{"id":6663,"date":"2019-08-03T12:29:57","date_gmt":"2019-08-03T11:29:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6663"},"modified":"2019-07-31T16:34:47","modified_gmt":"2019-07-31T15:34:47","slug":"os-franciscanos-e-a-genese-dos-montes-pios-para-uma-economia-sem-usura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-franciscanos-e-a-genese-dos-montes-pios-para-uma-economia-sem-usura\/","title":{"rendered":"Os Franciscanos e a g\u00e9nese dos Montes Pios, para uma economia sem usura"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/os_franciscanos_e_a_genese_dos_montes_pios_para_uma_economia_sem_usura.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A avareza \u00e9 uma chaga relevante da sociedade nos alvores da idade moderna. A sua manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno isolado, circunscrito ao com\u00e9rcio e \u00e0s suas transa\u00e7\u00f5es, dado que os efeitos perpassam o tecido social e tocam as rela\u00e7\u00f5es que ligam os membros da comunidade. Estas raz\u00f5es motivam o interesse dos te\u00f3logos e dos canonistas, empenhados desde h\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos na an\u00e1lise das v\u00e1rias figuras contratuais e das circunst\u00e2ncias das quais emerge a usura. O n\u00facleo da discuss\u00e3o \u00e9 a sobreabund\u00e2ncia no interior do m\u00fatuo, constitu\u00edda quer por todo o bem consum\u00edvel, como azeite, trigo e moeda, quer de bens inconsum\u00edveis, como uma habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A dissipar qualquer sombra de d\u00favida sobre a natureza da sobreabund\u00e2ncia, j\u00e1 Graziano, no seu \u201cDecretum\u201d, recolha de not\u00e1vel import\u00e2ncia das diversas fontes jur\u00eddicas e dos c\u00e2nones, redigido em torno de 1140, define a usura como tudo o que excede a soma emprestada. A maior tomada de aten\u00e7\u00e3o ao fen\u00f3meno persistente foi acompanhada de um agravamento das penas para os usur\u00e1rios. O conc\u00edlio lateranense II (1139) estabelece a proibi\u00e7\u00e3o da sepultura eclesi\u00e1stica, como sinal perp\u00e9tuo da divis\u00e3o dos usur\u00e1rios da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da firme condena\u00e7\u00e3o da parte da Igreja, a a\u00e7\u00e3o devoradora da usura aumenta consideravelmente entre os s\u00e9culos XIII e XV, tamb\u00e9m gra\u00e7as \u00e0s atitudes indulgentes das autoridades das cidades. A exig\u00eancia de cr\u00e9dito, na dupla forma de capital e de consumo, abrange todos os sujeitos do sistema econ\u00f3mico, cidad\u00e3os, mercadores e autoridades p\u00fablicas, e est\u00e1 ligada \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do dinamismo comercial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f3meno da usura e da for\u00e7a propulsora dos pregadores franciscanos observantes nunca se compreende sem a ligar ao cen\u00e1rio socioecon\u00f3mico do s\u00e9culo XV, caracterizado por uma importante abertura \u00e0s atividades comerciais. A cent\u00faria marca o florescimento de um processo de renascimento, que, iniciado em 1100 com a rutura do imobilismo pol\u00edtico no Mediterr\u00e2neo na sequ\u00eancia da invas\u00e3o isl\u00e2mica, se estendeu at\u00e9 aos umbrais do s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, assiste-se \u00e0 primeira revolu\u00e7\u00e3o comercial da bacia mediterr\u00e2nica, causada pela sinergia de diversos fatores, como o crescimento demogr\u00e1fico, o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o comunal, a introdu\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de novas t\u00e9cnicas produtivas, o desenvolvimento da poupan\u00e7a e a firma\u00e7\u00e3o, em \u00e2mbito econ\u00f3mico, de um novo esp\u00edrito associativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na an\u00e1lise das causas das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas n\u00e3o se pode esquecer uma prerrogativa do Renascimento: o crescimento da dimens\u00e3o cultural. No s\u00e9culo XV, entre a Idade M\u00e9dia e a Idade Moderna, al\u00e9m do sucesso dos tradicionais estudos teol\u00f3gicos e jur\u00eddicos, assiste-se ao desenvolvimento das escolas de c\u00e1lculo. Nelas, presentes em numerosas cidades mercantis como aut\u00eanticos centros para a forma\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios perfis profissionais, pratica-se o ensino da aritm\u00e9tica aplicada \u00e0 condu\u00e7\u00e3o das atividades comerciais. Com o estudo da aritm\u00e9tica e da geometria, cresce tamb\u00e9m a conhecimento e a experi\u00eancia do ser humano, projetado para a descoberta de novos horizontes, e cada vez mais participante dos acontecimentos econ\u00f3micos do seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os novos produtos oferecidos pelo artesanato e pelo com\u00e9rcio impelem as fam\u00edlias, especialmente as mais favorecidas, \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o, que come\u00e7a a tornar-se marca de um novo estilo de vida. Quando a poupan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 suficiente para sustentar os consumos, abre-se o caminho para o endividamento. A pobreza, quer em termos absolutos quer relativos, intensifica-se no seio da sociedade, e cria o contexto mais apropriado para a prega\u00e7\u00e3o itinerante dos frades da Observ\u00e2ncia. Estes gastam todas as suas energias em advertir os fi\u00e9is para que adotem comportamentos virtuosos em qualquer campo da atividade humana, sobretudo na gest\u00e3o da \u201cres publica\u201d, de modo a perseguir a afirma\u00e7\u00e3o de uma maior justi\u00e7a social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento da Observ\u00e2ncia, nascido primariamente com o prop\u00f3sito de reformar a vida religiosa, atrav\u00e9s do abandono daquelas inova\u00e7\u00f5es aos poucos introduzidas para atenuar o rigor inicial da Regra, dirige tamb\u00e9m o seu interesse para a geral renova\u00e7\u00e3o das estruturas organizativas da sociedade. Este aspeto conota-se como a dimens\u00e3o \u201cad extra\u201d do movimento, que, no curso do seu processo evolutivo, funda a sua atividade pastoral precisamente sobre estas duas diretrizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os mais eminentes representantes do movimento da Observ\u00e2ncia encontra-se Bernardino de Sena. Impelido por uma aguda sensibilidade social, n\u00e3o negligencia na sua produ\u00e7\u00e3o homil\u00e9tica a considera\u00e7\u00e3o dos aspetos tipicamente econ\u00f3micos do seu s\u00e9culo, tornando-se assim um ponto de refer\u00eancia para toda a fam\u00edlia da Observ\u00e2ncia. Bernardino n\u00e3o prop\u00f5e ao seu audit\u00f3rio a descri\u00e7\u00e3o ou a explica\u00e7\u00e3o do funcionamento dos mecanismos que regulam os factos econ\u00f3micos. Ele, no seu intento eminentemente exortativo, atrav\u00e9s da ant\u00edtese entre os v\u00edcios e as virtudes da sociedade do Renascimento, convoca todos para o exerc\u00edcio do bem segundo as indica\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>O que \u00e9 que ele denuncia em rela\u00e7\u00e3o aos \u201cv\u00edcios\u201d do agir econ\u00f3mico, e o que pretende suscitar com a sua reflex\u00e3o? O desejo do lucro \u00e9 decerto um dos v\u00edcios mais apontados pelo santo de Siena na sua vasta prega\u00e7\u00e3o, que tem o seu fundamento na avareza, considerada o pior dos v\u00edcios, o \u00eddolo da desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na tentativa de restaurar a ordem social e econ\u00f3mica, os frades observantes n\u00e3o se limitam \u00e0 den\u00fancia da avareza, entendida como causa eficiente da usura e dos seus males, mas tamb\u00e9m se interrogam sobre a realidade que, conjugando caridade, solidariedade e realidade econ\u00f3mica, seja capaz de melhor conter a grande difus\u00e3o do empr\u00e9stimo usur\u00e1rio.<\/p>\n<p>No n\u00facleo desta reflex\u00e3o surgem os Montes de Piedade (Montes Pios), institutos de benefic\u00eancia e gest\u00e3o p\u00fablica que prestavam aos necessitados o necess\u00e1rio, contra um penhor, a fim de os proteger das espolia\u00e7\u00f5es dos usur\u00e1rios, e geridos diretamente pela cidade. A institui\u00e7\u00e3o nascente representa um facto in\u00e9dito, e v\u00ea o envolvimento determinante dos frades Observantes, na passagem da especula\u00e7\u00e3o em torno do facto econ\u00f3mico, exposta amplamente e com abund\u00e2ncia de exemplos na a\u00e7\u00e3o homil\u00e9tica, ao empenho pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>O m\u00fatuo civil dos Montes, distribu\u00eddo atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um dep\u00f3sito comum, v\u00ea o envolvimento de toda a comunidade, visando apoiar os menos privilegiados mediante o exerc\u00edcio de uma cidadania respons\u00e1vel. Oferece-se tamb\u00e9m um testemunho eloquente da fecundidade ligada \u00e0 circula\u00e7\u00e3o virtuosa da riqueza, mortificada de todo a posse \u00e1vida e improdutiva.<\/p>\n<p>Na economia, como na vida civil e espiritual, vale o princ\u00edpio de que ningu\u00e9m se salva sozinho, mas atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o coletiva, a incentivar e apoiar. Bernardino e os frades da Observ\u00e2ncia intercetam essa proficuidade e servem-se no seu s\u00e9culo da civiliza\u00e7\u00e3o do mercado. As suas intui\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00e1lidas chaves interpretativas para o presente, envolto ainda por uma crise econ\u00f3mica, cuja raiz \u00faltima n\u00e3o \u00e9 tanto t\u00e9cnica, como de valores e antropol\u00f3gica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Nicola Riccardi, ofm<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/circolazione-del-denaro-antidoto-allavarizia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: Torianime\/Bigstock.com\u00a0<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6664,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-6663","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6663"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6663\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6666,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6663\/revisions\/6666"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6663"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}