{"id":6537,"date":"2019-07-25T12:33:44","date_gmt":"2019-07-25T11:33:44","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6537"},"modified":"2019-07-25T12:35:18","modified_gmt":"2019-07-25T11:35:18","slug":"bob-dylan-a-cancao-e-a-mais-alta-forma-de-oracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/bob-dylan-a-cancao-e-a-mais-alta-forma-de-oracao\/","title":{"rendered":"Bob Dylan: A can\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais alta forma de ora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/bob_dylan_a_cancao_e_a_mais_alta_forma_de_oracao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA B\u00edblia atravessa toda a vida dos Estados Unidos, quer as pessoas o saibam ou n\u00e3o. \u00c9 o livro fundador. O livro fundador dos pais, em todo o caso. N\u00e3o se pode fugir dela. Para onde quer que se v\u00e1, n\u00e3o se pode fugir dela.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palavras de Bob Dylan, cantautor distinguido com o pr\u00e9mio Nobel, que h\u00e1 mais de 50 anos incarna o sentido da sua afirma\u00e7\u00e3o. De facto, \u00e9 dif\u00edcil encontrar uma can\u00e7\u00e3o, entre as centenas escritas por Dylan, privada de uma refer\u00eancia, ainda que indireta, \u00e0 grande arca de imagens, figuras, temas e sugest\u00f5es contidas no texto b\u00edblico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta rela\u00e7\u00e3o ocupou-se o investigador Renato Giovannoli, que publicou uma obra em tr\u00eas volumes, \u201cA B\u00edblia de Bob Dylan\u201d (ed. Ancora, 2017-2018), texto que \u00e9 considerado o guia mais completo para a B\u00edblia segundo Bob Dylan, ou para Bob Dylan segundo a B\u00edblia, porque muitas s\u00e3o as introdu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis a Dylan: musicais, po\u00e9ticas, sociol\u00f3gicas, pol\u00edticas. Mas a B\u00edblia \u00e9 o acesso privilegiado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partindo de 1961, a obra termina em 2012, isto \u00e9, em \u201cTempest\u201d, o \u00faltimo \u00e1lbum com textos originais de Dylan, passando pela d\u00e9cadas de 1978-1988, intitulada \u201cO per\u00edodo \u2018crist\u00e3o\u2019 e a crise espiritual\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dylan, que atuou em Portugal este ano, em maio, no Porto, teve sempre consci\u00eancia da d\u00edvida para com a Sagrada Escritura, n\u00e3o s\u00f3 e n\u00e3o tanto com a B\u00edblia hebraica, como se poderia pensar dada a origem semita de Robert Allen Zimmerman, nascido de Abraham e Betty em Duluth a 24 de maio de 1941, mas sobretudo com a B\u00edblia crist\u00e3, mais precisamente a vers\u00e3o \u201cKing James\u201d, o \u201cgrande c\u00f3dice da literatura ocidental\u201d.<\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>A 27 de dezembro de 1967, Dylan publica o \u00e1lbum \u201cJohn Wesley Harding\u201d, o \u00abprimeiro disco de rock b\u00edblico\u00bb, segundo a defini\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio cantautor dar\u00e1 a este \u00e1lbum de m\u00fasica country, que inclui, entre outras, uma faixa cl\u00e1ssica e imortal como \u201cAll along the watchower\u201d, que se deve ler tendo ao lado o cap\u00edtulo 21 de Isa\u00edas.<\/p>\n<p>Trinta anos depois, na noite de 30 de setembro de 1997, em Bolonha, um Bob Dylan mais rouco do que habitualmente canta tr\u00eas m\u00fasicas suas cl\u00e1ssicas na presen\u00e7a de Jo\u00e3o Paulo II. N\u00e3o canta \u201cBlowin\u2019 in the wind\u201d, mas o idoso pont\u00edfice, erguendo-se e saudando os artistas e a multid\u00e3o que tinha acorrido ao evento, toma a palavra e comenta precisamente aquela can\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica de toda a obra de Dylan, e exclama: \u00abAquele vento que sopra de que fala a can\u00e7\u00e3o, \u00e9 o Esp\u00edrito!\u00bb.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 desse mesmo dia tinha sa\u00eddo, em todo o mundo, o 30.\u00ba \u00e1lbum do cantor do Minnesota, \u201cTime out of mind\u201d, multipremiado, e por muitos considerado o melhor das \u00faltimas d\u00e9cadas, um \u00e1lbum que, observa Giovannoli com precis\u00e3o, \u00e9 \u00abprivado de qualquer alegria, e com pouqu\u00edssimos acenos de esperan\u00e7a, principalmente dirigida ao al\u00e9m. Mas, precisamente, como acontece em muitas p\u00e1ginas b\u00edblicas, a dor n\u00e3o exclui a f\u00e9\u00bb.<\/p>\n<p>A \u201cTime out of mind\u201d \u00e9 dedicada a parte principal do terceiro volume, de alguma forma o mais interessante dos tr\u00eas. Com efeito, \u00e9 \u201cf\u00e1cil\u201d falar do per\u00edodo 1962-1978, \u201cidade de ouro\u201d da m\u00fasica de Dylan: para os f\u00e3s nost\u00e1lgicos (um contrassenso, dada a avers\u00e3o do autor a este sentimento) h\u00e1 muito pouco para al\u00e9m dos anos 70; e \u00e9 ainda mais f\u00e1cil, para uma investiga\u00e7\u00e3o de fundo b\u00edblico, encarar a d\u00e9cada seguinte, o per\u00edodo denominado \u201ccrist\u00e3o\u201d, riqu\u00edssimo de cita\u00e7\u00f5es, mas os \u00faltimos 30 anos s\u00e3o um terreno dif\u00edcil, e todavia repleto de surpresas.<\/p>\n<p>\u00c9 sobretudo a partir precisamente do \u00e1lbum de 1997 que o acesso \u00e0 B\u00edblia se torna \u201cmediado\u201d, isto \u00e9, passa atrav\u00e9s do filtro da tradi\u00e7\u00e3o popular, como se Dylan quisesse \u00abcompor a sua enciclop\u00e9dia da m\u00fasica e da poesia popular americana\u00bb.<\/p>\n<p>Afirma Dylan numa entrevista naquele mesmo ano: \u00abEu encontro a religiosidade e a filosofia na m\u00fasica. (\u2026) Estas velhas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o o meu vocabul\u00e1rio e o meu livro de ora\u00e7\u00f5es\u00bb. Can\u00e7\u00f5es como ora\u00e7\u00f5es, lembra uma frase de Dylan, em 1976: \u00abA mais alta forma de can\u00e7\u00e3o \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o: a do rei David e de Salom\u00e3o, o lamento do coiote, o rumor da terra\u00bb.<\/p>\n<p>Aqui poder-se-ia reabrir a velha quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre can\u00e7\u00e3o, poesia e ora\u00e7\u00e3o, que deve permanecer aberta em obs\u00e9quio ao car\u00e1ter inquietante da arte em geral e da arte de Dylan em particular. Podemos s\u00f3 observar que a \u00faltima estrofe de \u201cRoll on John\u201d, \u00faltima can\u00e7\u00e3o escrita por Dylan (faz sete anos que n\u00e3o sai um \u00e1lbum seu de originais, uma eternidade para um autor t\u00e3o prol\u00edfico), \u00e9 uma ora\u00e7\u00e3o que cita de um s\u00f3 penada William Blake, a \u201cOdisseia\u201d e o Salmo 25, ao ponto de que emerge a suspeita que o John a que \u00e9 dedicada a can\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o seja apenas John Lennon, mas tamb\u00e9m o quarto evangelista, de todos o mais misterioso.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-12 col-md-8 col-lg-8\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Andrea Monda<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/quel-vento-che-soffia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: D.R.\u00a0<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6538,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,10],"tags":[],"class_list":["post-6537","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6537"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6537\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6540,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6537\/revisions\/6540"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6538"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}