{"id":6551,"date":"2019-07-26T18:54:48","date_gmt":"2019-07-26T17:54:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6551"},"modified":"2019-07-26T18:54:48","modified_gmt":"2019-07-26T17:54:48","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-a-samaritana-e-o-marroquino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-a-samaritana-e-o-marroquino\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| A samaritana e o marroquino"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">A samaritana e o marroquino<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carreira de Rainer Weiner Fassbinder terminou cedo, aos 36 anos, com uma overdose que ter\u00e1 sido suic\u00eddio. A essa data, 1982, Fassbinder j\u00e1 deixava um legado de mais de 40 filmes e cerca de 15 pe\u00e7as de teatro (algumas das quais ele tamb\u00e9m filmou). A melhor palavra para descrev\u00ea-lo? G\u00e9nio (do g\u00e9nero atormentado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um eterno insatisfeito, um trabalhador febril dotado de um sentido cr\u00edtico invulgar, o realizador alem\u00e3o teve uma inf\u00e2ncia dif\u00edcil: caiu em depress\u00e3o aos 15 anos depois do div\u00f3rcio dos pais e do abandono a que a pr\u00f3pria m\u00e3e o votou. Durante muito tempo, dir\u00e1 mais tarde, o cinema foi a fam\u00edlia que n\u00e3o tinha em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, falhou quando, aos 20 anos, tentou entrar na Escola de Cinema de Berlim com uma curta metragem. Esse facto f\u00ea-lo refugiar-se no Teatro, onde desenvolveu a sua escrita. Tamb\u00e9m o insere no pouco povoado grupo dos que s\u00e3o apontados como \u201co realizador melhor de sempre\u201d sem nunca terem estudado cinema (Herzog, Fellini, Kubrick, Hitchcock).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fassbinder considerava que o cinema devia ser pol\u00edtico primeiro e agrad\u00e1vel depois: muitos dos seus filmes s\u00e3o reflex\u00f5es sobre os problemas sociais que mais o afligiam, mas o seu interesse pela dificuldade de rela\u00e7\u00f5es amorosas est\u00e1veis foi crescendo. Talvez por isso, o seu cinema foi-se tornando sempre mais humano e mais melodram\u00e1tico tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974, o realizador admitiria um volte face na sua carreira: \u201c-neste momento, considero que a necessidade prim\u00e1ria \u00e9 satisfazer a audi\u00eancia. S\u00f3 depois se deve lidar com o conte\u00fado pol\u00edtico.\u201d Surge-nos espont\u00e2nea uma pergunta: quais eram as quest\u00f5es pol\u00edticas da Alemanha em 1974?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A julgar pela produ\u00e7\u00e3o desse ano, o telefilme \u201cMarta\u201d, a opress\u00e3o s\u00e1dica do outro \u00e9 um assunto relevante; e olhando para \u201cO medo come a alma\u201d, a xenofobia e o racismo fazem parte do ADN das pessoas de bem alem\u00e3s. N\u00e3o se trata de uma aproxima\u00e7\u00e3o subtil: as feridas do Nazismo devem ser reabertas, n\u00e3o v\u00e1 a cicatriza\u00e7\u00e3o ser s\u00f3 superficial (a protagonista afirma que sempre quis comer ali, onde Hitler o fez tamb\u00e9m, entre 1929 e 33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u201cO medo come a alma\u201d \u00e9 um ditado \u00e1rabe, assim como a can\u00e7\u00e3o do gen\u00e9rico inicial, a est\u00f3ria \u00e9 explicitamente europeia, a do amor entre Emmi, uma mulher madura, e Ali, um marroquino que procurou uma vida melhor. Trata-se de um conto de fadas doloroso e s\u00ea-lo-ia sempre: como se atreve uma vi\u00fava a abrigar um africano?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os problemas n\u00e3o se fazem esperar, as vizinhas cedo come\u00e7am a falar\u2026 e as companheiras de trabalho reagem contra todos os imigrantes antes de saberem seja o que for. Grande pedra no caminho da amada: tem tr\u00eas filhos adultos a quem ter\u00e1 de revelar os \u00faltimos acontecimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois amantes est\u00e3o muitas vezes enclausurados no mesmo plano, separados de todos os outros: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entrar calmamente nessa noite. Nem isso interessa a Emmi: com mais de 60 anos vividos, n\u00e3o est\u00e1 interessada em solu\u00e7\u00f5es de meio termo e contrai matrim\u00f3nio com o seu novo amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adentrado neste rumo irrevers\u00edvel, o casal inicia o seu calv\u00e1rio: tudo muda \u00e0 sua volta e n\u00e3o para melhor. O filme exp\u00f5e com paci\u00eancia todos os pormenores da puni\u00e7\u00e3o: viver\u00e3o alienados de tudo o resto, como os marginais que se auto definiram. Ad\u00e3o e Eva j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam alojamento no para\u00edso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas evitar\u00e3o falar com Emmi; os empregados de restaurante ser\u00e3o antip\u00e1ticos; as amigas censuram a pecadora e os filhos repudiam-na finalmente. At\u00e9 o dono da mercearia prefere n\u00e3o a ter como cliente, o que n\u00e3o pode deixar de a arrasar. Ali sente-se alienado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00e3o eles prescindir dos grupos que os circundam? Com certeza que n\u00e3o e \u00e9 essa a quest\u00e3o: as diverg\u00eancias sobre o que comer s\u00e3o apenas uma met\u00e1fora sobre dois mundos que coexistem e coabitam mas que n\u00e3o casam um com o outro. A inveja, o esc\u00e2ndalo e o nojo dos outros tamb\u00e9m os tocam, tamb\u00e9m os empe\u00e7onham.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO medo come a alma\u201d \u00e9 um ditado \u00e1rabe e \u00e9 ir\u00f3nico que seja o melhor coment\u00e1rio para a Europa do s\u00e9culo XXI: aquela que professa a justi\u00e7a da morte de seres humanos nas \u00e1guas do mediterr\u00e2neo. Bem recorda o Evangelho: \u00e9 enorme a dist\u00e2ncia entre ser-se bom samaritano e bom sacerdote ou levita. Ou ser\u00e1 s\u00f3 um sonho in\u00fatil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se regressarmos ao j\u00e1 citado Dylan Thomas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">\u201cGood men, the last wave by, crying how bright<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Their frail deeds might have danced in a green bay,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\">Rage, rage against the dying of the light.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra a morte da Luz, o filme est\u00e1 dispon\u00edvel com legendas no youtube: \u201cO medo devora a alma\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6554,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-6551","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6551"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6555,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6551\/revisions\/6555"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6554"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}