{"id":6509,"date":"2019-07-21T13:37:39","date_gmt":"2019-07-21T12:37:39","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6509"},"modified":"2019-07-21T13:37:39","modified_gmt":"2019-07-21T12:37:39","slug":"paulo-vi-e-os-primeiros-passos-na-lua-acontecimento-espiritual-em-tempos-de-esperanca-e-convulsao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/paulo-vi-e-os-primeiros-passos-na-lua-acontecimento-espiritual-em-tempos-de-esperanca-e-convulsao\/","title":{"rendered":"Paulo VI e os primeiros passos na Lua: Acontecimento espiritual em tempos de esperan\u00e7a e convuls\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Not\u00edcia e foto recolhidas do <a href=\"https:\/\/snpcultura.org\/paulo_vi_e_os_primeiros_passos_na_lua_acontecimento_espiritual.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desembarque dos dois primeiros homens na Lua, em julho de 1969, foi um acontecimento medi\u00e1tico sem precedentes, que envolveu a opini\u00e3o p\u00fablica mundial. O mundo, como comunica\u00e7\u00e3o, apesar da guerra fria, estava a unificar-se. No ano anterior, o estudioso canadiano Marshall McLuhan tinha publicado \u201cWar and peace in the global village\u201d, no qual avan\u00e7ava as teses da globaliza\u00e7\u00e3o das comunica\u00e7\u00f5es num mundo renovado. O evento de 1969 provou-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja quis participar no acontecimento, tanto que Paulo VI seguiu o direto televisivo da hist\u00f3rica alunagem em plena noite. As imagens mostram o papa Montini em frente ao ecr\u00e3 do televisor, que segue com grande aten\u00e7\u00e3o, e, ap\u00f3s a alunagem, toma a palavra para festejar: \u00abGl\u00f3ria a Deus nas alturas, e paz na Terra aos homens de boa vontade!\u00bb. E aos astronautas diz: \u00abEstamos pr\u00f3ximos de v\u00f3s\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parecia que um mundo novo se abria \u00e0 humanidade. \u00c9 o tempo em que a Igreja cat\u00f3lica vive uma fase complexa da rece\u00e7\u00e3o do conc\u00edlio. Com efeito, ap\u00f3s o Vaticano II, Paulo VI tinh amostrado uma Igreja n\u00e3o hostil ao seu tempo, mas amiga da modernidade. O pontificado de Montini desenvolve-se num esp\u00edrito de abertura ao tempo moderno e aos novos mundos. As suas palavras, no discurso de entroniza\u00e7\u00e3o de 1963, manifestam uma clara abertura \u00e0 modernidade, ainda que consciente das dificuldades: \u00abA um exame superficial, o homem de hoje pode emergir como cada vez mais estranho \u00e0quilo que \u00e9 de ordem religiosa e espiritual. Consciente dos progressos da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, inebriado por sucessos espetaculares em dom\u00ednios at\u00e9 aqui inexplorados, parece ter divinizado o seu poder e fazer-se passar por Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este era um dos principais desafios \u00e0 Igreja, segundo o papa. O feito astron\u00e1utico, seguido por todo o mundo com apreens\u00e3o e interesse, n\u00e3o encarnava a diviniza\u00e7\u00e3o do poder do ser humano? Mas o progresso da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, para Montini, n\u00e3o era estranho \u00e0 Igreja e \u00e0 sua f\u00e9, n\u00e3o contr\u00e1rios ao mundo do esp\u00edrito. Desde o discurso de entroniza\u00e7\u00e3o, perante o progresso, o papa sublinhava com o plural majest\u00e1tico: \u00abDizemo-lo sem hesitar: tudo isto \u00e9 nosso\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A participa\u00e7\u00e3o na alunagem \u00e9 a exemplifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da atitude positiva da Igreja para com o progresso. O papa e a Igreja \u201csentem\u201d com alegria e com f\u00e9 as conquistas da humanidade. \u00c9 o esp\u00edrito da constitui\u00e7\u00e3o conciliar \u201cGaudium et spes\u201d que afirma: \u00abO progresso da ci\u00eancia, os tesouros escondidos nas v\u00e1rias formas de cultura humana\u2026 tudo isto \u00e9 vantajoso tamb\u00e9m para a Igreja\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Significativamente, o jornal \u201cL\u2019Osservatore Romano\u201d publicou um artigo sobre o acontecimento assinado pelo te\u00f3logo Gino Concetti, intitulado \u201cUma vit\u00f3ria do esp\u00edrito\u201d. A alunagem \u00e9 seguida com grande aten\u00e7\u00e3o, e muitos artigos do jornal vaticano, ent\u00e3o dirigido pelo intelectual e pol\u00edtico antifascistas Raimondo Manzini, casado com a filha de um cientista aeron\u00e1utico italiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O motivo de tantos artigos e coment\u00e1rios do jornal da Santa S\u00e9 exprime-se pelas palavras de Paulo VI, que considera a alunagem um facto espiritual, porque permite \u00abver Deus no mundo, e o mundo em Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final dos \u201cSixties\u201d, a Igreja cat\u00f3lica tinha come\u00e7ado a viver algumas fissuras no otimismo p\u00f3s-conciliar. Paulo VI tinha sido acusado \u2013 no clima contestat\u00e1rio de 68 \u2013 de ter travado de maneira centralista e autorit\u00e1ria a rece\u00e7\u00e3o do conc\u00edlio, que, ao contr\u00e1rio, uma certa base cat\u00f3lica desejava como um movimento molecular de mudan\u00e7a. Em 1968, a rece\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da enc\u00edclica sobre a moral familiar, \u201cHumane vitae\u201d, motivada tamb\u00e9m pela ideia de abrir \u00e0s exig\u00eancias \u201cmodernas\u201d, foi ocasi\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o ao papa por parte de movimentos, imprensa e bispos. Paulo VI, que sa\u00fada a alunagem com simpatia, tinha j\u00e1 entrado num per\u00edodo dif\u00edcil de crise da sua autoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, Montini continua a celebrar a abertura respons\u00e1vel da Igreja ao mundo moderno. Na audi\u00eancia geral de 23 de julho de 1969, dedica todo o discurso a \u00abcelebrar a hist\u00f3rica aventura dos homens na lua\u00bb: \u00abEste nosso aberto sufr\u00e1gio pela progressiva conquista do mundo natural por via dos estudos cient\u00edficos, de desenvolvimentos t\u00e9cnicos e industriais, n\u00e3o se contrap\u00f5e \u00e0 nossa f\u00e9 e com a conce\u00e7\u00e3o da vida e do universo que ela comporta\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duras contesta\u00e7\u00f5es de 68 n\u00e3o impelem a Paulo VI a uma retirada, prudente ou atemorizada. Pelo contr\u00e1rio, persegue com coragem a via da simpatia pelo humano: \u00abParece-nos que um dever de repensamento e de estima dos valores da vida moderno nos seja intimado pelo acontecimento que estamos a celebrar\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isto pode ser considerado express\u00e3o daquele otimismo para com o mundo, t\u00edpico dos anos conciliares e p\u00f3s-conciliares. A pr\u00f3pria \u201cGaudium et spes\u201d foi criticada por um excesso de otimismo. Efetivamente, folheando as p\u00e1ginas dos jornais cat\u00f3licos do tempo, encontram-se fortes sentimentos de simpatia e otimismo. Ingenuidade? Subordina\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito do tempo? Cinquenta anos depois, num mundo t\u00e3o diferente, somos tentados pelo pessimismo, e vimos o lado escuro da ci\u00eancia e do progresso (mas n\u00e3o s\u00f3 isto).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil hoje ler as palavras de Paulo VI como ing\u00e9nuas, se n\u00e3o pior. No entanto, estou convicto de que aquele esp\u00edrito de simpatia e otimismo crist\u00e3o nascia de uma grande esperan\u00e7a: comunicar o Evangelho a muitos e contribuir para um mundo melhor. Sem esta esperan\u00e7a, n\u00e3o se enfrenta a miss\u00e3o da Igreja, mas d\u00e1-se lugar \u00e0 retirada amedrontada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mergulharmo-nos hoje de novo naquele clima p\u00f3s-conciliar n\u00e3o faz mal a n\u00f3s que vivemos num tempo algo pessimista, em que nada de novo parece poss\u00edvel ou surge como muito dif\u00edcil. De resto, Paulo VI n\u00e3o era um papa renunciador. A festa \u201cvaticana\u201d pela alunagem americana decorre na v\u00e9spera de um grande acontecimento do pontificado, a viagem ao Uganda, na qual o papa assenta as bases da nova miss\u00e3o da Igreja na \u00c1frica descolonizada. Montini enfrenta a miss\u00e3o no continente \u201cmais jovem\u201d com uma mensagem ainda hoje decisiva: \u00abAfricanos, sede a partir de agora os mission\u00e1rios de v\u00f3s mesmos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Andrea Riccardi<br \/>\nInvestigador de Hist\u00f3ria da Igreja<br \/>\nIn\u00a0<a href=\"http:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/evento-spirituale\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: D.R.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Not\u00edcia e foto recolhidas do SNPC O desembarque dos dois primeiros homens na Lua, em julho de 1969, foi um acontecimento medi\u00e1tico sem precedentes, que envolveu a opini\u00e3o p\u00fablica mundial. O mundo, como comunica\u00e7\u00e3o, apesar da guerra fria, estava a unificar-se. 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