{"id":7588,"date":"2019-12-28T15:00:34","date_gmt":"2019-12-28T15:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7588"},"modified":"2019-12-16T00:17:08","modified_gmt":"2019-12-16T00:17:08","slug":"vestigia-dei-3-1-conjeturar-e-desconstruir-mesmo-ao-falar-de-deus-eu-me-esqueco-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/vestigia-dei-3-1-conjeturar-e-desconstruir-mesmo-ao-falar-de-deus-eu-me-esqueco-de-deus\/","title":{"rendered":"Vestigia Dei | 3 &#8211; [1.] CONJETURAR E DESCONSTRUIR: MESMO AO FALAR DE DEUS EU ME ESQUE\u00c7O DE DEUS"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Vestigia Dei<\/em> &#8216;- <em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o projeto <a href=\"http:\/\/www.teotopias.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Teotopias<\/em><\/a>)<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\">[1.] CONJETURAR E DESCONSTRUIR<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">MESMO AO FALAR DE DEUS EU ME ESQUE\u00c7O DE DEUS<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Rui Teixeira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uns anos, em \u00abA primitiva labareda\u00bb<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, Tolentino Mendon\u00e7a repetiu a pergunta de Jean-Claude Pinson, em <em>Habiter en po\u00e8te<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>: \u00abQue rela\u00e7\u00e3o pode ainda estabelecer a poesia moderna com qualquer coisa da ordem do sagrado?\u00bb. E repetiu-a n\u00e3o certamente como quem se disp\u00f5e a encontrar uma resposta, mas como quem se prop\u00f5e a adentrar-se na pergunta. N\u00e3o quero distanciar-me de \u00abA primitiva labareda\u00bb de Tolentino Mendon\u00e7a, n\u00e3o porque a\u00ed encontre uma resposta, mas porque me permite recentrar o problema na densidade premente da pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta reflex\u00e3o sobre o lugar de Deus na poesia n\u00e3o parte de um prop\u00f3sito acad\u00e9mico espec\u00edfico mais ou menos definido. Pode mesmo ser o exerc\u00edcio de uma certa ininteligibilidade propositada, na medida em que se n\u00e3o consigo abranger a extens\u00e3o de um conceito como \u00abpoesia\u00bb, como poderei estabelecer os crit\u00e9rios de compreens\u00e3o de uma express\u00e3o como \u00ablugar de Deus\u00bb? Mesmo se circunscrevesse esta reflex\u00e3o \u00e0 poesia contempor\u00e2nea; ou, especificamente, \u00e0 poesia portuguesa contempor\u00e2nea, continuaria com um conceito excessivamente extenso. E o problema n\u00e3o \u00e9 tanto a abstrata extens\u00e3o do conceito, mas sobretudo as concretas dimens\u00f5es do objeto. Mesmo se me limitasse \u00e0 obra po\u00e9tica de um autor, como poderia a\u00ed \u00absituar\u00bb Deus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perscrutar o lugar de Deus (como interroga\u00e7\u00e3o) na poesia contempor\u00e2nea ou na obra de um determinado autor, passa por saber se Deus \u00e9 a\u00ed \u2013 ainda \u2013 um \u00abnome\u00bb poss\u00edvel, ou seja: passa por saber se nos vastos territ\u00f3rios da poesia \u2013 da literatura e da arte \u2013 ainda h\u00e1 teotopias. E esta n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma formula\u00e7\u00e3o mais simples. Esta quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> em nenhuma das suas formula\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, independentemente do enquadramento temporal ou dos processos de redu\u00e7\u00e3o contextual da reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando nos perguntamos sobre o lugar de Deus na poesia contempor\u00e2nea, talvez admitamos \u2013 mais ou menos conscientemente \u2013 a exist\u00eancia deste pressuposto: o lugar de Deus na literatura \u00e9 temporalmente vari\u00e1vel. Ou seja: na literatura antiga ou medieval, Deus ocupava um lugar diferente daquele que veio a ocupar na literatura moderna ou que ocupa na literatura contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levanta-se aqui um problema que n\u00e3o \u00e9 meramente temporal, mesmo que a pergunta de Jean-Claude Pinson incida concretamente na possibilidade da rela\u00e7\u00e3o da \u00abpoesia moderna\u00bb com qualquer coisa da ordem do sagrado. Presumo que \u2013 por \u00abpoesia moderna\u00bb \u2013 Pinson queira dizer \u00abpoesia contempor\u00e2nea\u00bb e optarei por \u00abpoesia contempor\u00e2nea\u00bb para desambiguar a rela\u00e7\u00e3o com a modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, creio que n\u00e3o \u00e9 problem\u00e1tico considerarmos contempor\u00e2nea a literatura do nosso tempo: dos \u00faltimos trinta anos, se tivermos a queda do Muro de Berlim como refer\u00eancia hist\u00f3rico-simb\u00f3lica do fim da modernidade \u2013 <em>chamemos-lhe p\u00f3s-moderna, nem que seja por uma quest\u00e3o de conveni\u00eancia circunstancial<\/em><strong>. <\/strong>Tamb\u00e9m n\u00e3o creio que seja problem\u00e1tico aceitarmos, com o prop\u00f3sito bem definido de compartimenta\u00e7\u00e3o temporal, que um autor da primeira metade do s\u00e9culo xx \u2013 j\u00e1 \u2013 n\u00e3o \u00e9 contempor\u00e2neo. No entanto, teremos de desdobrar os espa\u00e7os transfronteiri\u00e7os da cronologia da hist\u00f3ria da cultura, fazendo uso de outra perspetiva de Walter Benjamin: podemos aceitar \u2013 n\u00e3o sem algumas reservas \u2013 que a obra de um autor seja contempor\u00e2nea em fun\u00e7\u00e3o do alcance e da perdura\u00e7\u00e3o da sua legibilidade<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o importa esmiu\u00e7ar aqui esta quest\u00e3o, at\u00e9 porque o lugar de Deus, ou essa \u00abqualquer coisa da ordem do sagrado\u00bb da pergunta de Pinson, seja na poesia, seja nas mais prosaicas express\u00f5es do quotidiano, \u00e9 uma quest\u00e3o temporalmente enfatizada pelo processo de seculariza\u00e7\u00e3o, que a modernidade (sob)redimensionou no final do s\u00e9culo xix e durante o s\u00e9culo xx, at\u00e9 aos nossos dias<em>. E, se n\u00e3o importa esmiu\u00e7ar aqui esta quest\u00e3o, \u00e9 fundamentalmente porque parece-me uma quest\u00e3o acess\u00f3ria: afirmar que o processo de seculariza\u00e7\u00e3o expulsou Deus da poesia dos \u00faltimos duzentos anos \u2013 ou dos \u00faltimos trinta \u2013 resulta numa observa\u00e7\u00e3o irrelevante, t\u00e3o f\u00fatil quanto qualquer outra generaliza\u00e7\u00e3o precipitada. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E se centramos esta reflex\u00e3o no <\/em><em>aqui <\/em><em>e<\/em><em> agora <\/em><em>da nossa condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa tanto saber se hoje se escrevem (ou se leem) mais ou menos livros sobre Deus, ou se os seus t\u00edtulos, expl\u00edcita ou implicitamente, integram o semantema \u00abDeus\u00bb. Ou seja: \u00e0 teotopologia liter\u00e1ria n\u00e3o importaria tanto saber se, proporcionalmente, Deus \u00e9 mais ou menos evocado, refletido, afirmado ou negado em obras medievais, nos versos de um poeta rom\u00e2ntico ou nas p\u00e1ginas de um ficcionista contempor\u00e2neo. Um estudo desse g\u00e9nero teria certamente algum interesse, mas \u00e9 pouco relevante para sabermos se Deus \u00e9 ainda, na poesia \u2013 na literatura, na arte \u2013 do nosso tempo, um \u00abnome\u00bb poss\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, poder\u00edamos tentar situar o problema na express\u00e3o do semantema \u00abDeus\u00bb num contexto mais circunscrito. Por exemplo, na poesia portuguesa publicada durante ano passado. Depois de sabermos quantos livros foram publicados em Portugal em 2017, precisar\u00edamos saber quantos desses livros imprimiram poesia e ter\u00edamos de, depois de uma leitura criteriosamente anal\u00edtica e hermen\u00eautica, quantificar ocorr\u00eancias, identificar contextos, estabelecer similitudes sem\u00e2nticas e, por fim, apresentar estat\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por\u00e9m, n\u00e3o importa tanto saber quanto espa\u00e7o o semantema \u00abDeus\u00bb ocupou nas p\u00e1ginas dos livros de um g\u00e9nero liter\u00e1rio espec\u00edfico num determinado per\u00edodo ou numa perspetiva hist\u00f3rico-liter\u00e1ria mais geral. Importa, sim, tentar perceber o modo como Deus (como interroga\u00e7\u00e3o) tem habitado n\u00e3o s\u00f3 as p\u00e1ginas dos livros, mas tamb\u00e9m o imagin\u00e1rio dos seus autores, seja na homil\u00e9tica barroca, nos labir\u00ednticos enredos dos rom\u00e2nticos e dos existencialistas, ou nas derivas dos experimentalistas.<\/em> E perceber o modo como Deus tem habitado o imagin\u00e1rio dos escritores, implica \u2013 de alguma maneira \u2013 tentar perceber o modo como tem habitado o imagin\u00e1rio dos leitores. E \u00e9 isso que define a teotopia liter\u00e1ria: n\u00e3o se trata de um templo, reduto de um sagrado abstrato e interdito, mas de um lugar despossu\u00eddo \u2013 penso em periferias e em baldios \u2013, um lugar coabitado, cuja referencialidade mais \u00edntima \u00e9 a da presen\u00e7a e da aus\u00eancia<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe a consci\u00eancia generalizada de que nos nossos dias Deus \u2013 a ideia de Deus, o mist\u00e9rio de Deus, Deus como interroga\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 uma quest\u00e3o secund\u00e1ria. Do mesmo modo, considera-se que ter\u00e1 sido uma quest\u00e3o fundamental na Idade M\u00e9dia, t\u00e3o insistente e caracterizada e compartimentada como teoc\u00eantrica, t\u00e3o insistentemente depreciada tamb\u00e9m por isso. Devemos este tipo de perspetivas ao simplismo com que se estabelecem os estere\u00f3tipos. Seria desnecess\u00e1rio \u2013 e mesmo ris\u00edvel \u2013 perguntarmos quantos contempor\u00e2neos de Francisco de Assis ter\u00e3o experimentado a intensidade incendida da sua espiritualidade ou quantos contempor\u00e2neos de Tom\u00e1s de Aquino ter\u00e3o discutido as implica\u00e7\u00f5es da sua <em>Suma de Teologia<\/em>. \u00c9 evidente que o comportamento de Francisco de Assis constitu\u00eda uma excentricidade \u2013 e at\u00e9 mesmo um esc\u00e2ndalo \u2013 para a generalidade os seus contempor\u00e2neos, mesmo no meio eclesi\u00e1stico, onde n\u00e3o faltou quem o considerasse her\u00e9tico; e foram raros os interlocutores intelectuais de Tom\u00e1s de Aquino \u2013 ter\u00e3o sido mais os que reagiram \u00e0 fama da sua eloqu\u00eancia do que os que se adentraram nas profundezas do seu pensamento teol\u00f3gico e filos\u00f3fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez n\u00e3o seja f\u00e1cil aceitarmos que em todas as sociedades existe uma percentagem pouco relevante e mais ou menos est\u00e1vel de pessoas para quem a quest\u00e3o de Deus \u2013 a ideia de Deus, o mist\u00e9rio de Deus, Deus como interroga\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 uma dimens\u00e3o importante das suas vidas. Com efeito, independentemente da diversidade e da especificidade dos contextos sociol\u00f3gicos, eclesiais e hist\u00f3rico-culturais, a generalidade das pessoas \u2013 na Idade M\u00e9dia ou nos nossos dias \u2013 n\u00e3o considera essa uma quest\u00e3o estruturante e existencialmente relevante. E considerar a quest\u00e3o de Deus como estruturante e existencialmente relevante n\u00e3o depende de as igrejas estarem cheias ou vazias, nem de se tratar de um meio urbano ou de um meio rural, nem de se observarem mais ou menos pr\u00e1ticas religiosas, nem de se tratar de uma sociedade com mais ou menos promiscuidade institucional entre a Igreja e o Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o creio que em Portugal o n\u00famero de batizados \u2013 ou mesmo o n\u00famero de pessoas com o m\u00ednimo de implica\u00e7\u00e3o eclesial \u2013 seja determinante para revalorizar a quest\u00e3o de Deus nas suas implica\u00e7\u00f5es e express\u00f5es mais profundas. Quero com isto relativizar o argumento da diferencia\u00e7\u00e3o esp\u00e1cio-temporal, ou seja: creio que a quest\u00e3o de Deus n\u00e3o \u00e9 necessariamente mais considerada num contexto medieval ou rural \u2013 em que a Igreja tem uma presen\u00e7a institucional, sociol\u00f3gica e tradicional mais evidente \u2013 do que nos labirintos desta indefinida p\u00f3s-modernidade, nas encruzilhadas das nossas grandes cidades. Do mesmo modo, uma poesia em que o semantema \u00abDeus\u00bb \u00e9 recorrente n\u00e3o considera necessariamente mais a quest\u00e3o de Deus do que uma poesia em que esse semantema \u00e9 fundamentalmente omisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa ainda afirmar que a quest\u00e3o de Deus \u2013 a ideia de Deus, o mist\u00e9rio de Deus, Deus como interroga\u00e7\u00e3o \u2013 est\u00e1 longe de ser uma quest\u00e3o circunscrita aos meios religiosos sociologicamente demarcados. No caso concreto da literatura portuguesa dos \u00faltimos duzentos anos, o contributo de autores considerados ateus, agn\u00f3sticos ou apenas anticlericais para a reflex\u00e3o sobre a quest\u00e3o de Deus n\u00e3o foi menos profundo nem menos consequente do que o do pensamento teol\u00f3gico em contexto acad\u00e9mico ou eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A partir de um ensaio de 2013: \u00abO vazio que persiste \u00e0 minha beira. Sobre o lugar de Deus na poesia contempor\u00e2nea\u00bb, escrito para o n.\u00ba 224 da revista <em>Igreja e Miss\u00e3o<\/em> (setembro\/dezembro de 2013, pp. 369-384) e posteriormente publicado pela C\u00e1tedra Poesia e Transcend\u00eancia (Porto, Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ruy Belo, <em>Todos os poemas<\/em>, p. 374.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, \u00abA primitiva labareda\u00bb (pref\u00e1cio), in Ana Marques Gast\u00e3o, Ant\u00f3nio Rego Chaves e Armando Silva Carvalho, <em>Tr\u00eas vezes Deus<\/em>, Lisboa, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2001, pp. 9-12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Jean-Claude Pinson, <em>Habiter en po\u00e8te<\/em>, Ceyz\u00e9rieu, Champ Vallon, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Temo ter aprendido com Nabokov um incorrig\u00edvel preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 simplicidade aplicada \u00e0 literatura. N\u00e3o resisto a citar uma passagem do posf\u00e1cio que escreveu para <em>A morte de Ivan Iliitch<\/em>: \u00abPodem ter visto, devem ter visto alguns desses manuais horr\u00edveis escritos n\u00e3o por educadores, mas por \u201ceducacionalistas\u201d \u2013 por pessoas que falam sobre os livros em vez de falarem dentro dos livros. Se calhar disseram-vos que o principal objetivo de um grande escritor, e at\u00e9 a principal marca da sua grandeza, \u00e9 a \u201csimplicidade\u201d. S\u00e3o traidores, n\u00e3o professores. Ao ler testes escritos por estudantes desencaminhados, de ambos os sexos, sobre este ou aquele autor, j\u00e1 me deparei muitas vezes com frases \u2013 provavelmente lembran\u00e7as de anos mais antigos de escolaridade \u2013 como \u201co estilo dele \u00e9 simples\u201d ou \u201co estilo dele \u00e9 claro e simples\u201d ou \u201co estilo dele \u00e9 bonito e simples\u201d ou \u201co estilo dele \u00e9 bastante bonito e simples\u201d. Mas lembrem-se de que a \u201csimplicidade\u201d \u00e9 oca. Nenhum grande escritor \u00e9 simples. O jornal \u00e9 simples. O jornal\u00eas \u00e9 simples. Upton Lewis \u00e9 simples. A mam\u00e3 \u00e9 simples. Os resumos s\u00e3o simples. A porcaria \u00e9 simples. Mas os Tolst\u00f3is e os Melvilles n\u00e3o s\u00e3o simples\u00bb \u2013 Vladimir Nabokov, \u00abPosf\u00e1cio\u00bb, in Lev Tolst\u00f3i, <em>A morte de Ivan Iliitch<\/em>, Lisboa, Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, 2007, p. 102.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Pensemos na vida e na obra de dois autores como Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa \u00e0 luz da quest\u00e3o da \u00ablegibilidade\u00bb proposta por Walter Benjamin \u2013 cf. <em>Libro de los pasajes<\/em> (N 3, 1), p. 465. Nasceram em 1877 e 1888, respetivamente; Pascoaes morreu em 1952, com 75 anos, e Pessoa em 1935, com 47. Pascoaes viveu mais tempo, foi mais reconhecido em vida, teve mais edi\u00e7\u00f5es (e in\u00fameras tradu\u00e7\u00f5es) e foi significativamente mais lido na primeira metade do s\u00e9culo xx; por\u00e9m \u2013 durante a segunda metade \u2013 esta situa\u00e7\u00e3o inverteu-se: hoje, Pessoa n\u00e3o tem apenas mais reconhecimento, mais edi\u00e7\u00f5es e mais leitores \u2013 tornou-se um autor universal. Significa isto que o tempo de um autor pode n\u00e3o coincidir com o seu contexto existencial, mas com o alcance e a perdura\u00e7\u00e3o da sua legibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Seria muito interessante aprofundar esta reflex\u00e3o em di\u00e1logo com Martin Buber (<em>Eclipse de Dios \u2013 Estudios sobre las relaciones entre religi\u00f3n y filosof\u00eda<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 2014), Gadamer (<em>Hermen\u00e9utica, est\u00e9tica e historia<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 2013) e Roland Barthes (<em>El sussurro del linguaje \u2013 M\u00e1s all\u00e1 de la palabra y la escritura<\/em>, Barcelona, Paid\u00f3s, 2009).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Arcaion-2057886\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3875910\">Henryk Niestr\u00f3j<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3875910\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Textos recolhidos de TEIXEIRA, Jos\u00e9 Rui &#8211; <em>Vestigia Dei: Uma leitura teotopol\u00f3gica da literatura portuguesa<\/em>. Maia: Cosmorama Edi\u00e7\u00f5es, 2019, 78pp.<\/h6>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cosmorama.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7618 aligncenter\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-714x1024.jpg 714w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-209x300.jpg 209w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-768x1101.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-600x860.jpg 600w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1071x1536.jpg 1071w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1428x2048.jpg 1428w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1200x1721.jpg 1200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-850x1219.jpg 850w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-480x688.jpg 480w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-1320x1893.jpg 1320w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Vestigia-dei-scaled.jpg 1785w\" sizes=\"auto, (max-width: 234px) 100vw, 234px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Vestigia Dei &#8216;-<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7590,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,139,91,140],"tags":[],"class_list":["post-7588","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-jose-rui-teixeira","category-olhares-ii","category-vestigia-dei"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7588","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7588"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7588\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7621,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7588\/revisions\/7621"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}