{"id":7137,"date":"2019-10-15T09:54:29","date_gmt":"2019-10-15T08:54:29","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=7137"},"modified":"2019-11-30T13:06:05","modified_gmt":"2019-11-30T13:06:05","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| O m\u00e9todo Zapata"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">O m\u00e9todo Zapata<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na origem, chamava-se de \u201csistema Stanislavski\u201d: orienta\u00e7\u00f5es para os atores de teatro, especialmente na fase pr\u00e9-filmagens, que iam al\u00e9m da mera t\u00e9cnica, centrando-se nas dimens\u00f5es psicol\u00f3gica e emocional. O pr\u00f3prio Stanislavski viveu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX e nunca trabalhou em cinema: foi em Nova Iorque, em 1931, com o \u201cTeatro Grupo\u201d que a nova sensibilidade atravessou e conquistou o outro lado do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Am\u00e9rica, o grande pioneiro foi Lee Strasberg, tamb\u00e9m ele ligado ao Teatro, colaborador no c\u00e9lebre \u201cActors Studio\u201d (sic) e criador do \u201cLee Strasberg Theatre and Film Institute\u201d. O conceito passou a chamar-se \u201cMethod acting\u201d: em resumo, exprimir emo\u00e7\u00f5es o mais reais poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua prepara\u00e7\u00e3o para um papel, estes atores imergem-se no personagem, procurando quase identificar-se com ele, ainda que a carater\u00edstica principal seja outra: o objetivo \u00e9 canalizar as pr\u00f3prias mem\u00f3rias de vida para a representa\u00e7\u00e3o, de modo a que o ator possa exprimir emo\u00e7\u00f5es verdadeiras. S\u00e3o verdadeiras porque s\u00e3o suas. Apesar disso, o famoso h\u00e1bito de manter-se \u201cin character\u201d com as c\u00e2maras desligadas n\u00e3o faz parte do m\u00e9todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, o escritor cl\u00e1ssico Aulo Gellio narra o caso de um ator da Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica que parecia empregar o m\u00e9todo bem antes do s\u00e9c. XX: trata-se de Polos que, na trag\u00e9dia \u201cElectra\u201d de S\u00f3focles, devia exprimir a dor da perda de um irm\u00e3o. Polos representou o lamento da pe\u00e7a enquanto segurava a urna com as cinzas do pr\u00f3prio filho morto recentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9todo \u00e9 muito discutido nos dias de hoje: h\u00e1 quem o critique impiedosamente, quem rejeite e quem o ridicularize pelos extremos a que submete alguns atores. Situa\u00e7\u00f5es como a de Christian Bale, que emagreceu at\u00e9 contornos cadav\u00e9ricos para um papel, ou De Niro que chegou a ter problemas de sa\u00fade por raz\u00f5es semelhantes s\u00e3o t\u00e3o admir\u00e1veis como repugnantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como defender o m\u00e9todo? Em primeiro lugar, d\u00e1 \u00d3scares; e depois, qualquer lista que tenha Marlon Brando, James Dean, Al Pacino, Daniel Day Lewis e Dustin Hoffman, entre outros, e um realizador como Elia Kazan n\u00e3o pode n\u00e3o impor respeito. N\u00e3o quer isto dizer que n\u00e3o se reconhe\u00e7am excessos: a um Dustin Hoffman que fez direta(s) para reproduzir as condi\u00e7\u00f5es da est\u00f3ria, Laurence Olivier perguntou: -\u201cPorque n\u00e3o experimentas representar?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, n\u00e3o s\u00e3o esses desmandos a definir o m\u00e9todo, ou sequer as explos\u00f5es de f\u00faria que imortalizaram James Dean: tomemos o exemplo do que Brando fez trabalhando com Elia Kazan. \u201cViva Zapata!\u201d v\u00ea o ator na pele do revolucion\u00e1rio mexicano que lutou pelos direitos dos camponeses e o personagem \u00e9 muito calmo\u2026 mas nem por isso menos intenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que ficamos ent\u00e3o? Nem todas as situa\u00e7\u00f5es limite levam a explos\u00f5es de raiva ou gemidos de dor: se se definisse o m\u00e9todo a partir de Zapata, o trabalho do ator consiste sobretudo no retratar da alma. Para consegui-lo, precisa de deixar-se possuir pelo esp\u00edrito dos conflitos interiores e das s\u00fabitas perce\u00e7\u00f5es existenciais que marcam as grandes decis\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed se depreende que um ator n\u00e3o \u00e9 nada sem um argumento e uma caracteriza\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que lhe d\u00ea a sua miss\u00e3o. Quando Zapata na noite de n\u00fapcias pede que se reduza o barulho dos \u00e9brios festejos, o que pretender\u00e1?, perguntamos a n\u00f3s mesmos. Emiliano quer que Josefa o ensine a ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um truque, porque o verdadeiro Zapata sabia de facto ler, mas o efeito \u00e9 tremendo: o revolucion\u00e1rio guerrilheiro sabe que para ser um bom l\u00edder n\u00e3o pode pedir aos seus companheiros que lhe leiam as cartas que recebe. N\u00e3o \u00e9 o ator quem escreve o texto, logo, o m\u00e9todo n\u00e3o prescinde nem suplanta os outros elementos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dizer a verdade, o filme quer mesmo apresentar um Zapata messi\u00e2nico, um Cristo sofredor que revoluciona para proteger os mais fracos, um homem que aplica dolorosamente a si os seus princ\u00edpios, um m\u00e1rtir da pr\u00f3pria consci\u00eancia. Nem falta a paix\u00e3o redentora e a ressurrei\u00e7\u00e3o laica do homem que vale mais do que a sua exist\u00eancia emp\u00edrica (dando outra vez forma a um mito n\u00e3o hist\u00f3rico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 magn\u00edfico? Algo de semelhante acontece com o mais conhecido \u201cH\u00e1 Lodo no Cais\u201d: quando Terry tem de se p\u00f4r de p\u00e9 no meio das suas dores, ele \u00e9 o seu pr\u00f3prio Cireneu e o seu sofrimento tem um valor salv\u00edfico. Foi necess\u00e1rio que ele sofresse para que muitos pudessem ser libertos do mal: quando ele se levanta e atravessa a porta da f\u00e1brica, um novo mundo nasce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas voltemos a Zapata que esse, sim, \u00e9 um filme injusti\u00e7ado: se n\u00e3o fosse por outra raz\u00e3o, porque tem a subtileza e o humor que \u201cLodo\u201d rejeitou. O primeiro encontro com Josefa d\u00e1-se \u00e0 socapa dentro da igreja, na hora do ter\u00e7o (enquanto o irm\u00e3o, o mexicano Anthony Quinn, cobre a boca da criada). Josefa rejeita Zapata, despreza-o, f\u00e1-lo zangar-se, pede-lhe para voltar quando for rico. Quando ele sai, as 2 mulheres conversam:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criada: -Gosto dele!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Josefa: -Sim!?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criada: -Quer dizer\u2026 ele \u00e9 um homem terr\u00edvel: um fugitivo, um criminoso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Josefa: -Eu tamb\u00e9m gosto dele!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto depois de ter repetido ao mesmo homem \u201ccedo ou tarde vais ter de dormir\u201d quando ele disse que a podia levar \u00e0 for\u00e7a (apontando uma longa agulha ao cora\u00e7\u00e3o dele).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algum outro filme com di\u00e1logos assim?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7138,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-7137","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7137"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7137\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7514,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7137\/revisions\/7514"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7138"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}