{"id":6657,"date":"2019-08-01T12:23:47","date_gmt":"2019-08-01T11:23:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6657"},"modified":"2019-07-31T16:26:12","modified_gmt":"2019-07-31T15:26:12","slug":"fake-news-do-genesis-a-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/fake-news-do-genesis-a-internet\/","title":{"rendered":"\u201cFake news\u201d: Do G\u00e9nesis \u00e0 internet"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/fake_news_do_genesis_a_internet.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O zelo angl\u00f3mano imp\u00f4s recentemente a express\u00e3o \u201cfake news\u201d. Na realidade, se de folheia um dicion\u00e1rio, o substantivo e o verbo \u201cfake\u201d abrangem os nossos conceitos de \u00abfalso, engano, fraude, logro, contrafa\u00e7\u00e3o, truque\u00bb e assim por diante (a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o est\u00e1 no americanismo musical \u201cto fake it\u201d, que se refere a uma improvisa\u00e7\u00e3o a solo no jazz). A falsa not\u00edcia, vendida como verdadeira, ao ponto de fazer cunhar o paradoxal sintagma \u201cp\u00f3s-verdade\u201d, tem na verdade um ancestral ilustre. Trata-se nada menos do que a serpente tentadora na narra\u00e7\u00e3o protot\u00edpica do G\u00e9nesis b\u00edblico, um r\u00e9ptil certamente n\u00e3o registado na taxonomia zool\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, com efeito, um s\u00edmbolo que originariamente se referia \u00e0 idolatria dos cananeus, o povo ind\u00edgena da terra b\u00edblica que praticava os cultos da sexualidade, vista como express\u00e3o do divino que se manifesta na fecundidade humana e animal, e na fertilidade agr\u00edcola. A serpente \u00e9, efetivamente, um sinal f\u00e1lico; ali\u00e1s, no antigo Pr\u00f3ximo Oriente era um indicador de vida perene, sobretudo com a sua mudan\u00e7a de pele. Era tamb\u00e9m uma representa\u00e7\u00e3o do caos: a deusa mesopot\u00e2mica negativa Tiamat era representada como uma serpente gigantesca. A B\u00edblia, no entanto, num texto grego tardio, o Livro da Sabedoria, intui por tr\u00e1s deste animal simb\u00f3lico o Tentador por excel\u00eancia, Satan\u00e1s: \u00ab\u00c9 por inveja do diabo que a morte entrou no mundo, e dela fazem triste experi\u00eancia aqueles que lhe pertencem\u00bb (2,24). No Apocalipse, a terr\u00edvel \u00abserpente antiga\u00bb, o drag\u00e3o, \u00e9 Satan\u00e1s, o diabo\u00bb (20,2). Ele \u00e9 definido pelo G\u00e9nesis (3,1) como \u00abastuto\u00bb, um adjetivo sapiencial que evoca a capacidade de elaborar um projeto, expresso precisamente no recurso a um h\u00e1bil envolvimento enganador da mulher e do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sedu\u00e7\u00e3o acontece \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore ignota \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica de Lineu, sendo um vegetal \u201cmetaf\u00edsico\u201d, e, portanto, simb\u00f3lico. \u00c9 \u00aba \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal\u00bb, na pr\u00e1tica uma representa\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica da moral: o \u00abconhecimento\u00bb na B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 intelectivo, mas tamb\u00e9m volitivo, afetivo, efetivo, \u00e9 um ato global da consci\u00eancia, enquanto \u00abbem e mal\u00bb s\u00e3o os dois polos extremos entre os quais se encerra toda a moral. Aquela \u00e1rvore simb\u00f3lica \u00e9 dada por Deus, que a plantou no terreno da hist\u00f3ria, porque os valores morais precedem-nos e excedem-nos, s\u00e3o transcendentes e objetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem, ao contr\u00e1rio, violando o preceito divino que prop\u00f5e e imp\u00f5e a moral, quer \u2013 com a liberdade de que foi dotado por Deus \u2013 decidir qual \u00e9 o bem e o mal, recusando receb\u00ea-los como codificados por Deus. Opta, assim, por ser ele pr\u00f3prio \u00e1rbitro da \u00e9tica, repelindo toda a defini\u00e7\u00e3o superior. Nisto \u00e9 solicitado precisamente pela \u201cfake news\u201d que lhe instila a serpente, a qual insinua odiosamente que Deus pro\u00edbe tudo, \u00abtoda a \u00e1rvore do jardim\u00bb do \u00c9den (3,1), e n\u00e3o s\u00f3 aquela do \u00abconhecimento do bem e do mal\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o engano prossegue com outra indica\u00e7\u00e3o maliciosa, que tem uma alma de verdade, mas que \u00e9 apresentada de maneira hostil: \u00abDeus sabe que (\u2026) se abrir\u00e3o os vossos olhos, e tornar-vos-eis como Deus, conhecedores do bem e do mal\u00bb (3,5). Ora, \u00e9 verdade que decidir por si pr\u00f3prio aquilo que \u00e9 bem e mal \u00e9 um ato divino, e por isso o \u00abpecado original\u00bb \u00e9 um ato de \u201chybris\u201d, como dir\u00e3o tamb\u00e9m os gregos, \u00e9 o substituir-se a Deus, arrogando-se a sua sabedoria e a sua autoridade, o senhorio divino sobre a moral. Mas aquilo que o Tentador esconde \u00e9 que esse \u00e9 um ato de rebeli\u00e3o de consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas, porque a humanidade, com a sua op\u00e7\u00e3o de desconstruir a \u00e9tica, cria aquela avalancha de mal, de viol\u00eancia, de injusti\u00e7a que o cap\u00edtulo 3 do G\u00e9nesis descrever\u00e1 nas frases seguintes.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>A partir de ent\u00e3o, no entanto, a sedu\u00e7\u00e3o da \u201cfake news\u201d diab\u00f3lica gerou o seu efeito fascinador: \u00abA mulher viu que a \u00e1rvore era boa para comer, agrad\u00e1vel aos olhos e desej\u00e1vel para adquirir sabedoria; tomou do seu fruto e dele comeu, depois deu-o ao marido, que eslava com ela, e tamb\u00e9m ele o comeu\u00bb (3,6). A falsidade insistida e bem elaborada prolifera e espalha-se (pense-se na atual internet), e regenera-se como verdade pseudo-objetiva, aparentemente s\u00f3lida e convincente, na realidade destruidora e devastadora. Na pr\u00e1tica, na narrativa do G\u00e9nesis, como diz\u00edamos, temos o arqu\u00e9tipo de uma comunica\u00e7\u00e3o doente, que mesmo assim se amplia, revestindo-se com cores da verdade. Por isso, na literatura b\u00edblica sapiencial pode-se discernir um fio condutor sistem\u00e1tico, que repetidamente condena \u00aba boca repleta de engano\u00bb, sinal distintivo do poderoso e da malvadez.<\/p>\n<p>Daquela fonte descende a infinita genealogia das falsidades muitas vezes cristalizada em textos escritos, como agora acontece de forma exponencial nas p\u00e1ginas eletr\u00f3nicas das redes sociais. Apenas par citar alguns casos emblem\u00e1ticos religiosos, pensemos na correspond\u00eancia ap\u00f3crifa entre S. Paulo e S\u00e9neca, capaz de tornar o fil\u00f3sofo latino um filocrist\u00e3o, e at\u00e9 um convertido \u00e0 nova f\u00e9; na realidade, o epistol\u00e1rio foi elaborado no s\u00e9culo IV. E que dizer da c\u00e9lebre \u201cDoa\u00e7\u00e3o de Constantino\u201d [documento que cederia ao papa vastos territ\u00f3rios do Imp\u00e9rio Romano], um texto que fez enfurecer Dante: \u00abAi, Constantino, de quanto mal foi m\u00e3e,\/ n\u00e3o a tua convers\u00e3o, mas aquele dote\/ que de ti tomou o primeiro rico pai!\u00bb, isto \u00e9, o papa Silvestre I? Na realidade, esta ideia de teocracia papal foi uma h\u00e1bil contrafa\u00e7\u00e3o excogitada pela C\u00faria romana na segunda metade do s\u00e9culo VIII para avaliar o poder temporal dos pont\u00edfices.<\/p>\n<p>Cada um poder\u00e1 alongar esta lista, estendendo-a para o \u00e2mbito pol\u00edtico, por exemplo com os infames \u201cProtocolos dos s\u00e1bios\u201d de Si\u00e3o, ou com a inven\u00e7\u00e3o das armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa de Saddam Hussein, excogitada por George Bush para justificar a primeira guerra do Golfo. A matriz te\u00f3rica da falsifica\u00e7\u00e3o comunicativa pode ser identificada numa tese reiterada nos \u00faltimos tempos: n\u00e3o h\u00e1 factos, mas apenas interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Maurizio Ferraris partia precisamente da asser\u00e7\u00e3o acima enunciada e comentava: \u00abFrase poderosa e prometedora, porque oferece como pr\u00e9mio a mais bela das ilus\u00f5es: a de ter sempre raz\u00e3o, independentemente de qualquer desmentido\u00bb. Esta deriva tem o seu prot\u00f3tipo ideal precisamente na interpreta\u00e7\u00e3o falsificada do preceito divino da parte da serpente, e estende-se at\u00e9 \u00e0s inumer\u00e1veis p\u00f3s-verdades que at\u00e9 os pol\u00edticos mais poderosos n\u00e3o hesitam em recorrer como instrumento de governo. Mas no fim de tudo vale uma interroga\u00e7\u00e3o que o mesmo Ferraris lan\u00e7a ao leitor: \u00abQue coisa poderia ser um mundo, ou at\u00e9 simplesmente uma democracia, em que se aceitasse a regra de que n\u00e3o h\u00e1 factos, apenas interpreta\u00e7\u00f5es?\u00bb. Sobretudo se elas s\u00e3o fruto de uma manobra enganadora ramificada ao longo das art\u00e9rias virtuais da rede inform\u00e1tica?<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Card. Gianfranco Ravasi<br \/>\nPresidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura<br \/>\nFonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/80.241.231.25\/Ucei\/PDF\/2019\/2019-07-28\/2019072842804533.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Il Sole 24 Ore<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins\u00a0<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6658,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-6657","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6657","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6657"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6657\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6659,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6657\/revisions\/6659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6658"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6657"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6657"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6657"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}