{"id":7159,"date":"2019-10-19T16:22:30","date_gmt":"2019-10-19T15:22:30","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7159"},"modified":"2019-10-19T16:22:30","modified_gmt":"2019-10-19T15:22:30","slug":"uma-grande-esperanca-texto-inedito-do-papa-francisco-sobre-a-nossa-mae-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/uma-grande-esperanca-texto-inedito-do-papa-francisco-sobre-a-nossa-mae-terra\/","title":{"rendered":"\u201cUma grande esperan\u00e7a\u201d: Texto in\u00e9dito do papa Francisco sobre a \u201cNossa m\u00e3e Terra\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<h5 style=\"text-align: right;\">Artigo recolhido do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/uma_grande_esperanca_papa_francisco.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/h5>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicamos excertos de \u201cUma grande esperan\u00e7a\u201d, ensaio in\u00e9dito do papa Francisco que conclui o livro \u201cNostra madre Terra. Una lettura cristiana della sfida dell\u2019ambiente\u201d (Nossa m\u00e3e Terra. Uma leitura crist\u00e3 do desafio do ambiente), que ser\u00e1 lan\u00e7ado a 24 de outubro pela Libreria Editrice Vaticana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra recolhe frases, textos, discursos e homilias do papa Francisco sobre o tema da prote\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o e da promo\u00e7\u00e3o de uma vida digna para cada ser humano. O volume \u00e9 introduzido pelo pref\u00e1cio do patriarca ecum\u00e9nico Bartolomeu, que sublinha o entendimento entre ortodoxos e cat\u00f3licos na salvaguarda, \u00e0 luz da f\u00e9 em Cristo, do dom da cria\u00e7\u00e3o e da vida humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"it\">Uma grande esperan\u00e7a<br \/>\nPapa Francisco<br \/>\nIn \u201cNostra madre Terra\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Sagrada Escritura ensina-nos que Deus criou o mundo. A liturgia da Igreja revela-nos, depois, que Ele o fez \u00abpara efundir o seu amor\u00bb (Missal Romano, Pref\u00e1cio da Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica IV) sobre tudo aquilo que do nada vinha \u00e0 vida. Tudo quanto existe traz, portanto, consigo um sinal, um tra\u00e7o, uma mem\u00f3ria \u2013 ousarei quase dizer gen\u00e9tica \u2013 que remete para o Pai. Isto significa que, em tudo quanto existe, o Pai d\u00e1-se, e portanto podemo-lo encontrar, podemos ter uma experi\u00eancia do seu amor, percecionar uma centelha da sua paternidade. N\u00e3o existe nada t\u00e3o pequeno ou pobre que n\u00e3o traga em si esta origem, ou que a possa perder totalmente. Podemos assim tomar emprestadas as palavras do autor do Livro da Sabedoria, que se dirige a Deus, dizendo: \u00abTu, de facto, amas todas as coisas que existem, e n\u00e3o experimentas desgosto por nenhuma das coisas que criastes; se tivesses odiado alguma coisa, n\u00e3o a terias sequer formado. Como poderia subsistir uma coisa se Tu n\u00e3o a tivesses querido? Poderia conservar-se aquilo que por ti n\u00e3o foi chamado \u00e0 exist\u00eancia? Tu \u00e9s indulgente com todas as coisas, porque s\u00e3o tuas, Senhor, amante da Vida\u00bb (Sabedoria 11, 24-26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe, por isso, uma liga\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, radical, entre tudo aquilo que existe: o mundo prov\u00e9m de um Deus amor que no mundo se doa, e nos chama a partilhar este seu modo de exist\u00eancia. A cria\u00e7\u00e3o, todavia, n\u00e3o \u00e9, como muitas vezes se pensa, simplesmente natureza e ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s somos criaturas, mesmo o tempo que passa \u00e9 criatura. Isto quer dizer que n\u00e3o existe nenhuma situa\u00e7\u00e3o, nenhuma prova\u00e7\u00e3o ou crise, nenhuma alegria ou sucesso, em que n\u00e3o se possa fazer experi\u00eancia do Senhor, dar um passo na sua dire\u00e7\u00e3o para crescer na amizade com Ele, e para poder por nossa vez amar, enquanto loucamente amados. Tudo o que existe, existe portanto para poder \u201cviver\u201d como Deus, isto \u00e9, como dom, como amor acolhido e entregue. Mas a cria\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode viver isto atrav\u00e9s do ser humano. S\u00f3 no ser humano, microcosmo que condensa em si o universo, mas que vive do sopro que o Deus pessoal insuflou diretamente no seu rosto, o mundo pode corresponder \u00e0 sua secreta sacramentalidade, ou seja, ser visto como dom. Um dom \u00e9 sempre uma realidade pessoal: de alguma forma cont\u00e9m quem o deu, e pede \u00e0quele a quem \u00e9 oferecido que o veja assim, como uma realidade transparente do rosto do doador, um dom feito para conhecer quem se ama e fazer da vida do outro uma comunh\u00e3o consigo. \u00c9 tarefa do ser humano decifrar de maneira livre e criadora a revela\u00e7\u00e3o deste dom. E \u00e9 igualmente tarefa do ser humano tomar o mundo na sua comunh\u00e3o com Deus. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9, por isso, um lugar em que somos convidados a descobrir uma presen\u00e7a. Mas isto significa que \u00e9 a capacidade de comunh\u00e3o do ser humano a condicionar o estado da cria\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a nossa grande responsabilidade. Quando n\u00e3o conseguimos decifrar a presen\u00e7a que habita as coisas, tudo se torna banal e opaco, deixa de ser um meio de comunh\u00e3o, e torna-se uma ocasi\u00e3o de tenta\u00e7\u00e3o e de trope\u00e7o. Tudo isto come\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s, e difunde-se atrav\u00e9s de pensamentos, inten\u00e7\u00f5es, comportamentos, h\u00e1bitos, seja a n\u00edvel singular seja de grupos sociais. Para fazer parte desta cadeia que banaliza ou deturpa o dom da cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 preciso ser-se criminoso: \u00e9 \u201csuficiente\u201d n\u00e3o reconhecer o dom que o outro \u2013 qualquer outro \u2013 \u00e9, do familiar ao vizinho da casa, do colega de trabalho ao pobre que encontro na rua, do amigo ao migrante que procura trabalho ou um apartamento onde viver\u2026 Isto que acontece no cora\u00e7\u00e3o do ser humano tem um significado universal e imprime-se no mundo. \u00c9 portanto o destino do ser humano a determinar o destino do universo.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Precisamente porque tudo est\u00e1 ligado (cf. \u201cLaudato si\u2019\u201d 42; 56) no bem, no amor, precisamente por isso toda a aus\u00eancia de amor tem repercuss\u00f5es sobre tudo. A crise ecol\u00f3gica que estamos a viver \u00e9, assim, antes de tudo um dos efeitos deste olhar doente sobre n\u00f3s, sobre os outros, sobre o mundo, sobre o tempo que passa; um olhar doente que n\u00e3o nos faz percecionar tudo como um dom oferecido para nos descobrirmos amados. \u00c9 este amor aut\u00eantico, que por vezes chega at\u00e9 n\u00f3s de maneira inimagin\u00e1vel e inesperada, que nos pede para revermos os nossos estilos de vida, os nossos crit\u00e9rios de ju\u00edzo, os valores sobre os quais fundamos as nossas op\u00e7\u00f5es. Com efeito, \u00e9 hoje sabido que envenenamento, altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, desertifica\u00e7\u00e3o, migra\u00e7\u00f5es ambientais, consumo insustent\u00e1vel dos recursos do planeta, acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos, redu\u00e7\u00e3o da biodiversidade, s\u00e3o aspetos insepar\u00e1veis da desigualdade social (cf. \u201cEvangelii gaudium\u201d 52-53; 59-60; 202): da crescente concentra\u00e7\u00e3o do poder e da riqueza nas m\u00e3os de pouqu\u00edssimos e das denominadas sociedades do bem-estar, das insanas despesas militares, da cultura do descarte e de uma falta de considera\u00e7\u00e3o do mundo do ponto de vista das periferias, da aus\u00eancia de salvaguarda das crian\u00e7as e dos menores, dos idosos vulner\u00e1veis, das crian\u00e7as por nascer. (\u2026) A ecologia \u00e9 ecologia do ser humano e de toda a cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 de uma parte. Como numa grave doen\u00e7a, em que n\u00e3o basta s\u00f3 a medicina, mas \u00e9 preciso olhar para o doente e compreender as causas que conduziram ao surgimento do mal, assim analogamente a crise do nosso tempo deve ser enfrentada nas suas ra\u00edzes. O caminho proposto consiste, ent\u00e3o, em repensar o nosso futuro a partir das rela\u00e7\u00f5es: os homens e as mulheres do nosso tempo t\u00eam muita sede de autenticidade, de rever sinceramente os crit\u00e9rios da vida, de voltar a apontar para aquilo que vale, reestruturando a exist\u00eancia e a cultura.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do compromisso pessoal e comunit\u00e1rio na convers\u00e3o da mentalidade \u2013 ainda antes que dos comportamentos \u2013, um contributo que podemos oferecer como crentes \u00e9 precisamente o da vis\u00e3o. E este vis\u00e3o podemo-la aprender dia ap\u00f3s dia da liturgia, que \u00e9 experi\u00eancia di\u00e1ria de nos encontrarmos na presen\u00e7a do Senhor ressuscitado e vitorioso, para participar com Ele na salva\u00e7\u00e3o de toda a cria\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 particularmente evidente precisamente na Missa, que \u00e9 o agradecimento a Deus por excel\u00eancia: nela oferecemos ao Pai aquilo que vem dele (o gr\u00e3o e a videira), transformados pela s\u00e1bia obra do ser humano para ser o nosso alimento, a nossa bebida, isto \u00e9, esses elementos de que nos nutrimos para viver e viver o melhor das nossas capacidades. De um lado, com efeito, todos n\u00f3s trabalhamos para poder comer, e o nosso alimento \u00e9 o que nos permite conduzir a nossa exist\u00eancia quotidiana, de nos imergirmos nas rela\u00e7\u00f5es importantes, de lutar pelas coisas que valem a pena, de dar o nosso pequeno ou grande contributo para a vida do mundo. P\u00e3o e vinho s\u00e3o precisamente dois s\u00edmbolos por excel\u00eancia, porque mostram a unidade entre o dom de Deus e o nosso empenho, entre o nosso trabalho e aquele, entre o cansa\u00e7o di\u00e1rio e a alegria das rela\u00e7\u00f5es e da festa. Ora, na Missa n\u00f3s oferecemos ao Pai todo o nosso trabalho e o nosso cansa\u00e7o, e toda a nossa esperan\u00e7a e a nossa alegria; oferecemos-lhe n\u00e3o porque Ele precise ou o pretenda de n\u00f3s, mas porque quem ama d\u00e1, melhor, d\u00e1-se. Fazendo esta oferta, admitimos que as coisas, tratadas simplesmente como tais, s\u00e3o um mundo que morre, e a comunh\u00e3o com este mundo n\u00e3o nos salva.<\/p>\n<p>S\u00f3 ligando-as a Deus recebemos dele o dom da vida. E, de facto, o que acontece na Missa? Oferecemos tudo, e enquanto oferecemos suplicamos ao Pai que nos envie o Esp\u00edrito Santo, a fim de que una a nossa pobreza \u00e0 oferta de Cristo, o seu Filho, que veio para que cada um de n\u00f3s, nele, se torne filho do Pai. Desta maneira, o nosso p\u00e3o e o nosso vinho tornam-se Cristo, o dom por excel\u00eancia do Pai, o nosso verdadeiro irm\u00e3o, no qual todos finalmente somos e nos descobrimos irm\u00e3os. Acreditamos que o mundo \u00e9 para o ser humano, porque \u00e9 dom daquele que nos ama e est\u00e1 ao servi\u00e7o da vida dos filhos de Deus, assim como cada um de n\u00f3s est\u00e1 ao servi\u00e7o dos outros. E como na Eucaristia o p\u00e3o e o vinho se tornam Cristo porque s\u00e3o banhados pelo Esp\u00edrito, o amor pessoal do Pai, assim toda a cria\u00e7\u00e3o (pessoas, coisas, animais, plantas, tempo e espa\u00e7o) torna-se uma palavra pessoal de Deus quando \u00e9 usada por amor, para o bem do outro, sobretudo de quem precisa. Dom, arrependimento, oferta, fraternidade. Eis quatro palavras que dizem uma vis\u00e3o da realidade, da cria\u00e7\u00e3o, mas que indicam tamb\u00e9m um caminho de cura da necessidade da posse, do poder, do abuso, rumo \u00e0 partilha, a colabora\u00e7\u00e3o e o respeito. Rumo a uma fraternidade universal \u2013 como aquela que nos mostrou S. Francisco de Assis, patrono de quem trabalha pela ecologia, verdadeira ecologia humana, porque tem o sabor do modo pelo qual Deus salva o mundo. Eis a minha grande esperan\u00e7a para o nosso tempo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">In\u00a0<a href=\"http:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/il-mondo-un-luogo-dove-scoprire-una-presenza\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Mysticsartdesign-322497\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=480985\">Mystic Art Design<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=480985\">Pixabay<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo recolhido do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7160,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-7159","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7159","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7159"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7159\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7161,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7159\/revisions\/7161"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7160"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}