{"id":7513,"date":"2019-12-02T13:03:29","date_gmt":"2019-12-02T13:03:29","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7513"},"modified":"2019-11-30T13:06:46","modified_gmt":"2019-11-30T13:06:46","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-melies-e-os-selenitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-melies-e-os-selenitas\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| M\u00e9li\u00e8s e os selenitas"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">M\u00e9li\u00e8s e os selenitas<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Homenagens do cinema a si mesmo? \u201cCada um o seu cinema\u201d, por exemplo, recolheu 33 curtos epis\u00f3dios de 3 minutos, feitos por v\u00e1rios realizadores, para comemorar os 60 anos do festival de Cannes. Os resultados s\u00e3o diversos, entre o curioso, a homenagem e o pungente (I\u00f1\u00e1rritu nesta \u00faltima categoria): a verdade \u00e9 que as obras coletivas de homenagem s\u00e3o sempre de interesse limitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos deixa ent\u00e3o com as longas-metragens: \u201c8\u00bd\u201d de Fellini, \u201cStardust Memories\u201d de Woody Allen, \u201cAv\u00e9 C\u00e9sar\u201d dos irm\u00e3os Coen, \u201cSacanas sem Lei\u201d do Tarantino ou \u201cO Desprezo\u201d de Godard s\u00e3o alguns dos exemplos. E o caso mais famoso \u00e9 mesmo europeu: o \u201cCinema Para\u00edso\u201d de Tornatore, uma dramatiza\u00e7\u00e3o daquela inoc\u00eancia que o cinema substitui \u00e0 que fez perder. Est\u00e3o todos entre o bom e o excelente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resta ainda \u201cA Inven\u00e7\u00e3o de Hugo\u201d, de um realizador que em novo queria ser padre, Martin Scorcese. O filme \u00e9 de 2011 e chegar a ele apenas agora n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o de louvor, antes fen\u00f3meno que se prende com os delirantes \u201ctravellings\u201d que o trailer do filme apresentava. Acresce ter-se dito que o filme se dirigia \u00e0s crian\u00e7as, que tinha de ser visto em 3D e at\u00e9 que abusava dos efeitos visuais de computador (CGI).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada disso \u00e9 particularmente falso, mesmo se a classifica\u00e7\u00e3o no nosso pa\u00eds \u00e9 \u201cpara maiores de 12 anos\u201d. E, depois de fazer a experi\u00eancia (em 2D), a conclus\u00e3o \u00e9 que essas afirma\u00e7\u00f5es devem ser reduzidas a uma qualquer forma do dito \u201cvalem aquilo que valem\u201d. At\u00e9 porque tamb\u00e9m se dizia tratar-se de uma declara\u00e7\u00e3o de amor ao cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema era ningu\u00e9m explicar que a declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada de artificial ou est\u00e9tico: a segunda parte do filme adentra-se mesmo sem conten\u00e7\u00e3o nas origens da s\u00e9tima arte. Qual v\u00edtima perante uma baleia que abre a boca para o sugar sem resist\u00eancia, o espetador v\u00ea-se envolvido numa viagem ternurenta ao que que se pode chamar o princ\u00edpio do universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebe-se por que raz\u00e3o Scorcese abra\u00e7ou o projeto, uma adapta\u00e7\u00e3o do livro de Brian Selznick, \u201cA Inven\u00e7\u00e3o de Hugo Cabret\u201d (ele pr\u00f3prio parente do famoso produtor americano David O. Selznick). A obra original cont\u00e9m texto e maravilhosas ilustra\u00e7\u00f5es, muitas delas reproduzidas no filme de forma fidel\u00edssima: torna-se dif\u00edcil n\u00e3o intuir um largu\u00edssimo sorriso do realizador na montagem desta sec\u00e7\u00e3o do filme (ponto final aos superlativos!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo bem poderia ser \u201cO Sonho de M\u00e9li\u00e8s\u201d, porque disso se trata: houve uma altura em que a m\u00e1quina de filmar j\u00e1 fora inventada mas estava ainda tudo por fazer, tudo por aprender. Os irm\u00e3os Lumi\u00e8re deram \u00e0 luz a crian\u00e7a mas quem ficou noites sem dormir \u00e0 beira do ber\u00e7o foi M\u00e9li\u00e8s. Os Lumi\u00e8re achavam inclusive que o cinemat\u00f3grafo n\u00e3o tinha futuro e puseram-no de parte em 1905.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o de um est\u00fadio em vidro para poder filmar com boa luz; todos os adere\u00e7os artesanais que hoje s\u00f3 se ver\u00e3o num desfile de Carnaval; os efeitos especiais que se resumem a cortar e recolar a fita de celuloide; o pintar \u00e0 m\u00e3o de cada imagem que havia de aparecer na tela\u2026 ideias de um homem que come\u00e7ou a carreira como m\u00e1gico (e assim continuou, devemos concluir).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim apareceram atividades fundamentais como a montagem e a dire\u00e7\u00e3o: se em Lyon criou-se o aparelho de filmar (os Lumi\u00e8re), em Paris criou-se a arte de contar est\u00f3rias com o entusiasmo das crian\u00e7as e a compet\u00eancia dos mestres. M\u00e9li\u00e8s inventou os efeitos especiais quando fez desaparecer uma personagem no filme \u201cEscamotage d&#8217;une dame chez Robert-Houdin\u201d (pode ser visto no YouTube e dura pouco mais de 1 minuto): uma simples pausa na c\u00e2mara de filmar criou o efeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seu filme mais famoso \u00e9 \u201cViagem \u00e0 Lua\u201d que foi um grande sucesso internacional. Nos Estados Unidos a pirataria do filme levou o realizador a criar ali uma sucursal da sua companhia, a Manufacture de Films pour Cin\u00e9matographes. Estabelecendo-se como distribuidor, M\u00e9li\u00e8s institui-se tamb\u00e9m como pioneiro no combate \u00e0 contrafa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cViagem \u00e0 Lua\u201d inaugurou o g\u00e9nero fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a imagem da nave espacial, em forma de bala, espetada no olho da lua passou a fazer parte do imagin\u00e1rio coletivo de todos n\u00f3s. A expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 lua parece ter sido inspirada em J\u00falio Verne e H. G. Wells: os astr\u00f3nomos defrontam os habitantes da lua (convenientemente chamados selenitas), conseguindo finalmente fugir para casa (onde \u201caterram\u201d no oceano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos sabemos que o cinema era ent\u00e3o mudo e que no in\u00edcio nem as vinhetas explicativas existiam. Menos conhecido \u00e9 o facto de M\u00e9li\u00e8s promover explica\u00e7\u00f5es sobre os filmes durante as proje\u00e7\u00f5es. Ou que este faz-tudo ter\u00e1 mesmo pedido a cria\u00e7\u00e3o de uma composi\u00e7\u00e3o musical que servisse de banda sonora a \u201cViagem \u00e0 Lua\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Scorcese narra os dados mais relevantes da biografia mas deixa de lado a morte do seu personagem principal (M\u00e9li\u00e8s rouba claramente o protagonismo a Hugo). Ou o terr\u00edvel per\u00edodo de quase pobreza e aliena\u00e7\u00e3o durante a grande guerra. Apoiado pelos admiradores do seu cinema, teve mesmo uma justa reabilita\u00e7\u00e3o a partir dos anos 20. Pouco tempo antes de morrer, disse aos seus amigos: \u201cLaugh, my friends. Laugh with me, laugh for me, because I dream your dreams.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA Inven\u00e7\u00e3o de Hugo\u201d deveria ser um filme de vis\u00e3o obrigat\u00f3ria nas escolas: uma inicia\u00e7\u00e3o comovente \u00e0 alma do cinema, capaz de educar para o poder das imagens e das narrativas ao mesmo tempo. Pela purifica\u00e7\u00e3o que prop\u00f5e, \u00e9 uma esp\u00e9cie de Batismo de fogo: a experi\u00eancia de uma arte que nas suas origens n\u00e3o \u00e9 busca de lucro nem m\u00e1quina de superestrelas sobrevalorizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O engenho, a dedica\u00e7\u00e3o e o sacrif\u00edcio de George M\u00e9li\u00e8s s\u00e3o, ao mesmo tempo, a mat\u00e9ria e a met\u00e1fora da criatividade. Mais do que isso, s\u00e3o esventramento do que \u00e9 estar vivo deixa-nos mais perto das estrelas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7515,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-7513","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7513"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7513\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7517,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7513\/revisions\/7517"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7515"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}