendo crentes, como que se imiscu\u00edam nos dom\u00ednios da religi\u00e3o, nem que fosse por meio de elementos da tradi\u00e7\u00e3o e do folclore religioso; nesta antologia, o foco \u00e9 Deus como interroga\u00e7\u00e3o, \u00abporque Deus existe, na poesia como na vida, em modo interrogativo, mesmo para quem tem f\u00e9\u00bb<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arriscaria afirmar que o princ\u00edpio que preside \u00e0s anteriores antologias \u2013 consciente ou inconscientemente \u2013 \u00e9 o da apolog\u00e9tica de um catolicismo nacionalista e neogarrettista<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>: apesar da a\u00e7\u00e3o erosiva da seculariza\u00e7\u00e3o, afirmam que um dos principais <em>leitmotive<\/em> do \u00abg\u00e9nio nacional\u00bb continua a ser a religiosidade do nosso povo, um cristianismo casti\u00e7o e buc\u00f3lico que os poetas exprimiram liricamente, quase sem ang\u00fastias os crentes e em contri\u00e7\u00e3o os ap\u00f3statas e os anticlericais. Trata-se, portanto, de antologias que \u2013 mais do que confortar os que t\u00eam f\u00e9 \u2013 provocam e convocam os dissidentes do catolicismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 antologia organizada por Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia, essencialmente constitu\u00edda por poemas da segunda metade do s\u00e9culo xx, a provoca\u00e7\u00e3o \u00e9 sobretudo dirigida \u00e0queles cuja vida espiritual se reduz a uma \u00e1rea de conforto, com as suas rotinas cultuais e uma experi\u00eancia sacramental meramente sociol\u00f3gica. Prescinde \u2013 tamb\u00e9m por isso \u2013 de poemas explicitamente religiosos e da separa\u00e7\u00e3o manique\u00edsta entre poetas crentes e poetas n\u00e3o crentes, sendo que os cat\u00f3licos a\u00ed representados n\u00e3o s\u00e3o poetas cat\u00f3licos, mas cat\u00f3licos poetas, de acordo com a feliz asser\u00e7\u00e3o de Ruy Cinatti: \u00abSou um cat\u00f3lico poeta. N\u00e3o um poeta cat\u00f3lico\u00bb<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra quest\u00e3o muito interessante prende-se com o facto de Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia terem convocado o insuspeito Gottfried Benn, com a afirma\u00e7\u00e3o contundente de que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abDeus \u00e9 um mau princ\u00edpio estil\u00edstico. Quando algu\u00e9m se torna religioso, isso fatalmente abranda a sua expressividade\u00bb. [\u2026] A alternativa que o poeta alem\u00e3o apresentou passou a constituir um dos modos mais representativos de afrontar o problema: a arte (e, neste particular, a poesia) \u00e9 a \u00fanica forma poss\u00edvel de transcend\u00eancia. A religi\u00e3o perdeu o poder de impulsionar os homens no seu desenvolvimento espiritual e \u00abapenas a arte permanece como a verdadeira tarefa da vida, como sua identidade, sua atividade metaf\u00edsica, \u00e0 qual ela mesma, a vida, nos obriga\u00bb.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noutra perspetiva, apesar da revaloriza\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica nos meios eclesiais desde meados do s\u00e9culo xx, a experi\u00eancia religiosa de abertura \u00e0 transcend\u00eancia, nas suas m\u00faltiplas express\u00f5es, considera ainda a est\u00e9tica prescind\u00edvel e instrumental; admite-a, mas n\u00e3o sem suspei\u00e7\u00e3o; procura frequentemente regul\u00e1-la, domestic\u00e1-la; e considera-a teologicamente pouco profunda e teologalmente pouco comprometida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, entre uma e a outra perspetiva, poder\u00edamos escrever uma hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre a Igreja e os artistas. Com os poetas foi diferente. Basta n\u00e3o ter havido uma depend\u00eancia do mecenato eclesial. O poeta foi sempre uma esp\u00e9cie de artista <em>sui generis<\/em>: eventualmente mais livre, certamente mais limiar e mais oracular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ruy Belo, <em>Todos os poemas<\/em>, p. 119.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> D. Manuel Mendes da Concei\u00e7\u00e3o Santos, \u00abPref\u00e1cio\u00bb, in <em>Antologia de poesias religiosas<\/em>, Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es Gama, 1947, p. 12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibid., p. 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ibid., p. 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> E foi reeditada em 1996, com o t\u00edtulo: <em>As mais belas poesias religiosas <\/em>(Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica), com um texto de apresenta\u00e7\u00e3o do presb\u00edtero Ant\u00f3nio Costa Marques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> C\u00e9sar de Frias \u00abPref\u00e1cio\u00bb, in <em>Cem das melhores poesias religiosas da l\u00edngua portuguesa<\/em>, Lisboa, Guimar\u00e3es e C.\u00aa, 1932, p. 7.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Cf. Antero de Quental, \u00abNa m\u00e3o de Deus\u00bb, in <em>Poesia Completa<\/em>, p. 313.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Jos\u00e9 R\u00e9gio e Alberto de Serpa, \u00abPref\u00e1cio\u00bb, in <em>Na m\u00e3o de Deus \u2013 Antologia de poesia religiosa portuguesa<\/em>, Lisboa, Portug\u00e1lia Editora, 1958, p. 7.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ibid., pp. 9-10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ibid., p. 10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Jos\u00e9 R\u00e9gio e Alberto de Serpa n\u00e3o esquecem o contributo das duas antologias anteriores: \u00abResta-nos declarar que nos foram boa ajuda as antologias da mesma natureza que precederam esta: como a de C\u00e9sar de Frias e, muito particularmente, a de Guilherme de Faria\u00bb (ibid., p. 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ibid., p. 10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ibid., pp. 7-8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Ant\u00f3nio de Azevedo Pires, \u00abIntrodu\u00e7\u00e3o\u00bb, in <em>Poesia e Teologia \u2013 poetas de l\u00edngua portuguesa<\/em> (vol. i), Lisboa, Uni\u00e3o Gr\u00e1fica, 1973, p. 7.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ibid., p. 8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ibid.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia, \u00abExplica\u00e7\u00e3o\u00bb, in <em>Verbo<\/em>, p. 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Particularmente entre <em>Palavras loucas <\/em>de Alberto d\u2019Oliveira (Coimbra, F. Fran\u00e7a Amado \u2013 Editor, 1894) e os \u00faltimos resqu\u00edcios do neorromantismo lusitanista, em meados do s\u00e9culo xx. Importa, no entanto, recordar que o <em>Cancioneiro <\/em>de Jo\u00e3o de Lemos \u2013 particularmente o segundo volume: <em>Religi\u00e3o e P\u00e1tria<\/em> (Lisboa, Escrit\u00f3rio do Editor) foi publicado em 1859.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Citado por Peter Stilwell em <em>A condi\u00e7\u00e3o humana em Ruy Cinatti<\/em> (Lisboa, Presen\u00e7a, 1995, p. 69).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a e Pedro Mexia, \u00abExplica\u00e7\u00e3o\u00bb, in <em>Verbo<\/em>, p. 13.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 200px; text-align: right;\"><span style=\"font-size: 10.72px;\">Imagem de\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 10.72px;\" href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Mysticsartdesign-322497\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=425730\">Mystic Art Design<\/a><span style=\"font-size: 10.72px;\">\u00a0por\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 10.72px;\" href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=425730\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Textos recolhidos de TEIXEIRA, Jos\u00e9 Rui &#8211; <em>Vestigia Dei: Uma leitura teotopol\u00f3gica da literatura portuguesa<\/em>. Maia: Cosmorama Edi\u00e7\u00f5es, 2019, 78pp.<\/h6>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cosmorama.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7618 aligncenter\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"209\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg 714w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-209x300.jpg 209w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-768x1101.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-600x860.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1071x1536.jpg 1071w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1428x2048.jpg 1428w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1200x1721.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-850x1219.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-480x688.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1320x1893.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-scaled.jpg 1785w\" sizes=\"auto, (max-width: 209px) 100vw, 209px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Vestigia Dei &#8216;-<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7600,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,139,91,140],"tags":[],"class_list":["post-7599","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-jose-rui-teixeira","category-olhares-ii","category-vestigia-dei"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7599"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7624,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7599\/revisions\/7624"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}