{"id":6806,"date":"2019-08-27T22:12:41","date_gmt":"2019-08-27T21:12:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6806"},"modified":"2019-08-27T22:12:41","modified_gmt":"2019-08-27T21:12:41","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-desta-vez-em-hollywood","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-desta-vez-em-hollywood\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| Desta vez em Hollywood"},"content":{"rendered":"<h4><\/h4>\n<h4><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Desta vez em Hollywood<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se fala de Tarantino, a frase deve ser algo como \u201cno princ\u00edpio, havia os di\u00e1logos\u201d ou ent\u00e3o \u201cbem-vindo a dose dupla de viol\u00eancia l\u00fadica\u201d. \u00c9 verdade que que este \u00faltimo elemento passou a ser visto como viol\u00eancia gratuita para muitos: \u00e9 uma opini\u00e3o t\u00e3o respeit\u00e1vel como outra qualquer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o primeiro filme, \u201cC\u00e3es danados\u201d, o realizador californiano abra\u00e7ou a sua pr\u00f3pria aproxima\u00e7\u00e3o ao cinema, a marca da sua originalidade confort\u00e1vel: abordar o sup\u00e9rfluo da mais leve cultura americana misturando-o com cultura cinematogr\u00e1fica e conversa de caf\u00e9. Este resumo parece diminuidor para o antigo empregado de videoclube mas, de todo, n\u00e3o o pretende ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O g\u00e9nio de Tarantino criou o seu pr\u00f3prio mercado: sem que houvesse oferta (ou procura), o estreante apresentou um produto apetec\u00edvel, pronto a ser consumido. Tratou o descart\u00e1vel como mat\u00e9ria dos seus pr\u00f3prios sonhos: ladr\u00f5es de bancos, assassinos, hospedeiras, duplos e escravos negros estiveram sob o holofote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos os casos, o fasc\u00ednio com a mentalidade desses m\u00edticos atores marginais exprimiu-se em disserta\u00e7\u00f5es semifilos\u00f3ficas sobre a vida, os hamb\u00fargueres, a Madonna, o direito \u00e0 vingan\u00e7a e a forma mais humana de se ser assassinado. Isto coexistindo com cita\u00e7\u00f5es visuais de todos os filmes que consumiu, \u00e0s vezes em detalhes microsc\u00f3picos mas sempre reverenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a f\u00f3rmula n\u00e3o se esgota a\u00ed: \u00e9 que Quentin tem outro segredo e imagem de marca, a cadeia efeito-causa, a constru\u00e7\u00e3o da trama que para ele \u00e9 um cubo de Rubik. Pense-se na sequ\u00eancia da troca de dinheiro em \u201cJackie Brown\u201d ou na justifica\u00e7\u00e3o de Bill (\u201cKill Bill II\u201d) para ter mandado matar a noiva: do alto do seu orgulho, ele declara que a raz\u00e3o foi o amor que tinha por ela (!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exerc\u00edcio particularmente \u00fatil \u00e9 perguntar ao espetador comum qual a dura\u00e7\u00e3o da cena inicial de \u201cSacanas sem Lei\u201d. S\u00e3o 23 minutos em que o coronel Landa conversa com mons. LaPadite, enquanto nos \u00e9 dado ver a fam\u00edlia judaica escondida debaixo do ch\u00e3o de madeira. Sem claros ind\u00edcios, Landa conclui as suas inquisi\u00e7\u00f5es com um tranquilo, solene metralhar dos fugitivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A distin\u00e7\u00e3o de Landa, dir\u00e1 ele pr\u00f3prio mais adiante, \u00e9 que ele \u00e9 capaz de pensar como um judeu, algo que o espetador n\u00e3o sabia ao v\u00ea-lo acender o cachimbo \u00e0 mesa e fazer suar de culpa LaPadite, da forma o mais casual poss\u00edvel. \u201cAu revoir Shoshannah!\u201d, diz ele \u00e0 rapariga que ser\u00e1 o motor da vingan\u00e7a sobre Hitler. A maior parte das pessoas diz que a cena dura cerca de dez minutos. A isto chama-se dom\u00ednio absoluto de uma forma de arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O palmar\u00e9s tarantiniano \u00e9 pois de subvers\u00e3o cuidada dos modelos institu\u00eddos com requintes de compet\u00eancia e subtileza. \u201cPulp Fiction\u201d foi o filme mais influente dos anos 90: algu\u00e9m acha que existiria um Guy Ritchie sem esse filme? Os filmes policiais 90 puderam finalmente fugir \u00e0 intriga conjugal e ao retrato monol\u00edtico dos maus, embora algumas das imita\u00e7\u00f5es sejam intrag\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O que nos traz a \u201cEra uma vez em Hollywood\u201d, o filme estreado este m\u00eas entre n\u00f3s, apresentado em Cannes 25 anos depois de \u201cPulp Fiction\u201d. Por tudo o que j\u00e1 se disse, \u00e9 compreens\u00edvel que o fen\u00f3meno seja o equivalente a uma final da Liga dos Campe\u00f5es: pelo menos para a imprensa e os indefet\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEra uma vez\u2026\u201d regressa \u00e0s mem\u00f3rias do seu autor, ele pr\u00f3prio um habitante n\u00e3o distante do Rancho Spahn onde o grupo de Charles Manson vivia (quem os batizou de \u201cfam\u00edlia Manson\u201d?). O ano \u00e9 1969, o m\u00eas \u00e9 essencialmente agosto, do assassinato de Sharon Tate, a esposa de Polanski, e do m\u00edtico festival hippie em Woodstock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O filme centra-se no ator Rick Dalton e na Los Angeles desse per\u00edodo: a viagem personalizada aos perigos de uma carreira no cinema de a\u00e7\u00e3o e ao ambiente mesquinho dos bastidores t\u00eam um tom mais s\u00e9rio do que \u00e9 habitual. Ao intervalo, algu\u00e9m avaliava: -\u201co filme \u00e9 uma seca.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois \u00e9, os filmes mais honestos recebem sempre esse tipo de considera\u00e7\u00e3o profunda. A sombra de Charles Manson e a piada \u00e0 mem\u00f3ria de Bruce Lee n\u00e3o s\u00e3o recebidas por todos com o mesmo entusiamo, compreende-se. N\u00e3o querer desvendar os mitos e os epis\u00f3dios aned\u00f3ticos de Hollywood n\u00e3o tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEra uma vez\u2026\u201d funciona melhor com quem acompanhou o Tarantino que faz coment\u00e1rio social. A frase n\u00e3o \u00e9 ir\u00f3nica mas bem podia ser porque ele sempre o foi. A verdade \u00e9 que a marca viol\u00eancia tem sido relegada para o terceiro ato nos \u00faltimos filmes. Aqui, n\u00e3o se esque\u00e7a que h\u00e1 um Charles Manson a rondar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O veredito deve ser equilibrado contudo: trata-se do primeiro filme do realizador em que o argumento \u00e9 mais previs\u00edvel. A reconstitui\u00e7\u00e3o de Los Angeles \u00e9 perfeita, sim; DiCaprio e Pitt est\u00e3o muito bem; as homenagens a um cinema que j\u00e1 n\u00e3o existe s\u00e3o t\u00e3o expl\u00edcitas como sentidas; a a\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia mant\u00eam-se a n\u00edveis l\u00fadicos aceit\u00e1veis (n\u00e3o se trata de um filme para toda a fam\u00edlia, muito obviamente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por previs\u00edvel tamb\u00e9m se entende uma trama em que os detalhes nem sempre encaixam, pelo menos n\u00e3o como era a norma antes. \u00c9 o que acontece quando Dalton atira a rapariga ao ch\u00e3o nas filmagens, o filme dentro do filme: estava previsto ou n\u00e3o? Se ela tinha chuma\u00e7os nos bra\u00e7os, ent\u00e3o sim; se o realizador ficou surpreendido, ent\u00e3o n\u00e3o estava. \u00c9 relevante porque Tarantino nunca falhou antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o min\u00facias contudo: o final n\u00e3o parece em nada ser menos satisfat\u00f3rio do que a reescrita da Hist\u00f3ria em \u201cSacanas sem Lei\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6807,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-6806","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6806"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6806\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6810,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6806\/revisions\/6810"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}